o8. Malandros e Cantores
"O samba batucado, criação de malandros afrodescendentes, de melodias de notas longas, de saltos súbitos para o agudo, a um só tempo viril e pungente, de pulsação rítmica mais ampla e sincopada que a do samba da Bahia, surgia, após 1922, no Estácio de Sá, bairro central do Rio de Janeiro". (Didier, 2022)
1.
Em 1920, o Rio de Janeiro, ao se preparar para bem acolher Alberto e Elizabeth, reis da Bélgica, dera o passo decisivo para a criação do samba batucado: a fixação da zona de baixo meretrício do Mangue. (...)
O Rio de então era uma cidade coalhada de bordéis. No Centro, entre lojas de comércio e residências familiares, espalhavam-se os pontos: as pensões de mulheres, conhecidas como casas de tolerância, tradução do francês 'maisons de tolérance', onde elas atendiam e residiam; as 'maisons de rendez-vous', que frequentavam quando assim o desejavam; e as hospedarias populares, versão nacional das 'maisons de passe', destinadas a conquistas pelas calçadas.
O medo das honradas autoridades era um só: que o rei e a rainha, ao darem um piparote no protocolo, improvisassem qualquer passeio por calçadas indevidas e vissem aquilo que não deveriam ver.
Em 17 de setembro, dois dias antes do régio desembarque, A Folha, jornal de oposição, troçava com a nota Para o Rei Não Ver. Por onde se sabia que o chefe de polícia, Geminiano da Franca, intimara as "mulheres de baixa prostituição" a abandonar três ruas: Núncio, Tobias Barreto e São Jorge, as atuais República do Líbano, Regente Feijó e Gonçalves Ledo. As profissionais que permanecessem estavam "proibidas de chegar às janelas", assim como de 'faire le trottoir', fazer a calçada, em francês.
Tratava-se de intervenção localizada, visto que, na capital da República, a prostituição era mais franca que o dr. Geminiano: grassava sem cerimônia, alimentava muitos. Além dos cafetões e gigolôs, dos gerentes, porteiros e garçons, sem esquecer dos agentes da lei, aqueles casarios antigos, de quartos pequenos e sem higiene, de roupas de cama trocadas de quando em vez, proporcionavam ricos rendimentos aos proprietários: aluguéis parrudos, em dinheiro vivo, longe de impostos e outras contrariedades. Muito chá grã-fino era servido, então, em cima de grosseiros lençóis.
2.
Prostituição era empreendimento de grande porte, rico faturamento e cotações em moedas internacionais. Um serviço comandado por agentes estrangeiros, alimentado pelo tráfico de escravas brancas, com transações em Paris, embarques em Barcelona, Marselha, Nápoles.
(...) Paris era o centro do comércio de escravas brancas na Europa Ocidental. Era a Paris que cáftens se dirigiam para 'faire la remonte' (fazer o recrutamento). Era em Paris que tramavam as viagens de futuras prostitutas: moças ingênuas das aldeias, seduzidas por promessas de casamento; moças pobres das cidades, à margem de oportunidades de trabalho. Sempre moças sem proteção, sem horizontes.
No meio da viagem, a perda da virgindade, a mudança no comportamento do cáften, antes amável, agora agressivo. Era o início do processo de submissão. Na chegada ao destino, ela era entregue aos cuidados de uma dona de bordel. Sem falar a língua, sem conhecer ninguém, a prostituição surgia como sobrevivência.
Segundo Os Estrangeiros e o Comércio do Prazer nas Ruas do Rio, 1890-1930, de Lená Medeiros de Menezes, assim atuava a Zwi Migdal, a poderosa organização judaica de prostituição.
Uma rede mundial de negócios, de sede sul-americana em Buenos Aires.
Era da Argentina que seguiam para Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo, para onde houvesse demanda. Na capital do Brasil, o percurso era uma ladeira: no alto, as pensões da Glória; ao sopé, a zona do Mangue. Ao fundo do Mangue, o malandro.
3.
Malandro era todo aquele que vivia de expedientes. Um tipo boêmio que se sustentava com espertezas, trapaças e explorações. Um vadio vocacional que, decididamente, não pegava no pesado.
Na tipologia da malandragem, figuravam: o malandro-cáften, mantido pelas malandrinhas do Mangue; o malandro dos jogos, prestidigitador da chapinha e do baralho; o malandro da segurança, valente que afastava, com sua simples presença, de cabarés e casas de jogatina, outros malandros; e o malandro da estia, o dono do pedaço, aquele que achacava quem operava em seus domínios. (...)
Na linhagem dos malandros, havia ainda o malandro-seresteiro. Aquele que sabia aplicar uma rasteira com o "mesmo desembaraço" com que tangia o cavaquinho ou o violão.
Todos se espalhavam por Saúde, Gamboa, Santo Cristo e Catumbi, quando a zona de baixo meretrício do Mangue ainda não existia.
4.
Ainda antes dos augustos pés de Elizabeth e Alberto pisarem os humildes solos brasileiros, ganhava força a campanha pela criação de uma área oficial de prostituição.
Ao criticar o chefe de polícia, cujas ações preventivas teriam aumentado a dispersão do serviço, A Folha argumentava que o Rio de Janeiro seguia na contramão das capitais europeias, onde se procurava "reunir todo o pessoal de baixa prostituição em zonas facilmente vigiáveis". Justo o que o Mangue seria.
5.
A expressão zona do Mangue era usada, até então, em sentido apenas geográfico: a área do mangal de São Diogo, entre o Campo de Sant'Anna e a Ponte dos Marinheiros. Um vasto charco, reduzido, havia muito, a um canal: de um lado, a Senador Euzébio; do outro, a Visconde de Itaúna.
O bairro do prazer não seria inaugurado com banda de música, bênçãos da igreja e discursos de autoridades. Estava solidamente implantado, no entanto, em 14 de julho de 1922, como garantia a nota de Francisco Guimarães, o Vagalume, em O Brasil, sobre a inauguração de um "mafuá", explorado por "capitalistas malandros", na Visconde de Itaúna, esquina de Pinto de Azevedo, "onde está localizada a zona da prostituição mais reles que tem a pobre e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro".
Naquele momento, permanecia no comando da polícia o dr. Geminiano da Franca. Em 1º de novembro, em reconhecimento por sua competência jurídica, seria nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal.
Sem cerimônia de inauguração, sem alvarás de funcionamento e sem cobranças de impostos, como também sem fronteiras nitidamente definidas, o coração do Mangue batia mais forte entre a Visconde de Itaúna e a Júlio do Carmo, a Comandante Maurity e a Pereira Franco.
Na esquina de Pereira Franco com Júlio do Carmo, atendiam a clientela as malandrinhas. No encontro daquela rua com a Estácio de Sá, abria portas o Bar Apollo, o quartel-general dos malandros-sambistas. Entre os dois pontos, menos de 400 metros, 5 minutos a pé.
O Mangue era o pulmão do Estácio.
Transcrito (com adaptações) de:
Negra Semente, Fina Flor da Malandragem: Samba Batucado do Estácio de Sá. © 2020 Carlos Didier. Ed. do Autor.
Imagens:
Avenida do Mangue, 191?. Luiz Musso. BNDigital do Brasil.
Cortejo dos Reis da Bélgica. 1920.
Avenida do Mangue, 191?. Autor Desconhecido. BNDigital do Brasil


