ANOS 1960 — 1970_15: A Voz do Morro
Fevereiro de 1964
Logo que inaugurou, no número 53 da Rua da Carioca, o Zicartola abria só para o almoço, encerrando as atividades às 15 horas. As noitadas com roda de samba aconteciam exclusivamente às sextas-feiras.
Em pouco tempo, porém, a casa passou a funcionar à noite, servindo jantar, e oferecendo música também às quartas-feiras.
O diretor musical era Zé Kéti. Além de exercer a função, subia ao palco em companhia das estrelas de primeira grandeza do lugar: eram ele, Cartola, Nelson Cavaquinho e Ismael Silva.
Sérgio Cabral vivia divulgando o Zicartola nos jornais em que trabalhava, o que fazia com que a lotação da casa (120 lugares) estivesse sempre esgotada.
Em permanente estado de agitação e propaganda, com pouco mais de um ano de funcionamento, o restaurante criou a Ordem da Cartola Dourada.
Ideia do compositor Hermínio Bello de Carvalho, a Ordem da Cartola Dourada existia para homenagear os grandes nomes da música brasileira, que todas as quartas-feiras teriam seus retratos pendurados na galeria de honra da 'instituição'.
A cantora Aracy de Almeida foi a primeira a ser 'ordenada', seguida por nomes como Antonio Carlos Jobim, Dorival Caymmi, Elizeth Cardoso, Cyro Monteiro, Elza Soares e outros. Todos terminavam por se apresentar para uma entusiasmada plateia.
Dentre os novos talentos do samba que apareciam para dar canja, estava Elton Medeiros, cantor, compositor e instrumentista oriundo de Brás de Pina, que em 1962 formara com Cartola, Nuno Veloso, Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Joacyr Santana e Armando Santos, da Portela, o conjunto A Voz do Morro, montado para uma participação especial de 15 minutos num programa da TV Rio. Como a apresentação foi cancelada, o grupo terminou sem sequer ter começado. Mas a amizade de Elton com Cartola, não.
Hermínio, por sua vez, foi responsável por trazer um jovem violonista e cantor de Madureira, chamado Paulo César. O rapaz de 21 anos, filho de Benedito César de Faria, violonista do conjunto Época de Ouro, foi alimentado por música desde criança, e conviveu com nomes como Pixinguinha e Jacob do Bandolim. Na sua estreia no Zicartola, dividiu o pequeno tablado da casa com Zé Kéti, tocando violão e cavaquinho. O autor de Diz Que Fui Por Aí aprovou o desempenho do novato, mas comentou com Sérgio Cabral: — Temos que arranjar um nome pra esse garoto, Paulo César não é nome de sambista.
Sérgio Cabral, então, batizou o recém-chegado como Paulinho da Viola.
Paulinho da Viola:
"O Hermínio um dia me falou: 'Olha, tem um lugar aí, acho que você vai gostar'. Na época, eu trabalhava em um banco perto desse local, na rua da Carioca, onde ficava o Zicartola. Eu passei a sair do banco e ia para lá.
Como eu já tocava um pouco de violão e tinha condição de acompanhar alguém cantando, imediatamente fui integrado ao grupo que ficava quase toda noite lá tocando com quem se apresentava e até com o próprio Cartola.
Logo depois, ainda em 1964, Zé Keti fez um disco e nos convidou para deixar uns sambas na [gravadora] Musidisc.
Nós fizemos um pequeno ensaio para cada um mostrar um samba e o produtor gostou. 'Vocês poderiam fazer um disco', disse. Foi assim que nasceram os dois volumes do Roda de Samba com o A Voz do Morro."
Frutos do Zicartola
O conjunto A Voz do Morro, criado ainda na Rua dos Andradas para aquela mal sucedida apresentação de TV, na rua da Carioca renasceu com nova formação: Zé Keti, Anescarzinho do Salgueiro, Paulinho da Viola, Jair do Cavaquinho, Oscar Bigode e Zé Cruz.
Uma variação desse time surgiu no musical de grande sucesso Rosa de Ouro, criado por Hermínio Bello de Carvalho.
O espetáculo, que estreou em dezembro de 1965, no Teatro Jovem, em Botafogo, estrelado por Clementina de Jesus, a veterana Aracy Cortes e Os Quatro Crioulos (grupo formado por Elton Medeiros, Nelson Sargento, Anescarzinho do Salgueiro e Paulinho da Viola), também começou a ser pensado no sobrado de Zica e Cartola.
Transcrito (com adaptações) de:
Divino Cartola: uma vida em verde e rosa. © 2012, Denilson Monteiro. Casa da Palavra.
Depoimento de Paulinho da Viola a Lucas Nobile. Ilustríssima Folha de São Paulo. 6 de outubro de 2019.
Imagens:
Capa do LP Roda de Samba — Conjunto A Voz do Morro. Selo Musidisc, 1965. Discogs.
Cartola, sentado no chão, observa Sérgio Cabral e Ismael Silva; ao fundo, os pesquisadores Jota Efegê e Eneida Moraes. Acervo da Biblioteca Nacional.
Cartola, Odete Lara, Dorival Caymmi e Roberto Menescal. © 1964, Samuel Elyachar.
Rosa de Ouro e amigos:
Em pé, Elton Medeiros, Turíbio Santos, Nelson Sargento, Paulinho da Viola, Jair do Cavaquinho e Anescarzinho do Estácio.
Sentadas, Clementina de Jesus, Aracy de Almeida e Aracy Cortes.



