Leitura Complementar: NOEL ROSA_o4 / À Luz das Estrelas

Com a melodia que espalhávamos  eu, Nássara, Alegria, Canuto, Clóvis e outros  a minha impressão era de que se tornava mais intensa a palpitação longínqua das estrelas (Entrevista ao Jornal de Rádio).

CAPÍTULO 9 À LUZ DAS ESTRELAS

Começo de madrugada, Noel vem pela rua deserta a caminho de casa. Ele e o violão. Toda a Vila Isabel dorme. Ou quase toda. Ao chegar à esquina de Souza Franco com Theodoro da Silva, distingue adiante um pequeno grupo. E ouve soar uma voz emocionada:

    Este amor tristonho
    Não devemos relembrar
    Tantos beijos que trocamos
    Tudo esqueçamos
    Tudo morreu...

É o bastante para que desista de dobrar à esquerda, na direção do chalé, e tome o sentido oposto, aproximando-se do grupo. São quatro homens, todos mais velhos que ele. Três tocam violão e o outro continua cantando:

    E deixaste na minh'alma
    Fragmentos de saudade
    Devolveste a liberdade
    Oh, sim, a um coração que sofreu...

Noel espera que chegue ao fim e pergunta:

— Que música é essa?

— Tudo Acabado — responde o cantor. Um tango-canção do Índio, o Cândido das Neves.

— Pode cantar de novo? Do começo. Quero ver se o acompanho.

Depois da introdução improvisada por Noel, o cantor recomeça:

    Este amor tristonho
    Não devemos relembrar...

Finda a canção, já não são quatro os componentes do grupo. Noel ouve os elogios dos três violonistas, agradece, se apresenta. Um deles, Vicente Gagliano, é seu velho conhecido (um dos muitos que ainda vão encher a boca para lembrar que foram "professores de Noel"). Casado, muitos filhos, mora em frente ao chalé numa casa de porta e janela da qual só de vez em quando consegue sair para uma reunião como esta. Hoje ele vive de um ou outro servicinho que aparece, mas houve época em que ganhava o sustento vendendo essências, talcos, águas-de-cheiro, sabonetes, daí o apelido de Vicente Sabonete que nunca o deixará. Dos três desse grupo, é o único que terá reconhecimento fora das fronteiras das serestas do bairro. Ex-tocador de ocarina, pleno domínio da técnica do violão, ainda será citado em letra de fôrma pelos estudiosos do choro, sendo apreciado acompanhante e solista de coisas à João Pernambuco e outros cultores do gênero.

O segundo violonista é o Julinho Ferramenta, de dia funcionário da Casa da Moeda, de noite boêmio devoto para quem uma canção é como uma reza: toca como se estivesse ajoelhado diante de um altar. O terceiro, Agenor Eloy Passos, é filho de general e ele próprio homem de posição, técnico em contabilidade do Ministério da Agricultura. Quando sua mão esquerda trabalha no braço do violão, torna-se ainda mais reluzente o grande anel de grau que carrega no dedo, cheio de pose. Muitos o chamam de 'doutor', mas aqui, no sereno, ou lá no Boulevard, nos botequins em que se senta para conversar fiado, cantar e tocar, é simplesmente o Nonô, doutor em violão e nada mais. Por último, o cantor:

 Meu nome é José Souza Pinto. Alegria, para os amigos.

Não é difícil saber a razão do apelido. José, ou Jota como alguns o chamam, ou ainda Alegria como o tratam quase todos, é homem de sorriso constante. Adora cantar, vive desde menino com jornais de modinha debaixo do braço. É verdade que nem sempre são alegres os números do seu repertório, como deixou bem claro o tango-canção do Índio que acaba de interpretar. Mas quem lhe pôs o apelido na certa não lhe conhecia o canto triste. E ficou Alegria mesmo.

Ele e Noel gostam logo um do outro. Uma simpatia mútua que, nascendo nesta noite, ainda se transformará em grande amizade.

— Moro aqui perto, no 130 — diz Noel apontando para o chalé— Aparece lá em casa para ouvir umas músicas que ando fazendo.

Alegria vai aparecer. Será um dos frequentadores mais assíduos do chalé, desses que chegam na hora do café da manhã, vão ficando, almoçam, lancham, jantam e só não dormem porque, afinal, está justamente no não dormir a diferença entre visitar e morar. Desde este fim de noite, sob um poste de luz da Theodoro da Silva, serão não apenas amigos, mas inseparáveis nas serenatas pelas ruas de Vila Isabel. Ele, Julinho Ferramenta e Nonô. E depois outros, o Clóvis Silva, o Octacílio Ramalho, os irmãos Paulo, Mário, João e Manuel Anacleto, o Francisco Martins, o Waldemar Coroa. Gente de classe média como Noel, mas também muitos batuqueiros que descem do morro dos Macacos, do Salgueiro, da Mangueira, para pegar no pesado cá embaixo, e acabam ficando para uma cantoria noturna: Canuto, Puruca, Pixó, Duas Covas, Maciste, Ildebrando, Fortunato Melancia, Papo de Angu, Aristeu, Osso.

Vila Isabel é um bairro curiosamente musical. Curiosamente na medida em que jurisdições vizinhas, aqui pertinho, como a Tijuca, o Maracanã, o Engenho Novo, também parecem ter tudo para embeberem de ritmos e melodias as suas noites e no entanto não possuem metade da alma sonora de Vila Isabel. É evidente que também há música naqueles bairros. Música e músicos. Mas não com a quantidade daqui. E, se se for pensar bem, tampouco com a qualidade. Os melhores compositores e cantores dos que se encontram pelas ruas da Tijuca descem do Salgueiro, dos que circulam pelo Engenho Novo vêm de subúrbios mais distantes, dos que fazem ponto no Largo do Maracanã vivem num daqueles barracos que, do outro lado da linha do trem, colorem de pobreza a paisagem do morro da Mangueira.

Já aqui em Vila Isabel os seresteiros são quase todos gente do lugar. Os rapazes que tocam e cantam pelas esquinas, os que improvisam versos e criam música nos botequins, nasceram, cresceram ou pelo menos residem aqui há muito tempo. Como se verá, este bairro de meio de caminho, ilhado entre outros, destina-se a ser aquilo que um cronista chamará de "celeiro". Não apenas de sambas e sambistas, mas de partidos, coisas do Norte, choros, canções, boa música popular.

Como explicar esta fertilidade musical de Vila Isabel? Como justificar que surjam aqui, todos os dias, todas as noites, meninos que tocam violão tão bem, artistas que se interessam tanto pelo carnaval, poetas cultos que cedo ou tarde aderirão ao coro das serenatas. Meninos como Noel, artistas como Antônio Nássara, poetas cultos como Orestes Barbosa. Mas estes dois ilustres personagens ainda não entram na história.

Por enquanto, os contatos de Noel são mesmo com os seresteiros e um ou outro batuqueiro. Gente que gosta de cantar por cantar, de tocar pelo prazer de extrair novos sons do violão. Como Clóvis Silva, o Clóvis Miguelão, que vive acompanhando Noel nas idas a A Guitarra de Prata (o hábito adquirido nos tempos de São Bento, ele, Hélio e Glauco Vianna indo ver e ouvir Quincas Laranjeiras, João Pernambuco e outros, não foi abandonado). Noel e Clóvis ficam ali, às vezes por horas, aprendendo com os mestres do instrumento. Pena que a necessidade de sobrevivência obrigue o Miguelão a passar mais da metade do dia trabalhando como policial (ainda vai ser um dos guardas de segurança do futuro prefeito do Distrito Federal, Pedro Ernesto Baptista). O violão será esquecido. A mesma coisa com o Octacílio, mecânico da Light. Quem o vê exibindo os músculos, gabando-se de ser um atleta, ginasta, levantador de peso, lutador de greco-romana, não o imagina tão sensível à música. Outro bom violonista que as serenatas perderão para a força policial.

É com essa turma  a voz de Alegria sempre pontificando  que Noel sai de violão pela noite. Às vezes para atender ao apelo de um amigo como Arnaldo Araújo:

 Noel, acabo de brigar com minha namorada. Desta vez foi feio. Será que a gente não pode remediar as coisas com uma serenata?

E vão todos para debaixo da janela da moça, Noel ao violão, Alegria cantando as mágoas pelo amigo e este esperando que as canções de amor transformem a briga em pazes feitas. Se tudo correr bem, Arnaldo, feliz da vida, pagará a ceia para todos. Em outras ocasiões, porém, trocam a luz das estrelas pelo prestígio que desfrutam no Café de Vila Isabel, ou melhor, no botequim do Carvalho, numa das esquinas do Boulevard com Souza Franco.

Não se pode compreender bem o bairro sem se conhecer seus botequins e suas esquinas, especialmente estas que formam o cruzamento conhecido como Ponto de 100 Réis. O nome se deve a ser ali, de um lado e do outro da avenida dividida por estreita calçada com canteiro, que os bondes 'mudam de seção', passando-se a cobrar de cada passageiro, a partir daquele ponto, mais 100 réis. Os bondes procedentes do Lins de Vasconcellos e do Engenho Novo param em frente à agência da Caixa Econômica. Os que vêm da cidade o fazem em frente ao Café Rio Clube, de propriedade do Martinez.

Pois este cruzamento, completado pela quarta esquina, a da Confeitaria do Ventura, é o centro nervoso do bairro. E seu coração também. É onde todos se encontram para conversar, saber das novidades, ouvir e contar casos. À sua volta ficam as principais casas de comércio da avenida, os sobrados onde a tavolagem não descansa, a movimentada máquina de apostas do banqueiro de bicho Lourenço Gilaberte com suas cinco, seis, às vezes sete extrações diárias: Para Todos, Rio, Niterói, Salvação, Desespero e, havendo quem se disponha a arriscar mais algum, a 'doutor' Lourenço e a Mão na Saca, o próprio banqueiro sorteando os números de uma sacola de víspora. No Ponto de 100 Réis reúne-se toda sorte de gente, jovens e velhos, operários de fábrica e desocupados, doutores e oportunistas, chefes de família e estudantes, policiais e sambistas. Os botequins e as esquinas são entidades integradoras, em torno das quais se conhecem, se aproximam, conversam, trocam ideias e até ficam amigas as criaturas mais diversas, de níveis sociais tão distintos que muito provavelmente, não houvesse os botequins e as esquinas, seus caminhos jamais se cruzariam. Os botequins mais que as esquinas, uma vez que aqui, no Ponto de 100 Réis, cada calçada costuma ser uma espécie de 'território' próprio, um da turma do jogo, outro dos estudantes, o terceiro do pessoal do futebol, o quarto da boêmia.

Já nos botequins, a música nivela todos, iguala os mais vários espíritos. Não tanto o do Martinez, sempre cheio na hora da conversa, mas pouco musical, seu dono não sendo muito amigo de cantorias. Diferente, portanto, do Carvalho. Um dia, quando alguns dos moços que hoje o frequentam se tornarem famosos como compositores e cantores de rádio, o Carvalho há de ser lembrado em reportagens de jornal. Numa delas, profeticamente (Diário de Notícias, Rio, 15 de fevereiro de 1931):

"Quando se escrever a história do nosso samba, o Café de Vila Isabel, onde Noel Rosa faz ponto, merecerá capítulo especial. Ali foi que o inspirado compositor fez a maior parte de suas composições, depois de uma hora da madrugada. O dono desse café, um português pacato e de coração como doce de calda, era 'amasiado' com os fados, mas não olhava com desprezo para o samba que era como que uma mulatinha para seus ouvidos...

E como é democrático por índole, não fez como os outros donos de cafés do bairro, deixou que Noel Rosa, com a turma que o acompanha em Vila Isabel, continuasse ali a vibrar as cordas de seu pinho e a escrever suas letras. Com o tempo, o bom luso mostrou achar-se enamorado de nossa música. Foi desprezando os fadinhos e fazendo 'pés d'alferes' com os sambas. Hoje, é o primeiro a gritar:

— Eu sou do samba e quem disser que não sou... é porque não sabe que... eu sou".

Transcrito de:

Noel Rosa, Uma Biografia© 1990, João Máximo & Carlos Didier. Editora UNB.

Imagens:

Planta das ruas de Vila Isabel, 1872. Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

Jardins de Vila Isabel  Álbum da Inspetoria de Mattas, Jardins, Caça e Pesca da Prefeitura do Distrito Federal  Exposição nacional do Centenário da Independência do Brasil  1922.