ANOS 1960 — 1970_18: A Banda
A banda foi uma explosão. Chico passou a ser reconhecido na rua e ficou famoso.
"Foi curioso porque foi acidental. Era para a Nara cantar. Mas na véspera o Manoel Carlos decidiu que eu cantaria. Nos ensaios eu estava lá com o violão, tocava só com o violão, depois com a Nara. Alguém viu e falou: — Porque não faz assim, Chico entra, canta a música só ele e o violão, depois entra a banda (era banda mesmo, de coreto de praça) e a Nara canta 'estava à toa na vida'. Eu fazia uma espécie de introdução. Mas foi assim que ela foi apresentada no festival. Aí fiquei conhecido".
Nos primeiros dias, A Banda vendeu mais de 50 mil discos. Ganhou elogios de todos os lados.
Na sua coluna no Globo, em 13 de outubro de 1966, Nelson Rodrigues dizia:
"Desde a sua primeira audição, A Banda se instalou na História. O povo não assobiava mais. Voltou a assobiar por causa do Chico... Imaginem vocês que um dia desses entro em casa e encontro minha mulher e minha filhinha Daniela com olhos marejados. Acabavam de ouvir A Banda. Dias depois, eu próprio ouvi a marchinha genial. E a minha vontade foi sair de casa, me sentar no meio-fio e começar a chorar".
Rubem Braga escreveu, também em 1966: "A coisa mais importante no momento em matéria de música popular é mesmo Chico Buarque de Hollanda... A Banda é algo que todo mundo entende e que emociona todo mundo... é uma boa crônica, cheia de poesia".
Chico tinha 22 anos. Mais tarde, quando Nelson Rodrigues começou a falar mal de todo mundo que era de esquerda, mas continuava elogiando Chico, o compositor desabafou numa entrevista: "Preferia que ele falasse mal de mim também". E aí, para seu alívio, pois já estava ficando 'chato', foi incluído na lista dos mal falados.
Depois de A Banda, a vida de Chico mudou. Começou a receber convites para fazer shows em vários lugares, inclusive em outros estados. Na época, Chico tinha um dos maiores salários da Record. Ele e Simonal, que também ganhava muito bem, só perdiam para Roberto Carlos.
Aí tinha convite para fazer show pelo Brasil afora, ele só com o violão. Foi a Portugal, à Argentina.
"Achava uma farra, ganhava um cachê. Entrava num clube e não tinha rigor profissional nenhum. Geralmente eram clubes. O pessoal estava dançando, aí parava a música, eu entrava e cantava umas 10, 12 músicas, em meia hora. Era bem conhecido. Não conheciam as músicas todas, mas esperavam eu cantar A Banda. Eu cantava Pedro Pedreiro, Olê, Olá, A Rita, fazia um certo sucesso, mas todo mundo esperava A Banda, que eu deixava para o final.
A maioria dos shows era isso: um microfone só, que se colocava entre a voz e o violão, se ficava meio corcunda, e o banquinho, perna alta para o violão soar mais ou menos na mesma direção que a voz. Não lembro de ficar muito nervoso porque levava aquilo na flauta. Pra mim era uma brincadeira."
Mesmo achando que era brincadeira, Chico começou a viver de música. Sua mãe é que foi à faculdade trancar a matrícula, esperando que algum dia ele voltasse para a Arquitetura. Chico já sabia que não iria voltar.
Em 1966, lançou o primeiro LP, que trazia na capa o nome do artista: Chico Buarque de Hollanda. Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, afirmou em sua coluna que o primeiro álbum de Chico foi "a melhor coisa que aconteceu num estúdio de gravação no Brasil nos últimos tempos".
Veio o segundo, no ano seguinte (Chico Buarque de Hollanda, Volume 2), depois, show, show, show. Ainda não havia esse assédio todo. "Eu vivia normalmente, aqui no Rio nunca teve muito isso não".
Casou com Marieta aos 22, ela com 20. Fez para Nara gravar Com Açúcar, Com Afeto e Quem Te Viu, Quem Te Vê. "Essas músicas fizeram sucesso e aí engrenou." Veio o terceiro LP, em 1968 (Chico Buarque de Hollanda, Volume 3) e, logo depois, o exílio na Itália.
A censura só apareceu institucionalmente a partir do AI-5, em 1969. Antes não existia. A censura prévia era muito eventual, uma coisa aqui, outra ali. Tamandaré tinha sido proibida por ordem da Marinha. Mas censura mesmo, de verdade, Chico só foi conhecer quando voltou da Itália, em 1970. Aí, passou a ter que mandar a letra da música para aprovação em Brasília.
Chico nunca teve aulas de violão ou de voz. Apenas de teoria musical com Vilma Graça, no começo da carreira. Quando lançou seu primeiro LP, ele escreveu: "O samba chega à gente por caminhos longos e estranhos, sem maiores explicações".
Transcrito (com adaptações) de:
Chico Buarque Para Todos. © 1999, 2016, Regina Zappa. Ímã Editorial.
Imagens:
Chico, Odete Lara e o MPB4, elenco de Pra Ver a Banda Passar, em temporada na boate Arpège. Revista Manchete, 1966.
Chico e Nara, Revista Manchete, 1966.
Capa de Chico Buarque de Hollanda, Volume 1. 1966.



