Pequenas Biografias: LUIZ GONZAGA_o9

A morte de Getúlio Vargas, em 54, significara a morte de um certo Brasil e o prenúncio de uma nova era. Com a eleição de Juscelino, em 1956, surgia o Brasil novo: o Brasil de Brasília, do Cinema Novo, do Concretismo, da Bossa Nova, da Jovem Guarda e da televisão; um Brasil com novos valores, novas aberturas, novos sonhos. Um Brasil programado para "crescer cinquenta anos em cinco". Um Brasil, enfim, predominantemente urbano.

Começou então a travessia do deserto de Luiz Gonzaga. Curioso deserto, porque muito povoado. 

"Disseram que Luiz Gonzaga esteve no ostracismo, mas não foi bem o caso. O ostracismo foi só nas capitais. Ele parou de tocar nas rádios, mas no interior ele sempre continuou levando cinco a dez mil pessoas nas praças. Agora, tanto na imprensa escrita quanto falada não se divulgou mais nada sobre Gonzaga". (Helena Gonzaga)

"Eu, como cantador pobre, sabia que a cidade grande não ia me dar oportunidade, então eu gravava meus discos e ia procurar o meu público lá nos matos. Nos estados longínquos. Esse povo vinha me ouvir e as praças ficavam cheias. Eu cantava na praça pública, nos coretos, nos circos e até nos quartéis. Foi sempre no Nordeste que eu me arrumei".

Quando chegava numa cidade, enquanto Gonzaga se ajeitava no hotel, o secretário ia promover o evento. Ele percorria as ruas da cidade no carro, uma mão na direção, outra segurando o microfone. Em cima da capota, o alto-falante estridente transmitia:

"Atenção, atenção! Vem visitar vocês sua majestade, o Rei do Baião, Luiz Gonzaga, a maior expressão da música popular brasileira. Hoje, aqui, em praça pública!".

O show podia ser num palanque ou na carroceria de um caminhão. 

"Nos palanques, todo mundo achava que podia subir. Vinha o prefeito, vinha o juiz, o deputado, o padre, vinham as famílias, e a gente tinha que tocar com aquele mundo de pessoas atrapalhando. No caminhão não tinha isso, porque, como ele era nosso, só subia na carroceria quem a gente chamasse".

Essa vida aventureira era também um espaço de liberdade e paz para Gonzaga. Ele, que soubera administrar maravilhosamente bem e com implacável determinação sua carreira artística, não tinha a mesma sorte na vida privada. O ciúme descontrolado de Helena, as manobras da sogra, as cobranças da família, Gonzaguinha longe, no morro de São Carlos, rejeitado por Helena, todo mundo brigando com todo mundo, e as próprias confusões que ele mesmo armava a toda hora, complicavam-lhe tremendamente os sonhos de harmonia. Queria que a vida familiar fosse um mar de rosas, e acabava se afogando num oceano de problemas. O principal deles era a relação com Helena.

"No início, nós tivemos uma vida bonita. Mas Helena era muito ciumenta, e o objetivo dela era tirar as pessoas que eu gostava de perto de mim. Ela queria participar de tudo na minha vida profissional, mas eu achava que não dava (...). Ela teve problemas fortes, doenças nervosas, esteve duas vezes numa clínica, e eu não podia acompanhá-la nisso por conta das viagens".

Mas a questão, na realidade, é que os dois estavam se confrontando com as consequências de um casamento forjado num profundo preconceito racial. Só que o sanfoneiro tinha um carisma e um caráter fora do comum, que não se encaixavam de modo algum com o consenso (implícito para ambos) segundo o qual o negro era inferior ao branco — à branca, no caso.

Pedro Cruz, supervisor dos direitos autorais e dos contratos na RCA a partir de 1960, tornou-se um dos melhores amigos de Gonzaga. Assim, muito conviveu com o casal: 

"Gonzaga não gostava de ser dominado, e Helena era possessiva demais. Ela criticava tudo dele, não gostava das coisas que ele gostava. Porém, ela assumiu uma autoridade em cima dele, porque ele era preto e de origem pobre. Ela queria ser o artista, quando o artista era ele".

PERDAS

Em 1959, para selar o divórcio amigável com Zé Dantas, Gonzaga lançou uma compilação: Luiz Gonzaga Canta Seus Sucessos com Zé DantasNesse mesmo ano, também gravou um 78 rpm com uma música de Nelson Barbalho e outra de João do Vale. 

Nenhuma delas celebrava as bodas de ouro de Santana e Januário. A família contudo festejou com muito brilho. Gonzaga organizou um churrasco, convidou todos os amigos, houve muita música e muito forró no palacete do artista. Era a última vez que a família toda se reunia. A sogra de Gonzaga, que vinha já havia tempos sofrendo de problemas cardíacos, morreu nesse mesmo ano. E Santana adoeceu. Januário regressou para o Araripe e ficou esperando que sua esposa, curada, voltasse para junto dele. Mas ela não voltou. Tinha doença de Chagas e, em 11 de junho de 1960, morreu. 

Santana foi enterrada no Rio de Janeiro. Alguns anos mais tarde, a família, sabendo do amor que ela tinha por sua terra, transferiu seus restos mortais para lá.

Em 1961, Gonzaguinha, que estava completando 16 anos, veio morar com o pai.

"Quando eu casei, eu queria que Gonzaguinha viesse morar com a gente. Mas minha sogra, dona Marieta, era muito forte. Eu desconfiava disso, mas, antes do casamento, ela não demostrou nada. Então eu casei".

E Gonzaguinha ficou com o padrinho e a madrinha, mas sabia que não era filho deles. Dina fazia questão que ele visse o pai, e, todo domingo, o levava para a casa de Gonzaga, afrontando Helena e dona Marieta. O pai, por sua vez, nunca deixou de mandar dinheiro, pagava escola, roupa, tudo de que ele precisava. Só não conseguia dar amor. Luiz Jr. reclamava muito da falta de calor humano do pai. Mas Luiz Gonzaga não era de paparicar, ele era bom, mas não era de abraçar e beijar os meninos.

Quando Gonzaga não estava fazendo turnê, ele ficava entre o Rio e o sítio de Miguel Pereira. Numa dessas idas e voltas, se envolveu em um grave acidente de carro: sofreu uma fratura no crânio e teve o olho direito gravemente ferido.

Mal recuperado, com uma cicatriz desfigurando o lado direito do rosto, gravou o disco Véio Macho. O disco comportava seis parcerias com José Marcolino, duas músicas de Zé Dantas, uma de Onildo de Almeida, outra de Rosil Cavalcanti e uma colaboração inusitada de João do Vale e... Helena Gonzaga (assinando em nome de Gonzaga, expediente que usariam várias vezes para driblar as sociedades de direitos autorais).

O disco foi lançado em abril de 62. Um mês antes, no dia 11 de março de 1962, Zé Dantas tinha falecido. Aos 41 anos de idade, Zé Dantas deixava órfã a música nordestina, à qual se dedicou até os derradeiros momentos de sua vida. Gonzaga não pôde sequer aparecer no enterro do grande companheiro, em Pernambuco. Ainda não estava recuperado do terrível acidente que sofrera recentemente.

"A família Dantas ficou ressentida com Gonzaga, achando que ele não compareceu ao enterro por falta de amizade. Mas eu sei que Gonzaga ficou arrasado e se chocou por não poder acompanhar o Zé Dantas... Depois disso, ele nunca mais foi o mesmo. Ficou muito nervoso, violento. E pegou um vício que sempre passava a mão no olho". (Priscila)

No mesmo ano em que perdia o querido amigo e parceiro, Luiz Gonzaga conheceu João Silva, o terceiro mais importante letrista da sua carreira. Aquele que, como Humberto Teixeira e Zé Dantas na primeira fase áurea do sanfoneiro, iria marcar a obra de Gonzaga na segunda fase de sucesso. 

"Eu conheci Gonzaga num estúdio da Mayrink Veiga. Na época, esta emissora era muito potente e eu tinha cinco programas lá: cantava em quatro e animava um. Gonzaga estava numa fase muito ruim. Tanto ele como toda a música regional. E ele não queria mais cantar em lugar nenhum. Foi quando Raimundo Nobre chamou ele para cantar no programa dele, e foi uma coisa incrível e realmente inesperada aqui no Rio, porque foi necessário interromper o trânsito na Rio Branco e na Presidente Vargas, de tanta gente que juntou pra ver Gonzaga.

Marinês, que era cria dele, estava no estúdio naquele dia. Eu já tinha gravado com Jackson do Pandeiro, com Severino Januário, o irmão de Gonzaga. E Marinês também tinha gravado uma música minha que Gonzaga gostava muito. Então, ela nos apresentou. E eu falei que eu tinha uma música pra ele. E ele respondeu:

'Pronto, todo mundo só faz música que é a minha cara! Porque você não grava você mesmo essa música?'. 

Eu acho que ele estava meio desligado. Ou, então, muito revoltado contra a imprensa". (João Silva)

De fato Gonzaga estava muito amargurado com o desdém, ou pelo menos, com o esquecimento daqueles que tanto o festejaram e paparicaram na década precedente.

Até Hervê Cordovil estava traindo o baião e namorando o iê-iê-iê: sua Rua Augusta tocava em todas as rádios, na voz de seu filho Ronnie Cord. O Trio Nordestino se separara, Carmélia Alves, depois de cinco anos na Europa, estava esquecida, Marinês nem precisara viajar para tanto; na rua, quem andasse com sanfona a tiracolo era motivo de gozação. Na época, mais valia trocar o acordeon por um órgão.

Foi quando surgiu em São Paulo o primeiro forró, com o objetivo de promover uma festa de São João fora de época para a colônia nordestina. A iniciativa era de Pedro Sertanejo, cujo filho, Osvaldinho, veio a se tornar um importante acordeonista.

"Quando a música do Nordeste acabou, e chegou a jovem guarda, meu pai teve a ideia de montar um forró na Vila Carioca, em 1963. Mas na época, quando se falava a palavra 'forró' para os sulistas, eles já imaginavam cangaceiro, peixeira, cachaça, morte! Então meu pai pensou que, para o pessoal se acostumar com o forró, pôr na cabeça deles que isso existia e existia bem, ele montou um programa na Rádio ABC, dedicado à música nordestina, e o programa pegou muito bem, porque o público era todo nordestino. Meu pai começou a levar Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Marinês... e o programa foi ao ar durante 15 anos". (Osvaldinho)

Infelizmente, nada disso indicava uma ressurreição do baião e um 'come back' para Luiz Gonzaga. Pelo contrário, tais iniciativas oficializavam o confinamento da música regional num gueto. Gonzaga e seus seguidores, que tinham feito parte do cast das grandes emissoras nacionais, e cantado para os públicos de todas as classes sociais, agora só encontravam espaço restrito nas rádios temáticas, junto a uma determinada audiência. 

Desanimado, consciente da marginalização de sua música, Luiz Gonzaga lançou Pronde Tu Vai, Baião?, verdadeiro manifesto de sua revolta, composta por João do Vale e Sebastião Rodrigues. No entanto, o tom dos demais títulos que figuravam no LP Festa do Milho era leve, festivo e aparecia como um prelúdio ao forró que ia se popularizar e se impor na década seguinte. Uma única música do LP, que não tinha nada de xote, nem de alegria, ficou na memória do público. Era A Morte do Vaqueiro, um baião 'atoadado' com letra de Nelson Barbalho e música de Luiz Gonzaga, inspirado na morte do vaqueiro Raimundo Jacó, primo legítimo de Gonzaga. Na sanfona dele, a toada tomou um tom reivindicativo. O Gonzaga consciente, músico de protesto, estava ali, politizando a morte por assassinato de um vaqueiro, e exigindo satisfação a uma Justiça que lhe parecia ineficiente.

Justamente, o esquecimento no qual caíra, somado à idade (ele estava com 52 anos), faziam com que Gonzaga começasse a se reaproximar de suas raízes, sentisse vontade de voltar à sua terra. Em 1964, ele concretizou esse reencontro, comprando um terreno no Exu. 

"Eu comprei no olho, fiz o contrato no cartório. Era um terreno de umas 25 ou 30 tarefas, todo maltratado. A única coisinha que tinha em pé eram umas ruínas de um engenho antigo. Botei uma máscara (sou alérgico a poeira), e fui olhar. Os quartos não tinham comunicação de ar. Era uma estupidez. Mas aí comecei a fazer a cabeça. Eu queria mais terras. Mas, em volta do meu terreno, as terras pertenciam à igreja. Aí fui ver o padre. Naquela época havia padre em Exu; hoje, quando aparece um, ele arranja uma mulher e vai embora. Bem, mas aí o padre choramingou, que era muito complicado, tinha que pedir autorização ao bispo, ao papa, ia demorar. Mas eu acabei comprando as terras da igreja. Ah, ah!".

Depois de compradas, as terras ficaram lá, esperando... 

Ainda que estivesse atravessando uma fase de declínio, Gonzaga continuava gravando, e muito. Só em 64, lançou dois LPs. O primeiro, que saiu em janeiro, não chegou a se destacar no conjunto da obra do sanfoneiro. 

    Quem roubou minha sanfona
    Foi o Zé, foi Batista, ou Bastião
    Quem roubou minha sanfona, ai...
    Traz de volta seu ladrão

Sanfona do Povo era o título do disco e da música de abertura, inspirada ao autor por uma aventura real, sucedida no ano anterior. 

A caminho da Mayrink Veiga, onde ia tocar, o sanfoneiro parou em determinado lugar para acertar um negócio. Quando retornou ao carro, verificou que lhe haviam roubado a sanfona. Uma sanfona Universal, preta. O Brasil todo ficou sabendo do drama, que proporcionou a Gonzaga novo parceiro, Luiz Guimarães. 

"Eu conhecia Gonzaga do Maranhão, onde ele fazia muita excursão. Eu sou de lá. Quando eu cheguei no Rio, eu conheci Zé Gonzaga, Marinês, Abdias. Gravei músicas com todos. Quando houve o roubo da sanfona, me veio a ideia de fazer uma letra sobre essa história". (Luiz Guimarães) 

Com isso, além do novo parceiro, Gonzaga ganhou também um novo visual. Como precisava de um instrumento bom enquanto não mandava fazer um novo, foi pedir ajuda a Antenógenes Silva, que, além de continuar sendo seu amigo, se tornara seu afinador. Antenógenes lhe emprestou uma sanfona branca.

Gonzaga foi, então, à fábrica Todeschini, e encomendou um novo instrumento... branco. E, para homenagear o ladrão, e também Luiz Guimarães, mandou gravar na sanfona a frase: 'É do Povo', que figurou em todos os instrumentos que possuiu até o fim da vida.

A Triste Partida, segundo LP que Gonzaga gravou esse ano, saiu em dezembro e contava com dois novos compositores. Um, autor da valsa Lembrança da Primavera, era Gonzaga Jr. A música, composta quando ele tinha 14 anos, não chegou a deixar lembranças... O outro era Patativa do Assaré, e sua música deu o nome ao disco. 

Ora, seis meses antes, a história do Brasil tinha dado nova virada, transformando o grande passo para frente, de Juscelino, em tropeço e ditadura militar. O que deixou Luiz Gonzaga totalmente indiferente ou, talvez, mesmo satisfeito, não com a ditadura, mas com os militares. Ele que respeitava tanto o Exército... No entanto, em dezembro, ele lançou A Triste Partida, um dos protestos mais contundentes de toda a sua carreira, comparável a Vozes da Seca e a Asa Branca.

Verdadeira denúncia da condição do nordestino, A Triste Partida é uma espécie de Seara Vermelha cantada em 152 versos. Como o romance de Jorge Amado, conta a saga de uma família de nordestinos vitimados pela seca, família igual a tantas mil outras. O autor, Antônio Gonçalves da Silva, era um cantador de feira, poeta-repentista de grande valor, conhecido por seu pseudônimo de Patativa do Assaré. Gonzaga ouvira um violeiro cantando essa música na feira de Campina Grande e não descansou enquanto não encontrou o autor que, por sinal, vivia no Crato. Disse que ia gravar sua toada, e pediu parceria, em contrapartida. Patativa mandou o sanfoneiro plantar feijão, pois suas obras não estavam à venda para ninguém. Felizmente, Gonzaga era mais inteligente do que malandro. Sabia que, com ou sem parceria, era importante divulgar A Triste Partida. A música tornou-se o carro-chefe do seu repertorio, e a única cujo autor ele sempre citou quando a cantava. De qualquer forma, ele não gravou mais nada do Patativa... apesar da tentativa malograda em 77, quando quis gravar Vaca Estrela e Boi Fubá, que acabou não saindo.

A seguir, entre 64 e 66, ele não gravou nenhum disco novo, lançando apenas duas excelentes coletâneas de sucessos antigos: Quadrilhas e Marchinhas Juninas, de regravações em versão instrumental e Luiz Gonzaga, Sua Sanfona e Sua Simpatia, outra compilação. 

Apesar de tudo, Gonzaga estava satisfeito da vida, pois, nesse ano, fora publicado, pelas Edições Fortaleza, O Sanfoneiro do Riacho da Brígida: vida e andanças de Luiz Gonzaga, uma biografia que ele ditara a Sinval Sá. O sucesso de público do livro foi tal que quatro edições se sucederam no mesmo ano. Curiosamente, o livro não saiu em livraria. Gonzaga se encarregou da venda do livro, com a ajuda de seus músicos.

O fato é que a carreira do sanfoneiro estava com cheiro forte de fundo do poço... 

No nível financeiro, o declínio estava começando a pesar duramente. Tanto que precisou batalhar mais forte ainda para assegurar uma renda que lhe caía, até então, cada mês, sem que ele tivesse que pensar na questão. A venda do livro representou um dos modos de ganhar dinheiro, outro, foi tocar como músico de estúdio e outro, enfim, foi fazer comerciais e jingles políticos. Desde o início da carreira, Gonzaga fizera campanhas eleitorais, sem prestar a menor atenção ao partido político que ia promover: ele era movido a afetividade, animando qualquer campanha, fazendo jingles e comícios para UDN, PSD, PTB, promovendo políticos rivais, partidos opostos e ideologias antagônicas. Agora, na fase difícil, agia por necessidade e com a mesma falta de consciência política. Em suma, entre 'ingenuidade sertaneja e esperteza aprendida nas capitais', Gonzaga, totalmente alheio à noção de ideologia, e de 'politicamente correto', entendia a política à sua maneira e agia segundo critérios bem pessoais.

"Eu sempre tive uma vocação para estar ao lado dos governos eleitos, sem levar em conta o partido político no poder. Eu sempre visei o talento do homem. Eu exalto os políticos quando eles merecem. Quando vejo que um homem público é bom, então eu vou se ele me convida. Assim foi com Getúlio, Dutra, com Jânio Quadros, com Carlos Lacerda... um homem incrível. Eu fui sanfoneiro dele, fiz a campanha dele todinha para o governo da Guanabara, de graça".

Afinal, o que contava para Luiz Gonzaga era o poder, na medida em que só aqueles que o ocupam têm a possibilidade de agir. Então, pouco importava quem o encabeçava. 

"Quem chega com ambulância, remédio, quem dá emprego, ajuda, quem faz barragem? São os governos, nunca foi a oposição. E eu prefiro os que agem". 

Preferia os que, segundo ele, agiam, e os exaltava com a mesma sinceridade com que os denunciava, quando não faziam nada.

Gonzaga dava apoio aos poderosos; em contrapartida pedia ajuda cada vez que podia. Nunca com fins pessoais, sempre para o Nordeste, para o Sertão, para o povo. Aí também, sem o mínimo critério ideológico. 

"Um dia eu o encontrei no aeroporto de Recife, esperando o avião que estava chegando de Brasília. 'E aí, seu Luiz, o senhor está esperando o presidente Geisel?'. Ele respondeu: 'Não, estou esperando Marco Maciel. Tudo o que eu solicito para o Exu, ele atende na hora!'". (Alceu Valença) 

Ele interferia, pedia, solicitava, no plano federal e estadual, para dar ajuda a quem pedisse. Nunca visou uma classe social nisso. Ele não ajudava o proletariado, ou os camponeses, ou os proprietários. Ele resolvia determinado problema, em favor de uma cidade ou de pessoas. A 'ingenuidade sertaneja' residia naquela certeza que ele tinha de que quem chegava ao poder era porque tinha merecimentos. A outra face dessa ingenuidade era o respeito que ele sempre devotou à autoridade. Gonzaga era o fruto e o reflexo, mesmo que o criticasse, do mundo paternalista e patriarcal no qual nasceu. Porém, se no plano ideológico ele era ambíguo, em termos de música e de sensibilidade artística, jamais fez a mínima concessão. Permaneceu fiel ao que sempre fora, orgulhando-se de não abrir mão da sua música, apesar das dificuldades que afrontou na fase do declínio:

"A maioria dos cantores que aparecem com um grande sucesso, quando sente que o sucesso está em declínio, tende a mudar, deixando de lado tudo o que fez antes e procurando outra jogada, mas não uma jogada sua. Eu segui o conselho do velho Januário, de sempre seguir em frente". 

Convicções à parte, estava ficando amargurado com os jovens que tão duramente o tinham expulsado da cena musical, e cantou, pela segunda vez, como já o fizera em Pronde Tu Vai, Baião?, sua revolta num xote, convenhamos, sarcástico e reacionário, que fizera com um novo parceiro encontrado no Crato dois anos antes, José Clementino.

    Cabra do cabelo grande
    Cinturinha de pilão
    Calça justa, bem cintada
    Costeleta bem fechada
    Salto alto e fivelão
    
    Cabra que usa pulseira
    No pescoço, um medalhão
    Cabra com esse jeitinho
    No Sertão de meu Padrinho
    Cabra assim num tem vez, não

Xote dos Cabeludos (Luiz Gonzaga & José Clementino) 

Luiz Gonzaga atingira, efetivamente, o fundo do poço, aquele em que se some nas águas turvas do esquecimento ou se encontra um jeito de sair de lá.

Xote dos Cabeludos fazia parte do LP Óia Eu Aqui de Novo. Justamente neste LP figurava o recém formado time de parceiros, letristas, compositores que iam participar de uma nova fase da carreira do grande sanfoneiro: José Clementino, Luiz Guimarães, Onildo de Almeida e, o mais marcante — porque o acompanharia até o último disco e com ele faria os grandes sucessos das duas décadas que viriam a seguir , João Silva. No LP, João assinava Garota Todeschini, a primeira parceria com Gonzaga. 

"Eu encontrei com Gonzaga e ele me disse que a fábrica de acordeon Todeschini tinha dado três sanfonas a ele, e ele queria homenagear as moças que armavam as sanfonas. Ele me pediu se eu fazia uma música de encomenda. Eu fiz então Garota Todeschini". (João Silva)

Gonzaga ainda não sabia, mas estava saindo do fundo do poço. Só não imaginava que quem o estava puxando para fora eram justamente os garotos cabeludos.

Transcrito (com adaptações) de:

Vida do Viajante: a saga de Luiz Gonzaga. © 2012, Dominique Dreyfus. Editora 34.

Imagens:

1. Luiz Gonzaga. IMS

2. Luiz Gonzaga. O Cruzeiro

3. Pedro Sertanejo. https://www.forroemvinil.com/tag/cantagalo/

4. Patativa do Assaré. O Poeta Que Veio do Povo (doc). looke.com.br

5. Luiz Gonzaga 'na estrada' (Dominguinhos e sanfona, ao fundo). IMS