PENSAR A BOSSA_o2: Verdade Tropical / Comentário
Walter Garcia, no Brasil, o principal nome da Academia quando o assunto é música popular, inicia o livro Bim Bom, a contradição sem conflitos de João Gilberto, formulando a seguinte questão: "qual o elemento formal fundamentalmente responsável" pela enorme importância que se atribui ao estilo proposto pelo cantor e violonista baiano desde o distante ano de 1957 até os dias de hoje?
O livro, que é uma elaboradíssima resposta à pergunta, usa como ponto de partida alguns 'depoimentos'.
Ronaldo Bôscoli:
Foi através dele [João Gilberto], através do violão dele, que nasceu a bossa nova. Ele definiu, com aquela batida, o que só havia sido indicado por Johnny Alf, Lúcio Alves e outros grandes nomes da pré-bossa nova. O disco Chega de Saudade foi definitivo.
Tom Jobim:
A música Outra Vez é anterior à bossa nova. O João colocou o ritmo de bossa nova e seguiu com a orquestra. Eu tinha gravado com o Dick Farney, era um samba-canção. (...) gravada pelo João, a música ficou com uns espaços, enquanto o ritmo vai correndo solto, e as frases melódicas aparecem de vez em quando. O grande salto do samba-canção para a bossa nova foi essa batida do João.
Eu tinha uma série de sambas-canção de parceria com o Newton Mendonça, mas a chegada do João abriu novas perspectivas: o ritmo que o João trouxe. A parte instrumental — harmônica e melódica — essa já estava mais ou menos estabelecida.
Roberto Menescal:
Sem o violão do João Gilberto não haveria bossa nova.
É necessário notar como as falas de Bôscoli, Jobim e Menescal apontam para algo que está no passado, "anterior" à bossa nova e como o aparecimento de João Gilberto 'reconfigura' essa, podemos chamar, 'tradição'.
A bossa nova, portanto, não brota 'do nada', não irrompe 'no vácuo'. Ao contrário, como teorizou Caetano Veloso em Verdade Tropical, com João, toda uma geração de brasileiros é levada a "rever" o gosto, o acervo e — o que é "mais importante" — as "possibilidades" que a cultura do Brasil tinha (e tem) para desenvolver.
Na playlist que acompanha o post PENSAR A BOSSA_o2: Verdade Tropical, 20 gravações, realizadas por Dick Farney, Os Cariocas, Lúcio Alves e Dick Farney na década de 1950, dão ideia de tudo isso que Garcia aponta nos primeiros parágrafos de seu Bim Bom.
Somadas à escuta dos três primeiros LPs de João Gilberto, disponíveis no post PENSAR A BOSSA_o1: A Trilogia Inaugural / Os discos, é possível começar a remontar o momento da deflagração do movimento da bossa nova que, retornando a Caetano, significa um "processo radical de mudança de estágio cultural" no Brasil.
Bibliografia:
Bim Bom, a contradição sem conflitos de João Gilberto. © 1999, Walter Garcia, Editora Paz e Terra S.A.
Verdade Tropical. © 1997, Caetano Veloso. Companhia das Letras.

