Pequenas Biografias: LUIZ GONZAGA_o7

ANTOLOGIA

Tímido e pouco chegado ao ambiente agitado do show business, Zé Dantas era, segundo testemunho de Fernando Lobo, "um amor de pessoa, que ficava todo corado quando a gente falava que uma música dele era maravilhosa".

Afastado do Nordeste desde menino, Humberto Teixeira mentalizava o mundo sertanejo, mas não possuía o conhecimento de Zé Dantas, que o vivera por dentro.

Com Humberto, Gonzaga realizara o seu projeto de lançar a música do Nordeste no Sul. Com Zé Dantas, ele iria mais longe.

Juntos, os dois pernambucanos escreveriam uma verdadeira 'antologia do Nordeste'.

ORQUESTRAÇÃO

Faltava um conjunto tipicamente nordestino. Até então, nas turnês, Gonzaga se apresentava sozinho com a sanfona. Nas gravações e nas apresentações em rádio se fazia acompanhar por conjuntos regionais, que imprimiam ao baião um jeitinho de choro estilizado.

"Foi quando me lembrei das bandas de pife que tocavam nas igrejas, na novena lá do Araripe (...). Primeiro eu botei zabumba me acompanhando. Mais tarde, numa feira no Recife, eu vi um menino que vendia biscoitinho, e o pregão dele era tocando triângulo. Eu gostei, achei que daria um contraste bom com o zabumba, que era grave. Depois eu verifiquei que esse conjunto era de origem portuguesa, porque a chula de Portugal tem essas coisas, o ferrinho (o triângulo), o bombo (o zabumba) e a rabeca (a sanfona)... é folclore que chegou de lá para o Brasil e deu certo. Agora, o que eu criei foi a divisão do triângulo, como ele é tocado no baião. Isso aí não era conhecido".

Nos palcos Luiz Gonzaga se apresentava agora com sua banda: Zequinha, no triângulo, à sua esquerda, e João André Gomes, vulgo  Catamilho, no zabumba, à sua direita.

O sucesso foi imediato.

EM CASA

Infelizmente, em casa, as coisas não iam tão bem. Helena e Gonzaga já estavam com dois anos de casados, e nada de criança à vista.

"E eu era estéril e não sabia. Já casado, Helena começou a engordar, ficou alegre, e quando foi fazer exame para conferir que estava grávida, ela não estava! Aí foi paixão, sofrendo mesmo".

Aconselhada por dona Marieta, Helena amenizou a dor de não poder ter filhos com o marido adotando uma menina que recebeu o nome de Rosa Maria, mais conhecida como Rosinha, que Helena sempre tentou apresentar como sendo filha biológica do casal. 

Já que a família crescera, e a conta bancária mais ainda, compraram um casarão bonito, Gonzaga dizia um 'palacete', com colunas na fachada da frente, piso de madeira, terraço grande, onde o casal deu memoráveis jantares, festas e bailes, muitos deles noticiados pela imprensa. 

"Nós recebíamos muito. Tínhamos amizades misturadas, gente da alta e os outros. Os aniversários de Gonzaga eram festas que mobilizavam todos os táxis do Méier e eram notícia no jornal". (Helena Gonzaga)

Festas grandiosas, das quais participavam todo o show biz de então: César de Alencar, Emilinha Borba, Manuel Barcelos, Marlene, Araci Costa, Nelson Gonçalves, Blecaute, Ataulfo Alves, Ivon Curi... todos amigos de Gonzaga.

Ao lado da casa principal, havia uma casinha anexa, na qual vieram morar Januário, Santana e os cinco filhos que ainda tinham consigo. 

Mas os pais de Gonzaga estavam no Sul forçados pelas circunstâncias. O coração ficara no Araripe. 

"Meu pai estranhou o Rio. Lá em casa, o piso era de madeira, e ele não aguentava o cheiro de cera, do fogão a gás"...

SÃO PAULO

As secas no Nordeste levavam, a cada ano, para a capital paulista levas e mais levas de nordestinos. Forneciam à indústria brasileira mão-de-obra abundante e barata e ao Rei do Baião, um público maciço. 

"Quando Gonzaga tinha show na Rádio Cultura, a polícia tinha que fechar o trânsito na avenida São João e ele cantava na marquise do prédio da rádio. Mesmo assim, o quarteirão ficava entupido de gente. Era uma verdadeira loucura". (Helena Gonzaga)

Luiz Gonzaga, primeiro produto industrial da cultura nordestina num nível nacional, tinha se tornado um fenômeno de massa. Bonito, elegante, sedutor, era festejado por fileiras de fãs histéricas. Ele adorava. Helena detestava. O ciúme começava a roer-lhe o coração. A imprensa não poupava o cantor que tinha que aturar as vicissitudes do sucesso, vitimado por inevitáveis boatos maldosos.

"Uma vez correu um boato que Gonzaga tinha me matado porque tinha me encontrado atrás do piano, agarrada com Chateaubriand! Eu nunca conheci o Assis Chateaubriand! Depois disseram que ele não tinha me matado, só havia cortado minha orelha. Quando eu mostrei a orelha, disseram que a orelha era de plástico"... (Helena Gonzaga)

Helena, com o apelido carinhoso de 'Madame Baião', que lhe dera Vitório Lattari da RCA, administrava integralmente a vida e a carreira de Gonzaga, no papel de esposa, protetora, conselheira, dona de casa, secretária, contadora, procuradora junto à gravadora, aos bancos e à sociedade arrecadadora dos direitos autorais.

Gonzaga, que tinha uma imagem pública de homem sumamente educado, elegante, distinto — o que ele era realmente —, na vida privada era uma pessoa mais difícil. Muito impulsivo, podia ser imensamente generoso ou terrivelmente violento e injusto quando ficava com raiva.

DIREITOS

Segundo o testemunho daqueles que conviviam com Luiz Gonzaga nesse período, Humberto Teixeira passou a considerar que sua participação nas parcerias era muito mais importante do que a de Gonzaga e que, portanto, ele deveria ganhar mais; Helena se metia na história e acabava complicando tudo; a família de Gonzaga achava que músicas como Asa BrancaJuazeiroPé de Serra eram de Januário, e ele é quem deveria receber os direitos autorais; o sucesso enorme também mexera com a cabeça de todos.

Zé Dantas, por sua vez, passou a trabalhar exclusivamente com Luiz Gonzaga, em condições que, aliás, criaram tensões fortes entre os dois, de acordo com o que contava Iolanda Dantas, a esposa de Zé:

"Zé fazia as músicas de ouvido, no piano. Como eu conheço música, eu marcava as notas e fazia a partitura. Depois, Zé botava elas no gravador, um gravadorzão pesado, que ele sempre levava consigo nas viagens, e, quando Luiz Gonzaga passava pelo Rio, o Zé então mostrava as músicas para ele. Em algumas músicas, Gonzaga teve participação efetiva, porque dava o tema e indicava o ritmo com a sanfona, como ele fez por exemplo para Algodão. Mas muitas músicas eram só de Zé, e ele dava a parceria a Luiz Gonzaga por questão de amizade".

Ou porque era obrigado, como dão a entender numerosos testemunhos.

Entendamos que a música chegava às mãos de Gonzaga com letra e melodia. Mas chegava nua, tímida, calada! Era ele, então, quem iria vesti-la, enfeitá-la, dar-lhe brilho, sensualidade, personalidade. E, quando estava prontinha, ele então ficava namorando a música, brincando com a melodia, jogando com a letra, fazendo-a crescer, amadurecer... Gonzaga dava vida às músicas. E isso, nenhum dos outros cantores que interpretaram criações de Humberto Teixeira, Zé Dantas e outros parceiros do sanfoneiro, fossem eles Carmélia Alves, Ivon Curi, Claudete Soares, Emilinha Borba, jamais soube fazê-lo como Gonzaga. Realmente, o canto de Gonzaga valia a parceria.

"Quem era o compositor, que não podia cantar suas próprias músicas, para negar o pedido do cantor? O mesmo acontecia com Francisco Alves. Ele era o rei! Mas Luiz Gonzaga era um excelente arranjador, criava harmonizações na sanfona, fazia improvisos maravilhosos. Ele era um grande harmonizador". (Klécius Caldas)

Gonzaga, que 'era malandro mas sabia pedir desculpas', gravou algumas músicas das quais Zé Dantas se recusara a dar parceria. Foi o caso de Acauã. No entanto, parece que o embalo da dupla esfriou. Das dezesseis músicas que Gonzaga lançou em 52, só duas eram 'parcerias' dos dois (Imbalança  e São João na Roça). Em duas outras, aparecia um novo parceiro de Gonzaga: Hervê Cordovil.

"Um grande cidadão. Quando houve aquela briguinha, eu fiquei isolado de Humberto e Zé Dantas. A primeira figura que eu procurei pra trabalhar comigo foi o Hervê. Ele morava em São Paulo, era maestro da Record".

Hervê Cordovil lhe fora apresentado por Carmélia Alves.

RAINHA DO BAIÃO

Gonzaga e Carmélia se conheciam da Rádio Nacional. Além de fazer parte do elenco da rádio, ela tinha um programa diário de grande audiência, Ritmos da Panair. Uma hora e meia ao vivo, que ela apresentava na boate do Copacabana Palace. Entre as músicas que recebia do pessoal da Nacional para divulgar, muitas eram do sanfoneiro e amigo. Aliás, em 1949, tinha gravado em duo com Ivon Curi, Gauchita da dupla Gonzaga & Teixeira. Mas, em princípio, o repertório dela era mais urbano e romântico: boleros, samba-canção... aquelas coisas de crooner. Até o encontro com Hervê Cordovil.

"Em 50, eu conheci um compositor mineiro, o Hervê Cordovil, que ia muito ao Copacabana e se tornou muito amigo meu.

Eu até o apresentei ao Luiz. Hervê chegou um dia e me disse que tinha feito uma música pra mim. Era o Sabiá na Gaiola, que se tornou o carro-chefe de meu repertório. Essa música não tem nada a ver com o Nordeste, mas é de cunho sertanejo. Com isso, eu entrei no esquema de sucessos sertanejos". (Carmélia Alves)

O trabalho de Luiz Gonzaga e parceiros estava dando frutos, e começavam a surgir novos compositores nordestinos: Luiz Bandeira, Jackson do Pandeiro, Sivuca... Durante uma turnê em Pernambuco, Carmélia Alves contratou este último para acompanhá-la.

"No final do show em Recife, eu e Sivuca começamos a brincar no palco, a improvisar, e o público começou a pedir as músicas de sucesso do momento, as que eu cantava, como o SabiáTrepa no Coqueiro e outras também. Ora, quem fazia sucesso na época era Luiz Gonzaga. Então, com Sivuca, começamos a improvisar um pot-pourri das músicas de Luiz. E foi uma loucura. Assim entrei no esquema da música propriamente nordestina". (Carmélia Alves)

Quando Carmélia Alves voltou para o Rio, trazendo Sivuca consigo, foi convidada de No Mundo do Baião:

"Depois que voltei do Recife, Luiz me levou para o programa que ele tinha com Humberto e Zé, e lá me apresentou como a Rainha do Baião. No dia seguinte, a imprensa já estampou: 'Carmélia Alves foi eleita Rainha do Baião'. Luiz Gonzaga resolveu, então, concretizar o título, e me convidou novamente para o programa, onde me coroou oficialmente, colocando na minha cabeça um chapéu de couro, 'que', como ele disse então, 'é símbolo do Nordeste'. Claro que eu não ia usar essa indumentária, porque trabalhando na boate do Copacabana, eu cantava baião de soirée. O meu baião era com orquestra. Luiz, ele, sempre nas origens, me dizia: 'Você vai com a elite, no society, e eu vou com o povão, pé no chão'". (Carmélia Alves)

*

"Gonzaga trouxe uma novidade à música brasileira. Trouxe o sentimento melódico das extensões sertanejas, das léguas tiranas, das asas brancas, do gemer dos aboios. As tristezas dos violeiros se passaram para sua sanfona (...). Pode-se dizer que Gonzaga renovou com as suas interpretações, com a sua forte personalidade de cantor, um meio que andava convencional, sem originalidade, banalizado por meia dúzia de bocós que vive a roer as heranças do genial Noel Rosa. O que nos prende ao cantar de Gonzaga, é o que nos arrebata em Noel, é a simplicidade da melodia, é a doce música que ele introduz nas palavras, a magia dos instrumentos, a candura de alma tranquila que se derrama nas canções". (José Lins do Rêgo, na crônica Homens, Coisas e Letras)

DINASTIA

Na verdade, Luiz Gonzaga detestava tocar em clubes e boates, se sentia mal nesse ambiente classe A, por isso encontrou em Carmélia o seu prolongamento junto a um público que não frequentava os auditórios da rádio, demasiadamente populares, nem os dancings.

O baião se beneficiava, assim, de um contrato implícito de divisão do espaço entre Gonzaga e Carmélia Alves, atingindo todos os públicos.

Carmélia, com Sivuca no acordeon, lançou em setembro de 51 um 78 rotações inteiramente consagrado a um vasto pot-pourri das músicas de Luiz Gonzaga, intitulado... No Mundo do Baião. O disco beneficiou todo um elenco de intérpretes, autores, radialistas, e a gravadora.

Na mesma jogada, o conceito de 'realeza', que começara quase que como uma brincadeira — foi se desdobrando. Surgiu o príncipe do baião, na pessoa de Luiz Vieira; a princesinha do baião seria, mais tarde, encarnada por Claudete Soares e o barão do baião, por Jair Alves. Gonzaga reclamava: "Que é isso, agora tem dinastia do baião?". O que o irritava não era tanto a dinastia, mas o fato de os coroamentos não ficarem sob seu controle.

O certo é que havia muito para se ganhar com o baião. Depois do interesse dos cantores, dos autores e dos compositores, estava surgindo o dos patrocinadores. Foi assim que, no final de 1951, os Laboratórios Moura Brasil o contrataram para uma turnê por todo o país, com duração de um ano.

Acompanhado por Catamilho e Zequinha, Luiz Gonzaga fez então Curitiba, Porto Alegre... seguindo depois para Belém e Salvador, até uma excursão pelas capitais e cidades do Sul: São Paulo, Florianópolis... Tudo isso de caminhonete!

CONQUISTA

Apesar da fama que tinha no centro-sul e no sul do país, Gonzaga ainda não conquistara plenamente sua própria terra. Dessa vez, estreando na Rádio Tamandaré, no Recife, "alcançou um índice recorde de bilheteria".

A fama de Luiz Gonzaga correu mais rápido que boato através do território nordestino. Nas cidades do interior, as rádios locais, as casas de discos e os serviços de alto-falante, o dia inteiro, difundiam sua música, à medida que iam sendo lançados os 78 rotações. As empregadas, as donas de casa, os meninos na escola, os camelôs na rua, os operários, os artesãos, os comerciantes, os advogados, os médicos, as professoras, os mendigos, toda a população vivia nesse banho de música. E nos sábados, dia de feira, a passagem pela banca dos folhetos era obrigatória. As aventuras rimadas em oito, dezesseis e até vinte e quatro páginas dos cordéis, ilustração de xilogravura na capa, dividiam nas bancas o espaço com os folhetos trazendo as letras dos lançamentos do mês, foto dos artistas na capa. À noite, depois do jantar, depois do serviço, depois dos deveres, reunidos no terraço, ao ritmo do balanço de rede, todos iam aprendendo as canções do ídolo.

Quando terminou a excursão, além do cachê, Gonzaga recebeu da Moura Brasil um jipe. Os laboratórios tinham prometido um carro Cadillac para Gonzaga e um jipe para Januário  era seu maior sonho!  que também participou da turnê no norte do país. O Cadillac todavia não saiu, o que muito desagradou o cantor, que já sentia que a Moura Brasil estava se aproveitando muito dele:

"Esse colírio me arrasou! Eram duas e às vezes até três cidades por dia! Claro, eu pude conhecer o Brasil todinho, do Rio Grande do Sul até Manaus com essa excursão. Mas tinham prometido me dar um bocado de coisas e no final das contas não recebi nada".

Seja como for, Gonzaga conseguiu realizar um desejo graças a essa turnê: convencer o pai a voltar a viver no Rio. Para isso, usou um argumento infalível. Ofereceu-lhe um sítio em Santa Cruz da Serra.

Gonzaga tinha comprado outro terreno, próximo daquele que adquirira em 45. Mandou então fazer uma casa, plantar roça, um pomar, botou um gadozinho, uns cavalos, umas galinhas. Com o decorrer do tempo, a cidade crescera, a prefeitura tinha aberto uma rua, havia agora uns armazéns. Nessas condições, Januário concordou em voltar para o Sul. A família foi morar em Santa Cruz. Helena, entre outras missões, tinha a de 'casar as cunhadas'. Casou-as portanto. Muniz foi a primeira, em 52:

"Foi Gonzaga e Helena que arrumaram casamento pra mim, pra Chiquinha e pra Geni. Helena é quem ajeitava tudo: fazia cada bolo bonito, trabalhava a noite toda, fumando, tomando remédio, contando histórias e fazendo o bolo de nosso casamento. Helena tinha as qualidades dela. Ela só não arrumou marido pra Socorro, que era pra o irmão José Januário arrumar".

Quando Januário e Santana se mudaram para Santa Cruz, Muniz recebeu do irmão um lote de terreno vizinho ao sítio, e lá se instalou. Aos poucos, Gonzaga estava criando um novo Araripe na Baixada Fluminense. Já então o lugar estava com um jeito aconchegante, bem nordestino, cheirando a carne de charque, mandioca cozida e rapadura. Zé Dantas, reconciliado com Luiz Gonzaga, encontrava lá o ambiente ideal para prosseguir suas  pesquisas musicais e compor.

"Zé Dantas vinha aqui pro sítio, ficava dias, deitado na rede, comendo aquelas comidas da gente e pesquisando pras músicas dele. Botava a gente pra cantar, escutava, anotava. Eu me lembro de um fato engraçado que houve. Uma vez estava ele mais Gonzaga no sítio, escrevendo uma música. A toda hora eles chamavam todo mundo pra escutar. E cantavam:

    A fogueira está queimando
    Em homenagem a São João
    O forró já começou
    Vamos, gente, rapapé neste salão...

A música estava escrita todinha. Mas a introdução não saía. Os dois amarrado na introdução, todo mundo reunido, mas a nota não saía! Daqui a pouco meu pai falou: 'Mas não é possível!'. Foi pro quarto, pegou a sanfona de oito baixos, correu os dedos e completou a introdução num instante. Com o folezinho de oito baixos, sem recursos, sem nada, e ele deu a introdução. Eles colheram muito do meu pai". (Chiquinha)

Em 1952, a grande atração dos festejos juninos foi a série intitulada Os Sete Gonzaga, que reuniu, em um conjunto excepcional, o velho Januário e seus filhos Luiz Gonzaga, Severino, Zé Januário, Chiquinha, Socorro e Aloísio, para uma temporada na Rádio Tupi-Tamoio Associadas.

A temporada na Tupi-Tamoio deu impulso à carreira de sanfoneiro de oito baixos de Severino. E para as irmãs, a coisa pareceu muito mais séria. Chiquinha queria fazer carreira na música, desde pequena vivia mexendo nos foles do pai, e Santana se zangava: "Sai daí, cabrita, larga esse fole, que isso não é coisa pra menina, não!".

Chiquinha ficou maravilhada com a oportunidade:

"Gonzaga nos chamou pra ensaiar. Foi quando nossa carreira começou. Aí veio a revista O Cruzeiro, fizeram reportagem, nós posamos pra foto. Tinha anúncio no rádio, no jornal, nas revistas, nossa foto em tudo que era banca de jornal".

A temporada desabrochou numa verdadeira festa. O auditório da Rádio Tupi, conhecido como o 'Maracanã dos auditórios', lotou em todas as apresentações.

No palco do auditório, Januário tocava seu fole de oito baixos, os filhos homens tocavam zabumba, triângulo, sanfona, fole, as moças cantavam, xaxavam, encantando o público.

Os Sete Gonzaga arrasaram. Tanto que a emissora e o patrocinador tiveram que prolongar a temporada, com mais duas apresentações. 

Encerrada a série da Tupi-Tamoio, Gonzaga voltou à coisa que ele mais gostava no mundo (além das mulheres): seu dia-a-dia de músico.

Transcrito (com adaptações) de:

Vida do Viajante: a saga de Luiz Gonzaga. © 2012, Dominique Dreyfus. Editora 34.

Imagens:

1. Catamilho, Gonzaga e Zequinha. https://luizluagonzaga.com.br/

2. Helena e Gonzaga. https://luizluagonzaga.com.br/

3. Zé Dantas e Gonzaga. Wikipédia

4. Januário e Gonzaga. Revista O Cruzeiro. 1952.

5. A família. Revista O Cruzeiro. 1952.