Pequenas Biografias: NOEL ROSA_o4
Nestes anos de ginásio, raramente se separa do uniforme caqui. Até por uma questão de economia. Desde que voltou de Araçatuba, há quase quatro anos, Manuel Garcia de Medeiros Rosa não mais se aprumou. Cavou um emprego aqui, outro ali, sem no entanto firmar pé. (...) Assim, o uniforme do São Bento, renovado a cada começo de ano, é forma de poupar.
[Apesar de estarem] morando numa casa mais nova e confortável que o chalé, e contando com a mesada que Rita recebe do filho, a tormenta ainda não passou de todo para os Medeiros Rosa. Motivo pelo qual Neca afasta-se de casa mais uma vez, agora com destino a Bica de Pedra, onde espera ter, ao lado do cunhado, um pouco mais de sorte. Lá se ocupará da contabilidade de casas de negócio e da construção de uma estrada.
Clarinha
(...) uma casa grande, as portas e janelas laterais dando para uma comprida e estreita varanda. (...) fica bem em frente ao bangalô. Mas só neste fim de tarde, ao voltar do São Bento, Noel parece notar que tal casa existe. No portão, brincando com duas crianças, vê uma moça bonita. Morena, cabelos curtos, olhos castanhos, redondos, brilhantes. (...) Desde esta tarde, a moça é o objeto de suas atenções (...).
— O nome dela é Clara — diz alguém.
Clara Corrêa Netto. (...) Não importa que entre e saia muita gente da casa, que aos domingos se sentem todos na varanda, que o portão seja ponto de reunião de tantas pessoas, irmãos, irmãs, parentes em visita, vizinhos. Noel só tem olhos para Clara. (...) Sempre com o uniforme do São Bento, senta-se na varandinha do bangalô, toma o violão e canta coisas de amor.
A moça (...) também gosta dele. Pelo menos até onde a distância entre suas casas permite avaliá-lo. (...) Não será — como alguns pensarão — um simples namoro de adolescentes, ligeiro, inconsequente, sem deixar marcas. Por quase sete anos farão parte da vida um do outro.
Vó Bella
Sábado, 15 de outubro de 1927. É quase de manhã quando Noel chega. O bangalô ainda dorme. (...) Atravessa toda a casa na ponta dos pés, passa pela cozinha, sai no quintal. Talvez queira usar o banheiro de fora. Ou apenas sentir no rosto um pouco mais da brisa da madrugada. (...) Súbito, para. Jamais lhe sairá da lembrança o sinistro quadro que seus olhos veem: o corpo grande e pesado de vó Bella oscilando na ponta de uma corda. (...)
Bella, tão sem ânimo nos últimos meses, tão desinteressada das pessoas e das coisas, levantou-se de madrugada, pegou uma cadeira, foi para o quintal, amarrou uma corda de varal na trave do galinheiro, enfiou o pescoço no laço que ela mesma preparou na outra extremidade, subiu na cadeira. Tudo muito rápido, mas em silêncio, sem alarde, como sempre gostou de viver. (...)
Mas um suicídio é um suicídio. E por mais que a família se empenhe para que o estrondo dessa tragédia não seja ouvido lá fora, todos vão saber que dona Bellarmina se enforcou. Na tarde deste mesmo sábado — enquanto o corpo estiver sendo velado na sala do bangalô (...), A Noite já estará circulando com a notícia. (...)
Pobre Bella, tão discreta, cuidando de morrer sem fazer barulho, (...) Está tendo depois de morta uma notoriedade que sempre evitou em vida. (..)
Neca
(...) Bica de Pedra, Jaú, São Paulo, Rio, (...) quando Neca chega ao bangalô, reencontrando abalada e chorosa a família que não vê desde o ano passado, a mãe já está enterrada há quase dois dias. Não há dúvida: é outro homem este que volta. A mulher e os filhos logo percebem o quanto ele mudou nos últimos meses.
Já não é o mesmo marido atencioso, o mesmo pai compreensivo e tolerante. Uma criatura difícil, por vezes irascível (...) Brigão, autoritário (...) Com a mulher, é frequentemente brusco (...). Com os filhos, passa a cometer injustiças que nunca foram do seu feitio, castigando-os por pouco ou mesmo nada. Uma mudança que a família jamais chegará a entender.
(...) Acredita que suas ideias sejam formidáveis. Está convencido de que elas vão mesmo torná-lo rico e famoso. Fala muito de novo tipo de embarcação que pretende desenvolver assim que consiga um sócio para ajudá-lo a levantar capital. (...) Martha mal o reconhece. Onde está aquele homem responsável, sério, lutador, que ela conheceu um dia?
Discutem muito. O Neca que volta é de fato outro homem. Mais que sonhador, delirante. Que quando não está entregue às suas fantasias, irrita-se com a mulher, reprime os filhos, torna-se mais diferente dele mesmo.
Diz que voltou de vez. E é verdade. Mas até mesmo esta decisão, que normalmente alegraria a todos, tem algo triste.
Volta às aulas
Dom Bento chegou dos Estados Unidos há pouco. Não se sabe se é americano, canadense ou suíço, como dom Meinrado. Sabe-se apenas que seu português é muito limitado. Nas aulas práticas de química, recorre a todo momento aos alunos quando uma palavra lhe escapa:
— Como é mesmo? Cor... Cor...
— Azul — completa um dos rapazes.
Numa de suas experiências, mistura nitrato de prata ao cloreto de sódio, aquece o tubo de ensaio, faz surgir assim uma solução de cloreto de prata, leitosa, quase branca. Mostra-a à turma e diz:
— Aqui temos um líquido... Cor de... Cor de...
Desta vez quem o socorre é Noel:
— De leite de pica.
— Isto, cor de leite de pica.
Em março do ano em que completará 18, está de volta às aulas do São Bento. Nada mudou nele. O mesmo uniforme caqui (...) o mesmo humor, a mesma agitação nas aulas, a mesma irreverência para com os mestres.
— Hoje estou com pouco dinheiro, Noel.
— Não faz mal, Ministrinho. Há vinho para todo preço.
Desse jeito, se para animar o futebol não podem comprar bebida de boa qualidade, o remédio é recorrer a um moscatel de quinta categoria, que afinal só mesmo Noel e alguns poucos têm coragem de beber.
— Puxa, mas esta droga está uma delícia!
Malandragem
(...) um dos gracejos favoritos dos jovens desta época, sempre que pode, Noel diverte-se ao violão solando a melodia do Hino Nacional em ritmo de valsa, tango, maxixe, ou arranjando para ela letras que fariam Osório Duque Estrada tremer no túmulo onde o enterraram no ano passado.
— Elvira cor de manga, amarga e flácida...
(...) pouca coisa muda. A namorada, as serenatas, os amigos, os prostíbulos, a música, gente. É nesta época, porém, que se começa a notar o fascínio que tem por certo tipo de personagem que faz seu caminho por entre as arestas da cidade: o malandro.
Entendendo-se como tal o cidadão que vive de truques e espertezas, o valente, o bordeleiro, o jogador, o rufião, homens enfim sem ocupação definida e que fora ou dentro da lei, mas à margem da sociedade, sobrevivem — ou até vivem muito bem — lutando apenas com as armas da ousadia e da imaginação.
— Ministrinho, tem cinco mil réis aí?
— Pra quê?
— Vou multiplicar seu capital.
Noel garante que bastam dois olhos atentos para se transformar cinco mil réis em trinta, talvez mais. Todos os fins de tarde, aproveitando o movimento à saída do trabalho, um jogador de chapinha instala um caixote na esquina de Dom Gerardo com Rio Branco.
O jogo de chapinha é muito popular na cidade, em especial nas imediações do Mangue, Estácio, Lapa, Central do Brasil. Desde que a polícia não esteja por perto.
São três chapinhas de cerveja e uma bolinha preta, mais parecendo um caroço de feijão. O banqueiro coloca a bolinha sob uma das chapinhas e, com mãos ligeiras de prestidigitador, muda-as de posição:
— Pronto! O cavalheiro não quer tentar adivinhar onde se meteu a bolinha preta?
Apostas são feitas, o banqueiro quase sempre ganhando. Não é um jogo simples como pode parecer. Muito menos honesto. Homens de mãos ágeis e unhas grandes, os banqueiros costumam fazer a bolinha sumir como num passe de mágica. Onde está? Sob a unha, é claro. E o apostador só tem chance quando convém ao malandro mostrar que o jogo é limpo.
Noel vem observando há vários dias o sujeito que faz ponto na esquina. Agacha-se para que seus olhos fiquem ao nível do caixote, gruda-os nos movimentos do banqueiro, não perde nada. Vem apostando mentalmente, ganhando sempre. Daí ter apelado para o capital do Ministrinho.
Os dois se aproximam:
— Esta ganha, esta perde. Está aqui ou ali? Quem adivinha? Noel levanta o dedo, quer apostar na próxima mão. O dobro ou nada, dizem as regras. Muito bem, o banqueiro inicia a dança das mãos, mistura as chapinhas com rapidez. Aponta o indicador para Noel.
— Vamos lá, rapaz. O dobro ou nada.
— Cinco mil réis.
— Feito. Onde está?
— Nesta aqui.
— Muito bem... Muito bem... murmureja o banqueiro.
— Mas esta mão foi só para esquentar o jogo. Ainda não valeu.
— Mas que história é essa? Eu ganhei!
— Não valeu, rapaz. São as regras.
Certo de que não há como perder, Noel não leva o protesto adiante. Concorda com o banqueiro e volta a casar seus cinco mil réis.
— Ótimo, agora é à vera.
Repete-se a dança das mãos, o homem para e pergunta:
— E agora, onde está?
— Debaixo da sua unha — responde Noel.
— O que é isso, rapaz? — encabula-se o banqueiro, olhando para os lados. — Está querendo arranjar sarrabulho?
— Está debaixo da sua unha!
— O jogo acabou, rapaz.
— Não! Quero os meus cinco e mais cinco. Eu acertei.
— Deixa isso pra lá. O jogo acabou.
Enquanto o banqueiro vai recolhendo seu caixote, suas chapinhas e a esvaecente bolinha preta, Noel é tomado de uma fúria que apavora Ministrinho.
— Ladrão! Seu filho da puta ladrão!
— Vamos embora, Noel — diz o amigo puxando-o pelo braço.
— Só quando este ladrão me pagar...
Sem esperar resposta, a raiva levando-o a perder a cabeça, faz a palma da mão estalar no rosto do banqueiro, que por pouco não vai ao chão.
— Vamos embora, Noel!
O outro, um mulato maciço, mal-encarado, mãos enormes, avança para seu agressor aos socos e pontapés. Noel cai, o banqueiro salta sobre ele com fúria ainda maior. Depois, some na direção da Praça Mauá.
— Você está bem, Noel? — indaga Ministrinho tentando levantá-lo.
Uma multidão forma-se em volta dos dois. Noel ergue-se com dificuldade. Vai caminhando lentamente para o ponto de bonde, os curiosos observando seu jeito meio combalido, a farda amarrotada e suja. Um jovem soldado vencido. Um garoto que acaba de sobreviver à primeira grande surra de sua vida.
*
1928. Numa sexta-feira, 12 de outubro, morre vó Rita. Serenamente, o coração de quase setenta anos, cansado e enfraquecido desde a partida de Bella, parando de repente.
Eduardinho volta para o enterro. Carmem também. Um e outro percebem o quanto Neca se tornou estranho, assistem a algumas discussões entre ele e Martha, ficam com pena da irmã. Sabem das dificuldades financeiras que ela enfrenta, o marido ainda sonhando (...) e virando as costas para bons empregos.
É de Eduardinho a decisão de que se mudem de novo para o chalé, incumbindo Neca de realizar ali algumas obras. O bangalô será alugado, o dinheiro indo para as mãos de Martha. Vai precisar cada vez mais, o marido desempregado, as despesas aumentando, o filho mais velho prestes a acabar os preparatórios e a entrar para a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Assim será feito. Para o chalé, onde já moraram doze, voltam agora apenas quatro.
É dezembro. Enquanto seus colegas de turma concluem o curso (...), Noel constata [que sua] situação é crítica. Tão crítica que já não lhe será possível bacharelar-se neste 1928. (...) Em casa, a explosão de Neca. Com Noel e com Hélio, que nas provas do terceiro para o quarto ano derrapou na álgebra. Como é possível? Enquanto ele leva a vida a sério, empenhado num invento que há de torná-lo famoso (e de fazer a família navegar num mar de dinheiro), os filhos vadiam nos estudos. Que falta de consciência! Não pode tolerar tamanha irresponsabilidade. É preciso castigá-los. Severamente. Daí a decisão de não os deixar sair de casa até as próximas provas, em março. Nada de passeios, namoradas, serenatas. Carnaval? É bom que nem pensem nisso!
Bacharel
Noel Rosa ainda vai levar dois anos até conseguir o chamado "bacharelato em ciências e letras" sem o qual não poderia, conforme desejo da família, entrar para a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Por algum tempo, a cada março e dezembro terá de apresentar-se às bancas examinadoras para se desvencilhar das matérias que continua a dever até completar o ginasial.
De qualquer forma, já é hora de dar adeus ao Mosteiro.
— Quer saber de uma coisa, Ministrinho? A verdadeira escola está lá fora.
*
Leitura Complementar: À Luz das Estrelas
Neca
[Intensa] correspondência, trocada nos primeiros dias de 1929, vai mostrar que os três irmãos, Martha, Eduardo e Carmen, embora distantes, buscam solucionar juntos uma crise familiar, por enquanto imprecisa, mas que o tempo acabará agravando de forma irreversível.
(...) "A cada injustiça, a cada irreflexão dele, chora e chora muito. Eu calculo o que sofre a nossa pobre Martha sem o carinho da inigualável e bondosa e insubstituível Bella. Sem o carinho de mamãe, que era o seu consolo ultimamente.
Não haverá um meio de afastá-lo ao menos temporariamente de junto dela, para que a vida tenha uma feição mais calma?(...) Ele não lhe dá tréguas".
(...) Carmem refere-se a outras cartas da irmã, todas no mesmo teor, queixando-se do marido, de seus incendimentos, das economias que consome nos malditos barcos, ou então nos livros que adquire às dúzias. Faz compras a crédito, voltam a bater em sua porta os prestamistas. Martha sente-se envergonhada.
(...) Lúcida, Carmem fala ao irmão do "estado de exaltação" do cunhado. E num tom sombriamente profético: ... "eu tenho muito medo que o fim seja terrível... Você sabe e disse há pouco tempo que ele caminhava a passos largos para um triste fim. E eu só penso nisso!".
Ventos maus seguem soprando. Para onde levam o barco da família?
Esquisitos simpáticos
Hélio não anda, raramente andará pelos mesmos atalhos do irmão. Não só pelas idades, um com dezoito, outro com quatorze, mas principalmente porque as diferenças de gostos, hábitos e temperamentos, já nítidas na infância, se acentuaram com o tempo. Hélio não para no Ponto de 100 Réis, não é de se misturar aos cantores dos botequins e das madrugadas. Violão bom para isso ele tem, caminhando que está para ser ainda melhor que Noel como solista e acompanhante. O que o afasta das noitadas é o seu jeito mais fechado, seu retraimento natural, o interesse pelos livros, curiosidade em saber sempre mais sobre tudo.
(...) Surpreende a todos com seus conhecimentos de literatura francesa, astronomia, zoologia, vida dos santos, generalidades e tudo que diga respeito às culturas esotéricas. Os amigos ficam horas a ouvi-lo discorrer sobre todos esses temas e a falar da morte, da reencarnação.
— Puxa, o Hélio sabe de tudo...
— Mas como é esquisito!
A fama de gente esquisita vai acompanhar para sempre os moradores do chalé. Uma família que desde o enforcamento de Bellarmina o pessoal do bairro acha um tanto dada a estranhezas.
E o que dizer de seu Medeiros, homem que passou tantos anos afastado da família (...) e que hoje se endivida para consumar inventos que só existem em sua cabeça? Não é menos esquisito aos olhos dos vizinhos, embora um esquisito simpático, educado, inofensivo. (...) Desde que voltou de Bica de Pedra, há mais de um ano, não trabalha. Sonha, apenas.
[De sonho em sonho] seu Medeiros acaba por tornar-se amigo e sócio do português Aníbal Teixeira Ribeiro (...). Convenceu-o de que é possível fazer fortuna tirando patente das invenções e descobertas que tem em mente. [A primeira delas] uma espécie de bicicleta aquática que os dois constroem com as próprias mãos, a partir de um desenho do 'engenheiro' Neca.
(...) Aperfeiçoada aqui e ali, até que a ideia não é má. Mas logo seus inventores e possíveis fabricantes ficam sabendo que jamais poderão patenteá-la. Por um simples motivo: já o fizeram antes deles. Há muito tempo os americanos conhecem, fabricam e usam em suas praias e lagos os engenhosos water bicycles.
Mais uma frustração para seu Medeiros.
(....) ao desmoronar, porém, o projeto da bicicleta aquática fez um barulho tão grande que o arrancou de seus sonhos. De volta à realidade, perde muito da autoconfiança, da coragem, da soberba. E também daquilo que o convertera num homem duro, intratável, que levava desassossego à vida da mulher e dos filhos. Fecha-se de novo. Recupera a humildade. E acabará aceitando o modesto emprego que o compadre Graça Mello lhe conseguirá na Prefeitura. O burocrata vai substituir o inventor.
Transcrito (com adaptações) de:
Noel Rosa, Uma Biografia. © 1990, João Máximo & Carlos Didier. Editora UNB.
Morro de São Bento. Augusto Malta. Acervo Biblioteca Nacional.
Com o colega Antônio Fernandes Lopes em 1928, ambos no quinto ano do São Bento. Foto tirada na sala de química. Noel está de luto pela avó materna, Rita de Cássia. Arquivo dos biógrafos.
Arsenal da Marinha de Guerra e Mosteiro de São Bento. Juan Gutierrez, 189?


