Leitura Complementar: Novos Filhos da Classe Média Urbana no Século XIX
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| 'Paulista'. Gravura de Lemaitre/Chaillot. 1837. |
PORTUGAL, SÉCULO XVIII
"Que grandes máximas de modéstia, de temperança e de virtude se aprendem nestas canções! Esta praga é hoje geral depois que o Caldas começou de pôr em uso os seus rimances, e de versejar para mulheres". (Ribeiro dos Santos, doutor em cânones, Manuscritos, Portugal, século XVIII)
O excerto acima é parte do mais antigo comentário crítico ao mais antigo compositor brasileiro de música popular: Domingos Caldas Barbosa.
Quem estudou a vida e a obra de Caldas Barbosa foi José Ramos Tinhorão. Com o olhar analítico de corte marxista que caracteriza sua escrita, Tinhorão diz que:
"De fato, quando a partir de 1775 um mulato carioca, Domingos Caldas Barbosa, aparece em Lisboa cantando e acompanhando-se à viola, o que mais choca os europeus da corte da Rainha Dona Maria I é exatamente o tom direto e desenvolto com que o trovador se dirigia às mulheres e a malícia dos estribilhos com que rematava os seus versos.
Ora, se essas 'cantigas amorosas de suspiros, de requebros, de namoros refinados, de garridices' — cujo surgimento na colônia se explicava pelas menores restrições morais existentes longe do atuante sistema de censura da metrópole — tinham começado desde logo fazendo sucesso em Lisboa, isso indicava que tais canções vinham atender às novas condições da vida cortesã.
Na verdade, o ouro das minas brasileiras, carreando para o tesouro real em Lisboa uma riqueza acima de qualquer previsão, permitia desde meados do século XVIII uma tal ampliação do círculo das grandes famílias da burguesia e da nobreza, agrupadas à sombra do trono, que a vida da corte ganhava um colorido jamais imaginado.
A primeira atitude dessas novas camadas surgidas após um longo período de absolutismo e de sujeição às restrições impostas pela rigorosa moral da Inquisição ia ser, logicamente, a de aceitar com entusiasmo quaisquer expressões de uma vida mais liberta de preconceitos".
Quando "as modinhas populares de Domingos Caldas Barbosa alcançaram enorme sucesso no correr da segunda metade do século XVIII, quase todos os compositores eruditos do tempo desandaram a compor modinhas em Portugal".
(...) "Passando a interessar aos músicos de escola, o novo gênero acabaria realmente se transformando em canção camerística tipicamente de salão, precisando aguardar o advento das serenatas à luz dos lampiões de rua, nos últimos anos do século XIX, para então retomar a tradição de gênero popular, pelas mãos dos mestiços tocadores de violão.
Enquanto isso não se deu, a modinha de salão — trazida de torna-viagem ao Brasil com a corte do Príncipe Dom João, a partir de 1808 — chega a confundir-se com árias de óperas italianas".
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| Francisco de Paula Brito |
BRASIL, SÉCULO XIX
"A popularização e renacionalização dessa modinha elevada à condição de peça erudita, entretanto, começariam a ser preparadas (...) graças à entrada em cena de uma nova geração de filhos da classe média urbana ligada ao desempenho das profissões liberais e ao cultivo da literatura.
No Rio de Janeiro esse movimento tinha o seu centro nas lojas do tipógrafo, livreiro, editor e poeta mulato Francisco de Paula Brito, que ocupavam os números 44, 51, 64, 66, 68 e 78 da Praça da Constituição, hoje Praça Tiradentes.
Nesse conjunto de lojas, reunia-se desde meados do século XIX a pioneira geração de literatos românticos do Rio, entre os quais estavam Gonçalves de Magalhães, Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar, Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Machado de Assis e Laurindo Rebelo.
Era ali que os chamados homens de espírito marcavam encontro, e onde — segundo Machado de Assis — 'se conversava de tudo, desde o dó de peito do Tamberlik até os discursos do Marquês de Paraná'.
Durante essas conversas, nasceu a ideia de criar uma instituição sem estatutos, a Sociedade Petalógica (nome que fazia rir a quem notava que 'Petalógica' vinha de 'peta', sinônimo de mentira, potoca, invenção).
Segundo Marisa Lira, pioneira da historiografia da música popular, citada por Tinhorão, a 'Petalógica do Rossio Grande não era apenas o centro de literatos da escola de Machado de Assis, mas também de trovadores, seresteiros e poetas'.
"O fato é que, renovada por músicos populares a serviço da inspiração de toda uma geração de poetas, a modinha adaptou-se afinal ao violão, que substituía a viola desde meados do século XIX. E ganhando as ruas com os conjuntos de músicos de choro, que se encarregariam de estilizá-la definitivamente, dentro do estilo derramado do ultrarromantismo popular, acabaria no início do século XX voltando ainda mais uma vez aos salões sob o nome de canção".
"Exatamente por muito poucas vezes chegar a ser editado em partituras, esse repertório de modinhas dos seresteiros de fins do século XIX e de inícios do século XX ficaria perdido, não fora uma circunstância salvadora. A partir de 1902 a Casa Edison do Rio de Janeiro, de propriedade do introdutor das chamadas 'máquinas falantes', Frederico Figner, o Fred Figner, começa a gravar em discos o vasto repertório dos cantores de rua.



