o6. A Casa da Tia Ciata
1.
(...) Nos quilombos, nos engenhos, nas plantações, nas cidades, havia samba onde estava o negro, como uma inequívoca demonstração de resistência ao imperativo social (escravagista) de redução do corpo negro a uma máquina produtiva e como uma afirmação de continuidade do universo cultural africano.
Na Bahia, em 1807, o Conde da Ponte se queixava: "Os escravos nesta cidade não tinham sujeição alguma em consequência de ordens ou providências do governo; juntavam-se quando e onde queriam; dançavam e tocavam os estrondosos e dissonoros batuques por toda cidade e a toda hora; nos arraiais e festas eram eles só os que se assenhoreavam do terreno, interrompendo quaisquer outros toques ou cantos".
A crioulização ou mestiçamento dos costumes tornou menos ostensivos os batuques, obrigando os negros a novas táticas de preservação e de continuidade de suas manifestações culturais. Os batuques modificavam-se, ora para se incorporarem às festas populares de origem branca, ora para se adaptarem à vida urbana. As músicas e danças africanas transformavam-se, perdendo alguns elementos e adquirindo outros, em função do ambiente social. Deste modo, desde a segunda metade do século XIX, começaram a aparecer no Rio de Janeiro, sede da Corte Imperial, os traços de uma música urbana brasileira — a modinha, o maxixe, o lundu, o samba. Apesar de suas características mestiças (misto de influências africanas e europeias), essa música fermentava-se realmente no seio da população negra, especialmente depois da Abolição, quando os negros passaram a buscar novos modos de comunicação adaptáveis a um quadro urbano hostil.
Vale recordar que a Abolição, além de dificuldades econômicas, criou imensos problemas psicossociais para o negro brasileiro. Excluída a chance de um modo de vida rural autossuficiente, o negro se converteu numa mão-de obra em eterna disponibilidade, flutuando, sem definição, entre a cidade e o campo. A rigor, algo parecido também aconteceu, a partir da década de 30, com amplos setores da sociedade brasileira, na medida em que o processo de industrialização (renovador de tecnologia e acelerador de urbanização) desorganizou as estruturas agrárias tradicionais, sem criar possibilidades de empregos industriais para todos. A marginalização de largas faixas da população urbana e rural é hoje a consequência lógica desse modelo industrializador que precisa da discriminação e da exclusão sociais para gerar o seu próprio excedente econômico.
2.
A marginalização socioeconômica do negro já se tomava evidente no final do século XIX através da sistemática exclusão do elemento de cor pelas instituições (escola, fábrica, etc.) que possibilitariam a sua qualificação como força de trabalho compatível com as exigências do mercado urbano. Essa 'desqualificação' não era puramente tecnológica, mas também cultural (isto é, não se limitava ao simples saber técnico): os costumes, os modelos de comportamento, a religião e a própria cor da pele foram significados como handicaps negativos para os negros pelo processo socializante do capital industrial.
Era natural, portanto, que as pessoas de cor no Rio de Janeiro reforçassem as suas próprias formas de sociabilidade e os padrões culturais transmitidos principalmente pelas instituições religiosas negras, que atravessaram incólumes séculos de escravatura. As festas ou reuniões familiares, onde se entrecruzavam bailes e temas religiosos, institucionalizavam formas novas de sociabilidade no interior do grupo (diversões, namoros, casamentos) e ritos de contato interétnico, já que também brancos eram admitidos nas 'casas'. Estas pertenciam majoritariamente a famílias baianas que, desde as ultimas décadas do século XIX, habitavam o bairro da Saúde, espalhando-se mais tarde pela zona chamada Cidade Nova, com ramificações no Mata-Cavalos (Riachuelo) e Lapa. Naquela região, famosos chefes de cultos (ialorixás, babalorixás, babalaôs), conhecidos como tios e tias, promoviam encontros de dança (samba), à parte dos rituais religiosos (candomblés).
Como em toda a história do negro no Brasil, as reuniões e os batuques eram objeto de frequentes perseguições policiais ou de antipatia por parte das autoridades brancas, mas a resistência era hábil e solidamente implantada em lugares estratégicos, pouco vulneráveis. Um destes era a residência na Praça Onze da mulata Hilária Batista de Almeida — a Tia Ciata (ou Aceata) — casada com o médico negro João Batista da Silva, que se tornaria chefe de gabinete do chefe de polícia no governo Wenceslau Bras.
A casa de Tia Ciata, babalaô-mirim respeitada, simboliza toda a estratégia de resistência musical à cortina de marginalização erguida contra o negro em seguida à Abolição. A habitação — segundo depoimentos de seus velhos frequentadores — tinha seis cômodos, um corredor e um terreiro (quintal). Na sala de visitas, realizavam-se bailes (polcas, lundus etc.); na parte dos fundos, samba de partido-alto ou samba-raiado; no terreiro, batucada.
Metáfora viva das posições de resistência adotadas pela comunidade negra, a casa continha os elementos ideologicamente necessários ao contato com a sociedade global: 'responsabilidade' pequeno-burguesa dos donos (o marido era profissional liberal valorizado e a esposa, uma mulata bonita e de porte gracioso); os bailes na frente da casa (já que ali se executavam músicas e danças mais conhecidas, mais 'respeitáveis'), os sambas (onde atuava a elite negra da ginga e do sapateado) nos fundos; também nos fundos, a batucada — terreno próprio dos negros mais velhos, onde se fazia presente o elemento religioso — bem protegida por seus 'biombos' culturais da sala de visitas (em outras casas, poderia deixar de haver tais 'biombos': era o alvará policial puro e simples). Na batucada, só se destacavam os bambas da perna veloz e do corpo sutil.
A economia semiótica da casa, isto é, suas disposições e táticas de funcionamento, fazia dela um campo dinâmico de reelaboração de elementos da tradição cultural africana, gerador de significações capazes de dar forma a um novo modo de penetração urbana para os contingentes negros. O samba já não era, portanto, mera expressão musical de um grupo social marginalizado, mas um instrumento efetivo de luta para a afirmação da etnia negra no quadro da vida urbana brasileira.
Na casa da Tia Ciata, surgiu Pelo Telefone, o samba que lançaria no mercado fonográfico um novo gênero musical. E os músicos do primeiro samba gravado foram recrutados entre os seus frequentadores: Donga, João da Baiana, Pixinguinha, Sinhô, Caninha, Heitor dos Prazeres e outros. A partir daquela casa — centro de continuidade da Bahia negra, logo, de parte da diáspora africana, no Rio — e de outras do mesmo estilo, o samba ganhou as ruas, as avenidas. Até 1926, segundo Heitor dos Prazeres, a Praça Onze era uma "África em miniatura".
Não era à toa que a casa 'matricial' (no sentido de 'útero', lugar de gestação) da Tia Ciata se situava na comunidade da Praça Onze, a única que escapou ao bota abaixo reformista do Prefeito Pereira Passos. Naquele território, reaglutinaram-se, à maneira de uma polis, forças de socialização. Estas, tangidas pela reforma do centro da cidade (com a consequente destruição de freguesias com vida comunitária intensa), abrigaram-se na Praça Onze de Junho ou, simplesmente, Praça Onze (antigo Largo do Rossio Pequeno), na Cidade Nova. A praça tinha esse nome desde 1865 (homenagem à vitória do Almirante Barroso na Batalha do Riachuelo), mas foi na virada do século que passou a apoiar a movimentação dos primeiros grupos de samba, reunidos em casas de famílias de origem baiana, chefiadas pelas famosas 'tias' (zeladoras de orixás ou gente 'de lei', como se dizia), aglutinadas inicialmente na localidade conhecida como Pedra do Sal, na Gamboa.

