Pequenas Biografias: PIXINGUINHA_o9
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| Pessoal da Velha Guarda |
Alta patente
A vida havia voltado aos eixos.
Entre os amigos e admiradores que apoiaram Pixinguinha na época das vacas magras, estava Almirante, 'a mais alta patente do rádio', como era conhecido o compositor, cantor e radialista Henrique Foréis Domingues. Ainda antes da retomada que o dueto com Benedito Lacerda proporcionou, o autor do imprescindível No Tempo de Noel Rosa convidara Pixinguinha para o elenco da Rádio Nacional, líder absoluta de audiência em todo o país.
Quando em 1945 Getúlio Vargas foi deposto e a diretoria da emissora estatal mudou, Almirante transferiu-se para a Tupi e levou consigo os músicos com quem trabalhava. Lá, em poucos meses, estreariam O Pessoal da Velha Guarda. Escrito e apresentado por Almirante e tendo Pixinguinha como diretor musical, três conjuntos se revezavam durante os 30 minutos do programa.
A Orquestra do Pessoal da Velha Guarda, o conjunto de Benedito Lacerda e o Grupo de Chorões (que, além dos números instrumentais, tocava com os cantores convidados) tanto dominavam o repertório nostálgico da virada do século 19 para o 20, como acompanhavam choros ainda inéditos em disco (interpretados por convidados como Jacob do Bandolim). Sob o patrocínio do Sal de Fruta Eno e da Emulsão de Scott, O Pessoal da Velha Guarda irá ao ar semanalmente por cinco anos, até 1952.
O Festival da Velha Guarda
Nasceu numa mesa de bar em São Paulo a ideia de levar ao ar um programa em homenagem aos 57 anos de Pixinguinha.
O trio daquela conversa de botequim — Almirante, Araci de Almeida e o jornalista Flávio Porto, talvez não imaginasse as proporções que o evento acabaria por alcançar.
Bancado pelo doutor Paulo Machado de Carvalho, o mesmo empresário de comunicação que criou os festivais da Record poucos anos depois, apoiado pelo Clube dos Artistas e Amigos da Arte (o Clubinho dos modernistas paulistas) e incluído no programa das comemorações do IV Centenário da Cidade de São Paulo, o I Festival da Velha Guarda durou três dias.
Como uma verdadeira maratona de música, as atividades começaram ao vivo nos estúdios da Rádio Record, às 21:00 do dia 23 de abril, aniversário de Pixinguinha, e prosseguiram com um jantar que varou a madrugada no Clubinho, cuja sede estava instalada no lendário Palacete Santa Helena, na região da Sé. Ficou para o dia seguinte a apresentação da Velha Guarda no Teatro Municipal Arthur Azevedo, na Mooca, transmitida ao vivo pela Rádio Record.
O encerramento aconteceu no dia 25 de abril de 1954, num grande show no Parque do Ibirapuera. Passaram pelo palco, além do homenageado, Almirante, Donga, João da Baiana, Alfredinho do Flautim, Caninha, Patrício Teixeira, Bide da Flauta, Léo Vianna, Jacob Palmieri, Bororó, Benedito Lacerda, Paraguassu, Januário de Oliveira e vários outros músicos, entre eles, o violonista Baden Powell, então com 16 anos. A apresentação, transmitida ao vivo pela TV Record de São Paulo, foi registrada pelo fotógrafo e documentarista Thomaz Farkas em imagens que, guardadas por décadas, foram recentemente recuperadas e inseridas no documentário Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba, disponível no portal eletrônico do Instituto Moreira Salles, instituição que abriga o primoroso site pixinguinha.com.br.
O presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo escreveu a Paulo Machado de Carvalho avaliando que "dentre todas as extraordinárias festividades em que se comemora o IV Centenário, nenhuma teve maior repercussão em São Paulo, nem conseguiu tocar mais profundamente o coração de seu povo" quanto a grande festa "idealizada por Almirante". O poeta Guilherme de Almeida, presidente da comissão do IV Centenário, cumprimentou Almirante por escrito: "Que espetáculo, meu amigo (...). Muito e muito fica São Paulo a dever a você, meu caro Almirante". A Câmara Municipal aprovou um voto de louvor à Organização Record e a Assembleia Legislativa um "ato de congratulações" pelo trabalho realizado por Paulo Machado de Carvalho e Almirante.
Antonio Maria, que estava entre os inúmeros jornalistas cariocas trazidos a São Paulo para a cobertura do Festival, tentou registrar em sua coluna n’O Globo, a mágica soprada por Benedito e Pixinguinha na noitada memorável do Clubinho:
"Ambos beberam e estão no auge do sentimentalismo. Em volta, o silêncio paulista de homens e mulheres que sabem gostar da melhor música do Brasil. (...) Estão improvisando. Deixaram de lado a melodia do choro e estão inventando música. É uma música mais bonita ainda, inspirada na grande lealdade dos homens, quando são bons, quando não sabem trair, nem se temem. Pixinguinha e Benedito estão tocando ao longo de uma madrugada paulista. Seria bom que a noite não acabasse agora e fosse do tamanho da lealdade dos homens dignos. Pixinguinha e Benedito estão bêbados. Deixai-os. Eles merecem. Almirante, homem que conhece os seus corações, os trouxe para isso. Deixai-os".
Iniciava-se ali um período fértil para o Pessoal da Velha Guarda, o que não deixava de causar surpresa num momento em que "o mercado estava inteiramente dominado pelas versões de sucessos musicais estrangeiros, enquanto os compositores brasileiros mais bem-sucedidos eram os autores de boleros e de sambas-canções abolerados, com letras que descreviam as tragédias de amor", como bem frisou Sérgio Cabral.
Almirante e a Velha Guarda ganharam um horário diário durante todo o mês de maio na Rádio Record. Almirante abriu, solene, o primeiro programa: "São Paulo vai ficar durante um mês com este imenso Pixinguinha, o mais brasileiro dos músicos brasileiros".
De volta ao Rio, Lúcio Rangel levou os "músicos que obtiveram tanto sucesso em São Paulo" para duas noites de casa lotada na elegante boate Bèguin, no Hotel Glória, do empresário Eduardo Tapajós.
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Ouça a playlist com seis gravações do Pessoal da Velha Guarda e convidados
1955
Um ano depois, no mesmo mês de abril, estavam todos de volta a São Paulo para o II Festival da Velha Guarda, desta vez, em uma programação de quatro dias — Rádio Record no primeiro, Clubinho no segundo, Teatro Columbus no terceiro e a apoteose no Parque do Ibirapuera passando ao vivo na TV Record. A caravana carioca veio reforçada por convidados de peso, como Radamés Gnattali, Carolina Cardoso de Menezes, Dilermando Reis, as irmãs Linda e Dircinha Batista, Augusto Calheiros, Gilberto Alves e outros grandes cartazes.
Em julho, o Grupo da Velha Guarda rouba a cena em O Samba Nasce no Coração, dirigido por Lúcio Rangel na boate Casablanca, show que conta com a presença de Ismael Silva e Ataulpho Alves e exibe vedetes de destaque como Consuelo Leandro, Carmem Verônica e Anilza Leoni. Um mês antes, gravaram em uma única sessão de estúdio as 10 faixas do LP A Velha Guarda, que a Sinter entregará às lojas antes do final do ano. Almirante comparece cantando e o texto de apresentação é assinado por Lúcio Rangel: "Os músicos foram deixados à vontade, tocando como costumam tocar em seus choros e nas suas festas suburbanas. Temos assim, um verdadeiro registro das músicas tradicionais, interpretadas por músicos legítimos, por ases da Velha Guarda".
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| II Festival da Velha Guarda |
Bibliografia:
Pixinguinha, Vida e Obra. © 1978 Sérgio Cabral. FUNARTE, Rio de Janeiro.
Filho de Ogum Bexiguento. © 1979 Marília T. Barboza da Silva & Arthur L. de Oliveira Filho. FUNARTE, Rio de Janeiro.
pixinguinha.com.br / IMS
Vídeos:
Imagens do I Festival da Velha Guarda, registradas por Thomaz Farkas.
Playlist com seis gravações do Grupo da Velha Guarda e convidados.
Imagens nos vídeos: Grupo da Velha Guarda + Almirante e Pixinguinha no II Festival da Velha Guarda. 1955, ambas.
Imagens:
Grupo da Velha Guarda. Foto de divulgação do show O Samba Nasce no Coração. Da esquerda para a direita: Waldemar de Melo, Bide da Flauta, Rubem Bergman, João da Baiana, Pixinguinha, Donga, Alfredinho Flautim, Mirinho e J. Cascata. Boate Casablanca, Urca, Rio de Janeiro, 1955. Acervo Tinhorão / IMS.
Almirante e Pixinguinha no II Festival da Velha Guarda. Coleção Almirante. São Paulo, 1955. MIS RJ Coleções / Setor Iconográfico.

