ANOS 1960 — 1970_16: O Ponto Zero

Arrastão

As TVs da época exibiam suas programações apenas nas cidades em que as captavam. São Paulo não via o que era transmitido por emissoras afiliadas no Rio e vice-versa. Se uma praça quisesse ter o programa da outra, que o produzisse em seus estúdios, nos mesmos moldes, ou esperasse alguns dias para retransmiti-lo. Edu Lobo estava ansioso para saber como Elis cantaria Arrastão na Excelsior do Rio. Ele estava em São Paulo, ensaiando a trilha do musical Arena Conta Zumbi, de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, e saberia de tudo por telefone.

Assim que Elis apareceu na tela para os cariocas, Edu estava no Bar Redondo, no centro da cidade, com a mãe ao telefone narrando tudo o que via. Enquanto Elis cantava, a cantora Claudette Soares, estupefata, virou-se para a intérprete Maysa e disse a frase que resumia a dimensão de algo que Edu não podia ver. "É, Maysa, quem cantou, cantou. Acabou. Vamos embora".

A classificação geral, narrada pela mãe de Edu Lobo, ficava assim: em quinto lugar, Cada Vez Mais Rio, com Wilson Simonal; em quarto, Queixa, com Cyro Monteiro; em terceiro, Eu Só Queria Ser, com Claudette Soares.

Faltavam dois. Edu sentiu taquicardia. Segundo lugar, Valsa do Amor Que Não Vem, de Baden e Vinicius, cantada por Elizeth Cardoso.

"Tá vendo, acabou", desabafou o compositor ao amigo Guarnieri. "Eles não vão dar o segundo e o primeiro lugar para uma letra do Vinicius", lamentou. Primeiro lugar: Arrastão. E, então, não se ouviu mais nada. Edu e Guarnieri gritaram de São Paulo, a mãe de Edu gritou do Rio, e o teatro inteiro aplaudiu. A festa jogava o nome do compositor nas alturas e o de Elis nas estrelas. A cantora chorou e cantou a canção vitoriosa com os braços giratórios. Depois, voltou a ser a moça imprevisível que Vinicius havia acabado de batizar como Pimentinha. Arrastão era boa, mas a sua canção preferida mesmo era Por um Amor Maior, de Francis Hime e Ruy Guerra.

Transcrito de:

Elis — Nada Será Como Antes, © 2025, Julio Maria. Companhia das Letras.

Samba Eu Canto Assim

Por Um Amor Maior é a terceira faixa do LP Samba Eu Canto Assim.

O disco estava pronto desde janeiro, mas para cumprir a exigência de ineditismo das concorrentes, a gravadora resolveu adiar o lançamento para depois do I Festival Nacional de Música Popular Brasileira, que aconteceu em três etapas durante os meses de março e abril de 1965 e que, como o pessoal da Philips imaginava, consagrou a nova cantora.

Ainda que sejam guardadas as devidas proporções, não é exagero dizer que o impacto da chegada de Elis Regina só encontra paralelo no surgimento de João Gilberto em 1958.

Sérgio Cabral está 100% correto quando afirma que o LP de estreia de Nara Leão, um ano antes de Samba Eu Canto Assim, é "o primeiro da linha musical que passaria a ser identificada como MPB".

Nara, porém, era cantora de recursos escassos. Ao contrário da bossa, "derramada para dentro", a nascente MPB se espalhava em muitas direções. Essas direções estão todas mapeadas no disco que Nara lança pela ELENCO, mas é o canto de Elis que vai dar materialidade ao espírito épico que caracteriza a tal 'nova geração'.

Processo

O repertório que ambas escolheram, muito assemelhado, não surgiu de repente. Era resultado de intensa atividade nos palcos do CPC e do Arena, sets de filmagem do Cinema Novo, das noites do Zicartola, do Beco das Garrafas, das casas noturnas de São Paulo...

Tamanha concentração de acontecimentos naquele início de década, fazia lembrar o lema de Juscelino: 50 anos compactados em 5.

Opinião, com Nara, Zé Keti e João do Vale (depois, Bethânia), sintetizou grande parte desse movimento e, durante meses, arrastou pequenas multidões ao teatro.

Arrastão vai marcar o momento em que toda essa efervescência é oferecida 'às massas' consumidoras de TV.

O ponto zero da Era dos Festivais. 

Samba Eu Canto Assim antecipava o que estava por vir ao escolher compositores de quem ouviríamos falar ao longo de toda a década: Theo de Barros, Marcos e Paulo Sérgio Valle, os veteranos Carlos Lyra, Baden, Vinicius, e, principalmente a trinca Edu Lobo, Francis Hime e Ruy Guerra.

Trazia, ainda, uma massa orquestral que só uma cantora de potência plena como Elis seria capaz de encarar. Os arranjos e interpretações do disco remetem — sem prejuízo do nacionalismo inegociável da época — a Sinatra, Sarah, Ella. Além da potência, a gaúcha era ágil, cheia de swing, cheia de imaginação. "Nunca, jamais se viu" algo assim no Brasil.

Diante desse cenário, João Gilberto fulminou: "bobagem, demagogia".

A música que "os meninos" de então estavam fazendo era "pretensiosa, sem autenticidade e sem espontaneidade".

Acontece que o caminho, a despeito do guru ter ou não razão, era sem retorno.

O título da biografia escrita por Julio Maria é certeiro: "nada" voltaria a ser "como antes".

E Claudette Soares entendeu tudo ao presenciar em tempo real Elis e o Arrastão:

Quem cantou, cantou.

Imagens:

Capa de Samba Eu Canto Assim, 1965. Selo Philips. Produção Armando Pittigliani.

Vídeo: Arrastão, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes,  ao vivo no I Festival Nacional de Música Popular Brasileira.

Revista Realidade, matéria Os Novos Donos do Samba, novembro de 1966.

 Playlist Samba Eu Canto Assim full album.