Pequenas Biografias: NOEL ROSA_o3

No chalé sempre cabe mais um. Ou mais quatro. Como Jocelyn da Encarnação e os irmãos Dulce, Sylvia e Mariozinho Brown, crianças com as quais Hélio e Noel vão dividir boa parte de sua infância, vivendo todos sob o mesmo teto como uma só família.

Jocelyn, um ano mais velho que Noel, não chega propriamente a morar no chalé. Vem cedinho, toma o café da manhã, estuda, almoça, estuda um pouco mais, brinca, janta e só depois volta para sua verdadeira casa, na rua Maxwell. Dorme e no dia seguinte começa tudo de novo.

O pai, Álvaro Pereira da Encarnação, enviuvou quando Jocelyn tinha apenas onze meses. Do segundo casamento, anos depois, nasceu uma menina. Submetida, ainda pequena, a delicada operação pelos doutores Heleno Brandão e Graça Mello, morreu. (...)

Eduardinho, já acadêmico de medicina, assistiu à operação. Ficou arrasado. Comentou o fato em casa com a mãe e as irmãs, amigas da família Encarnação. Rita teve uma ideia:

— Por que não cuidamos do menino? Poderemos educá-lo com as nossas crianças.

É desse modo que Jocelyn entra na vida do chalé, passa a frequentar a escolinha e, mais tarde, o mesmo colégio em que Noel completará o primário.

Álvaro Pereira da Encarnação é homem pobre, batalhador, não pode dar ao filho os confortos que gostaria. Mas o pessoal do chalé ajuda como pode. A pelerine e o velocípede de Noel são dados a Jocelyn. Roupas, brinquedos, livros, alimentação, Rita faz questão de que nada lhe falte. Os dias que passa no chalé são os melhores de sua infância (aos treze começará a trabalhar, voltará para a companhia do pai, não seguirá Noel no ginásio).

(...) Dulce, Sylvia e Mariozinho são filhos de Mário Brown, viúvo amigo de Perpétua, irmã de Rita. Na esperança de que se recupere de um pulmão doente, os médicos recomendam-lhe passar uma temporada em Belo Horizonte. Vai e teme-se que não volte. Tuberculose, nesses dias, é moléstia quase fatal. (...) Perpétua dirige um internato feminino na rua São Francisco Xavier. Poderia abrigar nele Dulce e Sylvia, mas não Mariozinho. Apela para a irmã. Seria uma dor de coração separá-los, já sem mãe, o pai longe. Por que Rita não fica com os três? Como internos na escolinha.

Assim, para não os separar, Rita de fato os aceita como 'internos' do seu externato. Passam a ser seis, portanto, as crianças do chalé. As que chegam agora sendo criadas como as de casa, os mesmos direitos, as mesmas obrigações. E uma liberdade quase tão ampla quanto a que Martha e Neca dão a seus filhos. Dulce, Sylvia e Mariozinho, nem tanto. Pois Carmem  que desde o início liga-se muito a eles, cuidando mais diretamente de sua educação, tornando-se mesmo, por iniciativa própria, uma espécie de segunda mãe  é mulher mais exigente, disciplinadora e austera que a irmã.

(...) Estudam todos na escolinha, debruçados sobre carteiras que se distribuem pelas duas salas e um dos quartos do chalé. Em março de 1920, porém, Noel e Jocelyn, os dois mais crescidos, já estão matriculados no terceiro ano da Escola Pública Cesário Motta, um casarão antigo no lado ímpar do Boulevard, esquina de Silva Pinto. Tão perto de casa que os dois fazem o percurso a pé em menos de dez minutos.

Isso quando Noel não cisma de viajar o quarteirão, não mais que um quarteirão, no estribo do bonde. É mais demorado, perde-se tempo esperando o Vila Isabel-Engenho Novo ou o Aldeia Campista, mas vale a pena pelo prazer de correr riscos, de brincar com o perigo nos saltos que o fazem subir ou descer, a toda velocidade, em frente à Cesário Motta.

— Este menino é louco!  grita alguém ao vê-lo saltar.

Loucura, aliás, que ainda levará Martha a duas constatações. Uma, a de que Noel, tão bem-comportado em casa, é outro na rua, a ponto de ser confundido com os alegres e endiabrados moleques do bairro. A segunda, de que o compenetrado Jocelyn, ao contrário do que ela pensava, é incapaz de tomar conta do filho no caminho da escola. Martha passa certa manhã pelo Boulevard quando vê Noel numa de suas arriscadas acrobacias. Em casa, chama Jocelyn.

 Você é mais velho, maior que ele. Promete que não vai deixá-lo mais pegar carona de bonde?

 Prometo, dona Martha.

No outro dia, Noel volta a atirar-se ao estribo do bonde parado no ponto. Jocelyn vai atrás. Quer impedi-lo de fazer as evoluções que dona Martha tanto teme. O bonde sai, Noel corre pelo estribo, de balaústre em balaústre. Jocelyn tenta segurá-lo, gritando para que pare. Neste momento Martha passa na calçada. Apavora-se ao ver que não apenas o bem-comportado Noel pode ser confundido com os moleques do bairro.

 Francamente!  dirá a Jocelyn.  Não confio mais em você.

A placa

Os dois são muito inteligentes. Mas em casa (...) é Hélio quem se destaca. A família chega mesmo a ver nele, com os olhos do exagero, uma criança prodígio.

Aos quatro anos, de tanto ouvir as aulas do Externato Santa Rita de Cássia e de observar o irmão estudando na cartilha, (...) já sabe ler e escrever. (...) Aos seis, graças a um livro de inglês sem mestre que descobre na estante, inicia-se sozinho num idioma que acabará dominando inteiramente.

Orgulhosa, vó Rita prevê para o neto um grande futuro. (...) Na entrada deste chalé, vaticina, ainda colocarão "uma placa com os dizeres: Aqui nasceu Hélio de Medeiros Rosa".

Caminhos

A Gripe Espanhola adiou por alguns meses a formatura de Eduardinho, prevista para dezembro de 1918, mas só concretizada nos fins de março do ano seguinte. (...) Muda-se para Bica de Pedra, interior de São Paulo, começa a ganhar dinheiro, a fazer seu pé-de-meia, a livrar-se de qualquer preocupação financeira. Numa de suas esporádicas visitas ao Rio, pede em casamento a namorada de infância, Odette Maria Ferreira Rego. Casam-se a 13 de dezembro de 1921, na Igreja de Santa Ifigênia, em São Paulo.

Pouco depois, é a vez de Carmem. (...) Não inteiramente curado, mas com a doença mais ou menos sob controle, Mário Brown vem ao Rio buscar os filhos. (...) Carmem estremece ao receber a notícia. Já se afeiçoou de tal modo a Dulce, Sylvia e Mariozinho que mal pode se imaginar longe deles. São como filhos. Ou mais que isso.

Vem de muito, porém, a admiração de Mário Brown por ela. (...) E é correspondido. Casam-se e vão para Belo Horizonte. Os dois, os filhos, o piano que Eduardo Corrêa de Azevedo havia comprado em Juiz de Fora. A partir de agora, além das tarefas de esposa e mãe, Carmem vai assumir também as de professora de violino do Conservatório Mineiro de Música.

(...)  Numa carta à Martha, Eduardinho conta que sua clínica vai tão bem que já lhe sobra dinheiro para ajudá-la. (...) Por isso, em visita à família, trará mais uma boa novidade:

 Vamos construir uma casa nova.

Compra o terreno número 195 da mesma Theodoro da Silva, quase em frente à Silva Pinto, e entrega ao 'engenheiro' Neca o projeto de construção da casa. 

Neca (...) encarrega-se da tarefa com entusiasmo. Não tem emprego fixo. Vive de biscates e, eventualmente, de sonhos (...). Está um pouco diferente de seis anos atrás, quando partiu em busca de dinheiro para pagar as dívidas. (...)  Volta e meia é acometido de tremores, acessos de febre, sequelas de uma maleita que o pegou em Araçatuba. Nessas horas, corre pela casa, dá voltas em torno da mesa de jantar, dança e canta à maneira dos índios que encontrou por lá. Mas o projeto da casa o entusiasma. É algo a que se dedica com os pés no chão, sem sonhar.

(...) Quando ficar pronta, todos vão se referir à casa nova como o "bangalô".

Saraus

Mesmo sem Carmem e o Pleyel, continuam feitas de música as noites de domingo da família. Agora com um novo instrumentista que se vem juntar a Neca, Martha, Arlinda e eventuais convidados: o próprio Noel, pequeno, franzino, dedilhando o bandolim que aprendeu a tocar com a mãe. Noites de música e poesia, como gostava vovô Eduardo.

(...) A música logo o envolve, vira paixão, das coisas mais importantes em sua vida. (...) Se foi Martha quem o ensinou a tocar bandolim, as primeiras posições no violão são aprendidas com o pai. E à medida que for dominando a técnica deste instrumento, irá abandonando o outro. (...) Nos próximos anos, raramente o veremos longe do pinho nas horas de folga. Estudando ou ensinando, pois Noel vai ser o primeiro professor de Hélio. Um paciente e compenetrado professor.

Carreira

É pela mesma época que os moradores do chalé  dentro do costume que autoriza pais, avós, tios a projetar o futuro de suas crianças  traçam o caminho que Noel deverá seguir, dos bancos de escola pública até formar-se em medicina. Sim, porque não passa pela cabeça de ninguém que ele deixe de cumprir a tradição da família (Luís Corrêa d'Azevedo, Fortunato, vovô Eduardo e agora Eduardinho) e abrace qualquer outra carreira.

Decide-se, então, que (...) Noel será matriculado no Ateneu Luso-Brasileiro, ali se preparando, durante todo o 1922, para os exames de admissão ao Ginásio de São Bento, no fim do ano. Depois, finalmente, a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Tudo como tio Eduardo.

São Bento

1.

Uma ladeira íngreme (...) e lá em cima o São Bento, em cujas dependências, nesta quinta-feira, 1º de março, reúnem-se todos para a abertura oficial do ano letivo de 1923.

São quase 400 alunos dos 470 matriculados nos diversos cursos, o Ginasial, o Preliminar, o Noturno, o Claustral. Entre eles, perneiras pretas, farda caqui, culote, dólmã abotoado até a gola, quepe assentado na cabeça, o primeiranista Noel de Medeiros Rosa.

(...) Após a missa, os alunos são encaminhados [à quadra de esportes] para serem formalmente apresentados ao reitor, dom Meinrado Mattman, e ao corpo docente, inspetores, auxiliares, serventes.

(...) Pode ser que os meninos que chegam já desconfiem de que os dias alegres e despreocupados da infância começam a ficar para trás. Quanto mais tiverem de se agarrar aos livros, mais terão de renunciar aos brinquedos. (...) Mas não no caso de Noel. Tanto quanto possível, não será tão solene. E fará tudo para que continue a soprar para além dos muros do São Bento a brisa menina das ruas de seu bairro.

2.

Miúdo para seus doze anos, é um dos menores da turma. Por isso, senta-se sempre numa das carteiras da frente. Ainda tem os cabelos compridos, fios castanho-claros, quase louros, amontoando-se entre a aba do quepe e as orelhas. (...)

Os colegas reparam que usa entre as arcadas dentárias, do lado direito, a 'prótese' que certo 'especialista' recomendou, meio no palpite, para lhe corrigir a articulação. (...) Certo de que não serve mesmo para nada (...), no primeiro jogo de futebol, coloca-a no bolso:

 Esse troço pesa tanto que nem posso correr.

O São Bento (...) é uma grande instituição abrigando várias outras, educacionais, culturais, religiosas, recreativas e, estranho que pareça, militares. A não ser que seja obrigado, de nenhuma delas Noel tomará conhecimento. Das instituições religiosas, então, seu alheamento será absoluto. (...)

Dona Martha e seu Medeiros serão chamados com frequência, dom Meinrado querendo falar-lhes sobre o filho, bom menino, muito inteligente, mas que precisa observar melhor os regulamentos internos, comportar-se em aula, brincar menos.

Lá fora, quando não está tocando violão, cantando indecorosas paródias ou inventando quadrinhas para mexer com os colegas, tanto pode estar roubando balas e mariolas do Altino, dono da cantina, como contando anedotas.

(...) gosta de desenhar, mas muito pouco do que produz, com traços firmes a lápis de cor, pode ser visto pelos professores.

Fuma muito. É um hábito que adquiriu cedo. E como é proibido sequer portar cigarros dentro do colégio, aí está mais uma boa razão para a gazeta.

O fato de não haver exames finais no primeiro ano (...) faz com que Noel Rosa se permita o luxo de estudar muito pouco em 1923 (e vai estudar ainda menos no segundo ano).

[Fatalmente, no final de 1924] não consegue a média mínima e é reprovado.

Repetente

Se a reprovação afetou-o ou não, ninguém sabe. A impressão que causa aos colegas [da turma de 1925], desde o primeiro momento, não é a de um repetente arrependido, a de um menino a quem o fracasso serviu de lição. Parece o mesmo. Despreocupado com os estudos ou o que seja.

(...) logo na primeira aula do professor Mário Barreto [que não escuta muito bem], ele se levanta lá atrás para perguntar:

 Professor, posso mijar no seu bolso?

 Sim, mas não demore.

Noutro dia, convencido de que Barreto está cada vez mais surdo, incapaz de distinguir o que sai de sua boca apenas entreaberta, torna a se levantar, a mão direita para o alto:

 Professor, posso comer sua mãe?

— Pode ir, mas rápido.

Ao ver que a turma se une numa gargalhada, Barreto adverte:

 Não riam, meninos. Afinal, qualquer um pode ter a mesma necessidade.

Mas nem tudo é provocação e irreverência. Há, por exemplo, a prova mensal sobre os halogênios. Carmine Carbone, o professor de química, sorteia o ponto: bromo. Os alunos devem escrever tudo o que sabem a respeito, número, peso atômico, as propriedades do elemento sorteado. Têm quarenta minutos para isso. Dois dias depois, maço de provas na mão, o professor entra em sala, faz a chamada, pede silêncio e diz, segurando uma das provas:

 Faço questão de ler bem alto, para que todos ouçam, a extraordinária dissertação que o senhor Noel de Medeiros Rosa nos fez.

E lê. Ali está tudo sobre o assunto, número, peso atômico, propriedades, tal como ensinam os compêndios de química. Sem erros nem omissões, como queria Carbone. Só que em versos. Métrica e rimas perfeitas, prosaico bromo transformado em poema, uma simples prova mensal destinada a ficar como um dos mais originais e comentados textos já produzidos nas salas do colégio. Naturalmente, agraciado com um 10.

Andanças

Nas muitas e sempre bulhentas andanças do menino Noel por sua cidade, nada mais importante que o bonde. (...) bastam-lhe as viagens, o prazer de apurar suas piruetas no estribo, de usar o balaústre como ponto de apoio de seus rodopios. Tudo a cinquenta, sessenta quilômetros por hora, espécie de salto sem rede. (...) Quando não está no balaústre, o espaço final do primeiro carro, mais conhecido por 'cozinha', é o preferido. Ali, viajando quase sempre de pé, costuma apoquentar os passageiros com seus arremedos de ventríloquo, ou provocar os que estão no ponto, quando o bonde para:

 Ó, veado!

Todos olham para a 'cozinha'. Noel emenda:

 Só chamei um!

[No] bangalô pouco para. (...) Já agora  quatorze para quinze anos  o violão, as canções, a música enfim é prazer de todos os momentos. (...) Música, afinal, que aprende em todo tipo de lição, com os seresteiros que eventualmente conhece, nos métodos de violão, em jornais de modinha, nos saraus caseiros ou com alguns exímios violonistas que, durante todo o ginásio, vai conhecendo pela cidade.

Mais crescido, já nos últimos tempos de São Bento, frequentará com o irmão e o amigo Glauco Vianna O Cavaquinho de Ouro, na Rua da Alfândega, onde se reúne a melhor gente do violão brasileiro desta década. (...) E também em outras casas, a Carlos Wehrs, a Ao Pinguim, a Carlos Gomes, a Edison, a Vieira Machado, a Phoenix, importantes pontos em que a música popular — em forma de discos, partituras, aulas de violão — será tocada, difundida e comercializada cada vez mais.

Ouvindo e vendo, eis como Noel aprende. É mesmo um autodidata. (...) por conta própria, pela persistente consulta aos métodos, pelo ver e ouvir quem sabe mais, se fará íntimo do violão. Aos dezesseis anos, solando ou acompanhando, já poderá considerar-se bom violonista.

Amores

Das muitas descobertas que vai empreendendo  mundos que se abrem diante de seus olhos atentos, emoções que mexem com seu espírito já inquieto  nenhuma o fascina tanto quanto as casas onde é possível comprar, por alguns mil réis, os carinhos de uma mulher.

Mesmo sem chegar a ser um habitué, um desses fregueses que as mulheres consideram 'de casa' (até porque o dinheiro é curto demais para isso), Noel já é frequentador dessas pensões à época em que cursa os últimos anos do São Bento.

Hermenegildo de Barros Filho, cujo pai é ministro do Supremo Tribunal, dos muitos alunos do São Bento, é um dos que mais dinheiro leva no bolso. Será, de bom grado, patrocinador dos programas mais dispendiosos de Noel. Embora seja da turma de Hélio Rosa, é com Noel que se identifica mais:

 Vamos, Ministrinho?

 Aonde?

 Lá.

O "lá" significando uma daquelas casas do Mangue que Noel, para perplexidade de Hermenegildo, conhece tão bem. Os dois vão de uniforme, livros. O filho do ministro treme de medo, mas concorda em pagar as despesas. Os sanduíches, as cervejas, as mulheres, tudo isso por sua conta. Noel se encarrega da boa conversa e da música. Dom Meinrado, que parece saber de tudo, no dia seguinte interpela o turbulento desencaminhador de suas ovelhas:

— Noel, Noel... Já que não pode deixar de pecar, por que não peca sozinho?

Transcrito (com adaptações) de:

Noel Rosa, Uma Biografia© 1990, João Máximo & Carlos Didier. Editora UNB.

Imagens:

Noel fardado. Coleção Heloisa Marcilac.

Hélio. Acervo da família.

Noel aos quinze anos. Acervo da família.