PENSAR A BOSSA_o4: O Projeto Utópico da Bossa Nova / alguns discos

Um aluno dele me contou que o professor Walter Garcia formulou uma descrição do percurso de João Gilberto, mais ou menos nos termos a seguir (cito de memória):

João Gilberto, desde os primeiros três LPs, os da chamada 'fundação' da bossa nova, esteve em busca permanente, sempre à procura de algo que podemos chamar de 'sonoridade', ou 'estética', ou mesmo 'invenção'.

Isso significa que, apesar de toda a influência que exerceu sobre a cultura brasileira, João, ele próprio, não se deu por satisfeito até 'encontrar' aquele 'algo'.

Quando encontrou, disse Garcia (segundo o aluno), João Gilberto não arredou pé deste lugar conquistado, dedicando-se a lapidar incansavelmente sua obra como um todo, agora de acordo com os novos padrões.

Os prováveis erros deste comentário são todos exclusivamente meus (incluído o uso da referência bibliográfica informal), mas quero crer que o ponto de chegada (que é também de partida) do percurso gilbertiano está localizado no LP Amoroso, de 1977.

A discografia do artista não é muito extensa. Sendo assim, podemos pensar que:

Chega de Saudade de 1959, O Amor, o Sorriso e a Flor, de 1960 e João Gilberto, de 1961, mais um compacto duplo com quatro músicas do filme Orfeu Negro, também em 1959, fotografam o impacto inicial da bossa nova.

Quase quatro anos mais tarde viria um marco da internacionalização tanto do estilo quanto do renome de João: Getz/Gilberto, disco que divide opiniões até hoje pela presença do saxofonista norte-americano Stan Getz e a abordagem 'pesadona' de seus improvisos, como querem os críticos da parceria.

Em 1966 saiu um 'ao vivo' do Getz/Gilberto que além de ampliar a presença de Astrud Gilberto, apenas confirma o que o disco de estúdio já trazia (menos o piano de Tom Jobim).

Para chegar ao Amoroso de 1977, dez anos depois, há o En Mexico de 1970, o 'Álbum Branco' de 1973 e, quase lá, The Best of Two Worlds, novamente com Stan Getz, de 1976.

Os discos de 70 e 73, cultuados por muitos admiradores, de certa maneira confirmam a ideia de um João Gilberto perseguindo possibilidades no campo do repertório, do uso da voz e dos ritmos e harmonias do violão. Possibilidades que dão a impressão de terem sido deixadas para trás, assim como muitos elementos dos discos da 'Trilogia Inaugural' foram transcodificados num novo padrão que o Amoroso explicita.

The Best of Two Worlds, estranhamente assinado como Stan Getz Featuring João Gilberto, por sua vez, registra o que se pode chamar de momento de transição entre as camadas arqueológicas. Ainda não é o Amoroso, mas também soa diferente de tudo o que veio antes.

É inútil tentar entender as diferenças de fase aqui mencionadas sem considerar que a arte de João Gilberto é inteiramente da ordem do detalhe, do mínimo, às vezes do infinitesimal. Ou, nas palavras do professor Lorenzo Mammì: a "perfeição de João Gilberto (...) carrega objetivamente os estigmas da obsessão".

Também inútil seria tentar descrever em palavras o que distingue o Amoroso de tudo o que João produziu antes. Melhor ouvir.

Aqui no blog já temos a Trilogia Inaugural na íntegra, mais a participação de João no concerto do Carnegie Hall em 1962.

Nas playlists deste post, além do Amoroso podemos escutar o instante em que a 'invenção' finalmente encontrada aparece em toda a sua plenitude: a gravação do show de Montreux em 1985.

Depois de Montreux, muita coisa bonita estava por vir, mas é nítido como tudo se encaixa no novo paradigma. É esse, inclusive, o 'som' de João Gilberto que as novas gerações conhecem melhor. Som esse que, curiosamente, nem de longe lembra o que o senso comum chama de 'bossa nova', aquele tipo de abordagem muito influenciada pelos músicos norte-americanos, com levadas e instrumentação 'próprias'. Neste sentido, Antonio Carlos Jobim se deixou permear mais pelos 'gringos': os discos de Tom soam mais 'internacionais' que os de João, um cara 100% intransigente.

DISCOGRAFIA JOÃO GILBERTO

Em estúdio:

Chega de Saudade. 1959.

O Amor, o Sorriso e a Flor. 1960.

João Gilberto. 1961.

Getz/Gilberto. 1964.

João Gilberto en México. 1970.

João Gilberto. 1973.

The Best of Two Worlds. 1976.

Amoroso. 1977.

Brasil. 1981.

João. 1991.

João Voz e Violão. 2000.

Ao vivo:

Getz/Gilberto #2. 1966.

João Gilberto Prado Pereira de Oliveira. 1980.

Live at the 19th Montreux Jazz Festival. 1986.

Eu Sei Que Vou Te Amar. 1994.

João Gilberto Live at Umbria Jazz. 2002.

João Gilberto in Tokyo. 2004.

Um Encontro no Au Bon Gourmet. 2015.

Getz/Gilberto '76. 2016.

João Gilberto com Os Cariocas in Buenos Aires, Live at Club 676. October, 1962. 2022.

Relicário: João Gilberto (Ao Vivo No Sesc Pompeia 1998). 2023.