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ANOS 1960 — 1970_19: Disparada

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6 0 ANOS ESTA NOITE O cochilo no banco de trás do Fusca foi interrompido quando a voz, já naturalmente tonitruante, se elevou. O motorista parecia agitado: "Airto, pegue o lápis, anote um verso que eu acabei de pensar, senão vou esquecer". No banco do carona, o percussionista do grupo abriu o porta-luvas, encontrou o proverbial papel de embrulho que socorre os poetas longe de casa e tratou de registrar as redondilhas que Geraldo, mãos no volante e olhos na estrada, lhe ditava: prepare o seu coração... pras coisas que eu vou contar... eu venho lá do sertão... e posso não lhe agradar. De volta a São Paulo, quando Theo de Barros, dias depois, entregou pronta a melodia feita para o novo poema do criador de Porta Estandarte , Hilton Acioli, o passageiro que acordara a tempo de ver nascer uma das mais marcantes peças de toda a música brasileira, foi dos primeiros a aprendê-la. Acioli atuava como diretor musical do trabalho de Geraldo Vandré e juntos decidiram que Disparada seria ...

Oito Discos Que Delinearam a MPB

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50 anos em 5. Esse era um dos lemas, ou slogans, do presidente Juscelino Kubitschek, promessa de desenvolvimento acelerado, de recuperar o Brasil do atraso. Seu mandato vai de 1956 a 1961. Época de intensa floração na cultura nacional. Aqui no blog: A série PENSAR A BOSSA tentou registrar o período JK, seus antecedentes e suas consequências. A série  ANOS 1960 — 1970 , procura captar o período seguinte. Até agora já foram ao ar 18 posts. Chega-se com eles a 1965. Destes 18 posts e destes 5 anos, destaco aqui 8 playlists com os LPs que selecionei como aqueles que indicaram primeiro os caminhos que a Música Popular Moderna, depois MPB, trilharia a partir de seu surgimento. Foram tempos de grande aceleração. Criativa. Ideológica. Industrial. 5 anos que mais parecem 50. Assumindo o risco de soar exagerado, creio que se pode afirmar que tudo o que aconteceu na música popular do Brasil desde então (mais de 6 décadas) descende, em alguma medida, de um desses 8 discos. Não pretendo aponta...

ANOS 1960 — 1970_18: A Banda

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A banda foi uma explosão. Chico passou a ser reconhecido na rua e ficou famoso. "Foi curioso porque foi acidental. Era para a Nara cantar. Mas na véspera o Manoel Carlos decidiu que eu cantaria. Nos ensaios eu estava lá com o violão, tocava só com o violão, depois com a Nara. Alguém viu e falou: — Porque não faz assim, Chico entra, canta a música só ele e o violão, depois entra a banda (era banda mesmo, de coreto de praça) e a Nara canta 'estava à toa na vida'. Eu fazia uma espécie de introdução. Mas foi assim que ela foi apresentada no festival. Aí fiquei conhecido". Nos primeiros dias, A Banda vendeu mais de 50 mil discos. Ganhou elogios de todos os lados. Na sua coluna no Globo, em 13 de outubro de 1966, Nelson Rodrigues dizia: "Desde a sua primeira audição, A Banda se instalou na História. O povo não assobiava mais. Voltou a assobiar por causa do Chico... Imaginem vocês que um dia desses entro em casa e encontro minha mulher e minha filhinha Daniela com olh...

ANOS 1960 — 1970_17: Deus e o Diabo na Terra do Sol

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  O cego Zé, guiado apenas por seu primo Pedro das Ovelhas, me disse que ele cantava pra não perder o juízo; pegava o cavaquinho e, voz de angústia furando as tardes de Monte Santo, invocava amores perdidos e crimes terríveis. Quem anda pelo sertão conhece bem um cantador velho e cego (cego vê a verdade no escuro e assim canta o sofrimento das coisas)  que bota os dedos no violão e dispara nas feiras, levando de feira em feira e do passado para o futuro, a legenda sertaneja; história e tribunal de Lampião, vida, moralidade e crítica. Na voz de um cantador está o "não" e o "sim" — e foi através dos cantadores que achei as veredas de Deus e o Diabo nas terras de Cocorobó e Canudos. Sou mau cantador — sem ritmo e sem memória, fiquei por tempos a ruminar e reinventar a essência das coisas que tinha ouvido — e um enorme romance em versos nasceu, impuro e rude, narrando o filme. Acabando o trabalho, pronta a montagem, restavam imagens neutras, mortas, que necessitavam da...

ANOS 1960 — 1970_16: O Ponto Zero

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Arrastão As TVs da época exibiam suas programações apenas nas cidades em que as captavam. São Paulo não via o que era transmitido por emissoras afiliadas no Rio e vice-versa. Se uma praça quisesse ter o programa da outra, que o produzisse em seus estúdios, nos mesmos moldes, ou esperasse alguns dias para retransmiti-lo. Edu Lobo estava ansioso para saber como Elis cantaria Arrastão na Excelsior do Rio. Ele estava em São Paulo, ensaiando a trilha do musical Arena Conta Zumbi , de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, e saberia de tudo por telefone. Assim que Elis apareceu na tela para os cariocas, Edu estava no Bar Redondo, no centro da cidade, com a mãe ao telefone narrando tudo o que via. Enquanto Elis cantava, a cantora Claudette Soares, estupefata, virou-se para a intérprete Maysa e disse a frase que resumia a dimensão de algo que Edu não podia ver. "É, Maysa, quem cantou, cantou. Acabou. Vamos embora". A classificação geral, narrada pela mãe de Edu Lobo, ficava assim: ...