Leitura Complementar: NOEL ROSA_o1 / Marinheiros em Revolta
Por duas vezes os marinheiros fizeram estremecer o Rio de Janeiro em 1910, num sombrio capítulo de história que ficaria conhecido como Revolta da Chibata. Uma, a 22 de novembro, sete dias após ser empossado na Presidência da República o marechal Hermes Rodrigues da Fonseca. A segunda, na noite de 9 para 10 de dezembro.
João Cândido, filho de tropeiro gaúcho que lutara na Guerra do Paraguai, praça-de-pé aos 30 anos, servia a bordo do encouraçado Minas Gerais quando liderou os companheiros deste e de mais três navios (o Bahia, o São Paulo e o Deodoro) no levante para que se abolissem os castigos corporais e outros maus-tratos aos marinheiros. O ponto de partida foram as 250 chibatadas aplicadas no fuzileiro Marcelino Rodrigues de Menezes, no convés do navio, diante da tropa perfilada e de tambores rufando solenemente: ... "as costas deste marinheiro" — diria depois o comandante da Marinha José Carlos de Carvalho, mandado ao Minas Gerais para parlamentar com os revoltosos — "assemelham-se a uma tainha lanhada para ser salgada". Um disparo de canhão, naquela noite do dia 22, deflagrava o levante e estremecia a cidade.
A Marinha de então ainda levava a extremos sua tradição elitista, escravagista quase. Recrutava soldados à força entre as populações pobres, impunha-lhes um tempo de serviço de quinze anos, pagava-lhes baixos soldos, obrigava-os a trabalhos pesados, alimentava-os de má comida. Tudo sob um regime disciplinar controlado por certa Companhia Correcional que, apoiada em decreto-lei dos tempos de Deodoro, ainda adotava prisão em solitária, a ferro, pão e água, e castigos físicos que incluíam bolos e chibatadas. Foi principalmente contra estas últimas que se insurgiram João Cândido e seus companheiros.
Oficiais e marinheiros foram mortos nas primeiras ações a bordo dos quatro navios. Uma bomba com que os revoltosos pretendiam atingir o Arsenal de Marinha foi cair, por erro de cálculo, numa casa de cômodos da Rua da Misericórdia. Duas crianças morreram. Outras bombas fizeram estragos e vítimas no Centro. Por quatro dias João Cândido comandou a pequena frota e 2.379 homens, passando a ser chamado por seus simpatizantes de o Almirante Negro. Por quatro dias a cidade viveu de respiração suspensa: os revoltosos ameaçavam bombardeá-la caso as exigências não fossem atendidas. Quatro dias de indignação para o alto comando da Armada, de discussões parlamentares, de reuniões ministeriais. E o novo presidente sem saber o que fazer. Ao fim do quarto dia, o Congresso votou pela anistia. Os marinheiros deveriam se entregar, nenhuma punição lhes seria imposta. Ficava claro que os castigos corporais seriam abolidos.
Mas logo se viu que a anistia não passava de uma fraude. A maioria dos revoltosos seria expulsa da Marinha. Muitos, sob a acusação de conspiração, foram presos, abarrotando as celas da ilha das Cobras. Sentindo-se desmoralizado, o próprio Governo se incumbia de alimentar rumores de que novo levante estava para acontecer a qualquer momento. Hermes queria o estado de sítio, precisava de um pretexto. Até que as tensões transformaram os rumores em fatos: às 10 horas da noite de 9 de dezembro um toque de avançar e gritos de "viva a liberdade!" foram ouvidos no pátio da ilha das Cobras. O Batalhão Naval se amotinava, libertava os presos, destruía as comunicações, tomava a casa das armas, disparava os canhões.
Desta feita, porém, o Governo estava de sobreaviso. Navios, já agora sob o comando de oficiais, bombardearam o local. O mesmo fariam os canhões do Exército instalados na Praça 15 de Novembro, nos morros da Conceição e do Castelo, no Mosteiro de São Bento. Conta Edmar Morel, o historiador da revolta, que os disparos foram menos certeiros do que pretendiam os artilheiros da Armada. Fez-se necessário que um oficial austríaco, de passagem pelo Rio, calibrasse os canhões para que se atingissem os alvos. Até um padre, colocando a medalha de um santo sobre a alça de mira, evocou a proteção divina às armas do marechal. Antes, balas perdidas, de um lado e do outro, tinham atingido o Liceu de Artes e Ofícios, o Museu Comercial, o Colégio Pedro II, o Tesouro Nacional. Agora, balas legalistas abatiam dezenas, centenas de marinheiros. O próprio presidente foi inspecionar algumas de suas cidadelas. No Mosteiro de São Bento, soube que uma bomba rebelde destruíra parcialmente as celas dos monges. Um deles, Dom Joaquim de Luna, teve arrancados três dedos da mão direita.
Mais estragos: na Rua Dom Manuel, no Catumbi, Frei Caneca, Carmo, São Salvador. O Rio ficou em pânico. Famílias inteiras apertaram-se em trens rumo a cidades serranas. Outras, em bondes, carroças, charretes, tomaram o caminho dos subúrbios.
O levante foi por fim sufocado. João Cândido, que nada tivera com as ações da ilha das Cobras, acabou preso. Incontáveis marinheiros, entre culpados e inocentes, revoltosos e anistiados, também. Muitos foram deportados para os seringais do Acre, onde morreriam como escravos de senhores da borracha. A bordo do Satélite, cargueiro do Lloyd que os levou para o Norte, quase secretamente, outros seriam sumariamente fuzilados. Escrevia-se então um dos mais trágicos episódios da história militar do Brasil. João Cândido e dezessete outros líderes da primeira revolta, todos já anistiados, foram atirados no fundo de uma masmorra na ilha das Cobras. Dezesseis morreriam asfixiados pela cal que lhe atiraram sobre os corpos. Torturas e fuzilamentos se seguiram. Ali João Cândido permaneceu por dezoito meses, até que o mandaram para o Hospital dos Alienados, supondo-se ter enlouquecido. Engano. Mas o Almirante Negro ainda ouvia em seus pesadelos o som da chibata sobre as costas dos companheiros, seus próprios gemidos na masmorra, o troar de canhões que ele não disparara naquele dezembro.
Transcrito de:
Noel Rosa, Uma Biografia. © 1990, João Máximo & Carlos Didier. Editora UNB.
Revoltosos no comando do Minas Gerais. Autor desconhecido. Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.
Capa do Suplemento de O Malho, sete dias depois do segundo levante. Biblioteca Nacional Digital / Hemeroteca.

