23. De Perto Ninguém É Normal

Angela Maria, Rádio Nacional, década de 1950

ou, A VIDA (NÃO MUITO) EXEMPLAR DOS ASTROS DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA

Nelson

Em 1931, meses depois de conhecê-la, arrastado para a delegacia pelo pai da moça, Nelson Cavaquinho se casava com Alice Ferreira Neves, com quem teria quatro filhos.

Por indicação do sogro, Nelson ingressou na Cavalaria da Polícia Militar. Montava um cavalo de nome Vovô e patrulhava o Morro da Mangueira, onde fez amizade com os compositores da Estação Primeira, entre eles, Zé da Zilda e Carlos Cachaça.

Reza a lenda que no dia em que conheceu Cartola, a conversa se alongou por tanto tempo que Vovô voltou sozinho para o quartel. Isso levaria nosso dublê de sambista e militar — mais uma vez  à detenção.

"Eu ia tantas vezes em cana que já estava até acostumado. Era tranquilo, ficava lá compondo. Uma das músicas que fiz no xadrez é Entre a Cruz e a Espada".

No ano de 1938, Nelson tratou de dar baixa na corporação antes que o expulsassem. Em seguida separou-se da mulher e, afastado dos filhos, passou a se dedicar em tempo integral à música, ingressando de vez na boêmia. *1


Cartola

Depois que perdeu a mãe, Angenor de Oliveira, o Cartola, largou os estudos e começou a trabalhar, ao mesmo tempo em que se inclinava para a vida boêmia.

Aos 18 anos, rompido com o pai e morando sozinho, conheceu Deolinda, a vizinha do barraco ao lado, sete anos mais velha, casada e com uma filha de dois anos. Os dois acabaram se envolvendo e decidindo viver juntos. Deolinda abandona o marido e leva consigo a filha, que o compositor irá criar como sua. 

Com a morte de Deolinda, Cartola deixa o morro onde viveu desde menino e se afasta do mundo do samba por mais de dez anos. Chega a ser dado como desaparecido, ou mesmo morto, por muitos de seus conhecidos e admiradores.

Foi em Ipanema, certa noite de 1956, que o escritor Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta) o reconheceu, vestido num macacão encharcado: o criador de sambas antológicos como Divina Dama e um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira então se sustentava lavando carros em troca de pequenas gorjetas.

O reencontro com Sérgio Porto foi decisivo para a retomada de sua carreira como músico e compositor. *2


Jacob

"14 de fevereiro de 1978. (...) se vivo estivesse, o cidadão Jacob Pick Bittencourt completaria, ao lado de poucos, porém, enquanto vivos, fiéis amigos — nada mais do que 60 anos de idade.

Era filho de uma polonesa da cidade de Lodz e de um pacato, quieto, injustiçado — até pelo próprio Jacob — farmacêutico vindo de Cachoeiro do Itapemirim, o Sr. Francisco Gomes Bittencourt (lá ia eu esquecendo de registrar o nome 'duvidoso' de minha avó paterna; a colônia de judeus a chamava de 'Regina'. No registro estava Sra. Raquel Pick).

A bem da verdade, 'Regina' fora o chamado 'nome de guerra' da velha polaca resmunguenta que amava mais o papagaio de estimação do que o próprio chamado 'fruto do seu pecado'.

Nem para uma rapinhada de manteiga dinheiro havia. Havia, sim, garra (...) uma vontade de responder ao mundo mais ou menos nestes termos:

 Nasci de uma aventura, cresci no meio do lixo, conheci o lixo, não vivi dele, meu velho pai era quem pagava tudo e eu não sabia. Sou tocador de bandolim, artista de rádio ou marginal, como querem, mas, um dia vou ser a lei.

E foi.

Donga, mestre Donga, o convenceu a prestar concurso público — cargo: 'Escrevente Juramentado' (chegaria a escrivão-chefe da 11ª Vara Criminal).

Anos depois, valendo-se da autoridade conferida pelo cargo, provou através de perícia que o grande pianista e compositor Ernesto Nazareth suicidou-se quando passeava pelas matas do sanatório da Taquara, onde havia sido internado. Num rápido e fatal estado de lucidez, percebendo a própria loucura, Nazareth deixou-se afogar na pequena represa que abastecia de água o manicômio".

Sérgio Bittencourt, filho de Jacob do Bandolim, em depoimento à Última Hora, Rio de Janeiro. *3


Isaurinha

Isaurinha Garcia gravou mais de 50 discos em 78 rpm e mais de 10 LPs, ao longo da carreira. Foi a primeira Rainha do Rádio Paulista, Rainha da Noite e Rainha dos Taxistas. Em 2003, entrou em cartaz o musical Isaurinha – Personalíssima, idealizado pelo neto da cantora, Rick Garcia, com direção de Jaqueline Laurence, tendo como estrela a atriz Rosa Maria Murtinho, que interpretou a cantora e cantou seus sucessos, além de de contar sua atribulada vida amorosa, que incluiu uma tentativa de suicídio. *4


Dolores

Dolores Duran teve uma infância pobre e não conheceu seu pai biológico. Ainda pequena mudou-se para um cortiço no bairro da Piedade, onde foi criada.

Aos doze anos de idade, e mesmo sem nunca ter estudado música, Adiléia (seu nome de batismo) conquistou o primeiro prêmio no programa Calouros em Desfile, de Ary Barroso.

O nome artístico surgirá aos 18 anos, dado por Lauro e Heloísa Paes de Andrade, casal rico e influente que a 'adota' artisticamente, levando Dolores para circular em ambientes elegantes e reconhecidos.

Apresentada aos famosos da época, dois jornalistas passam a elogiar a nova estrela com frequência na imprensa: os pernambucanos Fernando Lobo, compositor bissexto e pai do, no futuro, músico Edu Lobo e ninguém menos que o lendário Antônio Maria.

Mudando-se para Copacabana, longe da família, nas madrugadas, sozinha e insone em mesas de bares, escreveria letras inesquecíveis sobre os inúmeros casos amorosos que viveu.

Dolores teve muitos namoros. Um deles, com o então acordeonista João Donato, durou seis meses. Havia a intenção de ficarem juntos, mas os pais do rapaz não aceitaram o vínculo com uma cantora da noite, mulata e mais velha que ele. De noivado marcado, Donato acatou a decisão da família e deixou Dolores, indo viver no México.

Ela, mais tarde, teria dois casamentos, ambos recheados de bate-bocas, brigas violentas, agressões constantes, humilhação e traições.

A vida emocional atribulada e a crescente insônia, tanto levavam-na a misturar calmantes com bebida alcoólica e fumar em quantidades industriais, quanto a compor e interpretar sambas-canções cada vez mais contundentes. O estrondoso sucesso de Fim de Caso, lançado em 78 rpm, abre as portas da Europa, onde Dolores vai se apresentar nas mais conceituadas casas de show. Em Paris, chega a permanecer seis meses.

Na noite de 23 de outubro de 1959, depois de um show na boate Little Club, a cantora sai com amigos para uma festa no requintado Clube da Aeronáutica.

Ao final do evento, fecham a noite bebendo, dançando e ouvindo música na boate Kit Club.

Já era dia claro quando chegou em casa. 

Exausta, passou em tom bem humorado as últimas instruções à empregada: "Não me acorde. Vou dormir até morrer!".

No quarto, durante o sono, sofreu um infarto fulminante  que, à época, foi associado a doses excessivas de barbitúricos, cigarros e bebidas alcoólicas.

Em junho, Dolores Duran completara 29 anos. *5


Dalva e Herivelto

"A então recente popularização do rádio e, mais ainda, a constituição de novos hábitos urbanos de consumo cultural, foram terreno fértil para práticas de exposição das imagens e da vida dos artistas.

Caso singular é a guerra conjugal que se estabeleceu entre Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, entre 1947 e 1952, e que foi nutrida por composições, programas de rádio, colunas de jornais e revistas.

Um processo de celebrização configurou-se em torno das agressões e bravatas públicas protagonizadas pelo casal, traduzidas em 16 sambas e sambas-canções lançados separadamente por ambos, cujas letras abordavam traições, desilusões, surtos de ódio, destempero e mútuas acusações.

O derramamento final aconteceu em 1951, quando os ataques de Herivelto contra Dalva passaram a ser feitos numa coluna diária no jornal carioca Diário da Noite. 

Em 22 artigos ditados ao jornalista David Nasser, Herivelto contava a sua versão da história. Com o título Porque Abandonei Dalva de Oliveira, a série levou ao público o que apenas se mostrava de maneira cifrada nas letras dos sambas.

Curiosamente, os acontecimentos se deram no momento de ascensão e consolidação das respectivas carreiras: Herivelto como compositor de prestígio e Dalva chegando a ser eleita Rainha do Rádio, posto disputado e marca de consagração". *6

Carmen Miranda. That Night in Rio. 1941.

Carmen

Carmen Miranda trabalhava em excesso.

Em 1939, a contar de maio, quando chegou aos Estados Unidos, "subiu profissionalmente ao palco pelo menos 416 vezes em pouco mais de meio ano  uma média de 2,27 shows por dia, todos os dias". Em 1940, o ritmo dobrou.

Para aguentar o repuxo, nos bastidores, Carmen tomava 'calmantes', 'excitantes' e 'um bocado de gim'.

15 anos e alguns milhões de dólares depois, por volta das três da madrugada do dia 5 de agosto de 1955, a cantora despediu-se dos hóspedes e subiu as escadarias da mansão da North Bedford Drive, em Beverly Hills.

(...) "entrou em seu quarto, tirou o tailleur e vestiu um robe. Acendeu um cigarro, deu uma tragada, deixou-o no cinzeiro. Foi ao banheiro para retirar a maquiagem, usando cola cream e um lenço de papel. Na volta, no pequeno hall entre o banheiro e o quarto, onde ficava sua coleção de perfumes, o ar fugiu, as pernas lhe faltaram, e Carmen caiu — ali mesmo, com um espelho na mão. Uma oclusão das coronárias fizera explodir uma vasta área de seu coração: um infarto maciço".

Estava com 46 anos. De acordo com o que disse seu médico particular ao Los Angeles Times, não tinha histórico de problemas cardíacos e encontrava-se em perfeito estado de saúde (o que não era exatamente verdade). *7


Orlando

Numa manhã de 1932, ao saltar para um bonde em movimento, Orlando Silva caiu nos trilhos e acabou atingido pelas rodas do veículo. No hospital conheceu os efeitos da morfina, ministrada para aplacar as dores terríveis durante a longa convalescência que se seguiu à amputação dos dedos de um de seus pés.

Descoberto e apadrinhado por Francisco Alves, Orlando estreou na Rádio Nacional em 1934. Tinha, então, 19 anos.

O sucesso foi tamanho que as fãs passaram a colecionar pedaços de suas roupas (antes de Cauby Peixoto se tornar famoso por isso).

Numa lendária apresentação na sacada da Rádio Cruzeiro do Sul em São Paulo, teria sido visto por um público estimado em 100 a 150 mil pessoas, o que, a ser verdade, correspondia a aproximadamente 15% da população da capital paulista na época.

Desde a amputação no pé, Orlando fazia uso de morfina e álcool, a princípio de forma moderada. Conforme a fama cresce, o consumo, que caminhava conjuntamente com as crises de depressão, vai saindo do controle.

Na vida amorosa, um namoro com a atriz Zezé Fonseca, iniciado em 1940, vai durar três anos. Alguns, romanceando, diziam que Orlando se entregou ao vício na tentativa de superar o amor não correspondido por Zezé. Outros preferiam acreditar que ela é que não era amada por ele, que tinha mais afeição pelas drogas.

Em franca decadência, o 'cantor das multidões' de outrora seria demitido da Nacional em 1946, assim como teria o contrato cancelado pela Odeon em 1949.

Os poucos discos que gravou a partir de então, segundo o biógrafo Ronaldo Conde Aguiar, obtiveram resultado "embaraçoso". Orlando tornou-se a pálida imagem de quem fora um dia: no fim, não passava de mais "um cantor comum". *8


Nélson

Foi em 1952, quando começou a gravar as músicas de Adelino Moreira, que Nélson Gonçalves se firmou como o maior cantor do Brasil, fama intocável até 57, quando começou a utilizar cocaína. A consagração tornou-o um homem instável, colecionando mulheres e filhos que eram simplesmente abandonados. "A família de Nélson em uma década não é a mesma nos dez anos seguintes", diz o biógrafo Marco Aurélio Barroso, que relata a violência com que tratava suas mulheres e a desatenção com o filhos, para os quais não pagava pensão. *9


Satã

Pasquim: Quantos anos você esteve preso?

Madame Satã: Ao todo, tirei vinte e sete anos e oito meses.

P: Satã, vc respondeu a quantos processos?

S: Eu tenho 29 processos, sendo 19 absolvições e 10 condenações.

P: E quantos homicídios?

S: Três.

P: Em quantas brigas você calcula que tenha entrado?

S: Ah, que eu não fui preso, deve ter umas três mil. Eu gostava da briga.

P: Eu ouvi dizer que você matou um com um soco.

S: Não, eu fui acusado de ter matado o falecido compositor Geraldo Pereira com um soco. Mas o caso foi o seguinte: eu entrei no Capela e estava sentado tomando um chope. Ele chegou com uma amante dele (ainda vive essa mulher), pediu dois chopes e sentou ao meu lado. Aí, tomou uns goles do chope e cismou que eu tinha que tomar o chope dele e ele tinha que tomar o meu. (...) Então eu peguei meu  copo e levei para outra mesa. Aí, ele levantou e chamou pra briga. Disse uma porção de desaforos, uma porção de palavras 'obicênias', eu não sei nem dizer essas coisas. Aí eu perdi a paciência, dei um soco nele, ele caiu com a cabeça no meio fio e morreu. Mas ele morreu por desleixo do médico, porque foi para a assistência vivo.

P: A Lapa foi durante muito tempo um centro de boemia. Você conheceu gente famosa, além dos marginais?

S: Fui amicíssimo do Chico Alves, fiz muitas serenatas com ele, Noel Rosa, Orlando Silva, Vicente Celestino.

P: O que que vc achava do Chico Alves?

S: O Chico Alves pra mim foi uma grande pessoa, não só como cantor, mas também como companheiro de farra e como amigo.

P: Você conheceu a Aracy de Almeida?

S: Aracy de Almeida eu conheci menina, ainda, quando ela começou a gravar as músicas de Noel Rosa. Pra mim foi uma grande amiga e uma grande companheira. Era o meu tipo, o tipo assim que quando se queimava já viu, né?

P: E aqueles malandros famosos da Lapa, o Edgar, o Meia Noite?

S: O Meia Noite não era propriamente valente. Valente era o fanchone dele, o falecido Tinguá.

P: O Meia Noite era bicha?

S: Meia Noite era caso do falecido Tinguá, sempre foi. O Edgarzinho foi um farol que acendeu e apagou logo em seguida. O Edgar morreu com 26 anos. Fez o primeiro crime ali na rua do Riachuelo, matou o dono do botequim.

P: E esses compositores: Wilson Batista, Ismael Silva e tal, você conheceu?

S: Wilson Batista eu tive uma briga com ele muito grande quando ele desceu lá do morro com aquela disputa com Noel Rosa. Foi ali na Galeria Cruzeiro, ele saiu correndo por ali.

P: E o Ismael Silva?

S: Ismael Silva preto? Ele estava sempre ali na Lapa. Era bom sujeito, só que quando bebia muito ficava chato.

P: E o Brancura?

S: O Brancura nunca foi malandro em negócio de briga. O negócio dele era cafetinar escrava branca.

P: E o Baiaco?

S: O negócio dele também era escrava branca. Quando ele estava no auge dele, teve dez mulheres.

P: Quando Nelson Cavaquinho foi da polícia, ele nunca te prendeu, não?

S: Nunca. Nelson Cavaquinho é muito meu amigo, sempre foi.

P: Quem é que te deu esse apelido de Madame Satã?

S: Esse apelido eu ganhei em 1938, no Bloco Caçador de Veados, depois passou para Caçador da Floresta e morreu com esse nome. Depois nasceu como Turunas de Monte Alegre.

P: Mas, você era caçado ou caçador?

S: Eu era caçador.

P: Mas conta a história do apelido.

S: Bem, havia o baile de carnaval e o concurso. Então eu me exibi com a fantasia de Madame Satã no Teatro República e ganhei o primeiro prêmio (...) O último ano que eu desfilei foi em 1941. Eu estava preso, mas anulei um processo e vim passar o carnaval na rua. Desfilei com a Dama de Vermelho.

P: Você conheceu um homem chamado Fra de Ávalo?

S: Não.

P: E Manuel Bandeira?

S: Manuel Bandeira?

P: Morava no Beco.

S: No Beco das Carmelitas?

P: É.

S: Não, assim de nome, não...

P: Odilo Costa Filho?

S: Não, eu conheci um Odilo que hoje é major de polícia.

P: Mário de Andrade?

S: O Mário de Andrade que eu conheci era bicheiro. *10

Madame Satã. Imagem: Walter Firmo. Acervo IMS.

Deixa Falar

Para Cristalino Pereira da Silva, o Bijou, a armação do Deixa Falar se dava, com "umas 500 pessoas", ao longo da Maia Lacerda, entre a rua da Colina e a Estácio de Sá, com a ala das baianas à frente. Bucy Moreira confirmava as baianas, sem garantir a posição no desfile.

Na formação tradicional das escolas, segundo depoimento de Nilton Marçal, as baianas saíam junto da orquestra de percussão: "Podia vir a escola da maneira que viesse, a ala de baiana era colada à bateria; quem segurava a bateria, quem dava a harmonia para a bateria era a ala das baianas; elas vinham cantando, mas dizendo na boca mesmo".

No rabo da escola, desfilavam juntas a sensualidade e a virilidade: enquanto a percussão dos malandros mantinha acesa a chama do samba, as baianas incendiavam os malandros da percussão. Na cabeça, o Deixa Falar seguia a tradição: os maiorais saudavam o povo, ao passo que a porta-estandarte e o mestre-sala defendiam o pavilhão. No miolo, diziam no pé e na garganta os malandrões e as malandrinhas, tanto as amadoras quanto as profissionais, numa mistura de flores do Estácio e do Mangue: "Bom, tinha gente da pesada e gente de família, mas ali, na hora, elas eram família, que elas respeitavam; não saía bolo, não", garantia Alcebiades Barcellos para o MIS.

Bucy Moreira, com 20 anos na primeira saída, assegurava, em depoimento a Francisco Duarte, a participação de Caneta e Nino, os "baluartes do momento". Dois malandros de justa fama na pernada, com ponto no largo do Estácio: "Nino era um dos maiores valentes", o capoeira mais perfeito que apareceu; morava no Maia Lacerda, "pesava grama, tinha uns 48, 50 quilos, mas brigava; o camarada era uma arte". *11


A carioca

Nos 'dancings', ao som de música de orquestra, profissionais contratadas pela casa formam pares com fregueses. No repertório, números buliçosos: foxtrotes, rumbas, boleros, tangos, sambas e maxixes. Após a dança, um empregado do estabelecimento, com uma máquina de picotar, perfura os cartões de controle. Mais uma moda importada.

Há muito as bailarinas da noite merecem a atenção de Orestes Barbosa:

A carioca dança em toda parte.

É, à noite, a mariposa do luxo que João do Rio registrou na sua primeira invasão espiando as vitrines.

E as cariocas rodam hoje até o dia claro, debaixo das lâmpadas dos 'dancings' que se espalham pela cidade num delírio de harmonias e paixões.

Chama-se Ivete.
É um lindo veneno moreno.
É flexível como uma haste de avenca...
De boca apunhalada...
Ama?
Talvez odeie beijando...

***

Chama-se Lourdes.
É loura.
Parece uma boneca fora da caixa.
Tem o rosto de louça pintada.
Tem dois olhos de esmalte movediços.

***

E exalam todas um cheiro de fazenda nova, na dolência do samba que é uma liturgia na surdina dos pistões.

Chama-se Nair.
Maria ou Clélia.
Jandira, Jurema ou Beatriz...
São as flores do asfalto.
Novas ninfas, iguais, na emoção, às morenas do morro que sambam sorrindo, amando e cantando, perfeitas no ritmo da música genuína da cidade 'leader' da América do Sul.

***

A música, enfim, personificada pelos gregos em Terpsícore, uma das nove musas que agora são dez, com a carioca que dança e canta com as mãos enlaçadas nas mãos amadas, mostrando na ponta de cada dedo a porcelana vaidosa de um espelhinho oval. *12


Elizeth

No início dos anos 1940, a dançarina preferida de Orestes Barbosa chama-se Elizeth, morena de vinte anos ou pouco mais. Somente para dançar com ela, ele frequenta o Dancing Avenida, defronte à Galeria Cruzeiro, onde um elevador acanhado e antigo conduz ao salão.

Na roda do Café Nice, Orestes Barbosa fala muito de Elizeth, a quem se refere como "a minha mulata". O Dancing Avenida põe em seus braços uma mulher que é um estímulo também para a audição. Porque Elizeth Cardoso, a mulata do poeta, em início de carreira, também atua como crooner da orquestra. *13


Ceci

(...) é aqui, numa das noites de maior movimento do Royal Pigalle — as pessoas transitando por entre as mesas, dois ou três pares rodopiando na pista de dança, o proprietário saudando clientes em francês, a gerente perto do bar — que Ceci tem a atenção atraída por um moço alto, magro, elegante, simpático, a quem conhece de vista e de nome. Tem uns vinte e poucos anos e, dizem, enorme talento para escrever peças de teatro, algumas já encenadas com sucesso na Praça Tiradentes. Os dois se olham. Ele não fica indiferente à figura mignon, graciosa, da morena de poucas palavras e muitos sorrisos que o fita à distância. Aproxima-se:

— Eu me chamo Mário Lago.

Ao contrário dos demais fregueses que a tratam com extrema insensibilidade e até com autoritarismo (os homens que frequentam a Lapa têm a arrogância dos compradores, plenamente convencidos de que uma garrafa de champanhe francês lhes dá direito a tudo, inclusive a tratar mal as mulheres que lhes vendem atenções), Mário Lago chega-se a Ceci com as maneiras de um cavalheiro. E é justamente esse cavalheirismo, esse respeito tão raro por aqui, o que mais a impressiona.

— Saio lá pelas quatro da manhã.

— Não, não quero ver você na hora da saída. Quando é sua folga?

— Terça-feira.

— Pois vou buscá-la em casa para irmos ao teatro.

— Ao teatro?

— Sim.

— E você vai entrar comigo, vai se sentar ao meu lado?

— Claro.

Surpresa e encantamento se misturam no rosto bonito de Ceci. Tudo que ela sabe de teatro são aqueles festivais caipiras de Jararaca & Ratinho, espetáculos musicais com gente de rádio, coisas assim. Nenhum freguês lhe fez antes qualquer convite além do óbvio. Mesmo Noel Rosa jamais a chamou para um cinema, um programa mais divertido do que os jantares de madrugada, as festas ligadas a seus compromissos profissionais. Mário é diferente, atencioso, de trato cortês e carinhoso como só as namoradas de fé inspiram. Inteligente, também. Sabe poesias de cor, fala de coisas que nunca lhe passaram pela cabeça, assuntos sérios, complicados, adornados de palavras difíceis. E como conhece gente famosa! *14

Juraci Correia de Araújo  Ceci


VIDA DE BAILARINA (Américo Seixas & Dorival Silva)

Quem descerrar a cortina
Da vida da bailarina
Há de ver cheio de horror

Que no fundo do seu peito
Existe um sonho desfeito
Ou a desgraça de um amor

Os que compram o desejo
Pagando amor a varejo
Vão falando sem saber

Que ela é forçada a enganar
Não vivendo pra dançar
Mas dançando pra viver...

Obrigada pelo ofício
A bailar dentro do vício
Como um lírio em lamaçal

É uma sereia vadia
Prepara em noites de orgia
O seu drama passional

Fingindo sempre que gosta
De ficar a noite exposta
Sem escolher o seu par

Vive uma vida de louca
Com um sorriso na boca
E uma lágrima no olhar...

*

Tentou contra a existência
Num humilde barracão
Joana de tal
Por causa de um tal João

Depois de medicada,
Retirou-se pro seu lar
E aí, a notícia
Carece de exatidão:

O lar não mais existe...

*

Quando eu penso que outra mulher
Requebrou pro meu moreno ver
Nem dá jeito de cantar
Dá vontade de chorar
E de morrer...

*

Cresci olhando a vida sem malícia
Até que um cabo de polícia
Despertou meu coração
E como eu fui pra ele muito boa
Me deixou na rua à toa
Desprezada como um cão...

*

A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua furando nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão...

*

Foi ali, seu moço, que eu, Mato Grosso e o Joca
'Construímo' nossa maloca

*

Lata d'água na cabeça
Lá vai Maria, lá vai Maria
Sobe o morro e não se cansa
Pela mão leva a criança
Lá vai Maria...

*

MULHER DE MALANDRO (Heitor dos Prazeres)

Mulher de malandro sabe ser
Carinhosa de verdade
Ela vive com tanto prazer
Quanto mais apanha a ele tem amizade!

... Longe dele tem saudade

Ela briga com o malandro
Enraivecida manda ele andar
Ele se aborrece e desaparece
Ela sente saudade, vai procurar

... Há um ditado muito certo: pancada de amor não dói

Muitas vezes ela chora
Mas não despreza o amor que tem
Sempre apanhando e se lastimando
Perto do malandro se sente bem

... É, meu bem, o malandro também tem o seu valor

*

TRISTEZAS NÃO PAGAM DÍVIDAS (Ismael Silva)

Tristezas não pagam dívidas
Não adianta chorar
Deve-se dar o desprezo
A toda mulher que não sabe amar...

*

A DAMA DO CABARÉ (Noel Rosa)

Foi num cabaré da Lapa
Que eu conheci você
Fumando um cigarro
Entornando champanhe no seu soirée

Dançamos um samba
Trocamos um tango por uma palestra
Só saímos de lá meia hora
Depois de descer a orquestra

Em frente à porta um bom carro nos esperava
Mas você se despediu e foi pra casa a pé
No outro dia lá, nos arcos eu andava
À procura da dama do cabaré

Eu não sei bem se chorei no momento em que lia
A carta que recebi, não me lembro de quem
Você nela me dizia que quem é da boemia
Usa e abusa de diplomacia
Mas não gosta de ninguém

Foi num cabaré da Lapa...

*

Na subida do morro me contaram
Que você bateu na minha nêga
Isso não é direito
Bater numa mulher que não é sua

Bibliografia:

*1 https://dicionariompb.com.br/artista/nelson-cavaquinho/

*2 https://pt.wikipedia.org/wiki/Cartola_(compositor)

*3 https://jacobdobandolim.com.br/depoimentos.html

Filho que Retrata o Pai© 1978 Sérgio Bittencourt. Segundo Caderno. Última Hora, RJ.

*4 https://dicionariompb.com.br/artista/isaurinha-garcia/

*5 https://pt.wikipedia.org/wiki/Dolores_Duran

*6 Mídia, Celebrização e Música Popular: o caso de Dalva de Oliveira e Herivelto Martins. © 2020 Herom Vargas e Mozahir Salomão Bruck. Revista Brasileira de História da Mídia, São Paulo, v. 10, n. 1. 2021.

*7 Carmen, Uma Biografia. © 2005 Ruy Castro. São Paulo, Companhia das Letras.

*8 https://pt.wikipedia.org/wiki/Orlando_Silva

*9 https://iramenezes.blogspot.com/2023/12/biografia-desfaz-mitos-sobre-nelson.html

*10 O Pasquim. Edição nº 95, 1971. Rio de Janeiro.

*11 Negra Semente, Fina Flor da Malandragem: samba batucado do Estácio de Sá© 2022 Carlos Didier. Edição do Autor.

*12 Samba: sua história, seus poetas, seus músicos e seus cantores© 1933 Orestes Barbosa. Livraria Educadora, Rio de Janeiro.

*13 Orestes Barbosa, Repórter, Cronista e Poeta© 2005 Carlos Didier. Editora Agir, RJ.

*14 Noel Rosa: uma Biografia© 1990 João Máximo e Carlos Didier. Editora Universidade de Brasília.