22. Pós-Tropicalistas e Expressivistas
![]() |
| Gal em Ipanema. Instagram. Reprodução O Globo. |
No ensaio crítico que dedicou à autobiografia de Caetano Veloso, o professor Roberto Schwarz avalia que "bem vistas as coisas, a guerra de atrito com a esquerda não impediu que o [movimento tropicalista] fizesse parte do vagalhão estudantil, anticapitalista e internacional que culminou em 1968".
Acrescenta: "Leal ao valor estético de sua rebeldia naquele período, Caetano o valoriza ao máximo".
"Por outro lado", Schwarz aponta que Caetano compartilha em suas memórias "os pontos de vista e o discurso dos vencedores da Guerra Fria" e se mostra comprometido "com a vitória da nova situação, para a qual o capitalismo é inquestionável".
PÓS-TROPICALISTAS
Essa estranha figura do anticapitalista-que-não-questiona-o-capitalismo e que "valoriza ao máximo" o papel de rebelde, acabará por ser recorrente entre os artistas (e seu público) surgidos com os 'anos setenta', no rastro das liberalidades tropicalistas.
Pouco a pouco o termo anticapitalista vai sendo substituído por um mais abrangente e ambíguo: 'antissistema'. É aí que bandos de cabeludos passam a passar longas tardes nas dunas de Ipanema, ou ao sol de Arembepe, uma 'moçada' que não aceita se organizar como na década anterior.
É um recorte social ainda em grande parte, estudantil. De sentimento internacional, ocupa a grama dos parques, "ob-observando hipócritas disfarçados rondando ao redor" como em Londres ou Nova York 'ob-observa-se' o mesmo tipo de hipócrita (que, por lá, ronda ao redor de John e Yoko).
O nosso novo pessoal rejeita os agrupamentos em moldes políticos-participativos porque, percebendo-se parte 'da sociedade', para estar junto, eles e elas só precisam se reconhecer mutuamente.
Onde, antes, se pensava a 'questão nacional':
questiona-se, agora, as decisões do indivíduo:
Se a família simbolizara grandes dramas da existência:
Agora ela volta a ser 'infeliz, cada uma à sua maneira':
E onde a sensação anterior era a de ser arrastado:
Surgem no lugar anseios de 'deixar-se levar':
Mesmo a vida urbana asfixiada pela brutalidade do trabalho:
Encontra alternativas, pois há a 'rebeldia',
Com a boca escancarada, cheia de dentes
Esperando a morte chegar
E os valores 'antissistema' para onde 'fugir':
Que separam quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador.
Apesar do país estar passando pelo momento mais sombrio do regime militar, a retórica do enfrentamento:
Mesmo que vaga, genérica e indefinida, carrega consigo uma espécie de 'orgulho voluntarista':
O paradigma, agora deslocado, encontra-se resumido na fórmula:
![]() |
| Ney Matogrosso. Programa Big Boy. Foto: Estadão. |
Essa atitude em momento algum chegará a ser assimilada de maneira homogênea pelo todo da classe musical, tampouco por suas plateias. Em consequência, o tema das 'gentes' será constante. 'Gentes', no plural, para diferenciar grupos.
Uma composição dos Doces Bárbaros aglutina as várias faces desse discurso:
GÊNESIS (Caetano Veloso)
A melodia de apenas quatro frases, coberta por oito quadras em redondilhas maiores, com rimas emparelhadas na segunda e terceira linhas, cria a sensação de circularidade ao repetir com mínimas variações o primeiro verso no último de cada quadra.
No nível do conteúdo, do mito inicial:
ao tomar a "forma de uma jia" dá...
"o primeiro pulo" e se torna...
a letra vai revelar que existe (dizem que) "uma tribo de gente que sabe o modo de ver esse fato todo". Essa gente toma "um vinho num determinado dia" e "vê a cara da jia", jia que é a forma manifesta do "espírito de tudo".
O conhecimento que "essa gente dispersa entre os automóveis" detém, por suposto, é de caráter exclusivo. Existem, necessariamente, outras gentes que NÃO sabem o "modo de ver esse fato todo". Ou não estaríamos tratando de uma 'tribo'. Que pode incluir a própria tribo dos 'doces bárbaros', ou quem sabe seja uma tribo longínqua que "revelará aos povos" (Um Índio) aquilo que "surpreenderá (...) por ter sempre estado oculto", mas que traz a esperança de salvar "a todos", mesmo depois de "exterminada a última nação indígena e o espírito dos pássaros, das fontes de água límpida".
Os elementos da contracultura, nota-se, comparecem todos: a comunhão com o 'universo' para além dos limites materiais, a vivência coletiva 'tribal', o amor à natureza, o apreço pelos rituais, o uso de substâncias psicoativas, a alegria quase gratuita, a celebração...
Não se trata de uma postura alienada, desconectada das grandes questões sociais, ou mesmo puramente conservadora. Ao contrário, continuamos ainda na perspectiva das revoluções. A diferença está na práxis, nas propostas de ação, ou nas saídas 'encontradas'. São sempre 'de dentro para fora'. Algo que desenvolver-se-á em cada indivíduo, e que levará o indivíduo a ser agente da superação dos impasses do mundo e da emancipação humana, desde que transforme a si mesmo.
Para que a transformação aconteça, há algo que precisa ser 'incorporado', ligar-se ao corpo, ou 'interiorizado'. Uma experiência 'da alma', mas que, apesar da radical intransferibilidade, pode ser transmitida:
Disseminada:
Nunca de modo ingênuo:
Nem isenta de sofrimentos:
Todas as agruras deverão ser filtradas pelo impulso da expansão da consciência, do autoconhecimento, da ascensão espiritual, ao modo de Gilberto Gil, que no retorno das provações do exílio revela que se sente:
Ou à moda Tom Zé:
No fim, segundo as lições do guru Oswald de Andrade, "a alegria é a prova dos nove".
Que Jorge Mautner traduziu assim:
![]() |
| Luiz Melodia em 3 fases. Montagem: Revista Trip, 2002. |
A mudança de eixo, como dissemos anteriormente, consiste em passar da ação política — paradigma da década anterior — para o trabalho de transformação individual.
Onde antes as pessoas se organizavam, elas agora, "dispersas", buscam 'encontrar' umas às outras. As afinidades, por isso, devem estar sinalizadas: nas roupas, nos cabelos, no linguajar, nos lugares que se frequenta, nos livros que se lê, nos filmes que se assiste, nos discos que se escuta...
É importante manter-se em movimento:
Dê um rolê e você vai ouvir...
Despojar-se daquilo que não é essencial:
Antes de você ser, eu sou
Eu sou, eu sou, eu sou amor
Da cabeça aos pés...
E escolher 'com quem se anda':
Pra quem vale mais um rosto do que cem mil réis.
Quero crer que um conjunto de temas emerge da escuta desta MPB mundializada, em dia com a pop music e herdeira do tropicalismo. São questões diretamente ligadas aos interesses e dilemas das classes médias no Brasil do Milagre Econômico.
Os 'cantinhos', 'violões', 'barquinhos' e 'estradas brancas' do imaginário bossa nova cedem lugar à nova aridez dos prédios que bloqueiam a paisagem. Não apenas a censura e a repressão, mas também a nova configuração urbana, geram a atmosfera claustrofóbica geral das letras de MPB.
As alegorias utópicas que tanto sucesso faziam nos Festivais parecem agora desgastadas.
O 'Milagre' fez crescer desordenadamente as cidades e empurrou milhões de brasileiros do campo para os grandes centros. A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, de 1977, fotografa em detalhes sórdidos o drama de quem não encontra saídas nesta nova geografia.
Mas a economia comandada pelos militares trouxe também prosperidade para uma parcela nunca antes tão numerosa da população.
Caetano Veloso, como de costume, cria o retrato mais bem acabado dessa 'novidade':
Os nossos tão conhecidos 'distintivos' sociais, objetos que, ao mesmo tempo, fornecem singularidade a seus portadores e delimitam o grupo social de origem ou de pertencimento, sumarizados nesta icônica composição 'setentista', confirmam o 'anticapitalista-que-não-questiona-o-capitalismo-e-que-valoriza-ao-máximo-o-papel-de-rebelde' como figura dominante.
A relação patriarcal contida no papel servil da esposa é docemente relativizada: as lágrimas nos olhos não indicam sofrimento, são de "de cortar cebola". Ambos, como qualquer pessoa sensível daqueles tempos, estão 'aflitos'. O conforto do consumo cotidiano não traz felicidade. Ela está "tão curtida" e ele quer "tocar fogo" no apartamento. A saída, ainda uma vez, é "dar o fora", "ir embora" ('vida, vento, vela, leva-me daqui').
"Correr mundo". É o que o eu-lírico rebelde deseja. E o toque amoroso se revela no último verso da estrofe, transformando-se num refrão: "Quero que você venha comigo". A esposa é para ele a companheira em seu plano de 'salvação'. Alguém em quem confia para, juntos, "correr perigo" (ou, talvez, com quem conte para preparar as refeições).
A incômoda semelhança da figura feminina que, afinal, "não está entendendo quase nada", com a proverbial 'Amélia' do velho samba de Ataulpho e Mário Lago, repetindo a esdrúxula, mas risonha, sobreposição de tempos da fase heroica do Tropicalismo, parece confirmar o que concluía o professor Roberto Schwarz: o "absurdo tropicalista formaliza e encapsula a experiência histórica da esquerda derrotada em 1964" quando instala, com sua estética, "uma instância literal de revolução conservadora".
A MPB que aqui estamos improvisadamente denominando 'pós-tropicalista' mostra-se, espero ter demonstrado, 'de classe média' e, portanto, conservadora.
Porém, se retornarmos às pesquisas coordenadas pelo professor Jessé Souza veremos que:
(...) "se a maior parte da classe média é tendencialmente conservadora, (...) ela não o é do mesmo modo em todos os segmentos".
"Mais ainda", prossegue o sociólogo, "o próprio reduto da crítica social mais acerba também é composto e representado pela classe média com capital cultural mais crítico".
É possível que aí esteja a chave que permite abrir a porta entre o lado conservador e o lado anticapitalista, no ideário pós-tropicalista.
EXPRESSIVISTAS
Lembremos que Souza tem "como hipótese de trabalho", a diferenciação entre quatro nichos ou frações no interior da classe média.
As questões centrais, diz ele, que permitiram essa "reconstrução" teórica foram precisamente "a noção de moralidade mais ou menos abrangente e mais ou menos refletida, e a forma como se percebe as outras classes sociais".
"Essas duas questões ou variáveis nos dão uma ideia precisa da forma como os indivíduos [entrevistados durante a pesquisa] percebem a si mesmos e aos outros. Essas são as questões que nos dão acesso à moralidade específica de cada um e, portanto, ao que chamamos de visão de mundo política. A visão política de cada um, assim como das frações de classe a que pertencemos, é precisamente resultado da forma como percebemos a nós mesmos e aos outros".
O autor de A Classe Média no Espelho explica que o fator decisivo para a compreensão da heterogeneidade das visões políticas da classe média é o tipo de capital cultural diferencial que é apropriado seletivamente pelas respectivas frações.
(...) "as classes sociais são construídas pela socialização familiar e escolar. É essa combinação, inclusive, que irá determinar sua renda mais tarde e são elas, portanto, que formam os indivíduos diferencialmente aparelhados para a competição social".
"A classe média é a classe por excelência do capital cultural legítimo e valorizado. Aquele tipo de capital cultural que junta um certo conhecimento que capacita essa classe à função de capataz moderno da elite com formas de sociabilidade, também aprendidas na família e na escola, que possibilitam sua utilização como privilégio e distinção.
A complexidade e heterogeneidade da classe média é que a junção de conhecimento valorizado com habilidades sociais específicas, além de certo capital econômico de partida, os três aspectos que as separam das classes populares, possui distinções importantes ainda que no mesmo segmento privilegiado da classe média. Nenhum desses aspectos mencionados é consciente ou refletido para as pessoas.
Nós os utilizamos o tempo todo na vida como meio de auferir sucesso no dia a dia, sem obrigatoriamente sabermos conscientemente o que estamos fazendo.
Isso tem a ver com uma peculiaridade importante do capital cultural que é o fato de ele se confundir com a própria pessoa. O capital cultural, ao contrário do capital econômico, precisa ser incorporado, ou seja, tornado corpo, reflexo automático, para produzir os seus efeitos. Ele representa um conjunto de predisposições para a ação que assimilamos na família e na escola e que nos definem, em grande medida, enquanto indivíduo. Geralmente, não temos distanciamento reflexivo em relação àquilo que o capital cultural que incorporamos faz de nós, do mesmo modo que também não temos distanciamento reflexivo em relação àquilo que somos. Ao contrário, desenvolvemos um estilo de vida e um conjunto de justificações para proteger e legitimar aquilo que já somos.
A atividade profissional que 'escolhemos' já está, assim como o nível de renda que se terá mais tarde, em boa medida, prefigurada pelo tipo de capital cultural que incorporamos".
Os tipos de classe média que as pesquisas de Jessé Souza descrevem refletem esse fato.
"Os quatro nichos ou frações de classe que reconstruímos a partir desse trabalho se referem às frações que denominamos como, respectivamente, fração protofascista, fração liberal, fração expressivista, que costumo apelidar de 'classe média de Oslo', e a menor fração de todas, a fração crítica.
Em termos quantitativos, a fração liberal é a maior, com cerca de 35% do total, vindo a seguir a fração protofascista, com cerca de 30%.
Os 35% restantes compõem aquilo que poderíamos chamar de classe média com mais alto capital cultural, ou capital cultural reflexivo. No contexto dessas frações com mais alto capital cultural, composto por pessoas que, comparativamente, estudaram mais tempo, conhecem outras línguas, viajam e leem mais, consomem produtos culturais mais diferenciados e se inclinam a perceber a própria vida e a vida social mais como invenção cultural e menos como natureza já dada, existe uma subdivisão importante.
Cerca de 60% dessa classe média mais instruída, ou cerca de 20% do total de toda a classe média, forma aquilo que podemos chamar de fração expressivista da classe média.
(...) o Ocidente, na sua história, logra institucionalizar duas fontes de toda a moralidade possível: a noção de produtividade para o bem comum, aquilo que confere dignidade para qualquer indivíduo; e a noção de personalidade sensível, em parte criada contra o produtivismo, como forma de se inventar narrativamente um novo tipo de ser humano.
A ideia aqui, que ganha as mentes e os corações de todos em gradações diversas, é que aquilo que define em nós a virtude, ou seja, o que há de mais alto nos seres humanos, não é apenas sua capacidade produtiva, mas a possibilidade de ser fiel a seus sentimentos e emoções mais íntimos. Como esses sentimentos e emoções são, por definição, reprimidos e silenciados para o bem da disciplina e da capacidade produtiva, nós temos que aprender a conhecê-los e expressá-los.
(...) o capitalismo [porém] aprendeu a lidar até com esta que foi a crítica mais radical à sua essência, tendo em vista que a crítica socialista também era produtivista. Foi o capitalismo financeiro que domou o conteúdo revolucionário do expressivismo e transformou as bandeiras da contracultura em estímulo à produção. Desde então, criatividade passa a ser soluções ágeis para os dilemas corporativos e sensibilidade passa a ser a habilidade de gerir pessoas.
Mais importante ainda, pode-se agora ser expressivista sem qualquer crítica social que envolva efetiva distribuição de riqueza e de poder. Expressivismo, também em país de maioria pobre como o nosso, passa a ser a preservação das matas e o respeito às minorias identitárias e temas como sustentabilidade e responsabilidade social de empresas. O charme dessa posição é que ela 'tira onda' de emancipadora, como na luta pelos direitos das minorias e pela preservação da natureza.
Esses temas são, na verdade, realmente fundamentais. O engano reside na reversão das hierarquias. Em um país onde tantos levam uma vida miserável e indigna deste nome, a superação da miséria de tantos é a luta primeira e mais importante. As lutas pela preservação da natureza e das liberdades das minorias, importantes como elas são, devem ser acopladas a esse fio condutor que implica a superação de todas as injustiças. Não é assim que a fração expressivista percebe o mundo. As lutas pelas minorias e pela natureza preservada são levadas a cabo, na realidade, em substituição a uma pauta mais abrangente que permitiria ligar essas lutas à luta geral contra todo tipo de opressão material ou simbólica.
Tudo se dá como se esse pessoal bem-intencionado morasse em Oslo e tivesse apenas relações com seus amigos de Copenhague e Estocolmo, acreditando, ao fim e ao cabo, que mora na Escandinávia e não no Brasil. Para um sueco que efetivamente resolveu os problemas centrais de injustiça social e distribuição de riquezas, não é estranho que se dedique à preservação de espécies raras e faça dessa luta sua atuação política principal. Que um brasileiro faça o mesmo e se esqueça da sorte de tantos seres humanos tão perto dele é apenas compreensível se ele os torna invisíveis. Por conta disso, decidi chamar essa fração da classe média, que 'tira onda' de moderna e emancipadora, de 'classe média de Oslo'. Ela é fundamental para que possamos compreender o Brasil moderno.
Como a questão da divisão de riqueza e poder, o que realmente importa na sociedade, está em segundo plano, o capitalismo financeiro está muito à vontade nesse esquema. Explorar mulher ou homem, branco ou negro, heterossexual ou homossexual, não apresenta qualquer diferença para o capital financeiro.(...) Essa é a inteligência do novo capitalismo que usa a linguagem da emancipação para melhor oprimir e explorar".







