24. A Classe Média no Espelho

La Reproduction Interdite. Magritte, 1937.

1957. André Midani trabalhava como diretor de promoção na Odeon quando foi apresentado àquela que viria a ser a "turminha da bossa nova": Menescal, Nara, Bôscoli, Oscar (Castro-Neves), Luís Carlos (Vinhas) e Carlinhos (Lyra).

O francês, em sua autobiografia, rememora: "Eu não entendia por que a indústria fonográfica brasileira ignorava por completo a juventude como um mercado potencialmente importante. Lá fora já eram evidentes os sinais da importância que os jovens de todas as classes sociais teriam na explosão da indústria fonográfica".

Tão moço quanto eles, "quando os meninos começaram a tocar", atinou: "Aí está a música para a juventude brasileira!".

"Adorei o estilo intimista, adorei as poesias e adorei as pessoas. Me identifiquei. Com uma certa desconfiança inicial, fui adotado por eles".

Pouco tempo depois, no apartamento de Aloysio de Oliveira (diretor artístico da gravadora e grande experiência adquirida nos tempos em que liderou o Bando da Lua da internacional Carmen Miranda), Midani vai ao encontro de outro novato, o baiano João Gilbertoindicação de Dorival Caymmi.

"Foi um susto! Era algo revolucionário! A beleza do canto, a incrível qualidade harmônica do violão e o conceito rítmico único do João nos impressionaram tanto que decidimos contratá-lo imediatamente.

Muitas das músicas tinham sido escritas por Tom Jobim (...) um rapaz fino e bonito. Durante a semana seguinte, falei longamente com Aloysio sobre o plano de lançar artistas e compositores novos para atender ao mercado jovem, e decidimos abrigar João Gilberto, Tom e a turma da bossa nova, tendo como foco direto de promoção a juventude de classe média.

O preconceito da classe média em relação aos músicos, compositores, cantores e cantoras era enorme, e deixava antever algumas das dificuldades que iríamos encontrar. Só para se ter uma ideia do que estou falando, num fim de tarde, Nara Leão, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal e eu entramos no apartamento do dr. Jairo, pai da Nara. Ele lia o jornal quando a filha, com aquela voz intimista e suave, lhe disse: — Pai, vou ser cantora! Dr. Jairo abaixou o jornal, tirou os óculos, olhou-a durante alguns segundos e respondeu: — Quer dizer, minha filha, que você vai ser puta?!? Tornando a levantar o jornal, prosseguiu placidamente com a leitura. E olha que o dr. Jairo era um homem liberal para os padrões da época. Ele também era o pai de Danuza Leão casada com Samuel Wainer, dono do jornal Última Hora e conhecida por seu comportamento sofisticado, às vezes extravagante.

A falta de salas de espetáculos adequadas foi o primeiro obstáculo para o lançamento do movimento. Os locais disponíveis, os célebres 'inferninhos', eram, em geral, promíscuos. E os outros eram bares da alta sociedade carioca, dos quais o Sacha's era o mais conhecido. Ali se badalava mais do que se escutava. Os meninos começaram, então, a tocar nos colégios, nas escolas, nas universidades e nas tardes musicais da Escola Naval, aos domingos. O sucesso das apresentações nos deixou confiantes de que encontraríamos a mesma receptividade quando os primeiros discos chegassem à imprensa, e, principalmente, às emissoras de rádio. Essa esperança desabou quando apresentei a canção Chega de Saudade, interpretada por João Gilberto, ao departamento de vendas e divulgação da Odeon em 1958. Cheguei com o disco de acetato em São Paulo, contei toda a história que cercava o lançamento, cujo ponto central seria a abertura de um novo mercado dirigido para a juventude, e coloquei o disco na vitrola. Todos ouviram num silêncio que achei muito promissor, até o momento em que Gurzoni, o importante gerente de vendas e elemento decisivo para o futuro sucesso do empreendimento, pegou o disco e proclamou a frase já célebre: — Isso é música de viado! E jogou o acetato no chão".

2.

Não deve haver no Brasil quem não tenha ouvido falar que entre nós só vão pra cadeia os três pês: "pretos, pobres e putas".

Dr. Jairo, o pai de Nara Leão, era conhecedor dessa 'realidade', mesmo que eventualmente o dito popular nem tivesse ainda sido formulado.

O advogado, proprietário de amplo apartamento na Avenida Atlântica, o metro quadrado mais caro do Rio de Janeiro na década de 1950, sabia que a filha caçula não corria risco de tornar-se pobre, nem preta. Restava ao seu preconceito antecipar-lhe o 'destino' de prostituta com que as artistas brasileiras, em grande parte pretas e vindas da pobreza, eram 'adesivadas'.

Jairo Leão, sejamos justos, não impediu Nara de se tornar cantora. Pelo contrário, franqueou o acesso ao apartamento para frequentes reuniões da 'turminha da bossa nova' assim como, poucos anos depois, receberia os sambistas de morro com quem Nara estabeleceu parceria nos espetáculos do Teatro de Arena.

Porém, o "moralismo estreito para inglês ver e o ódio secular às classes populares" parecem ser efetivamente aquilo que afirma o sociólogo Jessé Souza: "a mais brasileira de todas as nossas singularidades sociais".

"Como os preconceitos são sociais e não individuais como somos inclinados a pensar, todas as classes superiores no Brasil partilham [deles]".

Ainda que (...) este preconceito "esteja verdadeiramente em casa na classe média".

LEGITIMAÇÃO

Por ser (...) "uma classe intermediária, entre a elite do dinheiro, de quem é uma espécie de 'capataz moderno', e as classes populares a quem explora, [a classe média] tem que se autolegitimar tanto para cima quanto para baixo".

(...) "Se os ricos se legitimam pelo bom gosto supostamente inato para esconder sua origem monetária, e levam uma vida 'exclusiva', apartada do restante da sociedade, a legitimação dos privilégios da classe média é distinta".

Por isso (...) "a classe média é a classe por excelência da meritocracia e da superioridade moral".

(...) "A suposta superioridade moral da classe média dá à sua clientela tudo aquilo que ela mais deseja: o sentimento de representarem o melhor da sociedade. Não só a classe que 'merece' o que tem por esforço próprio, conforto que a falsa ideia da meritocracia propicia; mas, também, a classe que tem algo que ninguém tem, nem os ricos, que é a certeza de sua perfeição moral".

Há um quê de irônico (ou patético) nessa hipotética certeza:

(...) "Como, na imensa maioria dos casos, não possui os meios de se envolver nas grandes negociatas que envolvem milhões, a classe média não tem sequer, na prática, o dilema moral de se deixar ou não corromper. Como justificação e legitimação da própria vida, o esquema moralista é, portanto, perfeito. Em relação aos poderosos, a classe média pode se ver sempre como 'virgem imaculada' e moralmente perfeita.

De outro modo, como explicar tamanho estreitamento da noção de moralidade, a qual faz com que deixe de ter qualquer relevância, por exemplo, a forma como se relaciona com os mais frágeis socialmente? Como alguém que explora as outras classes abaixo dela sob a forma de salário vil, de modo a poupar tempo nas tarefas domésticas, e que apoia [ou se omite sobre] a matança indiscriminada de pobres pela polícia, ou até a chacina de presos indefesos, consegue (...) se acreditar moralmente elevado?

Moralidade no Ocidente significa, antes de tudo, respeito pelo outro, especialmente o outro fragilizado por situações em relação às quais não possui nenhuma culpa. Daí que a indignação moral tão seletiva da classe média entre nós, com a corrupção dos poderosos, seja pouco mais que legitimação mesquinha de uma conduta cotidiana imoral sob qualquer aspecto relevante".

(...) "A classe média brasileira possui um ódio e um desprezo cevados secularmente pelo povo. Essa é talvez nossa maior herança intocada da escravidão nunca verdadeiramente compreendida e criticada entre nós. Para que se possa odiar o humilhado, tem-se que construí-lo como responsável por sua própria (falta de) sorte e ainda fazer dele um perigo e uma ameaça.

(...) É desse modo que toda a classe média desenvolve uma mistura de medo e de raiva em relação aos pobres em geral. (...) A continuidade é óbvia. Como nunca criticamos a escravidão, e como sempre, inclusive, tentamos torná-la invisível como se nunca tivesse existido, suas práticas continuadas com máscaras modernas também não são percebidas como continuidade".

Mas, repetindo, ou, melhor, retomando a afirmação inicial dessa série, "se a maior parte da classe média é tendencialmente conservadora (...) ela não o é do mesmo modo em todos os segmentos".

Dois nichos, ou frações, da classe média, segundo a classificação proposta por Jessé Souza, surgem tardiamente: a fração expressivista, vinda com a contracultura dos anos 1960 e 70, e a fração protofascista, que eclode nos 20 primeiros anos do século XXI, acompanhando a onda de extrema-direita que se espalhou pelo planeta.

A fração liberal e a fração crítica formam, ao contrário, a classe média mais tradicional, bipartidas entre "o conhecimento técnico", aquele "que serve diretamente às necessidades do capital e sua reprodução" e uma "atitude básica" que se contrapõe à percepção do mundo como dado, ou como "uma natureza sob outra forma, em relação à qual é preciso se adaptar".

Na visão de mundo da classe média liberal não se considera a própria personalidade (...) "como um processo de descoberta e criação".

"Para que se perceba a vida como invenção", à maneira dos 'críticos', "é necessário saber conviver com a incerteza e a dúvida, duas das coisas que a personalidade tradicional e adaptativa mais odeia".

"A convivência com a dúvida é afetivamente arriscada e demanda enorme energia pessoal. O maior desafio aqui não é simplesmente cognitivo, mas de natureza emocional. Procura-se, para evitar a incerteza e o risco, a segurança das certezas compartilhadas. São elas que dão a sensação de tranquilidade e acerto quanto à própria justeza e correção. Andar na corrente de opinião dominante com a maioria das outras pessoas confere a sensação de que o mundo social compartilhado é sua casa".

A fração liberal é mais suscetível "à imprensa e a seu papel de articular e homogeneizar um discurso dominante para além das idiossincrasias individuais. O que a grande empresa de imprensa vende a seu público cativo é essa tranquilidade das certezas fáceis, o que torna o moralismo cínico da imprensa — que nunca tematiza seu próprio papel nos esquemas de corrupção — o arranjo de manipulação política perfeito para esses estratos sociais. É esse compartilhamento afetivo e emocional, já advindo da força da socialização familiar anterior, que faz com que essas pessoas procurem o tipo de capital cultural mais afirmativo da ordem social".

Essa é também a fração (...) "do moralismo, ou seja, daquela noção de moralidade tão pouco arriscada e construtivista quanto sua forma de cognição do mundo. O que é justo e moral não é percebido como algo que se construa paulatinamente, à custa de experiências cotidianas desafiadoras, em um processo de aprendizado doloroso por meio do qual se reconhece, no melhor dos casos, nosso próprio envolvimento em tudo aquilo que criticamos da boca para fora. Esse tipo de aprendizado moral exige o incondicional reconhecimento de que o mal nos habita a todos, e que só nos livramos dele apenas parcialmente e ainda assim sob o custo de uma vigilância eterna".

"O moralismo (...) pula todas as etapas arriscadas e incertas e abraça só o produto fácil e vendido a baixo custo pela mídia e pela indústria cultural:  a boa consciência das certezas compartilhadas, construída para satisfazer esse tipo de consumidor".

Na ponta dos 40% da classe média que detém maior capital cultural comparativo, temos a menor fração entre todas, que é a fração que denomino de crítica. Ela perfaz nos nossos cálculos apenas 15% do total da classe média. O que faz com que a denomine de crítica não é nenhuma tomada de posição política particular, mas sim uma atitude singular em relação ao mundo. O mundo social é percebido como construído, o que enseja também uma atitude mais ativa em relação a ele. Essa atitude básica se contrapõe à percepção do mundo como dado, como uma natureza sob outra forma, em relação à qual é preciso se adaptar. A forma de adaptação mais comum é se sentir pertencendo a correntes dominantes de opinião. A pequena fração crítica tem que navegar em mares turvos, já que em luta constante contra a corrente dominante. Ela mostra a dificuldade de se chegar a formas de liberdade pessoal e social e de autonomia real no contexto de uma sociedade perversa e repressiva. Por conta disso, ela também é prenhe de contradições como todas as outras frações.

Avenida Paulista, São Paulo, década de 1980.

Transcrito (com adaptações) de:

Do Vinil ao Download. © 2015, André Midani. 1. ed. - Nova Fronteira.

A Elite do Atraso: da escravidão à Lava Jato. © 2017, Jessé Souza. Editora Leya.