Pequenas Biografias: LUIZ GONZAGA_o8
Gonzaga descobrira um lado do ofício de artista pelo qual se apaixonou: a vida na estrada.
E novamente, com Zequinha e Catamilho, percorreu o país todo. Só que, dessa vez, foi de avião.
O cantor resolvera modificar seu visual. Trocou o terno de casimira por um gibão de couro, a gravata por uma cartucheira, o sapato de verniz por sandálias, e adquiriu um modelo de chapéu maior, mais vistoso e mais parecido com o de Lampião.
Nesse ano, seu conjunto também sofreu algumas alterações, com a saída de Catamilho, por questões de "bebedeira".
Gonzaga gostava de cerveja, de uísque, de vinho bom, mas bebia com medida. Tinha horror de gente bêbada e não tolerava que seus companheiros de trabalho bebessem.
"Quem trabalha comigo, se souber beber, não há problema. Mas se passar do limite, não quero".
Catamilho continuava bebendo, e bebendo cada vez mais. Subia ao palco embriagado, tropeçando, errando o ritmo. Em plena turnê, o patrão constatou que precisava de alguém para substituí-lo.
Um ano antes, em Jequié, na Bahia, ele tinha notado, num posto de gasolina onde estava abastecendo, um anão chamado Osvaldo Nunes Pereira.
"Eu era muito caipira, quando vi aquele senhor forte, saí correndo para casa da minha mãe. Ele me chamou, 'vem cá, que eu quero falar com você'. Eu aí parei, escutei ele: 'Você quer ir embora comigo?'. Eu, com medo: 'Só se minha mãe deixar'... Ele, então, falou com meus pais, mas disse que não ia me levar naquele dia, não, que antes ele tinha que ir para Jequié, depois pra Conquista e, de lá, mandava me apanhar, pra me levar pro Rio, que eu ia ser artista". (Osvaldo)
"Eu achava que ele tinha um jeito bom, e que se ele tocasse triângulo eu podia botar ele no palco comigo. Aí mandei meu secretário, Romeu Rainho, apanhá-lo".
Passado um ano, sob as bênçãos da mãe, Osvaldo arrumou a mochila, se despediu da família e embarcou para o Piauí, onde Gonzaga estava dando show.
A vida na estrada continuava. Certa vez em Itabuna, no Ceará, Catamilho caiu do palco, com zabumba e tudo, provocando a hilaridade do público. Gonzaga, aborrecido, tentou disfarçar e brincou:
"Vocês podem rir, mas no ensaio ele fez isso bem melhor".
No público, uma voz acusadora mostrou que não dava mais para enganar: Esse cara tá é bêbado. Não foi necessário mais para que Gonzaga, ofendido, despedisse definitivamente o zabumbeiro. Zequinha, solidário com o colega, disse que se Catamilho saísse do conjunto ele sairia também.
O cantor lembrou-se então de um engraxate do Piauí, que chamava muito a atenção dos fregueses, porque fazia percussão com as escovas, imitando o zabumba. Lá se foram então apanhar Juraci Miranda, o engraxate, que gostou da proposta. No mesmo dia, Luiz Gonzaga seguiu para Santo Antônio com seu novo conjunto. Havia só um problema: os contratados não sabiam tocar.
"Antes de chegar em Santo Antônio, tinha um riacho. Aí eu falei pra Romeu: olha, nós vamos parar na beira desse rio, tomar um banho de cachoeira e ensaiar debaixo desse pé de pau, que eu tenho que treinar o baixinho aí. Você segue com o motorista pra cidade, faça a cobertura do show. Quando estiver tudo pronto, venha buscar a gente. Mandei todo mundo tirar a roupa e tomar banho. O anão tava com um cheiro desgraçado de ruim. Quando ele tirou a cueca, eita, tamanhão da 'pra ti vai' dele, quase meio metro! Bem, aí ensinei o ritmo aos dois. O ensaio, foi com todo mundo pelado. Expliquei que Juraci ficava com o zabumba e Osvaldo com o triângulo, e ensinei o ritmo a eles: olha, vocês vão andando, andando, andando até cansar, mas vão fazendo o passo certo no ritmo. Depois com os instrumentos, andando, andando e tocando, no passo certo no ritmo".
Nus, Osvaldo e Juraci ficaram ali umas quatro horas, aprendendo a tocar. Ensaiavam, paravam, tomavam banho, tornavam a ensaiar.
Quando Romeu voltou, o conjunto estava prontinho para estrear. Até nome de palco os dois ritmistas tinham recebido.
Na noite do 23 de outubro de 1953, em Santo Antônio de Jesus, Luiz Gonzaga apresentou à plateia o novo conjunto: no zabumba, Cacau e no triângulo, Xaxado. Em 54, excursionando novamente com os laboratórios Moura Brasil, Gonzaga e seu conjunto deram show em São Luís do Maranhão. Ao chegarem no hotel, o porteiro olhou para o tocador de triângulo e comentou: Vixe! Esse baixinho está até parecendo o salário mínimo do Maranhão! Luiz Gonzaga morreu de rir e passou a chamar Osvaldo de Salário Mínimo...
Acabava uma excursão pelo Brasil, começava outra. Gonzaga podia ficar oito meses sem voltar para casa.
Hervê Cordovil homenageou, então, o parceiro, com uma música que se tornaria um hino: Vida do Viajante.
Pousava de vez em quando no Rio para trabalhar novo repertório, gravar um disco.
Ainda em 53, lançou uma série de parcerias com Zé Dantas, que ficariam na História. Entre elas havia Xote das Meninas; A Letra I (para Iolanda, futura senhora Dantas); ABC do Sertão...
Aconteceram ainda, na época, Algodão e Vozes da Seca, que assumiam um tom de vigorosa denúncia, uma crítica ao paternalismo dos governantes.
Apesar de Luiz Gonzaga e Zé Dantas serem os primeiros a dar a famosa esmola aos nordestinos, organizando campanhas de ajuda para os flagelados, recolhendo dinheiro, roupa e comida que mandavam para o Norte, estavam conscientes de que a solução não era essa, e que o problema era político:
O conceito de música engajada não existia na época, mas a denúncia contida nessa música marcou profundamente a carreira de Gonzaga. Na verdade, suas criações e de seus parceiros constituíram, sobretudo, crônicas sobre o Nordeste, sua cultura, sua sociedade, seus modos, sua fala. E, na simplicidade do fato contado, da situação descrita, destacava-se a denúncia de um povo sofrido, mesmo que alegre e corajoso:
"Eu ia contando as coisas tristes do povo, que debanda do Nordeste pro Sul em busca de melhores dias, de trabalho. No Nordeste, as intempéries do tempo são todas erradas. Quando é pra chover não chove, então o povo vai procurar trabalho no Sul e o Nordeste vai se despovoando"...
Através de um repertório baseado em enredos extremamente cinematográficos, visuais, fortes, Luiz Gonzaga foi um dos primeiros artistas a falar de ecologia, de problemas raciais, sociais, econômicos, fosse para criticar ou para elogiar. O artista que era possuía a sensibilidade, a inteligência, a consciência para sentir profundamente os problemas. Mas, ao mesmo tempo, ele era fruto da civilização dos coronéis, dos fazendeiros: filho de humildes moradores, nascera e fora educado na submissão, no respeito à hierarquia, na obediência àqueles que lhe eram indicados como superiores. O que permitia aos governos utilizar a toada do sanfoneiro com paternalista esperteza...
ESCOLA
Dez anos tinham-se passado desde o lançamento do baião, e a primeira geração de discípulos do Rei estava brotando. Longe de sentir-se ameaçado, prejudicado, rivalizado pelos jovens sanfoneiros, Gonzaga tinha orgulho. Mas, principalmente, ele se sentia encarregado de ajudar, orientar, encaminhar, no fole e na carreira, aquela meninada toda... Nas suas andanças, ia descobrindo, com evidente intuição, talentos, e nunca poupava um conselho, uma ajuda, uma dica... Foi durante a segunda excursão com a Moura Brasil, em 54, que, ao se apresentar em Garanhuns, Gonzaga conheceu Dominguinhos.
Gonzaga adorava as feiras nordestinas. Fosse onde fosse, se havia feira, ele ia. Enfrentava com santa paciência e gentileza a multidão de admiradores, fãs, idólatras, para passear pelas bancas e comprar uma fruta, um queijo, uma carne-de-sol... presentes para casa, ou para os amigos.
Aproveitou então que estava em Garanhuns no sábado, dia de feira, para dar uma volta. Feira bonita, animada, que podia concorrer com a célebre feira de Caruaru.
Na feira de Garanhuns, também tinha de tudo, e até mais. E claro, havia música: os cegos com seus pandeiros, os repentistas com suas violas, as bandas de pífaros, e agora os trios 'à Luiz Gonzaga', que brotavam pelas feiras de todo o Nordeste... Na animação desse sábado, um trio, particularmente, chamou a atenção de Gonzaga: três garotos, de seus quatorze, quinze anos, tocando sanfona de oito baixos. O trio, formado por irmãos, chamava-se Os Três Pinguins. O pinguim da sanfona se chamava Neném. Passaria a ser conhecido mais tarde como Dominguinhos.
"Eles tocavam na feira e passavam o pires, como eu fazia quando comecei. Aí eu prometi uma sanfona melhor a Dominguinhos. Só fui encontrar com ele no Rio de Janeiro, mais tarde".
Ainda em 54 encontrou com Jackson do Pandeiro, integrante do regional da Rádio Jornal do Comércio, em Recife. Ficou tão entusiasmado com o talento de Jackson que procurou o diretor da RCA para convencê-lo a contratar o genial pandeirista. Jackson, entretanto, fora contratado pela Copacabana, e já brilhava com seu primeiro sucesso, Sebastiana.
Foi no ano de 1955 que apareceram no mercado os primeiros LPs. Gonzaga continuou a gravar discos em 78 rotações e, ao mesmo tempo, passou a lançar, a cada ano, um LP. O primeiro deles foi A História do Nordeste na Voz de Luiz Gonzaga, no qual figuravam sucessos confirmados como Respeita Januário, ABC do Sertão, Acauã, Asa Branca... A partir de 57, o processo se inverteria e começariam a produzir LPs com músicas inéditas, dos quais tiravam-se os 78 rpm. O sanfoneiro fazia questão de não desfavorecer seu público mais popular, e continuou a gravar 78 rpm, mais baratos que os LPs.
Em 1955, ele lançou cinco 78 rotações, ou seja, dez músicas inéditas. Apenas uma delas, porém, Riacho do Navio, atingiu a posteridade.
Nesse ano, na turnê, Luiz tomou conhecimento da existência, no Nordeste, de uma certa 'Patrulha de Choque de Luiz Gonzaga'. Tratava-se de um trio de imitadores dele, composto por Marinês, que cantava e tocava triângulo, Abdias, o marido, na sanfona, e Chiquinho, o cunhado, no zabumba.
"Onde Luiz Gonzaga ia tocar, a gente chegava uma semana antes e se apresentava cantando o repertório dele, e também de Jackson do Pandeiro, de Ivon Curi. Ele sabia da existência da Patrulha de Choque, mas só ouvia falar: 'Passou por aqui, passou por lá'. Por volta de 55, Pedro Chaves, o prefeito de Propriá, resolveu fazer um busto de Luiz Gonzaga na cidade, e me convidou pra cantar na festa, e para Luiz Gonzaga me conhecer.
Mais tarde ele mandou dizer que nós estávamos convidados a almoçar na mesa dele. Isso era muito privilégio. O meu sonho de criança se realizando, eu ao lado de Luiz Gonzaga, olhando pra cara dele!". (Marinês)
Quando alguém chamava a atenção de Gonzaga, ele tinha sua estratégia para conferir se sua intuição era boa. Se aproximava, conversava, fazia perguntas e prestava muita atenção nos modos de ser da pessoa. O almoço com Marinês parece que foi conclusivo.
"Ele disse que daria uma força pra gente, que me botava pra gravar". (Marinês)
Luiz Gonzaga era homem de uma palavra só, além de ser generoso com seus colegas. Quem merecesse, por seu talento, apoio dele, o recebia amplamente. Fosse no campo artístico ou material. Os amigos de Gonzaga e Helena estavam cansados de testemunhar o quanto o casal proporcionava ajuda a quem precisasse.
Marinês e Abdias, em março de 1956, desembarcaram no Rio de Janeiro e ficaram hospedados na casa de Luiz e Helena. Mas o apoio mesmo foi no nível profissional. O astro começou cumprindo a promessa feita em Propriá, coroou Marinês 'rainha do xaxado', numa apresentação na Mayrink Veiga, depois levou-a para o Kaleidoscópio, o programa da Tupi no qual se apresentava aos domingos e, enfim, integrou-a à sua banda.
O novo conjunto do sanfoneiro passou a se chamar 'Luiz Gonzaga e Seus Cabras da Peste'. Compunha-se de Marinês, Abdias, Zito Borborema e Miudinho.

Apesar do sucesso da banda, ela se desfez no final do ano, provavelmente por conta do ciúme doentio que Helena tinha de Marinês, como de qualquer mulher que chegasse perto do marido. E como as havia!
Luiz Gonzaga, além de ser famoso e rico era um 'pedaço de mau caminho', terrivelmente paparicado. E Helena perdia a cabeça com isso. Faltava-lhe a paciência e a calma indispensáveis às esposas de artista, como notava sua amiga Iolanda Dantas, muito mais filósofa e conformada...
"Quando você casa com um artista tem que ter paciência, Gonzaga vivia nas estradas, nos palcos, ele vivia em função das fãs. Helena organizou o trabalho todo do marido, ela recebia o dinheiro dele, ela era formada, tinha cultura. Gonzaga sempre escutou Helena. Mas ela era temperamental, por causa do ciúme". (Iolanda Dantas)
Segundo Marinês, apesar do amor imenso que ela sentia pelo 'mestre', Helena não tinha por que sentir tanto ciúme:
"Eu era louca, apaixonada por Gonzaga, mas ele era o padrinho de meu filho e, no Nordeste, dizem que se compadre e comadre transam, viram bicho. Então, eu, hein? Nunca, jamais teria tido um caso com ele".
Marinês, Abdias e Cacau, o antigo zabumbeiro de Gonzaga, formaram um trio chamado 'Marinês e sua Gente', nome, aliás, sugerido pelo então radialista Chacrinha. Marinês atuou na segunda metade de década de 50 com real projeção nos palcos brasileiros.
"Eu fui a primeira mulher a cantar forró. Não havia nenhuma tradição de mulher cantando xaxado, baião, xote. Também não era coisa de mulher essa roupa de couro que eu usava. As cangaceiras não botavam roupa e chapéu de couro. Elas usavam chapéu de massa, que foi popularizado por Jackson do Pandeiro, com a abinha estreita e vestido de melindrosa, que era moda na época. Por isso é que o Gonzaga me chamava de Luiz Gonzaga de saia".
Em 57, Marinês lançou seu primeiro LP pela Sinter. Para esse disco, Luiz Bittencourt, o diretor da gravadora, exigira que o repertório fosse integralmente de João do Vale.
"João sempre ia pra Tupi, só pra ver o Gonzaga. E eu não sabia quem era esse moreno, até que Gonzaga me disse: 'Ah! mas isso aí é um compositor muito bom. Vem cá, Sabará — era assim que ele chamava João —, pra eu te apresentar'". (Marinês)
Luiz Gonzaga conhecia o maranhense João do Vale desde que este chegara no Rio, em 1950. Fora a primeira pessoa que João procurara para propor-lhe alguma música, mas o sanfoneiro não lhe dera atenção. Até 1957, quando ouviu O Cheiro da Carolina.
"O João do Vale é quem criou o personagem de Carolina. Ele fez O Cheiro da Carolina com meu irmão Zé Gonzaga, e eu gravei num ato de audácia... ou de vingança. Quando Zé gravou a música, ele me chamou para fazer uma introduçãozinha com a sanfona, e eu senti foi o cheiro da exploração! Quando eu vi que o parceiro dele era João do Vale, pensei: Outra exploração! Comprou a parceria de João e ainda me enrolou".
O disco de Marinês com repertório de João do Vale foi um estouro, em parte, graças a uma música corriqueira, cheia de duplos sentidos, Peba na Pimenta, que fez escândalo na época. Diz Marinês que, na Bahia, os padres, chocados pela 'pornografia' da letra, chegaram até a organizar uma quebra de discos. E aí é que a música explodiu mesmo.
Marinês e Abdias obviamente já não moravam na casa de Helena e Gonzaga. Mas os dois outros músicos da banda, Zito e Miudinho, apesar de terem sido despedidos pelo patrão, continuavam hospedados por ele.
Helena, preocupada com os dois músicos desempregados, incentivou-os a formar um trio à moda de Luiz Gonzaga. Zito no triângulo, Miudinho no zabumba. E na sanfona?
Helena lembrou-se, então, daquele Pinguinzinho da feira de Garanhuns, o Dominguinhos, que tanto impressionara Luiz Gonzaga alguns anos antes. Ele agora estava vivendo na periferia do Rio, em Nilópolis, e tocava sanfona igualzinho a Gonzaga. Ao chegar no Sul, lembrando que o 'mestre' lhe prometera, outrora, uma sanfona, tinha pensado que podia procurá-lo. Na verdade, queria pedir um aval para a compra, a prazo, de uma sanfona nova. Mas acabou ganhando o instrumento de Gonzaga.
Dominguinhos aderiu ao projeto de Helena, e assim nasceu o segundo trio diretamente inspirado por Luiz Gonzaga (o primeiro fora 'Marinês e sua Gente'). Foi batizado Trio Nordestino, coroado com os agora famosos chapéus de couro, e começou a atuar, empresariado por Helena. Atingiu o público nordestino dos subúrbios cariocas, da Mayrink Veiga, onde atuavam, sempre apresentados pela empresária como 'os seguidores de Luiz Gonzaga'.
Nesse mesmo ano no Nordeste, Caruaru, fundada em 1857, estava se preparando para comemorar majestosamente o seu primeiro centenário. Gonzaga, um dos patronos dos festejos, volta e meia aparecia por lá.
Numa dessas idas, teve oportunidade de escutar uma música intitulada A Feira de Caruaru. O fã incondicional de feiras adorou-a. Era obra de Onildo de Almeida, jovem compositor que trabalhava na Rádio Difusora de Caruaru, e que a gravara um ano antes.
"Eu sempre ia para a feira, e me veio a ideia de fazer uma música sobre ela. E comecei a recolher palavras, objetos, coisas e anotando tudo. A minha preocupação era a rima: como se tratava de uma música sobre Caruaru, eu queria que todas as palavras terminassem com 'u'. Encontrei umbu, caju, mandacaru, mulungu... e por aí fui anotando. Tudo o que eu descrevo na feira é verdade. Não tem um objeto no texto que não se encontre nessa feira. Minha ideia era que alguém gravasse a música, porque minha voz não prestava para este tipo de ritmo. Eu era mais cantor romântico. Mas Jackson do Pandeiro já tinha ido embora para o Rio, o paraibano Genival Lacerda (que fora revelado no mesmo programa de auditório e no mesmo dia que sua conterrânea Marinês) ainda não era bom, ele era horrível... Bem, acabou que quem gravou o disco fui eu. E cheguei a vender onze mil cópias". (Onildo de Almeida)
Quando Luiz Gonzaga ouviu a música, elogiou-a à sua maneira:
— Isso tem cheiro de nego! Posso gravar?
Claro que podia, imagine!, se encantou o autor da música.
— Então vamos fazer outra música sobre o Centenário de Caruaru, que eu quero prestar uma homenagem a essa cidade.
Os dois começaram a trabalhar, mas, passados dois dias, só tinham conseguido rimar história / memória / vitória / glória, palavras que, mesmo assim, Noel Rosa já fizera rimar uns 25 anos antes em Silêncio de Um Minuto... No mais, da história, da memória e da glória da cidade propriamente, eles ignoravam tudo. Então, não saíam daquilo. Um observador piedoso, percebendo a dificuldade que enfrentavam os novos parceiros, revelou que havia na cidade um moço que vivia escrevendo umas coisas sobre História. Era Nelson Barbalho. Quem sabe se ele não podia dar uma ajuda:
"Eu era funcionário público, e funcionário público só trabalha a pulso. Então, eu passava o dia jogando sinuca. Um dia, chegou Onildo dizendo que Luiz Gonzaga queria falar comigo.
Eu pedi pra ele me deixar terminar a partida, mas fiquei tão nervoso que acabei perdendo. Quando saí, Luiz Gonzaga estava me esperando na calçada. Fomos pra o café Majestic, sentamos numa mesa, nós três mais José Almeida, o irmão de Onildo. Eles, então, me explicaram o problema da música, e eu aí comecei a contar a história de Caruaru. Nisso, eles me perguntaram por que é que eu não contava isso em verso. 'Ué, porque eu não sei fazer verso!' Mas José Almeida começou a bater um ritmo de baião na mesa, e Gonzaga cantarolou uma melodia e eu fiz 'Quem conhece meu Nordeste'.... E foi o primeiro verso que eu fiz na minha vida! Gonzaga continuou a cantarolar e eu, em cima da música dele: ... 'Certamente há de saber / Que Caruaru de Bonito/ Há cem anos que nasceu', e assim foi. Em uma hora, a música estava pronta". (Nelson Barbalho)
O centenário de Caruaru era no dia 18 de maio de 1957. O 78 rotações com A Feira de Caruaru e Capital do Agreste foi lançado em junho.
"Foi um estouro. Me rendeu quarenta contos, e eu comprei o primeiro refrigerador da minha vida. E tomei gosto pela música! Eu tinha um companheiro, chamado Joaquim Augusto, que era saxofonista, compositor, e trabalhava na repartição comigo... Eu resolvi fazer uma dupla com ele. Aí nós íamos para o fundo da repartição, onde havia um 'birôzinho' que tinha um som de bombo, e fazíamos três a quatro baiões por dia. Aquilo tinha virado fábrica de baião. E eu ia mandando as músicas para Luiz Gonzaga pelo correio". (Nelson Barbalho)
Gonzaga, ainda que não tenha se amarrado muito na produção da dupla, chegou a gravar cinco músicas dela.
"Nelson Barbalho sempre andava agarrado nos livros dele... era bom poeta, mas, para caçar o gosto do povo, ele não era muito bom. Ele não era um poeta nato, era um poeta escritor. Não convivia no meio, mas mesmo assim deu pra gente conseguir alguma coisinha. Ele mandava muita música para mim, mas o parceiro dele não era bom, a música que ele fazia não tinha cheiro de baião".
Mas talvez o principal defeito da dupla Nelson Barbalho e Joaquim Augusto fosse o de não deixar campo para Luiz Gonzaga entrar na parceria, uma vez que já havia um compositor na história. Contudo, com Onildo de Almeida, sem dúvida por esse ser melhor compositor, Gonzaga se ajeitou.
"Toda vez que ele passava por Caruaru, vinha me ver, pedia música, às vezes dava um tema... eu sentia que ele queria ser meu parceiro musical, queria arranjar um jeito de ter a parceria comigo, mas eu nunca ofereci, e ele também nunca pediu. Mas aí ele gravava pouca coisa minha". (Onildo de Almeida)
Ao término de 1957, podia-se dizer que Gonzaga alcançara seu objetivo: tinha criado, lançado e implantado com êxito uma expressão musical para o Nordeste. Nas estradas do sucesso, perambulavam cada dia mais discípulos do Rei do Baião; o Nordeste transformara-se em celeiro de compositores e autores; a cada dia, surgiam novos sanfoneiros, crias do Gonzaga. Enfim, o baião e todos os seus derivados eram conhecidos nacionalmente, e até mesmo internacionalmente. A história atingira seu apogeu. Viria em seguida o declínio, como tudo no espetáculo do mundo.
Transcrito (com adaptações) de:
Vida do Viajante: a saga de Luiz Gonzaga. © 2012, Dominique Dreyfus. Editora 34.
Imagens:
Gonzaga. https://luizluagonzaga.com.br/
Salário Mínimo, Gonzaga e Custo de Vida. Auditório da Ceará Rádio Clube, Fortaleza, 1955. https://www.forroemvinil.com/
Luiz Gonzaga e Seus Cabras da Peste. https://luizluagonzaga.com.br/
O jovem Dominguinhos. Revista Trip TPM, edição 140. Março, 2014.



