PENSAR A BOSSA_o1: A Trilogia Inaugural
CHEGA DE SAUDADE
João Gilberto é um baiano 'bossa nova' de vinte e sete anos.
Em pouquíssimo tempo influenciou toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores. Nossa maior preocupação neste long-playing foi que Joãozinho não fosse atrapalhado por arranjos que tirassem sua liberdade, sua natural agilidade, sua maneira pessoal e intransferível de ser, em suma, sua espontaneidade.
Nos arranjos contidos neste long-playing Joãozinho participou ativamente; seus palpites, suas ideias estão todos aí. Quando João Gilberto se acompanha, o violão é ele. Quando a orquestra o acompanha, a orquestra também é ele.
João Gilberto não subestima a sensibilidade do povo.
Ele acredita que há sempre lugar para uma coisa nova, diferente e pura que — embora à primeira vista não pareça — pode se tornar, como dizem na linguagem especializada, altamente comercial. Porque o povo compreende o amor, as notas, a simplicidade e a sinceridade. Eu acredito em João Gilberto porque ele é simples, sincero e extraordinariamente musical.
P.S. — Caymmi também acha.
O AMOR, O SORRISO E A FLOR
Em janeiro não aguentei mais e subi a serra. Todos sabem como foram as águas em 1960. Como choveu! Cheguei à fazenda, meti-me numas calças velhas e esperei a chegada daquela burrice calma que nos dá nove horas de sono sem sonhos.
O mau tempo e o barro nos mantinham a todos presos em casa. Bom era quando o dia amanhecia melhorzinho e eu e meu filho, ainda de pijama, íamos ver o trabalho das formigas cortando as roseiras do jardim. Mas, qual! Quando o sol começava a querer esquentar, vinha logo a chuva e corríamos para dentro.
Uma noite, já ia apagar os lampiões, quando ouvi o motor de um carro que pelejava para subir a rampa. João Gilberto e senhora estavam chegando. Tínhamos combinado que ele viria, mas, devido ao mau tempo, não acreditávamos que Joãozinho chegasse, e logo de táxi!
Depois, ele me contou que, atolado na lama, esperou um trator puxar o carro. Vinha cansado e descansou uns dois dias. Então, começamos a trabalhar. Fugimos da sala onde brincavam as crianças presas pela chuva, fomos para um dos quartos vazios, com forro de madeira, que, aliás, dá boa acústica. Lá, longe da cidade e do telefone, trabalhamos sossegados uns 10 dias. De vez em quando, o trabalho era interrompido pelas crianças, que irrompiam no quarto trazendo algum filhote de tico-tico ou de coleiro 'caído' do ninho. Nessa época do ano, a trepadeira da varanda fica cheia desses ninhos de passarinhos pequenos. Às vezes, também as patroas entravam com café cheiroso, biscoitos e ficavam ali um pouco.
Aí, Joãozinho partiu. Dias depois, recebo o recado de que o disco estava atrasado e Aloysio havia marcado a gravação. E tudo foi feito num ambiente de paz e passarinhos.
P.S. — As crianças adoraram O Pato.
JOÃO GILBERTO
João Gilberto sabe onde quer ir e, por isso mesmo, é e será sempre um insatisfeito. Chega ao impossível de transmitir sua mensagem de arte às classes mais heterogêneas e no fim se desgosta por não agradar a si próprio.
Para a feitura deste disco no qual ele juntou seu gênio aos talentos de Antonio Carlos Jobim e Walter Wanderley, o nosso maior mérito foi o de deixar João Gilberto completamente à vontade.
E ele ficou à vontade: escolheu o repertório (belíssimo), fez alguns arranjos e colaborou nos demais. Mas não ficou satisfeito com o disco.
É que ele sabe onde quer ir... um lugar de eterna primavera, um mundo de um só idioma onde tudo seja verdade poética, ou onde a verdade seja a própria poesia.
Mas, sabemos que o Shangri-La do seu público é mais modesto e acessível. Assim, temos a certeza de que vocês vão gostar.
Transcrito de:
Antonio Carlos Jobim, contracapa do LP Chega de Saudade, Odeon, 1959.
Antonio Carlos Jobim, contracapa do LP O Amor, o Sorriso e a Flor, Odeon,1960.
Ismael Corrêa, contracapa do LP João Gilberto, Odeon, 1961.
Fotos das capas:
Chico Pereira.





