Leitura Complementar: NOEL ROSA_o2 / A Vila do Barão
— Vila Isabel é uma grande família — costumavam dizer os moradores do bairro durante as quatro primeiras décadas do século XX, ou seja, enquanto se mantivesse vivo o espírito comunitário que dava ao lugar ares de cidadezinha do interior, as pessoas se conhecendo, se frequentando, se ajudando umas às outras. Enfim, uma fraterna e solidária instituição que o progresso e o crescimento da população fariam desaparecer.
Entre os membros dessa grande família, alguns garantiam ter um parente de verdade do qual muito se orgulhavam: ninguém menos que o Barão de Drummond, o fundador do bairro.
João Baptista Vianna Drummond era mineiro de Nova Era, mas registrado em Itabira do Mato Dentro. Nascido no primeiro dia de maio de 1825, já tinha 35 anos quando se mudou para o Rio. Alegre, comunicativo, liberal, antes mesmo de a Princesa Isabel sonhar com a Lei Áurea já havia ele alforriado todos os seus escravos. Com grande tino para os negócios, entregou-se a vários deles: foi banqueiro, comerciante de secos e molhados, empresário teatral. Tudo isso antes de o fazerem barão.
Na verdade, Drummond nunca escondeu ser mais homem de negócios do que nobre. Valeu-se da amizade com a família imperial — e com alguns figurões da política — para realizar vantajosas transações, obter concessões, abrir caminhos para seus projetos. Assim, já em 1872, comprava da Princesa Leopoldina, duquesa de Bragança, segunda filha de Pedro I, as terras do Andaraí Grande, antiga Fazenda do Macaco. Comprava-as por bom preço, abandonadas que estavam desde uma epidemia de cólera havida ali anos antes. E comprava-as a prazo.
Por muito tempo, houve quem visse na operação uma esperta (e nada nobre) jogada de Drummond. Sabendo de uma cláusula do testamento de Leopoldina — segundo a qual, com a morte dela, ficavam perdoadas todas as dívidas de que fosse credora — e sabendo também que a saúde da duquesa ia de mal a pior, o astuto homem de negócios teria apostado. E ganhado. Leopoldina morreria sem que Drummond quitasse a segunda prestação. Pesquisas recentes, dos historiadores Delane Borges e Marilane da Silva Borges, desmentem esta versão. Tudo teria se passado dentro da maior lisura.
De qualquer modo, foi mesmo naquelas terras que Drummond fundou Vila Isabel, assim chamada em homenagem à princesa que quinze anos depois libertaria os escravos (aliás, no começo, os nomes das ruas, avenidas e praças do bairro eram todos de homens e datas ligados ao movimento abolicionista).
Ao contrário de outras áreas da cidade, cujos traçados se foram fazendo mais ou menos ao acaso, o loteamento e urbanização de Vila Isabel obedeceram a cuidadoso planejamento. Uma Companhia Arquitetônica — criada por Drummond e seus amigos Visconde de Silva, Temístocles Petrocochino e Bezerra de Menezes, todos, naturalmente, também fadados a virar nome de rua — incumbiu-se desse planejamento. Basicamente, aproveitando o antigo Caminho do Macaco para transformá-lo no Boulevard 28 de Setembro (data da assinatura da Lei do Ventre Livre) e, em outro trecho, na Rua Visconde de Santa Isabel (grande amigo da família imperial, médico da Princesa), para a partir deles traçar as paralelas e transversais que formaram, em 1873, o esqueleto do bairro.
Vila Isabel deve ainda a Drummond, além de sua fundação, vários outros empreendimentos que a enriqueceram como bairro e comunidade: a pioneira linha de bondes unindo a Praça 7 de Março ao Centro, a primeira igreja de Nossa Senhora de Lourdes, atual Convento da Ajuda (o próprio Drummond mandou vir da França a planta da gruta de Lourdes para reproduzi-la, em tamanho menor, no altar), o Asilo dos Meninos Desvalidos, atual Instituto Profissional João Alfredo, e o Jardim Zoológico.
Mas nenhuma dessas iniciativas lhe daria mais notoriedade — e um lugar tão permanente na história do Rio — quanto um certo jogo de apostas que inaugurou no seu zoo em 1892.
Sem dinheiro para adquirir novos animais ou para cuidar dos que já tinha, aceitou a sugestão do mexicano Manuel Ismael Zevada de transpor para seus bichos a loteria que ele, Zevada, já realizava com suas flores na Rua do Ouvidor. Todos os domingos, cada frequentador do Jardim Zoológico ganhava um bilhete numerado correspondente a um dos 25 animais que entravam no sorteio sempre às três da tarde.
A loteria, desde o início, foi um sucesso. As apostas tímidas da primeira extração já eram vultosas na segunda e acabaram virando mania. Dois anos antes da morte de Drummond — ocorrida a 7 de agosto de 1897 — o 'jogo dos bichos', como era chamado, foi proibido pelo prefeito do Distrito Federal, Francisco Furquim Werneck de Almeida. Apesar de nunca mais ter sido legalizado — ou talvez por isso — caminharia para se transformar numa verdadeira instituição nacional.
Por todos esses motivos, o bairro tinha tudo para ficar conhecido como 'A Vila do Barão'. Mas a voz do povo — mais sensível às rimas do poeta do que aos negócios de Drummond — preferiria de outro modo: 'A Vila de Noel'. Mas esta é uma outra história.
Transcrito de:
Noel Rosa: Uma Biografia. © 1990, João Máximo & Carlos Didier. Editora UNB.
Imagens:
Boulevard 28 de Setembro, Vila Isabel, 1920. Augusto Malta. Acervo IMS.
Entrada do Jardim Zoológico, Vila Isabel, 1915. Autoria não identificada. Coleção Sebastião Lacerda. Acervo IMS.

