Pequenas Biografias: NOEL ROSA_o2
O menino se chamará Noel por ter nascido às vésperas do Natal.
E pelo amor do pai às coisas de França, o idioma, a cultura, a história do país de Bonaparte. Que por sinal é o maior de todos os heróis para este mineiro calado, introspectivo, que se faz repentinamente falante quando se trata de lembrar episódios como a queda da Bastilha e as campanhas napoleônicas.
Noel, como o natal dos franceses.
É assim que vai à pia batismal da Matriz de São Francisco Xavier do Engenho Velho, domingo, 29 de janeiro de 1911, primeiro aniversário de casamento de Neca e Martha.
O padrinho é José Rodrigues da Graça Mello, o médico que acompanhou Martha durante toda a gravidez.
A madrinha é Maria Arlinda Rodrigues de Almeida Madureira. Ou simplesmente Arlinda. Uma menina de nove anos que desde os seis mora no chalé como se fosse da família. (...) A mãe morreu de parto, o pai passou a vida viajando, a menina foi criada por uma tia. Num certo dia de 1907, veio de visita, todos gostaram dela, pediram à tia que a deixasse ficar por uma ou duas semanas. (...) Acabou ficando de vez, Eduardo e Rita fazendo dela uma filha caçula.
(...) A madrinha de Noel crescerá no chalé. Terá a mesma educação das irmãs de criação, tocará piano, se dedicará aos trabalhos manuais, o crochê, a pintura, a pirogravura. Ficará indecisa entre o Instituto Nacional de Música e a Escola Normal. Depois de aprovada nos exames de admissão a ambos, optará pelo primeiro. Só sairá daqui casada.
O afilhado é um bebê gordo, rosado, de aparência saudável, que chega a participar de um desses muitos concursos de robustez infantil tão em voga. Mas assim que troca a mamadeira pelas primeiras refeições sólidas, o problema começa a ser notado: enquanto o lado esquerdo do rosto desenvolve-se normalmente, o direito parece atrofiado. O diagnóstico realmente vem tarde, o osso formado assimetricamente, nada mais podendo ser feito. Tenta-se uma operação aos seis anos. E uma prótese aos doze. Ambas sem sucesso.
O parto
Diz o primo Jacy Pacheco em Noel Rosa e Sua Época: "Contam alguns parentes que dona Martha assustou-se com o canhoneio que abalou o Rio, na revolta dos marinheiros chefiada pelo valente João Cândido. O susto complicou-lhe a gestação e o parto".
Por ocasião do nascimento de seu primogênito, Martha de Medeiros Rosa foi assistida por dois médicos. Um deles, José Rodrigues da Graça Mello (...), contava com um parto simples quando se dirigiu ao chalé naquele sábado. Os problemas que o pegaram de surpresa — o bebê grande demais para a bacia estreita da mulher — levaram Graça Mello a apelar para a maior experiência de Heleno da Costa Brandão, colega com quem dividia o pequeno consultório em cima de uma farmácia do Boulevard.
Foi de Heleno a decisão de usar o fórceps para ajudar a criança a nascer.
Convidado pelos autores de Noel Rosa, Uma Biografia, o Dr. Antônio Assis de Salles, professor de anatomia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, estudou o caso e permitiu-se formular algumas hipóteses sobre o que aconteceu:
- Devendo o fórceps segurar o bebê pelos dois lados superiores da cabeça (ossos parietais), uma de suas extremidades o fez num ponto mais abaixo, na têmpora direita, mais precisamente no côndilo mandibular, fraturando-o.
- A fratura, destruindo nele microscópicas zonas osteogenéticas, acabou por afetar o crescimento do osso no lado atingido.
O fato de a fratura só ter sido constatada meses depois pode ter influído, mas apenas em parte. Com os exíguos recursos médicos da época, é pouco provável que um diagnóstico precoce tivesse ajudado muito. (...) Hoje [passados mais de 100 anos], o problema poderia ser solucionado com modernos métodos ortopédicos ou cirúrgicos (inclusive a extração do côndilo seguida de prótese), mas Graça Mello e Heleno Brandão nem sonhavam com eles.
Irmãos
[A] conformação de rosto — que se vai acentuar com o tempo — dará a Noel uma aparência estranhamente indefinida (...), conforme esteja quieto, falando ou, sempre com sacrifício, mastigando. Desde pequeno e até seus últimos dias, enquanto estiver no chalé, a mãe cuidará pessoalmente de sua alimentação, dietas que permitam usar o menos possível a mandíbula, não forçar quase a articulação. Ovos cozidos, massas, purês, mingaus, sopas.
Ao contrário [entretanto] do que se dirá um dia (...) não é uma criança infeliz.
(...) a ideia de um Noel Rosa estigmatizado, mergulhado numa infância sofrida, está longe de corresponder à realidade. É mais exato pensar nele alegre, despreocupado, solto. Será sempre assim. (...) Complexo por causa do queixo? Se o tem, não o demonstra. No máximo, mostra-se meio constrangido ao comer na frente de estranhos (...). Em tudo mais será um menino seguro. Ativo, desembaraçado, inteligente, sempre de bom humor. Na rua, comanda as brincadeiras. Um líder. E em casa, é o número um, o favorito de quase todos.
O número dois — a quem esta condição sempre incomodará um pouco — nasce a 29 de dezembro de 1914. No mesmo chalé e também pelas mãos de José Rodrigues da Graça Mello. Parto normal, nenhum problema. É um garoto forte, bonito, a que dão o nome de Hélio.
(...) Mais do que quatro anos de idade vão separar os dois irmãos. Na aparência, no modo de ser, em quase tudo, diferem-se muito. Todos vivem a dizer que Hélio é um menino lindo. (...) É forte, com ligeira tendência a engordar. Enquanto isso, Noel cresce frágil, mirrado. Hélio é caseiro, tem poucos amigos, prefere os livros aos brinquedos. Noel ama a rua, os companheiros de algazarra.
O futuro poeta da Vila é um caroneiro a desafiar os perigos de um bonde em disparada, risco que Hélio nem quer saber de correr. Andará pendurado em balaústres, deslizando pelos estribos, saltando como um trapezista para subir ou descer do veículo em movimento. Hélio está com a roupa invariavelmente limpa. Noel traz na sua a poeira das calçadas.
Nos temperamentos, água e vinho. Noel tem bom gênio, não é de se queixar, trata os mais velhos com polidez. Hélio será um garoto irritadiço, reclamão, ciumento (...). Seu comportamento, suas desobediências preocupam a família. Não chega a ser rebelde, mas há nele, desde pequeno, uma tendência a irritabilidades repentinas que vão de simples respostas atravessadas a desagradáveis estouros. A partir das convulsões que começará a sofrer ainda na infância, vai se descobrir que tais reações se devem à epilepsia, mal que o acompanhará por toda a vida. Mas enquanto não se sabe disso — e até que passe a se medicar, controlando na base da química os ataques cada vez mais frequentes — será para a família um menino difícil, 'impossível'.
Leitura Complementar: A Vila do Barão
Neca
(...) Desde que se mudou para Vila Isabel, a família vive numa espécie de gangorra financeira, as tempestades de dinheiro curto se seguindo a períodos menos ou mais longos de bonança. Todas as mulheres trabalham, ajudando de alguma forma na escolinha, mas é Neca, como em todo patriarcado, o verdadeiro responsável pelo sustento da casa.
Se o avô Eduardo era homem raro, especial, Manuel — Neca para os de casa — veio predestinado a não ficar atrás, embora por outros motivos. (...) Até que suas fantasias comecem a transformá-lo, será um homem bondoso, altruísta, dócil, as maneiras gentis contrastando com o corpo avantajado, mais de um metro e noventa, as mãos enormes, o jeito pesadão. (...)
Tinha apenas dez anos de idade quando deixou a mãe com os Corrêas de Azevedo, em Ponte do Cágado, e foi para Juiz de Fora lutar pelo próprio sustento. (...) Um ano depois, o Rio. Um menino, apenas um menino a enfrentar a cidade grande com seus desafios e armadilhas. Fez um pouco de muito, biscates vários, foi vendedor ambulante, empregou-se numa casa comissária de café. Já rapaz, quase morreu de febre amarela, mas aproveitou o período de tratamento e convalescença para estudar. Inteligente, memória assombrosa, aprendeu sozinho matemática, francês, inglês, geografia e história.
Conseguiu o lugar de guarda-livros numa importadora (impressionava a todos pela rapidez e precisão com que fazia de cabeça cálculos complicados). Até descobrir que a empresa 'batizava' o vinho que trazia de Portugal. (...) Pediu as contas. Sua noção de honestidade sempre foi exemplar, rígida, não raro obsessiva. Desempregado, dividiu-se entre incontáveis ocupações. Uma delas a de recolher trocados em esquinas do centro, ele vestido de palhaço, tocando violão e cantando, enquanto um amigo, metido na pele de um urso, passava o pires. Quando ou com quem aprendeu a tocar violão não se sabe, mas é provável que tenha sido como tudo mais: sozinho.
Apenas uma vez visitou a família em Minas desde que se lançou à sorte na capital da República. Oito anos depois da partida, ele já com dezoito, as pessoas mal o reconhecendo. (...) Depois, retornou ao Rio. Não só para se afogar novamente no trabalho, mas também para se isolar. Desde moço precisará disso, de trancar-se com seus pensamentos, construindo castelos, vivendo em silêncio num mundo só seu. Para Manuel Garcia de Medeiros Rosa, a solidão é quase tão preciosa quanto o ar que respira, fundamental. Por isso, muitas vezes o veremos correr, compulsivamente, atrás dela.
Seu primeiro emprego fixo depois de casado, foi o de guarda-livros da Camisaria Especial, na Rua do Ouvidor. Passados alguns meses, propôs a outro empregado, um certo Rodrigo, abrirem juntos sua própria firma. (...) Embora fossem tempos de guerra, metade da Europa entrincheirada, os dois instalaram, otimistas, sua importadora na Rua Gonçalves Dias.
São quatro ou cinco anos de nova bonança no chalé. Na verdade, o período de maior conforto gozado pela família desde que Neca se tornou seu chefe. A mesa faz-se farta, as mulheres vestem-se como nunca, Noel e Hélio ganham roupas e brinquedos caros, Eduardinho já não precisa se preocupar com os gastos, a faculdade, a alimentação, o transporte, os livros. (...) Dinheiro farto o bastante para que Martha ganhe do marido joias de esmeralda.
— São para combinar com os teus olhos — diz ele.
Mas desde 1914 a vida está mais difícil em toda parte, a guerra recrudescendo (...), os efeitos, claro, serão sentidos também no chalé. Suspensas até segunda ordem as importações da Europa, [o negócio] de Neca e Rodrigo entra em crise. Títulos a resgatar em vários bancos, empréstimos pessoais a saldar, as vendas paradas, o estoque da loja quase a zero. (...)
[Neca], honesto além dos limites (...) vai aos bancos e outros credores, promete a cada um deles pagar até o último tostão do que deve. (...) parte para o interior atrás de um emprego de agrimensor (ofício que aprendeu sozinho, em pouco tempo de estudo). Torna-se chefe de uma equipe que cuida de loteamento de terras no noroeste paulista, para além de Araçatuba. Mete-se mata adentro, derrubando árvores, abrindo esteiras, delimitando fazendas. (...) Naquele desterro, Neca satisfaz a um só tempo duas necessidades: a de ganhar dinheiro para pagar as dívidas e a de ficar só mais uma vez.
(...) Fica seis anos fora, só voltando a cada dezembro para os aniversários dos filhos e as festas. Numa dessas vindas, Noel e Hélio vão esperá-lo na estação. Não o reconhecem. Ficam muito assustados quando um homem alto, barba por fazer, modestamente vestido, aproxima-se deles na plataforma:
— Hélio, Noel... Sou eu, seu pai!
(...) Paga as dívidas até o último tostão. Os bancos já nem contavam com isso, um mineiro falido preocupado com a honra.
Transcrito (com adaptações) de:
Noel Rosa, Uma Biografia. © 1990, João Máximo & Carlos Didier. Editora UNB.
Imagens:
A primeira foto, aos três meses, 1911. Arquivo dos biógrafos.
Em 1912. Arquivo dos biógrafos.
Família Medeiros Rosa: Hélio, Neca, Martha e Noel, em 1918. Arquivo dos biógrafos.


