o2. Música Popular: Do Que Estamos Falando?
"Quando a música popular aparece no mundo, ela o faz em bloco, manifestando-se como um fenômeno global da modernidade recente. Ela se estende da Índia ao México, do Brasil à Inglaterra, da Itália aos Estados Unidos, do Egito à Alemanha, da Turquia à Argentina, à Espanha, a Cuba, à Escócia, sendo um elemento particularmente relevante da reconstrução identital do estado-nação moderno e da expansão do concerto das nações". (Rafael José de Menezes Bastos)
2.
"O processo de misturas de estilos e sotaques que [no Brasil] levou ao nascimento do choro ocorreu de forma similar em diferentes países. A partir dos mesmos elementos — danças europeias (principalmente a polca) somadas ao sotaque do colonizador e à influência negra — , foram surgindo gêneros que seriam a base da música popular urbana nos moldes que hoje conhecemos.
Assim, se observarmos o maxixe brasileiro, o beguine da Martinica, o danzón de Cuba e o ragtime norte-americano, vemos que todos são adaptações da polca. A diferença de resultado se deve ao sotaque inerente à música de cada colonizador (português, espanhol, francês e inglês) e, em alguns casos, a uma maior influência da música religiosa. A região da África de onde vinham os escravizados também influiu, pois foram trazidas diferentes tradições musicais e religiosas por negros de povos distintos". (Henrique Cazes)
[Trata-se] "de uma música não somente veiculada, mas efetivamente tornada possível (...) pelo estabelecimento tecnológico industrial, inicialmente através do disco, do rádio e do cinema falado". (Rafael José de Menezes Bastos)
3.
Walter Garcia fala sobre a "constituição de um certo sistema da canção popular-comercial brasileira" (e o que ele denomina 'canção' pode ser estendido à 'música' popular-comercial como um todo, incluindo suas vertentes instrumentais, ou híbridas).
"A noção de sistema é adaptada de estudos de Antonio Candido sobre literatura brasileira. Refiro-me assim a um conjunto articulado de:
1. produtores (compositores, cantores, músicos, produtores fonográficos) e obras, havendo o reconhecimento de influências, continuidades e rupturas, bem como de gêneros e estilos, 'funcionando como exemplo ou justificativa daquilo que se quer fazer';
2. receptores, 'os diferentes tipos de público, sem os quais a obra não vive';
3. meios técnicos de gravação e reprodução, aliados a meios de transmissão em massa e a locais de venda (meios de transmissão e locais de venda que põem em contato obras/produtores e receptores; e onde atuam diversos intermediários: programadores, apresentadores, repórteres, críticos, pesquisadores, publicitários, divulgadores, balconistas etc.)".
Garcia acrescenta que "a forma artística da canção popular-comercial é complexa, pois se constrói na interação de várias técnicas — a musical, a literária, a jornalística, a historiográfica, a publicitária — estudadas ou aprendidas intuitivamente pelos cancionistas".
Por fim, o professor identifica "duas passagens decisivas nesse sistema da canção:
1. a sua constituição, na década de 1930;
2. a crise aguda de sua dimensão artística a que assistimos hoje, em meio à hegemonia da racionalidade industrial e de seu complemento, o espetáculo do mercado fonográfico".
4.
"A música que a partir dos anos 30 do século XX invade o planeta até suas franjas mais remotas atende a lógicas locais (regionais e nacionais) e, simultaneamente, a uma lógica mundial.
Essa lógica mundial, caracterizada no plano econômico-político pelo contexto neocolonialista", faz do jazz e logo também do rock uma só e contínua linguagem, atópica — "tanto quanto o gregoriano e a música ocidental dos séculos XVII-XIX em seu processo de difusão mundial. (...)
Para essa linguagem, a teoria tonal clássico-romântica da música ocidental, a teatralidade e a maneira de cantar operísticas, somadas à centralidade da interpretação (muito mais do que da composição) são tão importantes quanto sua base local, afro-americana.
A música popular não é um novo tipo de música que se soma aos demais, e isso não se deve somente à sua pertinência planetária.
(...) Ela não somente incorpora como passado — também arquetípico e original — as chamadas músicas artística e folclórica, como também as reinventa.
(...) Quer dizer, a música popular (...) reconstrói o passado e postula o futuro, isto num movimento em que o geral (global, mundial) e os particulares (local, regional, nacional) se imbricam", [formando uma totalidade]. (Rafael José de Menezes Bastos)
Em resumo, a música popular é fenômeno global que, nos países do 'novo mundo', se constrói por um "processo de misturas de estilos e sotaques" entre colonizadores e negros da diáspora. É expressão "tornada possível" pela nascente tecnologia industrial das comunicações, constitui sistemas complexos formados por produtores, receptores e meios e, finalmente, está sujeita às condições do neocolonialismo que se impõe como "uma só e contínua linguagem, atópica".
"A música que a partir dos anos 30 do século XX invade o planeta até suas franjas mais remotas atende a lógicas locais (regionais e nacionais) e, simultaneamente, a uma lógica mundial". Isso quer dizer que se trata de uma expressão 'cosmopolita', em outros termos, 'moderna'. Os anos 30 marcam, nos EUA, o pós-crash da Bolsa, no Brasil, a Revolução getulista e na Europa, os preparativos para a Segunda Guerra.
Bibliografia:
A "Origem do Samba" como Invenção do Brasil (Por que as canções têm música?). © 1996 Rafael José de Menezes Bastos. Revista Brasileira de Ciências Sociais. Vol. 11, n.º 31 – São Paulo, 1996.
https://anpocs.org.br/1996/06/07/vol-11-no-31-sao-paulo-1996/
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Choro: do Quintal ao Municipal. © 1998 Henrique Cazes. Editora 34 Ltda., 1998.
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Melancolias, Mercadorias: Dorival Caymmi, Chico Buarque, o Pregão de Ruas e a Canção Popular-Comercial no Brasil. © 2013 Walter Garcia. Ateliê Editorial, 2013.
Imagem:
Pablo Picasso, Três Músicos, 1921.
