Pequenas Biografias: LUIZ GONZAGA_o5

"Eu queria cantar o Nordeste. Eu tinha a música, tinha o tema. O que eu não sabia era continuar. Eu precisava de um poeta para escrever aquilo que eu tinha na cabeça, de um homem culto pra me ensinar as coisas que eu não sabia".
Ao procurar Humberto Teixeira, Luiz Gonzaga esperava encontrar tudo isso que lhe faltava.
Cearense de Iguatu, nascido em 1915, Humberto Teixeira vivia no Rio de Janeiro desde 1930. Além de advogado, tinha muitas músicas gravadas, cuja maioria, no entanto — valsas, cantigas, sambas, modinhas, toadas —, nada tinha de especificamente nordestino. Tudo indica, porém, que o caboclo risonho que numa tarde de agosto de 1945 chegou ao seu escritório para discutir música, parceria e Nordeste, o seduziu.
"No primeiro encontro com Humberto, em dez minutos, já havíamos escrito a letra de No Meu Pé de Serra. E tanto eu quanto Humberto ficamos emocionados quando terminamos a peça. Sentimos que tinha começado um caminho. E eu senti que estava nas mãos do autor que eu sempre sonhara".
Depois daquela tarde, Luiz Gonzaga continuaria fazendo outras parcerias, outros sucessos, gravando e lançando novos discos com um repertório extremamente eclético. Mas foi a segunda composição com Humberto Teixeira que permitiu sua entrada triunfal na história da música popular brasileira.
Segundo uma estratégia que seria retomada anos mais tarde pela turma da bossa nova, com Desafinado, Baião era o verdadeiro manifesto de uma nova música.
Finda a sua fase áurea, o samba estava decaindo, se transformando em samba-canção, última etapa de uma mutação que ia desembocar na bossa nova. Ao lado das inesquecíveis 'cantoras do rádio' que promoviam toda sorte de dor-de-cotovelo musicada, surgia um interesse pela música de sabor folclórico. Pedro Raymundo e suas rancheiras gaúchas, Raul Torres e suas modas paulistas, Manezinho Araújo e suas emboladas pernambucanas, Dorival Caymmi e suas canções praieiras da Bahia, mais as duplas como Alvarenga e Ranchinho, Jararaca e Ratinho, já haviam habituado o público à linguagem musical regional. O ambiente, portanto, era propício: o espaço estava pronto para que surgisse uma estrela no enluarado céu sertanejo.
Receando talvez algum revés, Gonzaga deu Baião ao conjunto Quatro Ases e Um Coringa, da Odeon, apenas acompanhando os cantores com a sanfona. O sucesso da música por todo o país foi tal que o autor teve que esperar três anos antes de poder gravar sua própria versão de Baião.
O que não impedia que, já então, ele mesmo estivesse cada vez mais em evidência, principalmente pelo rádio.
REGRESSO
No Araripe, quando corria a notícia que Gonzaga ia se apresentar em tal programa, o pessoal se reunia em torno dos dois únicos receptores do lugar para escutá-lo. Quem fosse para o Crato ou para Juazeiro do Norte também podia ver nas lojas os discos de Luiz Gonzaga e, nas feiras, os folhetos com as letras das músicas que acabavam de ser lançadas.
Frequentemente, em suas cartas, prometia vir em breve, mas o tempo passava, e ele não cumpria a promessa. Santana resolveu que, já que o filho não vinha visitá-la, então, ela iria ao Rio.
Há 16 anos e meio que não o via. Lembrava de um adolescente, e lá estava na frente dela um homem feito. Santana ficou alguns meses na capital e, em outubro do mesmo ano, Gonzaga tirou uns dias de férias da Nacional e rumou para seu Sertão natal.
Santana havia telegrafado antes de sair do Rio, anunciando sua chegada com o filho para dentro de 15 dias.
O inevitável ciúme que iria, a partir daí, marcar as relações da família com a vizinhança não impediu que a presença de Gonzaga fosse amplamente celebrada. Foram dias ininterruptos de festança. O astro tocou sanfona de 120 baixos até saturar. Veio gente de Pernambuco, do Ceará, para ver o novo herói da região.
Numa auto gozação cheia de ternura para com o pai, Gonzaga contaria, mais tarde, sua volta ao Araripe em Respeita Januário. Mas, se para alguns ele parecia "muito modificado", para os conhecidos dos tempos de infância, ele continuava o mesmo:
"Ele não tinha esquecido nada daqui. Continuava usando o vocabulário daqui, valorizando as coisas daqui, que antigamente ninguém dava valor. Porque quem saía daqui para adquirir condição melhor tinha até vergonha de dizer que era nordestino. Gonzaga não, ele fala das coisas daqui, da rede onde se dorme, da comida que se come, e com o linguajar daqui". (Marfisa, neta do coronel Manoel Aires)
Nessa viagem, Luiz Gonzaga deu seu primeiro show de artista consagrado na sua terra.
"O primeiro show que eu dei na minha terra, foi para o hospital".
A sociedade toda estava lutando para recuperar o hospital São Francisco, no Crato, que estava em ruínas.
"Veio então uma comissão me convidar oficialmente".
O Jornal do Crato não poupou elogios, apontando "com satisfação a estadia nessa cidade do popular compositor e sanfonista da Rádio Nacional, Luiz Gonzaga".
Entre show beneficente, forró, comilanças, visitas, muitos risos e abraços, chegou a hora de ir embora, via Recife.
Durante sua estadia na Veneza Brasileira encontrou com o pessoal da área musical, conheceu Sivuca, Nelson Ferreira, Capiba, e foi convidado a toda sorte de festas. Foi numa delas, na praia do Pina, que encontrou Zé Dantas.
Oriundo de Carnaúba, interior de Pernambuco, onde nascera em 1921, José de Souza Dantas Filho estudava Medicina, para atender ao desejo de seu pai, severo fazendeiro.
Apaixonado pelo Nordeste, estudava na cidade, mas aproveitava as férias para voltar à fazenda paterna, que ficava às portas do Sertão. Zé gostava de escutar o linguajar do interior, as músicas, e ia aprendendo os ditados, as cantorias, a sabedoria da gente de lá.
Descobrira com prazer, através do rádio e dos discos, o cantor-sanfoneiro que estava fazendo sucesso no Sul com a música nordestina:
— Olha, eu tenho umas musiquinhas pra mostrar pra você.
"Aí ele me mostrou Vem, Morena. E eu gostei demais. Eu falei que ia gravar essa música".
Começava o ano de 1947 e, na agenda de Gonzaga, estavam marcadas várias gravações. Mal regressou ao Rio, já gravou A Moda da Mula Preta, de Raul Torres, que só seria lançada em abril de 1948, fazendo notável sucesso, e Firim Firim Firim, uma polca de sua autoria.
Em março, estava de volta ao estúdio para novo 78 rpm, com uma marchinha, Vou pra Roça, que figuraria na face A do disco, enquanto na face B haveria sua terceira parceria com Humberto Teixeira, uma toada intitulada Asa Branca, com a qual ele não estava muito empolgado.
"Quando apresentei a música a Humberto falei para ele: 'Agora estou com vontade de fazer Asa Branca. Mas não boto muita fé, porque é muito lenta, cantiga de eito, de apanha de algodão.
Humberto me convenceu a fazê-la. Quando eu a gravei, houve até uma brincadeira de mau gosto. Canhoto, violonista do conjunto de Benedito Lacerda, que me acompanhava, me conhecia desde a época do Mangue. Então ele pegou um chapéu e foi passar entre os colegas, para eles botarem dinheiro. Me imitando. Humberto, que estava na gravação, falou pra ele:
— Por que é que você está fazendo isso?
— É porque isso é cantiga de cego!
Humberto então falou:
— Tome nota, isso aí vai ser um clássico.
E Humberto acertou!".
Como boa parte das melodias que Gonzaga trouxera para suas parcerias, Asa Branca integrava o repertório tradicional do Sertão. Ele sempre ouvira seu pai tocar essa música no fole, inclusive às vezes até cantarolar:
"O povo escutava e ia improvisando, completando a letra a partir do mote dado por Januário... Na vez seguinte, ninguém se lembrava exatamente da letra, então fazia outra, em cima do que recordava da antiga. E assim por diante. A música crescia, evoluía, sem eira nem beira e sem dono. Naquelas bandas, não havia história de autoria, música era propriedade coletiva. (...)
Aproveitei muito do folclore nordestino. Mas aí não se deve tropeçar, tem que ter cuidado de dar uma nova vestimenta, aproveitando só aquilo que a gente sente que foi feito com a imagem do povo. É muito comum o pessoal falar: 'Ah, mas esse sucesso de fulano eu conheço desde menino'. Isso existia mesmo, mas, e o resto? A nova letra? Ao mesmo tempo, é necessário que se faça um trabalho sério em cima disto. A pessoa não deve matar o tema, deve melhorá-lo. Asa Branca era folclore. Eu toquei isso quando era menino com meu pai. Mas aí chega Humberto Teixeira e coloca: 'Quando olhei a terra ardendo / Qual fogueira de São João'... e se conclui um trabalho sobre Asa Branca. Agora, depois disso eu vou botar 'tema popular'? Ou 'recolhido', 'pesquisado' por Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga? Aí tudo quanto é vagabundo vai ser dono também? Não cantando nossa letra, mas cantando com uma letra fajuta, pra pegar sucesso? E faz mal pra música. Aí nós pegamos o tema, Humberto e eu".
O baião nordestino estava vivendo os mesmos problemas de propriedade com os quais se confrontara o samba em 1916, como se fosse inevitável, para um gênero existir, que ele passasse por essa etapa de apropriação do coletivo pelo indivíduo.
O lançamento do disco foi em maio. Vou pra Roça, no lado A, passou totalmente desapercebido, e Asa Branca estourou, transformando Luiz Gonzaga num nos maiores astros da música brasileira.
HELENA
"Eu não sabia quem era Luiz Gonzaga. Por coincidência, o laboratório onde eu trabalhava era patrocinador de uma novela da Nacional e assim, um dia, ofereceram dois ingressos para o programa de César de Alencar a meu chefe, que me deu".
Helena das Neves Cavalcanti aceitou o presente do chefe e compartilhou-o com dona Marieta, sua mãe, que passava o dia escutando rádio, e, ao contrário dela, conhecia tudo. No sábado à tarde, lá estavam as duas na Praça Mauá, no célebre auditório do vigésimo-primeiro andar da Nacional, quando César de Alencar anunciou: "E agora, com vocês, montado na sua mula preta, Luiz Lua Gonzaga!".
Helena ficou maravilhada, conquistada pela voz quente, pela sanfona habilidosa, pelo carisma e o humor de Gonzaga.
O artista terminou sua apresentação e saiu do palco. Helena, que procurava o bebedouro, topou com ele que ia acompanhar Bob Nelson até o palco. Audaciosa, apesar de desajeitada, perguntou:
— O senhor é que é Luiz Gonzaga?
[A conversa engrenou], Helena contou que era contadora e, no final da conversa, Gonzaga a contratou para ser sua secretária.
Além do contrato de 400 mil réis para fazer a correspondência do astro da Rádio Nacional, Helena ganhou nesse dia um ingresso para assistir às Piadas do Manduca, no qual Gonzaga iria tocar.
No dia marcado, lá estava ela — acompanhada da inevitável mãe — assistindo ao programa de Renato Murce.
No final do programa, Helena foi encontrar com Gonzaga, apresentou-lhe dona Marieta e aceitou a carona que o cantor lhe propôs.
"Eu estava era querendo saber o endereço delas. Fomos levando assim o namoro. A mãe dela era muito habilidosa. E já foi falando em casamento".
No final de 1947, exatamente, Gonzaga ia fazer uma temporada na Rádio Clube de Pernambuco. Desembarcou no dia 15 de dezembro de 1947 no aeroporto de Guararapes de Recife, acompanhado por Helena... e a mãe dela, claro. Lá, mandou chamar Santana, que veio com Socorro e Chiquinha, para que conhecesse a namorada.
"Minha mãe conheceu a moça e ficou apaixonada por ela".
Casaram, pois, no dia 16 de junho de 1948, o noivo a completar 36 anos, a noiva com 22. O casal e a sogra foram morar numa casa — rua Vereador Jansen Muller, n° 425 — no Cachambi.
ASCENÇÃO
Em junho de 1949, Gonzaga gravou Mangaratiba, um baião que já cantara na comédia musical Estou Aí, da Cinédia e que se referia à cidadezinha fora do Rio onde Humberto tinha uma casa. Na face A do disco havia Lorota Boa, um arrasta-pé cheio de gracejo que ele havia interpretado em E o Mundo Se Diverte, chanchada musical da Atlântida.
No mesmo dia, ainda, gravou duas músicas: Baião (três anos depois de Quatro Ases e um Coringa) e Juazeiro, um baião cheio de nostalgia. Como Asa Branca, Juazeiro era tema tradicional do repertório nordestino. Em casa, Januário gostava de tocar essa música no fole, cantando para si próprio:
Menino, Gonzaga escutava o canto do pai, ia aprendendo. E agora, com Humberto, estava dando nova vestimenta ao tema. Trocando 'caatingueira' por 'juazeiro', porque a palavra era mais bonita, e o povo ia entender melhor... e acelerando o ritmo da música.
Com No Meu Pé de Serra, Asa Branca, Juazeiro, 17 Légua e Meia, Gonzaga estava chegando exatamente aonde queria: no Nordeste, nas suas raízes. Deixara definitivamente para trás calangos, valsas, modas, marchas, sambas e rancheiras.
Nesse reencontro com suas origens, Gonzaga queria assumir, mais forte ainda, a imagem do nordestino. Inclusive, desde 1947, costumava usar um chapéu de couro à moda dos cangaceiros quando fazia fotos. Havia na época um outro acordeonista famoso, Pedro Raymundo, que era para o Rio Grande do Sul o que Luiz Gonzaga estava se tornando para o Nordeste. Gonzaga o admirava muito e vira nele um modelo:
"Ele já tinha me influenciado porque sendo gaúcho ele fazia tudo de lá, então eu tinha que fazer tudo ao contrário dele. Mais uma vez ele me serviu, porque usava bombacha, botas, chapéu gaúcho, guaiaca e chicote. Então, eu achei que Pedro Raymundo era minha base, comecei a pensar que tipo eu podia fazer, porque o carioca tinha sua camisa listada, o baiano tinha o chapéu de palha, o sulista era aquela roupa do Pedro. Mas, e o nordestino? Eu tinha a oportunidade de criar sua característica e a única coisa que me vinha à cabeça era Lampião... Telegrafei para minha mãe, pedindo que me enviasse um chapéu de couro bonito, lembrando Lampião.
No Sertão pernambucano, Santana, apesar de detestar Lampião, atendeu resignada ao pedido do filho. Foi até a fazenda do Baixio, onde morava José Clara, habilidoso chapeleiro, conhecido de todos os vaqueiros da região, e encomendou um chapéu para o filho artista.
"Quando o chapéu chegou, eu botei ele na cabeça... me senti um lorde. Ah! Ah!".
No entanto, na rádio, ele não se atrevia a vestir o chapéu, receando talvez a reação de seu diretor.
Até o dia que achou que tinha suficiente bossa para impor sua ideia.
Mas achou errado...
*
Transcrito (com adaptações) de:
Vida do Viajante: a saga de Luiz Gonzaga. © 2012, Dominique Dreyfus. Editora 34.
Imagens:
Luiz Gonzaga. s.d. https://luizluagonzaga.com.br/
Floresta Nacional do Araripe-Apodi. Divisa de Ceará e Pernambuco. © Augusto Pessoa. Wikipédia.
Pedro Raymundo. Capa do LP O Canto e o Acordeon de Pedro Raymundo. 1956.

