Pequenas Biografias: PIXINGUINHA_o6

"Então a macumba principiou de deveras se fazendo um sairê pra saudar os santos. E era assim: Na ponta vinha o ogã tocador de atabaque, um negrão filho de Ogum, bexiguento e fadista de profissão, se chamando Olelê Rui Barbosa". (Macunaíma. Mário de Andrade)

Restaurante Assírio

Companhias

Fevereiro de 1925. Novamente em parceria com Duque e Gaby, os Batutas partem para uma série de apresentações pelo estado de São Paulo. Interrompem temporariamente a turnê para, nos dias de Carnaval, animar os bailes do salão superior do High Life, os mais concorridos do Distrito Federal, cheios de "fina gente", como destaca o jornal A Noite. O sucesso, diz a matéria, é "retumbante". As marchinhas Homem de Papelão e Passarinho da Carioca, pontos altos do repertório, chegam a ser repetidas, exclama o repórter, "oito vezes cada uma!".

Iniciada a Quaresma, os Batutas tomam o rumo de Santos. Tinham estreia marcada para 7 de março no Teatro Coliseu Santista. Na companhia, além de Duque e Gaby, estão o cômico De Chocolat, a cançonetista francesa Blance Margy e a "cantora e dançarina índia" Jandira Aymoré, uma jovem paraense que se chamava na verdade Albertina Pereira Nunes e pela qual o coração de Pixinguinha começou a bater mais forte.

A Tribuna de Santos destacou a presença de Jandira, "uma cabocla decidida no dançar caipira e interessante nas suas canções rústicas". Da Baixada Santista, o elenco subiu para a capital, onde aconteceriam várias apresentações no Teatro Cassino Antártica.

Jandira Aymoré

Tudo Preto

Quando, em 31 de julho de 1926, a Companhia Negra de Revistas estreou seu primeiro espetáculo, Tudo Preto, no Teatro Rialto, a concorrência não estava para brincadeiras. No Lyrico, a Ba-Ta-Clan de Madame Rasimi encenava C’est Paris. No Palácio, levavam o drama Senhores do Mundo; no Trianon, O Casto Boêmio; no Cassino, A Feiosa; no República, o Foot-Ball; no São José, Calma no Brasil e, no Recreio, o Pão de Açúcar.

A Companhia Negra de Revistas surgiu por iniciativa do comediante De Chocolat em sociedade com o português Jaime Silva, o mais atuante  cenógrafo do teatro de revista do Rio de Janeiro. Iniciativa inédita no país, à exceção de Silva, a companhia era inteiramente formada por negros, do lanterninha ao diretor, incluindo todos os técnicos e todos os atores e atrizes.

A música foi composta pelo maestro Sebastião Cirino e a orquestra, formada por "20 professores pretos", regida por Pixinguinha.

Além de criar 32 cenários diferentes para o espetáculo, Jaime Silva assinou como avalista o contrato de aluguel do teatro, atitude decisiva num tempo em que boa parte da sociedade brasileira não fazia qualquer esforço para esconder seu racismo.

Tudo Preto permaneceu em cartaz até fins de agosto. Em setembro, a companhia estreava nova revista: Preto no Branco, escrita por Waldemiro di Roma, com música de um jovem maestro paulista, Lírio Panicalli. Jaime Silva cuidou da cenografia, Pixinguinha da regência e Jandira Aymoré recebeu, de acordo com O Globo, "fartos aplausos".

Modernos e modernistas

Prudente de Morais, neto, intelectual respeitado e com grande atuação no movimento modernista ligado à Semana de 22, escreveu na Revista do Brasil: "Os negros da Companhia não fazem arte negra, mas arte brasileira da melhor".

O neto do primeiro presidente civil da República, futuro chefe de redação do Diário Carioca e presidente da Associação Brasileira de Imprensa, levara consigo ao Rialto o recifense Gilberto Freyre, de passagem pelo Rio.

No livro de memórias Tempo Morto e Outros Tempos, que publicou na década de 1970, Freyre dá pistas da convivência que se estabeleceria entre os inventores da moderna música popular brasileira e os modernistas.

Rio, 1926 (...) "Sérgio (Buarque de Holanda) e Prudente (de Morais, neto) conhecem de fato literatura inglesa moderna, além da francesa. Ótimos. Com eles já saí de noite boemiamente. Também com Villa-Lobos e (Luciano) Gallet. Fomos juntos a uma noitada de violão, com alguma cachaça e com os brasileiríssimos Pixinguinha, Patrício (Teixeira), Donga".

Decerto, noitadas como essa não foram poucas e inspirariam a cena de encerramento do capítulo 'Macumba' do hoje clássico Macunaíma, no qual Mário de Andrade criou o "negrão filho de Ogum, bexiguento e fadista de profissão", que depoimentos futuros confirmariam ser uma versão ficcional de Pixinguinha:

"E pra acabar todos fizeram a festa juntos comendo bom presunto e dançando um samba de arromba em que todas essas gentes se alegraram com muitas pândegas liberdosas. Então tudo acabou se fazendo a vida real. E os macumbeiros, Macunaíma, Jaime Ovalle, Dodô, Manu Bandeira, Blaise Cendrars, Ascenso Ferreira, Raul Bopp, Antônio Bento, todos esses macumbeiros saíram na madrugada".

No Roteiro de Macunaíma, considerado o mais completo estudo sobre a obra-prima de Mário de Andrade, M. Cavalcanti Proença atesta que a rapsódia foi escrita "em uma semana de rede e muito cigarro: 16 a 23 de dezembro" de 1926.

Em outubro, Mário, em fase de pesquisas para o livro, aproveitou a estadia da Companhia Negra em São Paulo, para marcar uma entrevista com Pixinguinha. Quem intermediou o encontro foi Antônio Bento de Araújo, conhecido de Lamartine Babo, que era coautor da peça que o grupo ensaiava.

Pixinguinha relatou tudo quanto teria assistido no terreiro da Tia Ciata, passando ao escritor informações que o ajudariam na montagem de uma "macumba desgeografizada", cena-síntese de rituais afro-brasileiros em várias partes do território nacional, incluindo "em seu transcurso elementos de candomblés baianos e das pajelanças paraenses".

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Ouça a playlist macumbeira de Pixinguinha e companheiros, com seis músicas.

Preto no Branco encerrou carreira na segunda quinzena de setembro. Nesse meio tempo, configurava-se uma guinada na vida pessoal de Pixinguinha. Vendo que a relação com Jandira Aymoré ficava cada vez mais séria, abandonou a vida boêmia, reduziu o consumo de álcool e assinou a proposta de sócio do Centro Musical, assegurando assistência médica para ele e para a futura esposa.

Em novembro, a Companhia Negra de Revistas estreava Na Penumbra, escrito por De Chocolat e Lamartine Babo, no Teatro Santa Helena em São Paulo. O grupo permaneceria na cidade por mais dois meses, tempo em que incorporou-se ao elenco Sebastião Prata, um menino de seis anos de idade que, para assombro dos espectadores, cantava em vários idiomas, "com uma verve e espontaneidade extraordinárias", como registrou o crítico Mário Nunes, do Jornal do Brasil. Seu nome artístico: Grande Otelo.

Ainda em São Paulo, Pixinguinha e Jandira procuraram um cartório para oficializar o casamento. O casal continuou com a Companhia, passando por Belo Horizonte e por uma curta temporada no República, de volta ao Rio. Depois disso, Albertina Nunes Pereira abandonou para sempre a carreira no teatro e o pseudônimo de Jandira Aymoré. Viveriam juntos por 45 anos.

Grande Otelinho

Bibliografia:

Pixinguinha, Vida e Obra. © 1978 Sérgio Cabral. FUNARTE, Rio de Janeiro.

Filho de Ogum Bexiguento. © 1979 Marília T. Barboza da Silva & Arthur L. de Oliveira Filho. FUNARTE, Rio de Janeiro.

pixinguinha.com.br / IMS

Vídeo:

Playlist com composições ligadas aos cultos afro-brasileiros, compostas, arranjadas ou interpretadas por Pixinguinha e os parceiros Donga e João da Bahiana.

Imagens nos vídeos: Carybé.

Imagens:

Restaurante Assírio, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Os Batutas na fila de trás, Pixinguinha é o segundo à direita, com o saxofone. Na fila da frente, provavelmente, a Orquestra Andreoni. Acervo Sérgio Cabral / MIS-RJ.

Albertina Nunes Pereira na época em que usava o nome artístico Jandira Aymoré. Acervo Pixinguinha / IMS.

Sebastião Bernardes de Souza Prata, o jovem Grande Otelo. 1915 - 1993. Wikipédia.