ANOS 1960 — 1970_22: O Ano Que Não Terminou
O rito de passagem
A crônica da época não lhe dedicou mais do que magras 15 linhas. Nos registros existentes, ele consta apenas como uma das inúmeras festas que marcaram a entrada daquele distante 1968. E, no entanto, para os que viveram o que seria um banal acontecimento, ele permanece como um misterioso marco cujos símbolos e significados ocultos a memória e o tempo vão-se encarregando de descobrir, ou de criar, até obter o material com que se fazem os mitos.
Não terá ocorrido com o "Réveillon da casa da Helô" o que ocorreu com outros aparentemente insignificantes mas memoráveis acontecimentos? Afinal, o Último Baile da Ilha Fiscal não mereceu da imprensa, de imediato, o justo destaque que lhe reservaria a História — ou a lenda.
Ele foi dos "melhores", assegura uma das colunas sociais da época, sem porém lhe dar a correspondente importância, preferindo contemplar as razões mais fúteis: "o scotch era legítimo", dizia a colunista Léa Maria; o som "combinava carnaval com iê-iê-iê" e os trajes se apresentavam variados — "smokings, longos formais, curtos mini, roupas hippies de luxo". — Além disso, o elenco de convidados era atraente: "metade gente de cinema e teatro novo; a outra metade, grupos de jovens assessores lacerdistas".
Ah, sim, havia também a casa: uma bela construção no alto do Jardim Botânico, toda feita com sucata de demolição — um estilo que a audácia arquitetônica de um certo Zanine inventara para se transformar logo numa moda chique.
A casa parecia uma locação cinematográfica especialmente escolhida para aquele espetáculo. Entrava-se por um portão e logo à esquerda começava a perna mais longa do L que lhe dava forma; aí ficavam os quartos. A grande sala completava o L e fechava o terreno ao fundo. Com o muro à direita, tinha-se a impressão de estar num pátio interno espanhol. Do portão até a sala, devia-se percorrer um grande retângulo gramado, com uma bela e cinquentenária árvore. Cada um desses detalhes topográficos ou arquitetônicos iria ter um papel importante na noite.
Mas a festa, evidentemente, não foi importante apenas pelo décor. O réveillon promovido pelo casal Luís e Heloísa Buarque de Hollanda foi muito mais do que sugerem "as descrições feitas no calor da hora" — pelo menos para a história que se vai contar. Não que tivesse mudado o destino do país, longe disto. Mas talvez porque condensasse e antecipasse um estado de espírito e um clima que seriam predominantes no período.
A sua significação para 68 talvez seja idêntica à da famosa sequência da festa de Terra em Transe — então, a referência cultural obrigatória. Sem ela, o filme de Glauber Rocha provavelmente não iria deixar de ganhar o prêmio especial da crítica em Cannes e nem perderia o carisma de obra-prima do cinema brasileiro. Mas certamente não seria o mesmo; da mesma forma, um dos presentes à festa, o jornalista Elio Gaspari, acha que "depois do réveillon da Helô, o Rio nunca mais foi o mesmo".
Por sua composição, que incluía mais facções sociais, políticas e ideológicas do que as citadas nas colunas, a festa de Helô, tanto quanto a de Glauber, foi vivida como a alegre metáfora — ou paródia? — de uma ampla e variada aliança política, algo assim como a que o VI Congresso do Partido Comunista propusera, meses antes, para unir as "forças progressistas" a fim de lutar contra a ditadura e quem a sustentava: o imperialismo. Acreditava-se — não só nas festas — que derrubar uma era atingir o outro, e nada melhor contra os dois do que juntar no mesmo saco a esquerda tradicional, os intelectuais, os operários, os estudantes e a chamada burguesia nacional que, por nacional, seria naturalmente antiimperialista.
A luta de classes que esperasse.
Pode-se alegar que nas representações festivas faltava o ator principal — a classe operária. Mas era assim mesmo: era como se as forças progressistas tivessem chegado mais cedo à festa ou ao processo histórico. Estavam guardando lugar — senão na festa, ao menos na História — até a entrada dos verdadeiros protagonistas, os operários.
Quem, por achá-las inadequadas, não concordar com essas analogias metafóricas tão ao gosto da época, pode recorrer a outras. Nesses 20 anos, o "Réveillon da casa da Helô" virou um depósito de sugestões e referências. Ele pode ter sido, por exemplo, a versão festiva da Frente Ampla, o movimento que o ex-governador Carlos Lacerda conseguira articular meses antes, atraindo como aliados dois ferozes ex-inimigos, os ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart. Por que não?
Mais do que buscar diferenças ideológicas e pessoais, era hora de procurar os seus pares, acertar o passo e dançar conforme a música. O Tropicalismo permitia as combinações mais esdrúxulas. Esse desejo de alianças improváveis era visível até em acontecimentos como o célebre casamento de Nara Leão e Cacá Diegues, cujos padrinhos foram Danuza e Samuel Wainer e Maria Clara e Sérgio Lacerda — dois sobrenomes que ninguém pensaria em juntar antes nem em enterro.
Como em toda passagem, havia na casa de Helô uma mistura de frustração e esperança. Algo tinha-se movido em 67, ainda que parecesse que se movera para continuar igual. De qualquer maneira, a ditadura havia trocado de ditador, a legislação revolucionária fora substituída por uma Constituição — tudo bem, mas já era uma Constituição —, um presidente bonachão se dizia preocupado com a "normalização democrática" e uma nova geração parecia disposta a deixar a marca de sua presença em todos os campos da História. Muitas vezes o ano iria dar a impressão, repetindo Millôr Fernandes, de que o país corria o risco de cair numa democracia.
Com algum otimismo, encontravam-se boas razões para se esperar um feliz 68. A efervescência criativa de 67 não era por certo um mau sinal. Terra em Transe, Quarup, o Tropicalismo, Alegria, Alegria, O Rei da Vela, talvez fossem só o começo. Além do mais, o movimento estudantil, cujas entidades haviam sido postas fora da lei pelo golpe de 64, vinha se reorganizando e mobilizando a massa de secundaristas e universitários.
Havia — que a distância não nos deixe esquecer — a ameaça incansável da censura e de outras forças obscurantistas. Mas estes riscos de retrocesso encontravam o setor cultural vigilante e cada vez mais consciente da necessidade e da possibilidade de resistência. Havia, enfim, como sempre, a situação social e política carregada de problemas — o arrocho salarial, os sindicatos sob intervenção, uma insuportável inflação de 40% ao ano que Delfim Netto prometia reduzir para 25% —, mas o segundo governo militar anunciava que queria restabelecer o diálogo com a sociedade e com a classe política. Só por isso o ano de 68 já seria um avanço.
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Um personagem que viveu intensamente aqueles tempos, o diretor de teatro Flávio Rangel, manifesta, 20 anos depois, a sensação de que havia entre 67 e 68 um malpercebido clima de abertura, uma "primavera" — que lembrava uma outra, contemporânea, a de Praga, e que, como esta, seria abortada, ainda que sem invasão de tanques. No depoimento que deu para este livro, em dezembro de 1987, ele disse que só experimentaria clima semelhante nos anos 80.
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Mas voltando ao réveillon dessa frustrada abertura: encontrava-se ali uma parte considerável da inteligência brasileira que produzira, ou iria produzir do bom e do melhor. Com aqueles talentos, era possível organizar uma preciosa antologia. Com as vontades políticas ali presentes, poder-se-ia fazer a Revolução, isto é, a grande utopia daqueles tempos. Isso, evidentemente, se o processo revolucionário dependesse apenas das condições subjetivas — e os anos seguintes iriam demonstrar dramaticamente que não, que volição e revolução às vezes não passam de um trocadilho.
Como o Brasil de então, o réveillon de Helô tinha tudo para dar certo, a começar pela dona da casa. A professora Heloísa Buarque de Hollanda, bonita, culta e de esquerda, era mito e ícone da intelectualidade carioca dos anos 60. Com esses tempos a "Bela Mestra" iria fazer a matéria-prima de sua tese de doutorado uma década depois. Misturando duas viagens — a sua e a da História —, o seu trabalho ensinaria ao meio acadêmico que saber e competência não precisam ser chatos.
A organização da festa, entregue a uma comissão, ou a um "coletivo", como era de bom-tom dizer, parecia perfeita. Na verdade não foi: havia mais motivação do que competência, como aliás em tudo o que se organizava então. É bem verdade que os convites eram à prova de falsificação. Um dos organizadores, o editor Sérgio Lacerda, na época o principal diretor da Datamec, uma empresa de processamento de dados, informatizou os ingressos, personalizando-os. Mas nem isso adiantou. Lá pelas tantas, Luís Buarque, diante da iminente invasão, baixou uma ordem para o porteiro: "Se não estiver nu, deixa entrar".
A anfitriã e um elenco de outras estrelas da época — Maria Clara, Marília, Maria Lúcia, Glória, Dílmen tomaram as providências indispensáveis. O som foi alugado na Josias. Para entrar, além do convite personalizado, ficou decidido que cada casal deveria levar uma garrafa de scotch, ou uma quantia correspondente a ser usada na preparação da comida e no conserto de eventuais estragos patrimoniais.
Alguém, no início da noite, porém, teve a intuição de que um dos dois — a festa, não ainda o país — corria um certo risco. O jovem advogado Rui Solberg, que ajudara na organização, chegou cedo, com sua mulher Glória Mariani, e pediu dois uísques. Era só "para começar", uma espécie de entrada a uma noite que se anunciava longa e promissora. Quando atenderam ao pedido, ocupando-lhe as mãos com duas garrafas de uísque escocês, ele levou um susto. Pensou: "Isto não vai dar certo." Veterano de festas, Rui não se lembrava de jamais, em qualquer delas, ter sido presenteado com duas garrafas ao pedir duas doses.
Apesar do exagero da oferta, Rui não devolveu as garrafas, graças ao que tem hoje apenas lembranças vagas do que fez naquela noite — ou, mais precisamente, do que lhe fizeram.
Recorda-se confusamente, por exemplo, de que foi "sequestrado" para um canto deserto da casa por uma das jovens mais atraentes da festa e daqueles tempos. Sem esforço, quase contra a vontade — se a expressão no caso não fosse uma impropriedade —, Rui fora premiado com um dos tesouros da noite, mas não só ele. Muitas das reminiscências da festa registram o mesmo episódio repetindo-se com outras bem-aventuradas vítimas.
Nem todos, porém, se embriagaram. Glauber Rocha, por exemplo, que não dançava e quase não bebia — as drogas, mesmo a maconha, ainda não frequentavam oficialmente as reuniões sociais —, preferiu se divertir atiçando discussões entre os grupos. A sua cabeça estava ocupada em parte com a infindável polêmica suscitada por Terra em Transe e em parte com o novo projeto para 68, O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro. Seria difícil repetir o sucesso artístico do ano anterior, mas qualquer que fosse a qualidade do resultado, tinha-se a garantia de alguns meses de apaixonadas discussões e generalizadas controvérsias. Ninguém depois de Glauber, nem mesmo José Celso Martinez Corrêa, nem Caetano Veloso, dois mestres na arte da agitação cultural, possuiu idêntica capacidade de desarrumar convicções estabelecidas — e de aglutinar ódios e paixões. Ele era um dos principais polos de atração da festa e do país naquele momento, e até morrer, em 82.
Outros, apesar da importância, eram menos notados, como Geraldo Vandré. Esbarrava-se com o ainda pouco conhecido compositor sem se desconfiar de que ele viria a ser um dos personagens mais notórios do ano que começava. Ao contrário do que ensinaria sua famosa canção — "quem sabe faz a hora, não espera acontecer" —, ele não soube fazer a sua na festa. Imobilizou Millôr durante horas num canto da sala, com uma discussão meio sem sentido, e foi por isso o responsável pelo humorista ter sido, como brinca, "o único a não arranjar ninguém naquela festa". Em compensação, Millôr sente até hoje prazer em dizer: "Ele é o autor da nossa Marselhesa, o nosso autêntico hino nacional".
Num canto da sala, o editor Ênio Silveira parecia se exaltar com o artista plástico Carlos Vergara. Não era preciso estar perto para adivinhar o conteúdo de uma discussão que envolvia um prócer do PC — responsável por alguns dos mais significativos lançamentos da época — e um jovem enragé, líder político de sua categoria, que por suas posições radicais era chamado de "Che Vergara". O bate-boca dos dois anunciava um antagonismo que iria se ampliar com o tempo: a discussão entre comunismo e anticomunismo de esquerda.
Regada pelo legítimo e generoso scotch, a demorada troca de ideias — talvez mais de insultos do que de ideias — encerrou-se com um edificante diálogo que muitos puderam apreciar:
— Os novos tempos vão exigir muita macheza política — foi mais ou menos o que disse Vergara.
— O problema não é de mostrar os testículos, mas a cabeça — revidou Ênio.
A discussão quase inicia a primeira briga da noite. O metabolismo ideológico da época não admitia a convivência com a incerteza. Era um tempo sem meios-tons.
O dono da Civilização Brasileira fazia parte da "turma da observação" — Fernando Gasparian, José Colagrossi, Eurico Amado —, um grupo que viera de outro réveillon e ainda não se conformara com o que estava vendo. "Espantados, eles estavam completamente out do clima da festa", recorda-se Maria Clara Mariani. Não era fácil para os representantes da "burguesia nacional" assistir a tantas liberalidades, principalmente quando volta e meia a luz se apagava. Esses instantes se repetiam regularmente para que os casais se apertassem mais, se beijassem, fizessem enfim tudo o que fazem hoje à luz do dia — na praia, nos bares, na rua.
Quando Ênio Silveira foi embora, cruzou na entrada com Elio Gaspari, acompanhado da artista plástica Regina Váter. Longe ainda de ser o jornalista mais competente de sua geração, Gaspari era então um jovem repórter que acabara de fazer sua iniciação na coluna de Ibrahim Sued. Ele chegou mais ou menos às 11 horas, com a preocupação de não beber muito; não queria ficar de porre, queria ver e aproveitar todos os momentos da festa.
Durante anos a lenda recolheu pedaços de conversas, trechos de matérias, frases, para construir um brilhante e imaginário ensaio sobre o réveillon da Helô, com o título O Último Baile da Ilha Fiscal. O cronista Roberto Marinho de Azevedo e a professora Heloísa sempre estiveram entre os leitores dessa obra-prima. Atrás do pseudônimo Charles Perifort, o autor da antológica peça jornalística, escondia-se Elio Gaspari.
"Não escrevi esse artigo simplesmente porque não vi a festa", esclarece agora Gaspari. Apesar dos sanduíches e da água que bebeu para cortar o porre que começava, Elio sentiu de repente que ia apagar e pediu a Helô um canto para dormir. Quando acordou, a festa tinha acabado.
"No dia seguinte, na praia", lembra Elio, "eu morri de vergonha: todo mundo só falava do réveillon e eu com cara de idiota."
A praia era então o lugar onde se passava a limpo os acontecimentos da véspera, e onde se escolhiam as versões que seriam veiculadas dali para frente.
Infelizmente, também, uma das mais cintilantes estrelas da noite ficou pouco tempo no réveillon. A "princesa", como a tratavam seus incontáveis vassalos, chegou antes da meia-noite, como se fosse uma aparição. Os cabelos louros, naturalmente escorridos, tinham-se transformado em "mil cachos", conforme exigência que fizera ao cabeleireiro. A calça, de seda preta, fora comprada em Paris, um modelo patte d'éléphant, preso por uma fivela de strass. O collant cor de carne sob a blusa de crochê prateada, transparente, dava uma perturbadora ilusão de nudez aos seios. Naquele tempo, o corpo feminino não exibia ainda seus mistérios em público, apenas sugeria. Vivia-se apenas o começo das mutações antropológicas que se iam tornar nítidas mais adiante: a ambiguidade sexual, os cabelos masculinos mais compridos, a confusão de papéis, uma certa indiferenciação dos signos aparentes dos sexos, o declínio do macho.
Maria Lúcia falou com algumas pessoas, distribuiu sorrisos, mas nem todos puderam admirá-la mais demoradamente. Pouco depois da meia-noite, sangrando, era conduzida por um amigo para a farmácia Noite e Dia, em Copacabana.
Foi tudo muito rápido. A aparição dançava com a novidade daquele verão carioca, um forasteiro egípcio que, por ser também judeu, ganhou dos seus rivais um apelido retirado da incomum combinação étnica: "contradição ambulante". Dizia-se que era muito rico e contavam-se histórias mirabolantes a seu respeito. Ao certo, sabia-se que tinha uma cara estranhamente bela e um nome com rima e aliteração, desde que pronunciado à francesa: Soli Levi.
Até onde se podia ver, o par dançava como se estivesse disputando um concurso de bom comportamento; nem de rostos colados estavam. De repente, ela avistou o marido vindo em sua direção. Estava transtornado. Sem dizer uma palavra, puxou-a pelo braço e desferiu lhe uma bofetada — a mais sonora e indevida de uma noite que iria assistir a muitas outras. Além de sonoro e indevido, o bofetão fora sobretudo inesperado.
A bela atriz e o marido, o cineasta Gustavo Dahl formavam o primeiro "casal moderno" surgido no Olimpo carioca. Por "moderno", devia-se entender a disposição para experiências existenciais que poderiam incluir casos e aventuras extraconjugais. Como todos os seguidores desta seita de vanguarda, que procurava com um comportamento novo subverter as bases do casamento burguês, a atriz e seu diretor haviam estabelecido um pacto que previa e preservava a autonomia de cada um. Os dois se davam o direito ao que a convenção chamava de infidelidade, desde que confessada, sem mentiras e segredos. A infidelidade não deveria suprimir a lealdade, mas não deveria também incluir a paixão.
Sem as noções de ciúme e de traição, valores considerados fetiches da moral burguesa, as relações amorosas ganhariam em consistência e solidez; se não ganhassem, era porque estavam baseadas em laços de convenção e preconceito, logo, não valiam a pena. Essa geração iria experimentar os limites não apenas na política, mas também no comportamento.
Daí a surpresa da agressão. "Logo eles!?" — foi o que mais ou menos todo mundo comentou.
Antes de saírem de casa, o marido tentara impor uma restrição: que ela não dançasse com aquele egípcio que, nos últimos meses, vinha operando uma devastação nos corações que frequentavam a praia na altura da rua Montenegro e à noite iam ver Godard no Paissandu. Mas essa era uma cláusula de última hora, um casuísmo posterior ao verdadeiro pacto. De mais a mais, ela acabara de surpreender o marido beijando uma moça na cozinha.
Mais tarde, já em 83, o belo alvo da talvez primeira bofetada do ano de 1968 transporia o incidente para o seu primeiro livro — Quem Não Ouve o Seu Papai, Um Dia... Balança e Cai —, uma deliciosa mistura de memória e ficção.
Naquelas jovens cabeças revolucionárias, nem sempre ao discurso libertário correspondia uma prática liberal. Tentava-se dominar a emoção como se ela fosse um animal domesticável. O resultado costumava se apresentar carregado de contradições, como as do incidente daquela noite. Mas não seria tudo isso natural? Não era próprio das revoluções, inclusive as comportamentais, a convivência numa etapa inicial do novo que se impõe com o arcaico que resiste?
O fato é que o casamento moderno da atriz com o cineasta terminou ao som daquela bofetada e nunca mais pôde ser refeito.
Ficou como um marco: foi o primeiro de uma série de 17 casamentos — modernos ou não — que se desfizeram naquela noite ou em consequência dela.
Essa não foi, como se disse, a única briga da festa. Houve um momento em que quase todos os presentes, de alguma maneira, apanharam ou bateram — e até hoje não sabem bem por quê. Sabe-se que a briga começou por causa de um desentendimento bobo entre o cineasta Afonso Beato e o jornalista Henrique Coutinho, com uma pequena e involuntária sobra para Luci Barreto, que dançava. Seu marido, Luís Carlos, estava no jardim quando lhe disseram qualquer coisa como: "Sua mulher está lá dentro apanhando". O primeiro safanão foi para o próprio informante.
"Eu entrei no salão feito um trator, batendo em todo mundo e apanhando de todo mundo", recorda Barreto. "Não sei em quem bati, nem quem me bateu".
Uma das poucas pessoas sóbrias da festa era o jovem Antônio Calmon, assistente de Glauber Rocha. Como bebia pouco e não ousava levar maconha para um lugar daqueles, pôde ser um bom observador. O que mais o impressionou foi o comportamento de uma das suas duas acompanhantes, uma líder estudantil, da AP, organização de tendência maoísta que ainda iria dar muito trabalho.
A bebida teve sobre ela um efeito liberador que atuou mais sobre a linguagem do que sobre a libido. Boa parte da festa ela passou deitada no chão, gritando sem sucesso: "Eu quero trepar! Eu quero trepar!". Essa sequência um dia Calmon ainda põe num filme: "A briga ia até a porta, voltava, atropelava a líder da AP e a oferta continuava".
Se já estivesse em voga a citação de clichês psicanalíticos, alguém certamente catalogaria a cena como o desejo da fala suplantando o do falo. Aliás, a presença do palavrão nos teatros, nos salões, nos livros foi um dos fenômenos de 68. Ziraldo chegou a usar o marketing da raridade para lançar uma peça: "É a única peça sem palavrão do teatro brasileiro", anunciou. Ao contrário da seguinte, aquela era uma geração tagarela, como se verá num capítulo desta história.
O dono da casa, por outras razões, também não bebeu: ficou o tempo todo tentando salvar o aparelho de som alugado e o seu patrimônio, sem sucesso. "A casa ficou inteiramente destruída", lamenta até hoje Luís. Ainda bem que as cerca de mil pessoas que ele calcula terem passado por lá naquela noite, quebrando móveis e danificando a reserva ecológica da casa, a árvore, não foram suficientes para liquidar todo o uísque. Sobraram umas 100 garrafas, que foram vendidas para pagar parte da reforma geral.
Às 6 da manhã, duas horas antes de a festa acabar, Luís assistiu à repetição da cena da amiga de Calmon: uma outra moça expressava idêntico desejo, deitada na grama, do lado de fora. Se não fosse o perigo de duplo sentido, podia-se dizer que ela estava reclamando de barriga cheia. A personagem era a mesma que horas antes sequestrara Solberg, entre outros.
Mais insólita do que estas cenas, só a que Marília Carneiro surpreendeu, ao abrir um grande armário, também não se sabe para quê. Dentro, um casal tentava desajeitadamente fazer alguma coisa que, só com muita dificuldade, um homem e uma mulher conseguem fazer quando escolhem um armário como cama.
Mas o grande choque — antropológico, visual e sociológico — ocorreu com a entrada da atriz Florinda Bolkan, com uma minissaia vermelha que lhe cobria apenas alguns centímetros da região que se estende ao sul da cintura. A seu lado, aquela que passaria a ser nos anos seguintes uma companhia inseparável: a condessa Cicogna. Este, sim, era um casal moderno. Pelo ineditismo, a exposição pública da heterodoxa união foi um acontecimento à parte.
Por incrível que possa parecer, houve tempo também para a dança. Ao som de Roberto Carlos, Beatles, Caetano, Chico, dançou-se muito. Quando o baile ameaçava desanimar, punha-se Miriam Makeba, um sucesso musical e político da época. Proibida de entrar no seu país, a África do Sul, Makeba iria casar-se naquele ano com um dos líderes do Poder Negro americano, Stokely Carmichael. O seu hit era Pata Pata, irresistível. Quando o baile ameaçava desanimar, bastava repetir: "Sacundunga, sacundenga, auê pata-pata".
Ao longo desses 20 anos, houve muitas hipóteses para tentar explicar aquela explosão de sexualidade, violência, prazer e ansiedade, que marcou tanto as reminiscências da época. É possível realmente que o "Réveillon da casa da Helô" tenha condensado, como uma metonímia, o país de então.
Ênio Silveira acha que aquela grande libação significou "o fim de uma época e não, infelizmente, o começo de uma nova".
"Foi um delírio coletivo", explica Calmon. "Todas as crises internas explodiram ali. Pessoas com problemas sexuais, como eu, que não conseguiam transar com isso, uniões infelizes, fantasias não realizadas, violências reprimidas, a perda na fé política, veio tudo à tona".
O som, a bebida, a euforia desorientada, uma excitação meio agônica, não deixavam, porém, que se percebesse isso. Nem isso, nem o que iria ocorrer com o país.
O nosso Titanic começava a sua viagem.
Transcrito de:
1968: o ano que não terminou. © 1988, Zuenir Ventura. Editora Planeta, 2008.
Imagens:
Terra em Transe, 1967. Glauber Rocha. Cena 'Encontro de Um Líder Com o Povo'.
Vídeo: Terra em Transe, 1967. Glauber Rocha. Cena da orgia.
Elizabeth Taylor, Helmut Berger, Marina Cicogna, Florinda Bolkan e Richard Burton. 1967.
Victor Civita anuncia o nome das vencedoras de concurso lançado pela revista Claudia, em outubro de 1965, para a escolha de manequins exclusivas para suas matérias: Mási, Bia Vasconcelos e Maria Lúcia Dahl. Thomaz Souto Corrêa, à esquerda, era diretor de redação da revista. (Dedoc Abril)




