Pequenas Biografias: LUIZ GONZAGA_o6
"Eu pensei que ia fazer uma surpresa lá na Nacional: Pedro Raymundo tocava vestido de gaúcho, e eu ia me confrontar com ele vestido de nordestino. Quando cheguei no domingo, na hora de entrar no auditório, botei o chapéu, peguei a sanfona... Floriano Faissal, o diretor artístico me olhou, perguntou: 'Para onde você vai?', nem esperou resposta, abanou a cabeça e falou: 'Ahn, ahn! Aqui, não. Cangaceiro na Nacional, não! Pode guardar o seu chapéu', e me proibiu de cantar de chapéu de couro. Tive que aceitar, disciplinado que era, fui soldado muitos anos"...
Na Nacional, fez como a Nacional exigia, voltou à sua elegância clássica: terno de linho, gravata borboleta, sapato de verniz. Mas fora da Nacional, começou a se apresentar, sistematicamente, com o chapéu. Não deu uma entrevista, não fez uma reportagem, não pisou no palco de um dancing, clube, de um cinema sem o chapéu de couro enfiado na cabeça. E, de tanto se apresentar em público assim, Gonzaga acabou atingindo o seu alvo. Em 1949, conseguiu impor, afinal, sua imagem de nordestino, com traje típico e tudo.
O baião estava definitivamente implantado, era moda incontornável, manchete diária da imprensa. No Brasil inteiro, a mídia focalizava a nova moda.
Cada vez mais numerosos, os cantores do Sul começaram a cometer pequenas infidelidades à fossa, trocando os soluços do samba-canção pelo molejo brejeiro do baião.
De 1949 a 1953, Marlene, Emilinha Borba, Carmélia Alves, Ivon Curi, Carolina Cardoso de Menezes, Carmem Miranda, Isaura Garcia, Ademilde Fonseca, Dircinha Batista, Jamelão, Adelaide Chiozzo, Stelinha Egg foram, entre tantos outros, intérpretes das músicas de Luiz Gonzaga e seus parceiros.
Embolsando a essas alturas algo como vinte mil cruzeiros por mês, Gonzaga, que agora, além da Rádio Nacional, trabalhava regularmente na Rádio Record em São Paulo, acabava de comprar uma residência maior na rua Clapp Filho, a duas quadras da casa onde fora morar ao casar, esta última ficando então para os pais, que haviam acabado de mudar para o Rio.
Pouco tempo depois da sua família, outra chegada ao Rio alegrou o coração de Luiz: a de Zé Dantas, em janeiro de 1950.
O sanfoneiro adorava relembrar que Zé Dantas, quando lhe dera Vem, Morena e outras músicas, na ocasião do primeiro encontro em Recife, pedira que, caso as gravasse, "pelo amor de Deus" não pusesse seu nome no disco. Se o fizesse, o pai podia até lhe cortar a mesada, indispensável para poder continuar os estudos universitários. Gonzaga não levou o pedido em conta e colocou as músicas como parcerias dos dois.
Quando recebeu, um ano mais tarde, seus direitos autorais, Zé constatou que eram "mil vezes" a mesada paterna e esqueceu os escrúpulos.
No dia que Zé chegou no Rio, estavam esperando ele na estação: Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira, Péricles (o criador do Amigo da Onça) e mais outros amigos. A turma toda saiu da estação e foi direto para Mangaratiba, para a casa de Humberto Teixeira. Iam passar o dia lá, acabaram ficando dez, numa farra medonha. Depois, voltaram para o Rio de Janeiro e Zé foi se apresentar no Hospital dos Servidores onde ia fazer residência. Normalmente, ele deveria ficar morando no hospital, mas conseguiu autorização de morar fora. Alugou um apartamento na rua Maria Quitéria, em Ipanema, perto de onde Péricles morava.
A partir de então, num apogeu de criatividade, Luiz Gonzaga, por sua voz ou pela de outros intérpretes, lançou, nesse ano de 1950, mais de vinte músicas inéditas, das quais muitas se tornariam inesquecíveis clássicos da música brasileira. O baião já era mais que moda, tornara-se febre, 'coqueluche' realmente.
Além dos grandes intérpretes que cantavam as músicas de Gonzaga, os melhores autores e compositores queriam dar-lhe suas composições. Klécius Caldas foi um desses compositores urbanos que se deixou encantar pelo mundo rural de Gonzaga:
"Na época em que Gonzaga começou a fazer sucesso com A Moda da Mula Preta, eu e meu parceiro Armando Cavalcanti sentimos vontade de conhecer a pessoa que tinha feito uma gravação tão interessante para dar-lhe os parabéns. Procuramos então o Gonzaga na Nacional. Na época a Nacional era um ambiente alegre. Tinha o bar que ficava no andar de cima da rádio e todo mundo se encontrava lá, ficava conversando, rindo. Era ótimo. A qualquer hora, sempre estava cheio. Era uma concentração e tudo de importante na música acontecia lá. Quando encontramos o Gonzaga, descobrimos que ele e Armando se conheciam. Armando, que era militar como eu, tinha sido capitão da unidade em que Gonzaga era cabo-corneteiro. Aí foi aquela surpresa, aquela festa. Nós nos propusemos, então, a fazer uma música para ele. 'Podem fazer que, se for bom, eu gravo'; ele era de uma simplicidade muito grande, uma figura espetacular".
A dupla, muito mais conhecida por suas composições carnavalescas, fez no entanto o lindíssimo Sertão de Jequié, que Gonzaga nunca gravou. Aconteceu que, quando a música ficou pronta, Dalva de Oliveira, que acabava de sair do Trio de Ouro após doze anos de amor e brigas com Herivelto Martins, estava constituindo novo repertório e foi ver Klécius e Armando, cujas composições faziam muito sucesso, para pedir-lhes músicas. Quando ouviu Sertão de Jequié, foi ao encontro de Gonzaga e o convenceu a deixar a música para ela, que estava precisando mais do que ele... Klécius e Armando fizeram-lhe, então, outra música magnífica: Boiadeiro.
"Nós não tínhamos a mínima experiência de vida rural. Mas a inspiração veio... a partir da trilogia do campo: o boi, os filhos e a mulher". (Klécius Caldas)
No ano seguinte, Luiz Gonzaga gravou nova música de Klécius e Armando. Já que a primeira fizera tremendo sucesso, a dupla propôs nova trilogia, mais lúdica desta vez: cigarro (de palha), rede (de malha) e animal (cachorro trigueiro e cavalo ligeiro)... faltando ao protagonista o principal, "uma bonita morena". Gonzaga adorou e gravou Cigarro de Paia, que seria lançada em 52.
Gravou também músicas de Guio de Moraes, com quem fez depois lindas composições. Fernando Lobo, de volta dos Estados Unidos, apesar de pernambucano, era mais chegado ao samba. No entanto, cedeu à atração da música da moda e assinou Chofer de Praça, uma mazurca cheia de graça, para Gonzaga. Aliás, outro jornalista entrou na fila de parceiros do artista: David Nasser, um dos astros do semanário O Cruzeiro, que assinou vários êxitos com Gonzaga.
A essas alturas, Luiz Gonzaga já fora consagrado Rei do Baião — a coroa era o chapéu de couro e o cetro, a sanfona — pelo público paulista e, daí por diante, pelo povo brasileiro. Humberto Teixeira ganhara obviamente o título de Doutor do Baião.
Foi aí que Humberto candidatou-se a deputado federal:
"Em um concurso organizado pela Revista do Rádio, com Anselmo Domingos, eu tinha sido eleito o melhor compositor nacional por três anos consecutivos. E, nesse ano de tricampeonato, eu fui escalado como orador, que agradeceria lá no teatro Municipal. O padrinho, porventura, era Ademar de Barros, candidato potencial a presidente da República. Depois do meu discurso, ele veio me cumprimentar. Disse que eu era bom orador e que eu deveria me candidatar. E que ia me dar uma legenda... eu acabei com uma suplência e depois me diplomando como deputado federal. Luiz Gonzaga estava na época no Rio Grande do Norte quando soube que eu estava me candidatando, e saiu de lá e veio me prestar uma ajuda maravilhosa, inclusive de transporte, gasolina. Eu não tinha dinheiro nenhum e posso dizer que foi Luiz Gonzaga que me colocou na deputação".
Com a candidatura do parceiro, Gonzaga deu os primeiros passos num terreno cheio de ambiguidades, quiproquós e incompreensões que caracterizariam todo o seu itinerário, até a morte: o da política. Além da ajuda a Humberto, o Rei do Baião também fez campanha para as eleições presidenciais de 1950. Getulista convicto, como afirmava publicamente na época, apoiou Getúlio Vargas. Este sucederia na presidência da república o marechal Eurico Gaspar Dutra, que comandara o país de dezembro de 1946 a janeiro de 1951, e de quem Gonzaga dizia sentir-se muito próximo. Por isso, era frequentemente convidado para cantar nas cerimônias oficiais do governo. O general Ângelo Mendes Moraes, prefeito nomeado por Dutra e a quem devemos o Maracanã, sempre que vinha uma visita ilustre chamava Gonzaga para cantar.
O sanfoneiro pôde, por exemplo, orgulhar-se de ter cantado no banquete oferecido a Eva Perón quando veio ao Brasil:
"Ela tinha um comportamento de estadista muito bonito. Até toquei um tango para ela, mas não conversei com ela: não tinha possibilidade, nem necessidade"...
As novas funções assumidas a partir daí por Humberto Teixeira não impediam de forma alguma que prosseguisse suas atividades musicais. Porém, em outubro de 1952, saiu o último disco de Gonzaga em parceria com o deputado debutante.
"Luiz Gonzaga recebeu, na época, uma proposta dos irmãos Vitale, que eram os diretores da recém-criada sociedade de autores, a SBACEM. Ele então saiu da UBC e me chamou, insistiu muito para que eu também fosse para a SBACEM, mas eu sou fiel, não quis sair da UBC. Ora, existia uma lei que proibia um autor de uma sociedade fazer parceria com um compositor de outra. Por isso, parou a parceria. Mas nada disso afetou a nossa amizade. Nossa separação proporcionou a Luiz a oportunidade de lançar um grande letrista que foi Zé Dantas". (Humberto Teixeira)
Lançado, Zé Dantas já estava; e com êxito equivalente ao de Humberto Teixeira. Mas o dinamismo da parceria de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga havia começado a se esgotar. A história a partir de então era com Zé Dantas.
Transcrito (com adaptações) de:
Vida do Viajante: a saga de Luiz Gonzaga. © 2012, Dominique Dreyfus. Editora 34.
Imagens:
Gonzaga. IMS.
Gonzaga. Revista O Cruzeiro. 1952.

