o1. A Turma de 1942
Caetano, Milton, Chico, Elis, Edu, Bethânia, Gal, João Bosco, Djavan...
A geração de musicistas mais conhecida — e reconhecida — da História do Brasil tem hoje, ou teria, por volta de 70 e 80 anos de idade, mais ou menos.
Despontaram para o estrelato na chamada Era dos Festivais, que vai do embrião da TV Excelsior em 1965 aos últimos suspiros no Festival dos Festivais da Rede Globo, duas décadas mais tarde. São os responsáveis pelo surgimento do que veio a ganhar o nome de MPB.
Se, em contraponto à 'música erudita', a denominação 'música popular brasileira' existiu desde muito cedo, MPB, em forma de sigla como fazem partidos políticos ou movimentos sociais, é uma ideia posta em uso (e não por acaso) nos tempos de resistência ao Regime Militar.
Trata-se de uma geração marcada por um traço comum: filhos da classe média, eram escolarizados e, na sua grande maioria, chegaram a ingressar na faculdade.
Não é frequente entre eles crianças prodígio como foi Pixinguinha, ou mesmo quem tenha vindo de famílias de artistas, a exemplo de Luiz Gonzaga, que herdou do velho Januário sanfona, musicalidade e o conhecimento da tradição oral nordestina.
Poderiam, se quisessem, ter escolhido trabalhar nas chamadas profissões liberais, ou ocupando cargos públicos. Poderiam estudar no exterior, seguir carreira acadêmica, escrever romances, fazer cinema, entrar para a diplomacia, disputar eleições, ou mesmo gerir grandes empresas.
Alguma coisa, no entanto, aconteceu no coração daqueles jovens privilegiados: o chamado da música popular, ainda que tardio, revelou-se decisivo.
Esse pessoal chega à velhice sem ter passado por qualquer período de ostracismo, ou decadência. Talvez você não saiba, mas o sucesso consistente e duradouro de uma geração inteira (a rigor, duas) na música do Brasil era coisa inédita até então.
Mais comum teria sido confirmar-se a regra: "sambista não tem valor nessa terra de doutor".
Mas, por que contar a história da MPB a partir dos marcadores de classe dos seus artífices?
E, aliás, a quem estamos nos referindo quando falamos em 'classe média'? Àquela triplamente abominável do discurso de Marilena Chauí?
"A classe média é uma abominação política, porque é fascista; é uma abominação ética porque é violenta; e é uma abominação cognitiva porque é ignorante. Fim."
Ou a esta outra, descrita por Chico Buarque e Paulo Pontes no prefácio à Gota d'Água?
"Se é certo que não há (ou há muito pouca) tradição revolucionária no Brasil, é nítido que havia uma tradição de rebeldia nascida e alimentada nos setores intelectualizados da pequena burguesia brasileira (profissionais liberais, estudantes, escritores, artistas, políticos, etc.). Em épocas distintas, e com matizes diversos, os contornos dessa linha de tradição podem ser traçados com nitidez: vem de Gregório de Matos a Plínio Marcos; está em Castro Alves, mas também está em Augusto dos Anjos; ela está madura, consciente, em Graciliano, e corrosiva, em Oswald de Andrade; está em Caetano Veloso, mas já esteve em Noel Rosa; esteve em 22, e também no Arena, no Oficina, no Opinião e no Cinema Novo, para citar apenas nomes e movimentos ligados à arte. A ironia, o deboche, a boêmia, a indagação desesperada, a anarquia, o fascínio pela utopia, um certo orgulho da própria marginalidade, o apetite pelo novo são algumas marcas dessa nossa tradição de rebeldia pequeno-burguesa".
Diante da aparente contradição, vamos recorrer a uma terceira abordagem, a do professor Jessé Souza, autor, entre outros, de A Elite do Atraso.
Num primeiro momento, Souza parece confirmar Marilena Chauí:
(...) "a chave para a compreensão da iniquidade e vileza singulares da sociedade brasileira é a classe média. É ela que forma um pacto antipopular comandado pela elite dos proprietários, onde se misturam aspectos racionais, como preservação de privilégios, e aspectos irracionais, como necessidades de distinção somados a ódio e ressentimento de classe".
Nessa perspectiva, a classe média faria jus à acidez retórica da filósofa, por tomar para si o papel de "capataz moderno", ocupando posição intermediária entre a "elite do dinheiro" e as classes populares (a quem também explora).
Mas há algo na pesquisa de Souza que aponta para o que dizem Chico e Paulo Pontes.
Pois se (...) "a maior parte da classe média é tendencialmente conservadora, ela não o é do mesmo modo" em todos os seus segmentos.
Jessé Souza, por isso, analisa o todo da classe média dividindo-a em quatro nichos ou frações:
a fração liberal;
a fração protofascista;
a fração expressivista (a quem ele chama de "a classe média de Oslo");
e a fração crítica.
PORCENTAGENS
Em termos quantitativos, a fração liberal seria a maior entre as quatro, com cerca de 35% do total, vindo a seguir a fração protofascista, com mais ou menos 30%.
Estas duas frações dominantes, responsáveis pela ampla maioria de 2/3 da ideologia pequeno-burguesa, formam a classe média tradicional, surgida durante o processo brasileiro de industrialização, aquela do conhecimento técnico, ou seja, do conjunto de saberes que serve diretamente às necessidades do capital e sua reprodução e que contribui menos para a transformação da própria personalidade de quem o detém.
O terço restante constitui o recorte de classe média com mais alto capital cultural, ou capital cultural reflexivo. As duas frações são compostas por pessoas que, comparativamente, optaram por estudar mais tempo, conhecem outras línguas, viajam e leem mais, consomem produtos ditos 'culturais' e se inclinam a perceber a própria vida e a vida social mais como invenção e menos como uma espécie de 'natureza', pré-determinada.
Cerca de 60% deste subgrupo mais instruído, forma o que podemos chamar de fração expressivista, seguida, por fim, pela parcela que Jessé Souza denomina de crítica, a menor fração entre todas, que perfaz apenas 15% do total da classe média.
VISÃO POLÍTICA
Politicamente, para o liberal, os rituais da convivência democrática são constitutivos, ainda que possa vir a ser convencido da conveniência de exceções na conjuntura histórica (leia-se "Golpe"), como aconteceu, por exemplo, em 1964 e 2016.
O protofascista, por sua vez, deseja um mundo onde seu ódio e seu ressentimento possam ser abertos e ditos com orgulho, como expressão de ousadia ou sinceridade. O mal e o bem estão claramente definidos e o bem se confunde com a própria personalidade. Assim, qualquer crítica é recebida como negação da pessoa como um todo, pois não há qualquer distanciamento em relação a si mesmo, gerando uma violência também totalizadora. O protofascista é, portanto, antipolítico.
Para o expressivista, aquilo que define a 'virtude', ou seja, o que há de mais elevado nos seres humanos é a possibilidade de ser fiel a seus sentimentos e emoções mais íntimos. Como esses sentimentos e emoções são, por definição, reprimidos e silenciados para o bem da disciplina e da capacidade produtiva, nós temos que aprender a conhecê-los e expressá-los. O expressivista pode se tornar apolítico.
Os indivíduos que compõem o nicho crítico percebem o mundo social como algo que se constrói, o que enseja também uma atitude mais ativa em relação a ele. Essa crença na ação política se contrapõe à percepção do mundo como dado, em outras palavras, como uma natureza sob outra forma, em relação à qual é preciso se adaptar.
Originalmente era possível pensar numa classe média liberal coabitada por uma pequena fração crítica. O expressivismo se massifica com a contracultura do fim dos anos 1960 e o protofascismo, ainda mais recente, com a ascensão da Extrema-Direita nos primeiros anos do século XXI.
Chico e Paulo Pontes, haviam tido o cuidado de delimitar, no todo da pequena burguesia brasileira, os seus "setores intelectualizados": profissionais liberais, estudantes, escritores, artistas, políticos, etc.
Esse recorte coincide, ao menos em parte, com as frações detentoras de maior "capital reflexivo", aquelas que "se inclinam a perceber a própria vida e a vida social mais como invenção cultural e menos como natureza já dada". A 'tradição' de 'rebeldia'.
Os autores de Gota d'Água não desconhecem a subalternização imposta pelas classes dominantes às camadas populares. Têm perfeita noção da violência 'abominável' descrita por Marilena Chauí.
Sabem que, como Jessé Souza explica, ainda que a classe média seja muito heterogênea, toda ela, sem exceção, é portadora em maior ou menor grau "do ódio secular às classes populares" e que "mesmo quem critica os preconceitos os tem dentro de si como qualquer outra pessoa criada no mesmo ambiente social".
Mas falam "também" da "nossa história" como história de conflitos.
"Este sempre foi um país dependente. A nossa história tem sido, também, a história dos conflitos entre as diversas matrizes e os interesses legítimos, nacionais, que se foram criando aqui. Ao longo dessa história correram, paralelas e quase sempre isoladas uma da outra, duas culturas: uma, elitista, colonizadora, transposta da matriz para cá; a outra, popular, abafada, nascida da existência social concreta das classes subalternas".
Diante da disputa, dizem os escritores, "entre os dois polos, as camadas médias desenvolveram, sempre, um movimento pendular".
No mesmo prefácio à Gota d'Água, Chico e Paulo afirmam que:
"O inconformismo e a disponibilidade ideológica de setores da pequena burguesia foram, em muitos momentos de nossa história, instrumentos de expressão das necessidades das classes subalternas", ponto de vista problemático nos dias de hoje quando, com os avanços conquistados, os movimentos populares tendem a reivindicar os 'lugares de fala', mas ainda capaz de traduzir o 'inconformismo' que marcou gerações e gerações de privilegiados empáticos às causas dos destituídos.
Por certo, articulando as ideias de Chico e Paulo Pontes, Jessé Souza e Marilena Chauí, temos, no interior mesmo da classe média em seu todo, as frações crítica e expressivista 'pendulando' em favor das 'classes subalternas' permanentemente atacadas por liberais e protofascistas.
Com isso, aqueles jovens emepebistas percorriam caminhos que as vanguardas estéticas e políticas dos séculos XIX e XX haviam transformado em uma linha de tradição. Remontam ao abolicionismo, a Hemingway, Fidel Castro e Che Guevara, aos poetas da Resistência Francesa, ao Dostoievski enviado à Sibéria e inúmeros outros, modernistas brasileiros incluídos. Trata-se do apoio à luta contra a desigualdade e a injustiça e pela emancipação humana.
Em resumo, a MPB, modalidade da música popular brasileira, nascida no seio das classes médias na década de 1960, ao representar — artisticamente — os ideais de parcelas desse grupo societário, faz surgir ao mesmo tempo uma disputa intestina entre assemelhados.
Por isso podemos considerar que a MPB, longe de ser hegemônica, é território em permanente conflito.
Bibliografia:
Gota d'Água. Edição integral. © 1975 Chico Buarque e Paulo Pontes. Licença editorial para o Círculo do Livro por cortesia da Editora Civilização Brasileira S.A.
Prefácio:
https://acancaoestamorta.blogspot.com/2023/11/prefacio-gota-dagua.html
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A Elite do Atraso: da Escravidão à Lava Jato. © 2017 Jessé Souza. Rio de Janeiro. Leya, 2017.
Capítulo A Classe Média e suas Frações:
https://acancaoestamorta.blogspot.com/2023/10/a-classe-media-e-suas-fracoes.html
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A Classe Média. Marilena Chauí. Palestra na USP, 2012.
Vídeo:
https://youtu.be/Zk7rMBpMc9w
Imagens:
Elenco do III Festival da Record, em 1967. Revista Fatos e Fotos.
Capa do LP nº 1 da trilogia Phono 73: O Canto de Um Povo. Phonogram, 1973.

