ANOS 1960 — 1970_2o: Frente Ampla
Nara Leão seduziu Roberto Carlos. Ela o atraiu para a área da música popular brasileira, sem prejuízo de suas interpretações da canção iê-iê-iê, que lhe deu fama e fortuna, e da qual é o rei incontestável do Brasil. Agora, Chico Buarque de Holanda e Geraldo Vandré completam o 'serviço', aliciando o jovem ídolo. O diálogo dos três jovens compositores e cantores foi gravado para os leitores de MANCHETE.
10 de dezembro de 1966
Chico Buarque — Roberto, você pediu à Nara que escolhesse um repertório de música brasileira pra você?
Roberto Carlos — Bem, eu preciso pensar muito antes de fazer repertório nacional.
Geraldo Vandré — Porque pensar muito? Antes de mais nada, quero te dizer que considero você um excelente cantor de música popular brasileira.
Roberto — Sabe o que é? Acho que preciso ter muito cuidado, por já estar num gênero e de repente começar em outro. Não sei se teria de começar tudo de novo, ou pegar a coisa pela metade. Seria assim...
Chico — Um jogo?
Roberto — É. Um jogo.
Chico — E você não gosta de jogar?
Roberto — Gosto.
Vandré — Então, porque não entra no nosso jogo?
Roberto — Estou na dúvida.
Vandré — Não acha que o grande prestígio que tem, sua grande popularidade, colocado a serviço da música popular brasileira, traria um grande benefício para ela?
Roberto — Bem, isso já me compensaria. Se eu representasse alguma coisa...
Chico — Claro que representa. Tem alguma dúvida?
Roberto — Sou suspeito para dizer qualquer coisa.
Chico — Você não tem suspeita quanto à sua popularidade, tem?
Roberto — Não. Até aí, não.
Vandré — Então, seria só uma questão de colocar a sua popularidade a serviço da nossa canção.
Roberto — Me alegra muito ouvir isso. Principalmente partindo de você, Vandré. Mas fazer música, para mim, embora viva disso, não é um negócio. A música é a música. Ela não deve ser feita para servir a outros interesses. Ao menos a minha, eu só faço quando tenho vontade e do jeito que tenho vontade.
Vandré — Certo, não é um negócio. Mas tem dado bastante dinheiro, não?
Roberto — Não posso me queixar. Mas não componho para faturar. Se faturo, é outro problema.
Chico — De qualquer forma, deve ser bom faturar como você.
Roberto — Sei que o seu cachê até o Festival era perto dos 500 contos, não é, Chico? Sei também que vai ganhar três milhões e meio para cantar em Paranaguá. De modo que também estou na situação de perguntar: é bom faturar, Chico Buarque?
Chico — Bom, lá isso é. Essencial é que não. Ou, ao menos, não é a única coisa importante para quem faz música.
Roberto — E você, Vandré, o que diz quanto a faturar?
Vandré — Com música, recebi pouco até agora.
Roberto — Mas seu nível de vida não é dos piores.
Vandré — Tenho outra profissão. E minha vida não é das melhores, não.
Roberto — Que profissão?
Vandré — Fiscal da Sunab.
Chico — Por falar em trabalho, que tal seria trabalhar do outro lado, Roberto? Quer dizer: jogar no nosso time? Você acha que corre o risco de comprometer essa popularidade toda, mudando de time, ou melhor, mudando de gênero musical?
Roberto — Não, acho que não. Mas isso tudo é um negócio muito sério. Tenho pensado bastante. Acharia muito bacana cantar música brasileira. Inclusive, em todas as oportunidades que tenho, canto. E evito gravar versões.
Chico — Porque não grava Amélia? Seu sucesso, quando canta a música de Mário Lago e Ataulfo, é evidente. E no Festival, você conseguiu um rendimento tão grande para um tipo de canção que não é o seu, que prendeu muita gente. Inclusive a mim.
Roberto — Muito obrigado.
Vandré — Você cantou com uma segurança que poucos cantores conseguiriam. Daí a gente fica sem saber porque você duvida tanto em não partir pra isso.
Roberto — Não é duvidar, é... Estão vendo, eu não disse a vocês que não sou muito de falar?
Chico — Já disseram que você não muda porque, no iê-iê-iê, vem sendo único, e na música brasileira seria apenas mais um. Endossa isso?
Roberto — É duro responder a esses caras.
Chico — Está bem, vamos mudar de assunto. Concorda com o empate de Disparada com A Banda?
Roberto — É o primeiro empate de dois caras que jogam no mesmo time.
Vandré — E nesse time tem camisa sobrando. É só você querer.
Roberto — O empate foi bacana. Achava mesmo que essas duas músicas deveriam ganhar os dois primeiros lugares. Mas achava também que uma outra poderia ter sido classificada no Festival.
Chico — Flor Maior?
Roberto — O 'bloco'. Lá Vem o Bloco. Não sei se minha opinião vai de encontro com a de vocês. Que acham?
Chico — Minha opinião aí é um pouco... Viu, eu também disse que não sou de falar muito...
Roberto — Está fugindo da opinião?
Chico — Eu daria um melhor lugar para a música de Gilberto Gil, defendida por Elis Regina: Ensaio Geral.
Roberto — Não foi o que eu perguntei.
Chico — Também gostei muito da canção de Sérgio Bittencourt.
Roberto — Não foge, cara!
Chico — Bem... Lá Vem o Bloco é boa, mas...
Roberto — Mas não merecia classificação. É isso?
Chico — Não sei, não.
Roberto — (para o repórter): Não vale. Quando chega a minha hora de perguntar, eles fogem. Paramos por aqui. Desliga esse gravador.
Vandré — Pode perguntar.
Roberto — Mais uma para o Chico: você detesta minhas músicas?
Chico — De jeito algum.
Roberto — Gosta um pouco delas?
Chico — Quem disse que é um pouco?
Roberto — Do que é que você gosta?
Chico — Você consegue um negócio importantíssimo. Consegue se comunicar com um público que a gente não pode ignorar: as crianças. Mesmo quem está em outras correntes musicais, como o Vandré, como eu mesmo, tem que pensar muito nisso. Você encontrou um caminho para chegar ao público infantil. Por isso, eu considero sua obra importante.
Roberto — Perdão, mas você também já conseguiu isso com A Banda.
Chico — É justamente o que me deixa mais feliz por ter feito A Banda. Não a fiz deliberadamente para atingir o público infantil. Apesar de estar sempre preocupado em me comunicar com as crianças e adolescentes, só agora sinto o quanto é bom falar perto deles.
Roberto — Sua vez, Vandré. Prepare o seu coração para as coisas que eu vou perguntar.
Vandré — Manda brasa.
Roberto — A comunicação direta com o público é importante para você também?
Vandré — Se componho, é pra me comunicar.
Roberto — Suponho que seja importante a comunicação com todo tipo de gente: criança, jovem, velho, menina, moça. Hem?
Vandré — Para você ter uma ideia, digo apenas que uma das minhas maiores alegrias foi saber que Tonico e Tinoco gravaram a Disparada. Essa é a minha grande oportunidade de chegar direto ao homem do sertão. De me comunicar com o campo, de um jeito mais completo que a comunicação urbana conseguida por Jair Rodrigues.
Roberto — Quando diz que quer falar ao povo, quer que o povo compreenda a sua fala. Estou certo até aqui?
Vandré — Completamente.
Roberto — Porque não fazer letras mais simples, então?
Vandré — Minhas letras são simples. Talvez não tanto quanto a dos outros. O que eu procuro é não confundir simplicidade com simplificação.
Chico — Roberto, me ensina como é que a gente faz pra fugir dos beijos, na rua. Me diz, por favor. Eu não quero magoar ninguém, mas ser beijado toda hora é fogo!
Roberto — Eu não fujo. Só isso.
Vandré — Olha, Roberto, eu sei que você tira de sua canção o rendimento máximo, mas você não preferia fazer uma coisa mais séria? Com uma vinculação assim...
Roberto — Festiva?
Vandré — Se você pudesse escolher entre a música brasileira e o iê-iê-iê, continuaria optando pelo iê-iê-iê?
Roberto — Gosto dos dois gêneros. E, além disso, comecei cantando bossa nova.
Vandré — Quer dizer, sua opção inicial foi a música brasileira.
Roberto — Exato. Minha intenção, no início, era ser cantor de música brasileira. Depois que fiz uma experiência no iê-iê-iê, me acostumei com o gênero. Acabei achando nele alguma coisa boa, comecei a gostar. Acho, inclusive, que o iê-iê-iê melhorou muito de uns tempos pra cá.
Chico — Você faria um samba?
Roberto — Não só faria, como fiz. Até gravei samba meu. Acontece que, estando numa corrente musical, eu tenho que me dedicar a ela, fazendo dentro dela o melhor que puder. Não sei até onde consigo chegar, mas procuro fazer tudo com seriedade e convicção.
Chico — Significa que você criou um compromisso com o gênero.
Roberto — E com o público também.
Chico — E acha que o compromisso com o público vai se alterar se você mudar de gênero?
Roberto — Não, não.
Chico — Vai ver que esse compromisso é com o pessoal que o cerca. Com essa gente que canta o mesmo tipo de música que você. Seus amigos. Bem, acha que tem um compromisso com essas pessoas? Um compromisso mais pessoal do que artístico?
Roberto — Estou bastante comprometido.
Chico — Mas com quem? Com a turma, ou com o público e com o gênero?
Roberto — Comigo mesmo. Porque já me identifiquei com o público, com o gênero e com a minha turma.
Vandré — Você preferiria fazer sucesso gravando A Banda ou Quero Que Vá Tudo Para o Inferno?
Roberto — (pausa longa): Ainda bem que um disco tem dois lados...
Chico — Quando João Gilberto esteve aqui, mostrei a ele o iê-iê-iê que se fazia aqui, do qual eu não esperava nada. Quando ele ouviu, falou: ‘Conheço esse rapaz. O nome dele é Roberto Carlos. Ele é muito musical.’ A opinião de João Gilberto é importante pra você?
Roberto — Isso é ponto pacífico: acho importantíssima a opinião de João Gilberto.
Chico — Se você acredita nisso, porque não seguir pelo caminho aberto pelo João? É tão mais importante!
Roberto — Vou repetir. Comecei por esse caminho. Até dizem que eu cantava parecido com o João. De repente, encontrei um jeito mais fácil de me comunicar. E comunicar é que é importante, segundo todos nós.
Vandré — É que a música brasileira, no momento em que você surgiu, padecia de uma dose muito grande de pseudointelectualismo. Vivia distanciada do público.
Roberto — Foi o que eu quis dizer.
Chico — Mas me diga uma coisa: você vai ou não vai gravar música brasileira? Pediu ou não pediu a Nara para te ajudar a escolher o repertório?
Roberto — Pedi. Nós conversamos a respeito. Então eu falei: ‘Nara, já pensou? Eu gravar uma música do Chico?’ E ela respondeu: ‘Que é que tem isso demais? Grava!’ E eu já falei com a gravadora para lançar um disco meu, totalmente dedicado à música brasileira.
Vandré — Ótimo!
Chico — Acho que já chega, não?
Roberto — Graças a Deus.
Transcrito de:
A Frente Ampla da Jovem Guarda. Revista Manchete, 764. 10 de dezembro de 1966.
Imagem:
Vandré, Roberto e Chico. © Zigmunt Haar.

