PENSAR A BOSSA_o1: A Trilogia Inaugural / Comentário
As contracapas
Coube a Antonio Carlos Jobim apresentar o recém chegado João Gilberto.
O texto de contracapa do primeiro LP — que entra para a História como marco fundamental da música brasileira — é assinado pelo maestro.
Ao afirmar que o "baiano bossa nova (...) influenciou toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores", Tom não exagerava: aquele release apenas veio dar feição 'institucional' a um processo que tivera início, indoors, em 1957, para se espraiar pelo país logo depois que saíram os 78 rpm contendo Chega de Saudade e Desafinado, no segundo semestre de 1958.
Tom observa: "Quando João Gilberto se acompanha, o violão é ele. Quando a orquestra o acompanha, a orquestra também é ele" e as várias fitas caseiras gravadas pelo fotógrafo Chico Pereira ou pelo jurista Carlos Coqueijo comprovam: o que se ouve nos discos esteve antes, em síntese, nas versões violão e voz (hoje, décadas depois, as fitas podem facilmente ser encontradas em vídeos disponíveis no YouTube).
[João] "acredita que há sempre lugar para uma coisa nova, diferente e pura, que — embora à primeira vista não pareça — pode se tornar, como dizem na linguagem especializada: altamente comercial", finalizava Jobim.
O pianista e arranjador foi "profético", como notou Ruy Castro em seu (livro) Chega de Saudade: a história e as histórias da bossa nova: o álbum de estreia vende "de saída 35 mil cópias".
Quando, em 1961, os estúdios da Odeon abriram horários para a gravação do terceiro volume da 'trilogia inaugural', o segundo LP, O Amor, o Sorriso e a Flor, do ano anterior, e "que seria o disco de consolidação da bossa nova", ia, diz o escritor, "pelo mesmo caminho".
Pelos "cálculos recentes, [Chega de Saudade] já deve ter ultrapassado a marca dos 500 mil discos vendidos, somente no Brasil". O livro de Castro é de 1990.
De volta à função de contracapista, em O Amor, o Sorriso e a Flor, o agora badaladíssimo Tom Jobim passeia por temas que progressivamente foram incorporados ao imaginário bossa nova, começando pelo sítio de Poço Fundo, onde ele gostava de esperar chegar a "burrice calma que nos dá nove horas de sono sem sonhos", onde compôs ao violão o samba-choro Chega de Saudade e sobre o qual versaria mais tarde em Águas de Março.
A intimidade com a natureza aparece na menção ao "trabalho das formigas cortando as roseiras do jardim", assim como à "trepadeira da varanda, (...) cheia de ninhos".
O tratamento à moda dos diminutivos afetuosos que Vinicius consagrou, 'Joãozinho', presente no texto de 1959, retorna. As crianças, as 'patroas', o 'forro de madeira' e a chuva lá fora circunscrevem o esforço 'sossegado' (mas ininterrupto) dos dois artistas.
Era a mitologia da bossa nova que estava em construção.
Ainda, no entanto, que o "ambiente de paz e passarinhos" em que os dez dias de trabalho transcorreram não tenha sido 'inventado', nem toda a verdade da relação (bastante conturbada desde sempre) entre Tom e João aparece nas duas contracapas.
É só no terceiro disco, no texto para João Gilberto, de 1961, que algo diferente sobressai: quem assina desta vez é o produtor Ismael Corrêa.
O cantor e o maestro estavam rompidos.
Corrêa havia sido determinante para a 'trilogia' quando, em 1958, na condição de diretor de vendas da Odeon, dissera ao diretor artístico Aloysio de Oliveira: "pode gravar que eu garanto".
Para o terceiro disco, Corrêa, que agora ocupava o cargo de Aloysio na gravadora, "dera liberdade a João Gilberto para fazer o que quisesse".
Iniciado com Walter Wanderley e grupo, o projeto, porém, enguiçou e só saiu do lugar quando Tom Jobim aceitou assumir o comando do LP.
Ismael Corrêa se esforça para explicar: João (agora com 30 anos) "é e será sempre um insatisfeito. Chega ao impossível de transmitir sua mensagem de arte às classes mais heterogêneas e no fim se desgosta por não agradar a si próprio".
Era a fama de excêntrico do cantor sendo também institucionalizada.
João Gilberto encerrava o conjunto de 36 músicas com que o Rio de Janeiro inundara de luz e harmonia a cena da música no país ao longo de três anos.
A 'santíssima trindade' (e uma legião de anjos) transfigurou para sempre a música brasileira.
Vinicius, que esteve 'preso' em missão diplomática no Uruguai durante a explosão de O Amor, o Sorriso e a Flor, reaparece triunfante no disco final, em tempo de retomar a arquicélebre colaboração com o companheiro do Orfeu e se coloca a tarefa de ampliar o leque de parceiros antes mesmo que os outros dois elementos do triângulo se autoexportassem para os Estados Unidos.
Lá fora, veio o show do Carnegie Hall em 1962, João gravou Getz Gilberto (com Tom) em 1964 e Tom (sem João) gravou Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim em 1967. Aqui, ao mesmo tempo, Vinicius forma uma geração — Edu, Francis, Dori, João Bosco... sem se afastar dos veteranos Baden, Carlinhos Lyra... e por fim se unindo à Velha Guarda: Pixinguinha, Garoto, Adoniran...
Era o "mundo inteirinho" se enchendo de graça "por causa" da bossa.
Como teorizou Caetano Veloso, aquelas novidades, cuja síntese mais bem acabada está na trilogia inaugural de João Gilberto, marcaram "uma posição em face da feitura e fruição de música popular no Brasil que sugeria programas para o futuro e punha o passado em nova perspectiva".

