ANOS 1960 — 1970_21: Festival de 67

1967.

Desde as 9 da manhã de 26 de julho, último dia das inscrições, a porta do Teatro Record Consolação estava tomada por uma fila de rapazes, moças, padres, freiras e tocadores de viola que serpenteava na escadaria do prediozinho, se alongando pela calçada em frente.

(...) Mais de 4 mil músicas foram recebidas para a disputa de 25 milhões de cruzeiros destinados ao primeiro colocado (10 para o segundo, 7 para o terceiro, 5 e 3 para os últimos) do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record.

Entre os compositores das 30 concorrentes anunciadas no dia 6 de setembro, estavam a dupla Dori Caymmi e Nelsinho Motta, Luís Carlos Paraná, Pixinguinha e Hermínio Bello de Carvalho, Johnny Alf, Vandré, Chico, Edu, Gil e Sérgio Ricardo, além de vários recém-chegados.

À imprensa, que abria um espaço incomparavelmente superior ao de qualquer festival anterior, coube divulgar no Dia da Independência as últimas seis concorrentes, entre elas: O Combatente (Walter Santos e Tereza Souza), A Moreninha (Tom Zé) e Alegria, Alegria.

No dia 13 de setembro, foram anunciados os intérpretes. Somados a dez compositores defendendo suas próprias músicas, Roberto Carlos, Elis Regina, Claudette Soares, Jair Rodrigues, o MPB 4, Ronnie Von, Wilson Simonal, Elza Soares, Sílvio César, Gal Costa, Márcia, Jamelão, Agnaldo Rayol, Maria Creusa e até Hebe Camargo estariam no Teatro Record Centro para as eliminatórias do III Festival.

Em 24 de setembro, foi definida a formação dos grupos de 12 concorrentes para cada eliminatória e, conforme o esperado, a cobertura foi maciça. Jamais um evento na música popular brasileira tinha sido alvo de tamanho alvoroço. Daí em diante, os principais jornais de São Paulo estampavam diariamente matérias esmiuçando fofocas, arriscando palpites e analisando cada canção.

O III Festival da Record prometia, e a largada seria no sábado, 30 de setembro.

1ª eliminatória

No dia 30, todos os ingressos para a primeira eliminatória haviam sido vendidos. Na plateia, as torcidas organizadas — pela primeira vez com líderes declarados — dominavam os 2 mil lugares do Teatro Record Centro.

No final da noite, Bom Dia de Gilberto Gil e Nana Caymmi tirou o lugar de O Combatente, de Walter Santos e Tereza Souza, entre as classificadas, e assim Nana Caymmi, muito vaiada no I FIC um ano antes, teve que suportar a primeira grande vaia nos festivais da Record. As outras três classificadas da noite foram Ponteio, Roda Viva e Maria, Carnaval e Cinzas. Houve quem quisesse tirar satisfação com os jurados, mas nada aconteceu.

2ª eliminatória

Ao som de marchinhas executadas por uma banda, o público entrou no Teatro Record Centro pouco antes das 21 horas de 6 de outubro. Mais do que na primeira noite, havia um agito diferente, e alguns grupos pareciam muito mais interessados em torcer destampadamente por certas músicas do que em ouvir as concorrentes..

As classificadas saíram após um intervalo em que também se procedeu ao sorteio da ordem de apresentação para a terceira eliminatória.

A primeira anunciada foi Domingo no Parque. A segunda foi O Cantador, recebida com aplausos imediatamente transformados em sonoras vaias para a classificação de A Estrada e o Violeiro. Quando anunciaram Samba de Maria, Jair Rodrigues, um dos mais queridos cantores da Record, teve que pagar o pato e aguentar vaias estrepitosas dirigidas ao júri. Ficou desorientado, tentou cantar em vão e, quando conseguiu, não foi ouvido.

3ª eliminatória

No dia 14, a primeira entre as quatro classificadas, sem grande surpresa, foi Ventania, defendida por Geraldo Vandré, Trio Marayá e Quarteto Novo.

Logo depois veio Gabriela, frevo cantado pelo MPB 4.

Ao ser divulgada a terceira finalista, Beto Bom de Bola, as vaias foram tantas que Sérgio Ricardo mal conseguiu cantar.

Com Alegria, Alegria, as 12 músicas da final estavam então escolhidas, as entradas esgotadas muito antes e, durante a semana que se seguiu, prognósticos, opiniões e comentários rolavam à vontade. Ponteio e Domingo no Parque eram francas favoritas.

Final

Chegou o sábado, dia 21 de outubro. Sob a marquise feericamente iluminada do Teatro Record Centro, centenas de jovens empolgados se aglomeravam para presenciar o espetáculo que seria um divisor de águas na música popular brasileira. A fauna ia de um extremo a outro, das filhinhas-de-papai, descoladas em seus penteados armados como um bolo, aos estudantes indignados, flamejando virulência e desejosos de participar da luta armada.

O júri já tinha entrado no fosso da orquestra pela portinha de acesso sob o palco quando, às 21h40, foi dada a partida para a rodada final.

A primeira canção apresentada, Bom Dia, foi intensamente vaiada, mas Nana foi firme até o fim, afinal, tinha diploma conferido pelo FIC do Maracanãzinho.

A segunda foi A Estrada e o Violeiro. Nara entrou antes do compositor Sidney Miller, vestindo calças e colete preto sobre uma blusinha branca de gola alta e mangas compridas e bufantes. Levantando as duas mãos, como quem abençoa, com seu olhar tranquilizador, conseguiu dominar a inquietação do público e se fazer ouvir. Sua voz, por pequena que fosse, exercia um poder que muitos cantores tarimbados não alcançavam. Chegou ao fim da longa canção, taxada de monótona, recebendo aplausos e até flores.

Também com flores foi recebido Caetano, que entrou no palco com a mesma roupa da eliminatória. O público já sabia a música inteira e cantou com ele, superando a barulheira que vinha do piso do balcão com a pulação da galera. Ao final, clamavam "Já ganhou!".

Apresentando uma das grandes favoritas, Gil e os Mutantes foram aplaudidos a seguir, enquanto, encostado e escondido, Rogério Duprat assistia de um canto às minúcias do seu arranjo.

O Teatro virou um baile de carnaval, com confete e serpentina, quando os integrantes do MPB 4, vestidos de smoking, atacaram o frevo Gabriela. Maria do Carmo, irmã de Chico Buarque, foi a primeira a abrir uma sombrinha colorida na plateia, seguida por dezenas de outras e por guarda-chuvas pretos, animando a festa que antecedeu a sexta canção da noite, O Cantador. Elis, de vestido branco acima dos joelhos com gola alta, recebida com gritos de "Já ganhou!" e folhetos com a letra, assegurou com sua interpretação uma provável boa colocação.

Viria então a sétima música da final.

Sorridente e confiante, Sérgio Ricardo, com um pé sobre o banquinho, aguardava que o bulício do público se extinguisse e, diante da inquietação que existia, em vez de começar, tentou dialogar com o público: "Eu quero que vocês me ouçam um instante. Aqui na plateia há gente inteligente".

Sérgio continuou: "Vocês podem vaiar. Depois deste festival a minha música vai chamar Beto Bom de Vaia". A blague surtiu um efeito desastroso. Surgiram vaias assustadoras e grande parte do público se colocou de pé. Sérgio ainda tentou: "Atenção... um minutinho". Não conseguia ser entendido, as vaias encobriam com folga o som de sua voz. 

Começa, enfim. Enquanto a música segue, Sérgio diz: "Não consigo nem ouvir o som". Desorientado, olha para os acompanhantes sem saber sequer em que ponto estavam.

Canta mais um trecho e faz uma pausa, já bastante preocupado. As vaias se intensificam. Sérgio recomeça e, finalmente, desiste. Arranca o microfone do pedestal e proclama: "Vocês ganharam! Vocês ganharam! Mas isso é o Brasil não desenvolvido. Vocês são uns animais!". Caminha para a lateral, dá mais três passos, para e, visivelmente transtornado, ergue o violão e o arrebenta contra um pedestal. Em seguida impulsiona o braço direito para trás e, numa atitude inimaginável, arremessa o violão quebrado à plateia. Os espectadores das primeiras filas erguem os braços para se protegerem e o violão cai sobre alguém na terceira fila. Blota Júnior, o mestre-de-cerimônias, ajuda Sérgio a sair pela lateral, voltando inquieto para verificar se alguém se feriu. Pergunta: "Está tudo bem aí? Aconteceu alguma coisa?". Ninguém ferido.

A noite ainda viu e ouviu Ventania, com Geraldo Vandré, Trio Marayá e Quarteto Novo; Roda Viva com Chico e o MPB 4; Maria, Carnaval e Cinzas com Roberto Carlos e Samba de Maria com Jair (vaiado mais uma vez), a última concorrente.

As cortinas foram baixadas e houve um intervalo de meia hora antes do pano se abrir para a divulgação dos premiados.

Elis Regina foi a melhor intérprete, e cantou sem ligar para as vaias. Sidney Miller ganhou o prêmio de melhor letra, cantando novamente com Nara antes do teatro se transformar mais uma vez em salão de baile, puxado pelo frevo Gabriela, a sexta colocada. Para o MPB 4, ficou claro que emplacariam duas músicas. O quinto lugar foi para Maria, Carnaval e Cinzas, com Roberto Carlos pouco à vontade sob tantas vaias, provavelmente as únicas em sua carreira. A quarta classificada foi recebida sob uma gritaria generalizada de "Primeiro! Primeiro!". Era Alegria, Alegria, que Caetano cantou sorridente ao lado dos impassíveis argentinos do herético conjunto de rock Beat Boys. Ao final, não houve jeito: Caetano teve que bisar a música, tantos eram os pedidos. Ao ser anunciada a terceira colocada, Chico Buarque entrou feliz e sorridente e também bisou sua música com o MPB 4, atendendo aos gritos de "Mais um!".

Antes de entrar mais uma vez, agora como segundo colocado, Gil foi beijado por Nana na coxia. Recebido com manifestações pró e contra, inclinou-se para o poço da orquestra, de onde um dos jurados transmitiu-lhe a resolução de atribuir a Rogério Duprat um prêmio especial, o de melhor arranjo. Rita Lee, com um coraçãozinho pintado na maçã esquerda do rosto, estava feliz ao lado dos irmãos Sérgio e Arnaldo, na derradeira apresentação de Domingo no Parque no Festival.

Edu Lobo estava nervosíssimo aguardando o resultado. Quando foi anunciado o segundo lugar, Capinan correu ao seu encontro tremendo e falou baixinho: "Ganhamos!".

Depois de dizer que quebrara o violão "inconscientemente", Sérgio Ricardo saiu para tomar café no bar Comunidade, da praça Roosevelt, onde o balconista o abraçou, dizendo: "O senhor fez o que devia. Eu queria estar lá pra fazer a mesma coisa". E o convidou para um café de graça.

À saída do teatro, já havia dois carros esperando Chico, o MPB 4 e os músicos do Som Três (César, Sabá e Toninho) para levá-los ao estúdio da RGE, na rua Paula Souza, onde gravariam o disco para ser lançado poucos dias depois. Acordaram o técnico, passaram umas duas vezes e gravaram.

Marília, Gil, Caetano, os Beat Boys e os Mutantes comemoraram na churrascaria Au Gran Chope, na rua Augusta, de um argentino amigo dos roqueiros. Marília saiu do teatro 45 minutos depois do término, muito cumprimentada. Caetano foi num Volks, Gil passou primeiro no Hotel Danúbio, antes de seguir com Nana. Também estavam na churrascaria Capinan, Toquinho, Gal, Solano Ribeiro, Guilherme Araújo e outros amigos. Quando Caetano entrou, ouviu um coro: "Por que não? Por que não?". Marília, com o marido Isaías Almada, foi recebida com o refrão "Quem me dera agora...". Os Mutantes tomavam Coca-Cola. Gil chegou com o mesmo chapéu de couro dos ensaios, foi aplaudido e abraçado. Falava muito, elogiou a música de Chico Buarque e disse que Alegria, Alegria deveria ter sido a vencedora. Às 3 da matina Marília estava morrendo de sono, e ainda tinha que participar do Jovem Guarda de domingo. Edu chegou depois que ela saiu, mas ficou pouco. Tinha ido antes à festa de casamento de uma prima, Maria Helena. Antes de amanhecer, Gil ainda cantou Domingo no Parque e outras músicas suas. Todos cantaram com ele. Ainda tiveram fôlego para passar no Jogral, lotado, para cumprimentar Carlos Paraná, autor de Maria, Carnaval e Cinzas. Foram dormir às 7 da manhã.

Transcrito (com adaptações) de:

A Era dos Festivais: uma parábola. © 2003, Zuza Homem de Mello. Editora 34.

Imagens:

Gil ensaia Domingo no Parque. Acervo Folha de São Paulo.

Chico e MPB 4 apresentam Roda Viva. Acervo Folha de São Paulo.

Edu Lobo, Marília Medalha e Capinan, vencedores com Ponteio. Acervo Folha de São Paulo.

Caetano e os Beat Boys defendem Alegria, Alegria. Acervo Folha de São Paulo.

Quase todos os concorrentes. Revista Fatos & Fotos.