Pequenas Biografias: NOEL ROSA_o1

É sábado, 10 de dezembro. Desde a madrugada respira-se desassossego nas ruas do centro do Rio. (...) Ouvem-se ao longe tiros de canhão e estrondos de prédios que tombam atingidos por bombas e granadas. Famílias inteiras saem em pânico de suas casas. Correm para bondes, automóveis, trens. Fogem do fogo e da destruição, procurando um porto seguro em alguma parte.

Está em curso o embate final do levante de marinheiros que entrará para a História como a Revolta da Chibata.

Balas perdidas vindas de dois lados atingem o Liceu de Artes e Ofícios, o Museu Comercial, o Colégio Pedro II, o Tesouro Nacional. Tiros legalistas abatem dezenas, centenas de marinheiros. (...) No Mosteiro de São Bento uma bomba rebelde destrói parcialmente as celas dos monges. Mais estragos: na rua Dom Manuel, no Catumbi, Frei Caneca, Carmo, São Salvador. (...)

E foi no meio de tudo isso (...) que começou a nascer o primeiro neto de Eduardo Corrêa de Azevedo.

O chalé

A rua Theodoro da Silva é paralela à avenida principal de Vila Isabel, conhecida por Boulevard 28 de Setembro.

O número 30 fica entre Visconde de Abaeté e Souza Franco.

Quando Eduardo Corrêa de Azevedo desembarcou no Rio em fins de 1900, era uma casa semiabandonada, sem móveis, canos furados, portas e janelas emperradas, goteiras, cedida pela família de um grande amigo, o maestro Leopoldo Miguez.

Construído em terreno de 11 metros de frente por 66 de fundos, feitas as reformas, o chalé tem salas de jantar e visita, três quartos (incluindo um novo, de madeira, que Eduardo mandou fazer), cozinha, dois banheiros. O quintal é espaçoso, tanque, galinheiro, árvores que dão frutos o ano inteiro: araçá, goiaba, pitomba, limão, abacate, romã, pitanga.

Antes que o segundo ano do século chegasse ao fim, Eduardo traz a família de Juiz de Fora para a capital da República.

A esposa, Rita (...), que já mantinha uma escolinha de alfabetização em Minas Gerais, agora aproveitava a sala da frente e improvisava nela algumas carteiras. Fundou novo educandário que, em homenagem à sua padroeira, chamou de Externato Santa Rita de Cássia.

Genealogia

A família é numerosa e certas coisas passam de pais para filhos.

Visto como "o ponto de partida" [da linhagem], o médico Luís Corrêa d'Azevedo, avô de Eduardo, chegou de Portugal em 1834. Trouxe consigo a esposa, Eleziária, natural da Ilha da Madeira, e a prole, entre os quais, Fortunato Corrêa d'Azevedo.

Estabelecidos no Rio de Janeiro, Fortunato abraça a carreira do pai. Formou-se em 1850, casou com a também portuguesa Maria Adelina e brasileiros nasceram-lhes os três filhos: Eduardo, Fortunatinho e César.

Fortunato será a vida toda homem austero, mandão, de gestos e gostos aristocráticos. Não quis que os filhos seguissem sua carreira: "É um ingrato ofício", justificava.

Eduardo, que sentia-se vocacionado justamente para a medicina, por imposição do pai entra para a Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Larga, no entanto, a Engenharia no segundo ano, convencendo a todos de que se daria melhor como farmacêutico. Chegou a se formar, a montar farmácia com seu nome. Depois, estudou odontologia  algo bem mais próximo da medicina  e tão logo concluiu o curso, Fortunato morreu. Finalmente livre para fazer o que queria, o rapaz recebeu o diploma de médico em dezembro de 1882.

Num atendimento de rotina, meses depois, conhece uma jovem da cidade mineira de Leopoldina que viera assistir com os irmãos a abertura da temporada lírica. Entre médico e paciente nasceu ali mesmo um interesse maior, um descobrindo no outro irresistíveis afinidades. A moça, Rita de Cássia, tocava bem piano e Eduardo adorava música. Ele já era um amante da poesia, no que ela não lhe ficava atrás. Bons conversadores, espirituosos, românticos, combinavam em tudo. Quando se foi com os irmãos, Rita levou e deixou saudades. Amenizadas, contudo, pelas cartas que passaram a trocar. As de Eduardo, em versos.

Matriarcas

Rita vivia em Leopoldina desde que nascera, a 5 de maio de 1859. Perdeu os pais cedo e foi criada pela irmã mais velha, Maria Augusta, professora em cuja casa funcionava pequena escola de alfabetização de crianças.

Foi nesta casa que um dia Eduardo bateu para pedir a Maria Augusta permissão de lhe cortejar a irmã. Mudara-se do Rio para Brejo, cidadezinha do município de Leopoldina, só para ficar mais perto de Rita. Estava apaixonado.

No mesmo endereço vivia Bellarmina de Medeiros, a Bella, nascida em 1863, na mesma Leopoldina. Assim como Rita, Bella ficou órfã muito menina e foi praticamente criada por Maria Augusta.

(...) Ao mudar-se para a nova casa, só levou a roupa do corpo. Até mesmo os nomes dos pais foram deixados do lado de fora. (...) Supunha-se que, não se falando no passado da menina, mais depressa se esqueceria a tragédia que todos queriam esquecer: seu pai se suicidara.

Tinha ela apenas quatro anos e Rita oito quando se tornaram, por assim dizer, irmãs de criação. E grandes amigas. Uma amizade que vai durar enquanto viverem.

Aos dezesseis anos, Bellarmina casou-se com Manuel Garcia da Rosa, de quem sabe-se apenas que morreu jovem, pouco depois de nascer, a 24 de maio de 1880, o único filho dos dois: Manuel Garcia de Medeiros Rosa. Viúva, Bella voltou para a casa de Maria Augusta. Naturalmente, com o menino. Rita jurou que jamais se separariam outra vez. Daí, ao casar-se com Eduardo, ter levado, além de seus projetos de noiva, a irmã de criação e seu filho de cinco anos, que já ganhara o apelido  Neca  que o acompanhará por toda a vida.

A primeira filha do casal, Carmem, nasceu em Brejo em 1886. De um parto tão complicado  a bacia estreita da mulher dando muito trabalho ao médico e marido  que quando chegou a vez de terem o segundo filho ele achou mais prudente levar Rita ao Rio para que a criança viesse ao mundo na casa da avó Maria Adelina e pelas mãos de outro médico.

Nasce assim, a 4 de junho de 1889, na casa que Maria Adelina ainda mantinha no bairro carioca do Rio Comprido, a segunda filha: Martha Corrêa de Azevedo. A família se completaria três anos depois com a vinda de Eduardinho, em Ponte do Cágado, município de Santana do Deserto, comarca de Juiz de Fora, para onde todos se haviam mudado pouco antes.

Patriarca

A melhor fase da vida de Eduardo Corrêa de Azevedo  ou pelo menos aquela de que os moradores do chalé têm mais saudade  é a da infância e adolescência dos filhos, já em Juiz de Fora, onde ele clinicava em sua própria farmácia. São de então os seus primeiros lampejos poéticos, versos que ia escrevendo, mostrando aos amigos, guardando. 

[Incentivado por, em suas palavras, editores "amáveis e corajosos", reuniria os poemas em dois volumes: Rimas Sem Arte, de 1899 e Catecismo, cinco anos depois.]

(...) Ao mesmo tempo, sentia-se atraído pelo jornalismo. (...) Fundou com o amigo e poeta Oscar da Gama o jornalzinho A Cigarra, de curta duração, e tornou-se colaborador dos mais presentes nas páginas do Diário da Tarde local (...).

Quis que as crianças desde cedo convivessem com a música, por isso comprou para elas um Pleyel de segunda mão. Carmem, de ouvido absoluto, acabará se tornando professora de conservatório. Martha sempre será melhor no bandolim que no piano. Eduardinho, o de pior ouvido, jamais passou das primeiras lições domésticas dadas pela mãe. Mas toda a família é muito musical. E teatral também. Ainda na casa de Ponte do Cágado, Eduardo mandara construir ao lado do galpão de serviços um teatrinho onde os filhos e vizinhos representavam sketches e pequenas peças, muitas vezes escritos por ele mesmo.

Um homem raro, especial, em torno de quem a família viveu unida e em paz. Os filhos cresceram entre música e poesia, o teatrinho e os brinquedos, os estudos e as amenidades.

Viravolta

Quando em Juiz de Fora, paralelamente à medicina e ao jornalismo, Eduardo exerceu as funções de inspetor municipal de higiene e de fiscal estadual da Loteria Mineira. Por determinação do Secretário de Finanças do estado, David Campista, foi transferido ao Rio, para supervisionar a instalação na Capital e em Petrópolis de dois novos postos de extração, a companhia lotérica ainda estando sob jurisdição e controle do Governo de Minas Gerais. Mesmo preferindo continuar em Juiz de Fora, o funcionário público que habitava o médico e poeta Eduardo Corrêa de Azevedo sentiu-se obrigado a obedecer.

Devem ter pesado na decisão as dificuldades enfrentadas pela família nos últimos meses em Minas. Eduardo levara um tombo, caíra sentado, passara a sentir fortes dores por toda a região sacra. Para aliviar o sofrimento, recorreu à cocaína. E acabou dependente.

O vício dispendioso, somado à clínica que, na verdade, já não ia tão bem, pesou sobre todos. Reduziram-se as despesas, Rita economizou o quanto pôde, chegou a limitar as refeições da casa ao chuchu que plantava no quintal e ao arroz que alguns parentes caridosos lhes mandavam.

A mudança para o Rio, em 1900, marcava, assim, o começo de tempos muito difíceis.

[Apenas sete anos depois], a saúde muito abalada, a clínica em decadência, (...) às dores que já sentia e à dependência da cocaína veio se juntar um rebelde ferimento na perna. Arruinava-se cada vez mais rapidamente o corpo do poeta.

Uniram-se todos para que o trem da família não saísse dos trilhos. (...) Rita, muito ajudada pelas filhas, continuava trabalhando na escolinha, enquanto o marido tentava manter, embora precariamente, um consultório nos fundos da Farmácia Dantas, no Boulevard.

(...) Sem ter concluído sua última obra, o livro de poesias intitulado Últimos Amores, Eduardo morreria em 1909.

Viúvas

Rita, assim como Bella, jamais voltará a se casar. Sequer admitem que se insinue tal traição à memória dos maridos e, por confiarem no patriarcado, acham que o chefe da casa tem de ser um homem. Fazem de Neca, então com 29 anos, este chefe. Não só por ser o mais velho (Eduardinho tinha apenas 17), mas também por ser o único em condições de ajudá-las nas despesas (Eduardinho queria estudar medicina como o pai, o avô e o bisavô, mas por enquanto ainda estava no ginásio).

Havia, contudo, um problema: o que diriam parentes e vizinhos de duas senhoras viúvas e as jovens filhas de uma delas vivendo sob o mesmo teto com um homem ainda jovem e também solteiro? Rita e Bella, preocupadas, viram apenas duas saídas: ou Neca ia morar noutra casa, afastando-se da família, ou se casava com uma das moças. Ele próprio optou por esta última. Já gostava de Martha, de seus olhos verdes, de seu jeito mais doce que o de Carmem. Para Rita e Bella, uma solução adequada. Para Neca, um gesto galante. Para Martha, quase um ato de obediência, facilitado pela admiração e estima que tinha ao noivo. 

Casaram-se no próprio chalé. Menos de um ano depois, o primeiro filho. O menino nasce nesta manhã de domingo, 11 de dezembro de 1910. A cidade já está calma, a revolta dos marinheiros sufocada, o azul substituindo as nuvens de fumaça que ontem obscureciam o céu.

Eduardo Corrêa de Azevedo teria gostado de estar aqui.

*

Ouça sete clássicos que Noel compôs ao longo da vida, sozinho ou em parceria.

Transcrito (com adaptações) de:

Noel Rosa, Uma Biografia© 1990, João Máximo & Carlos Didier. Editora UNB.

Imagens:

Oficina-garagem dos bondes da LIGHT, na Avenida 28 de Setembro. 1929. Imagem tomada de avião. Autor: Holland, S. H. Brasiliana Fotográfica / Biblioteca Nacional.

O chalé da Theodoro da Silva, 30, em Vila Isabel, onde nasceu, viveu e morreu Noel Rosa.

Eduardo Corrêa de Azevedo, o vô Eduardo, no tempo em que ostentava suíças.