Pequenas Biografias: PIXINGUINHA_o7

A Voz do Dono

"Será o fonógrafo inimigo da música? Ameaçará ele os executantes no exercício da sua profissão? Enfim, a música mecânica será a destruição da música humana?", perguntava a revista Phono-Arte, em abril de 1929, para logo em seguida responder: "Não. Os exemplos pululam à nossa roda e podemos provar que em todos os domínios a matéria nunca subjugou o trabalho artístico do homem".

Criada em pleno boom da indústria e do comércio fonográfico, a Phono-Arte refletia o entusiasmo provocado pela revolução que atingiu as gravadoras do mundo inteiro e alcançou o Brasil nos últimos anos da década de 1920, quando o uso do sistema elétrico de gravação sobrepujou o velho processo mecânico.

"Graças à milagrosa fada Eletricidade, o momento prodigioso da música, em vez de se perder, é atualmente conservado, solidificado no disco elétrico, classificado nos arquivos e pode emocionar não mais uma centena de pessoas, como antigamente, e, sim, todos os habitantes do nosso planeta. Vivemos no século do motor", alardeava em editorial, a 'voz do dono' da revista, o crítico Cruz Cordeiro.

A onda era tão forte que justificou a realização da Primeira Exposição Brasileira de Rádio e Fonógrafo, no Beira-Mar Cassino. "Quase todos aparelhos expostos foram vendidos", empolgava-se a Phono-Arte. Entre as novidades expostas, uma eletrola com rádio da Victor Talking Machine, a Radiola, que em certas regiões do Brasil acabaria por se tornar o nome popular para toca-discos. A Columbia também trouxe seus modelos com rádio, enquanto a Parlophon mostrava a linha Sonata, os primeiros fonógrafos elétricos fabricados em série no Brasil.

Correio da Manhã

A chegada das multinacionais norte-americanas que buscavam saídas para a violenta crise decorrente da quebra da Bolsa de Valores de Nova York, daria início em terras brasileiras a uma fase de grande progresso na área da gravação de discos.

Ninguém mais preparado do que Pixinguinha para merecer 'o assento da janela' no bonde da indústria, que passava célere. Fecha contrato com a Odeon, logo em seguida, com a Parlophon e grava mais de 30 músicas no período de apenas um ano. Assina os discos como Pixinguinha e Conjunto, Orquestra Típica Pixinguinha, Orquestra Típica Pixinguinha-Donga e Orquestra Oito Batutas.

A RCA Victor Talking Machine of Brazil, recém inaugurada, promove um concurso para orquestrador e nosso maestro, claro, tira o primeiro lugar. A remuneração mensal prevista é tão acima da média que ele decide comprar um carro. Não sabendo dirigir, contrata também um motorista.

A Victor instala seu escritório na Rua do Ouvidor, o estúdio na Rua do Mercado e a fábrica, com capacidade de prensar quatro mil discos por dia, em São Paulo. A direção artística do selo fica a cargo de um norte-americano que se converterá em lenda da indústria fonográfica no Brasil, Mister Evans, o todo-poderoso da gravadora por mais de 10 anos.

Entre os estudiosos do samba e do choro é unânime considerar que Pixinguinha foi o inventor da orquestração à brasileira. Soa evidente, nas gravações da época, a falta de bossa dos regentes e dos músicos para tocar os estilos nacionais. Pixinguinha 'abrasileirou' a orquestra, abrindo caminho para gerações de arranjadores, de Radamés a Tom Jobim.

Durante toda a chamada Era de Ouro do rádio brasileiro, os arranjos de Pixinguinha vestiram clássicos instantâneos dos mais diversos gêneros. Taí (Pra Você Gostar de Mim), que alçou a novata Carmen Miranda ao estrelato, a marchinha O Teu Cabelo Não Nega, a toada De Papo pro ArChegou a Hora da FogueiraAdeus (de Noel, Ismael Silva e Chico Alves), Boas FestasMoreninha da Praia, sem contar as composições de sua própria autoria, Patrão Prenda seu GadoCarinhosoPágina de DorRosa...

O sempre atento e provocador Orestes Barbosa escreveu em agosto de 1933:

"Pixinguinha é hoje o orquestrador mais perfeito dos discos da cidade. O Chegou a Hora da Fogueira tem um pedaço em que a música sobe e o povo sente mesmo o balão subindo, na sua vertigem pomposa. O balão e os foguetes. Não precisa de libreto para explicar. Sabendo música de pagode, Pixinguinha tem contra si a falta de cabeleira do Villa-Lobos".

Um dos mais famosos professores de harmonia e contraponto do Instituto Nacional de Música, Paulo Silva, declarava:

"Eu não sei até agora como é que o Pixinguinha faz essas instrumentações, porque a regra considera inadmissíveis tecnicamente certos recursos. Não conseguirei jamais colocar essas formas dentro dos compassos como coloca o Pixinguinha. Devem ser transcendentes". Silva, na opinião de Donga, era o instrumentador que mais sabia música "talvez até da América do Sul", tanto que, certa vez, em Paris, "ele entrou em uma loja pra comprar um método, aquele negócio de contrapontos e fuga, e deram-lhe o dele mesmo".

O fato é que, como dizia o também maestro Hervê Cordovil, "todo grande astro da época, tinha que ter orquestração de Pixinguinha".

Além das atividades na Victor, Pixinguinha continuava a dirigir orquestras na Odeon e na Parlophon, passando a trabalhar também com a Brunswick e a Columbia.

Embora sem cumprir rigidamente a divisão, assinava Orquestra Victor para as canções mais lentas, Diabos do Céu para as músicas carnavalescas, Grupo da Guarda Velha para marchas, sambas de Carnaval, choros e músicas de sabor africano.

O Grupo da Guarda Velha era uma espécie de versão renovada do espírito que animara os Oito Batutas dos primórdios. Nos moldes do que hoje costuma ser chamado de coletivo, reunia bons companheiros recentes e antigos. Donga, Nelson Alves, Augusto Calheiros, Armando Marçal, Candinho, Rubem Bergmann, João da Baiana, Augusto Soares, Francelino Godinho, Alcebíades Barcelos, o Bide, entre outros, abafavam no Carnaval e faziam lembrar a farra do Grupo de Caxangá.

Vez por outra, a caretice da indústria também se manifestava. Na Victor, Mister Evans determinou a retirada dos omelês de Tio Faustino, sob a alegação de que o som muito forte estragava as gravações. Pixinguinha, Donga e João da Baiana defenderam a presença do instrumento, mas não convenceram o chefe. Mister Evans só mudou de ideia quando ouviu Tio Faustino comentar com os camaradas: "Se meu omelê não gravar, vou sair daqui, matar um galo e oferecer a Exu. Quero ver quem tem santo mais forte: eu ou esse americano".

Diabos do Céu

Sustentabilidade

Coube a Villa-Lobos entregar a Getúlio Vargas um documento pedindo providências contra o desemprego não só dos músicos como da classe artística de modo geral. Naquele ano de 1932, segundo o compositor, estimava-se em mais de 30 mil o número de trabalhadores das atividades artísticas.

Se Pixinguinha, que já há um bom tempo andava envolvido com a gravação de discos, não teve maiores problemas com a chegada dos filmes falados, a categoria dos músicos perdeu uma importante frente de trabalho a partir do fim das sonorizações ao vivo e dos shows nas salas de espera dos cinemas.

Na contramão da crise, os veteranos do Grupo da Guarda Velha mantinham a agenda cheia. Depois de lotar os salões do Fluminense no Carnaval, passaram vários meses no Assírio, transferindo-se em setembro para a Casa de Caboclo, que o sempre parceiro Duque, agora aposentado como dançarino, abriu, utilizando o foyer do Teatro São José, na Praça Tiradentes. No ano seguinte estreavam no Cassino Copacabana.

O enorme prestígio de que gozava, não impediu Pixinguinha de aceitar uma proposta profissional, à primeira vista, inusitada: Pedro Ernesto, designado pela Revolução de 1930 como interventor do Rio de Janeiro, ofereceu a ele um emprego público. Ao nomear o músico fiscal do Serviço de Limpeza Urbana, o que Pedro Ernesto na verdade pretendia era realocá-lo como regente da Banda Municipal. Pedro Ernesto figura na História como o primeiro gestor a dar apoio financeiro ao carnaval carioca e foi considerado um grande benfeitor das escolas de samba. Afinado com as ações culturais de massa promovidas por Getúlio, tinha intenção de transformar o Rio de Janeiro numa potência turística. A Banda Municipal, por certo fazia parte do mesmo plano. Experimentado arregimentador, Pixinguinha colocou mãos à obra e selecionou, entre mais de 200 servidores municipais, os integrantes do conjunto. A primeira exibição da banda aconteceu na posse do próprio Pedro Ernesto, eleito prefeito pelo Distrito Federal. Muito popular, chegou-se a aventar o prefeito como candidato à presidência, hipótese descartada quando o prenderam acusado de ser comunista.

Fonte de escassa satisfação artística, a Banda, além de formada por amadores, era comandada por oficiais da Guarda Municipal. O cargo exigia o uso de farda, esturricantes botas de cano longo e um respeito à disciplina militar que podia submeter o boa-praça Pixinguinha a severas reprimendas caso esquecesse, por exemplo, de cumprimentar os superiores com as devidas continências. As vantagens de longo prazo que a estabilidade do emprego público propiciava garantiram a paciência e o jogo de cintura necessários para não mandar tudo às favas. Abandonou aos poucos a regência da Banda. Começava ali uma vida na carreira burocrática que passou pela Secretaria Geral de Viação e Obras Públicas e, quase 20 anos depois, pela Secretaria de Educação e Cultura, onde foi oficial administrativo, professor de música e canto até, finalmente, assumir como professor de artes, cargo no qual se aposentaria em 1966.

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Ouça a playlist com sete grandes sucessos arranjados por Pixinguinha na Victor.

Bibliografia:

Pixinguinha, Vida e Obra. © 1978 Sérgio Cabral. FUNARTE, Rio de Janeiro.

Filho de Ogum Bexiguento. © 1979 Marília T. Barboza da Silva & Arthur L. de Oliveira Filho. FUNARTE, Rio de Janeiro.

pixinguinha.com.br / IMS

Vídeo:

Playlist com arranjos para grandes sucessos do rádio escritos por Pixinguinha a partir de 1930. Todos lançados pela RCA Victor.

Imagens nos vídeos: fotos promocionais dos artistas e caricatura de Gastão Formenti assinada por Romano.

Imagens:

Etiqueta His Master's Voice, Victrola da Victor Talking Machine. Wikipédia.

Correio da Manhã, seção Música em Discos, 1929. hemerotecadigital.bn.br

Orquestra Diabos do Céu, 1934. Em pé: Adolpho Teixeira Bastos, Tio Faustino, Pereira dos Santos, Benedito, João da Baiana, Nelson Roriz e Francisco Sena. Sentados: Wanderley, João Martins, Pixinguinha, Hernane e Monteiro. Acervo Jacob do Bandolim / MIS-RJ.