11. O Rei da Voz

Se não possuísse aquele perfil chegado à malandragem, Francisco Alves talvez não tivesse se aproximado dos criadores do samba batucado.

Sete anos depois, com a mesma naturalidade com que explorava aquela pequena na Lapa, passaria a explorar os sambistas no Estácio. Com a mesma espontaneidade com que registrava como seu um automóvel adquirido com dinheiro alheio, registraria como suas as criações de outros.

1.

Embora tivesse sido, na verdade, 'alugado' a ele por Alcebiades Barcellos, afirmava que era de sua autoria o Vadiagem:

    A vadiagem eu deixei
    Não quero mais saber...

"Não o vendi propriamente", explicava o verdadeiro criador. "O Francisco Alves assina-o, mas me dá 50% dos lucros que aufere". Um aluguel que já havia rendido "mais de três contos de réis" para Bide.

Nascido na Conselheiro Saraiva, uma viela escura de esquina com a rua Primeiro de Março, em frente à ilha das Cobras, Chico passou a infância e a adolescência ali na zona portuária, entre estivadores, marítimos e prostitutas. Não era de estudar. Vivia de biscates: entregava jornais, engraxava sapatos, às vezes furtava alguma coisa. Sempre no limite entre a pobreza e a marginalidade, desde cedo conheceu a violência e aprendeu o valor de uma navalha.

Cantava por tostões na rua e trocou uma bicicleta, talvez roubada, por um violão, que rapidamente dominou. Dominou também a cultura dos morros — operário da Fábrica de Chapéus Mangueira, no morro do Telégrafo, ficou íntimo dos agitados Buraco Quente, Chalé e Pindura Saia.

Ia aos circos para ver e ouvir Vicente Celestino, tenor cuja voz enchia os picadeiros. Um dia, o garoto conseguiu que, num desses circos, o Pavilhão do Meyer, alguém aceitasse ouvi-lo. Foi contratado. Com o salário, tomou aulas por algum tempo com um barítono de ópera.

Aos 21 anos, em 1919, fez um teste na companhia do São José e foi também aprovado. Era agora do teatro. Em seus primeiros anos no palco, como figurante ou membro do coro, participou de dezenas de revistas. Uma delas, em 1920, arrebatou o São José: O Pé de Anjo, escrita por Carlos Bittencourt e Bernardino Vivas.

Levado pelo autor da música-título do espetáculo, ninguém menos que José Barbosa da Silva, o Sinhô, conhecido como o 'Rei do Samba', a um pequeno estúdio no Engenho Novo, para gravar O Pé de Anjo, Chico Alves dava início a uma longa e exitosa carreira discográfica.

2.

No Brasil, Francisco Alves viria a ser a voz que simbolizou a chamada "revolução da gravação elétrica".

Com os novos microfones e amplificadores, tanto para gravar quanto para reproduzir, desenvolvidos pela Western Electric e lançados em novembro de 1925 pela Victor e pela Columbia, o som dos discos ficou muito mais próximo do emitido na vida real.

Nasceu a indústria de alto-falantes, surgiram as vitrolas e abriu-se um novo mercado para a música. Era a modernidade finalmente entrando pelos ouvidos das pessoas.

Chico foi o escolhido pela Odeon para gravar o primeiro disco elétrico, em julho de 1927 — um ano e meio depois da estreia do processo nos Estados Unidos —, e não teve sossego pelos meses seguintes: 57 músicas. Em 1928, Chico gravou outras 142; e, em 1929, mais ainda: incríveis 155. Em dois anos, tornou-se o primeiro cantor brasileiro nacionalmente famoso; o primeiro a poder dizer-se rico; o primeiro a ter carros espalhados pelas garagens da cidade; o primeiro a criar cavalos para correr no Jockey.

Uniu-se à atriz Celia Zenatti, com quem passou a levar vida regular e estável num chalé em Vila Isabel, sem aventuras conhecidas. Os que só então o conheceram não viam nele o rapaz que, na juventude, se sentia tão à vontade entre os ratos de cais, os próprios e os figurados.

Os compositores o disputavam — tanto os mais populares, como Eduardo Souto, Freire Junior, Sinhô, Careca e Freitinhas, quanto os mais sérios, como Marcelo Tupinambá, Zequinha de Abreu, Joubert de Carvalho, Heckel Tavares e um certo Chico Bororó, na verdade, Francisco Mignone. Chico os gravava a todos e com grande classe, mas não abria mão dos ritmos mais ásperos, produzidos por pessoas rudes, prisioneiras de seus guetos, e que ele sabia onde encontrar — nos ambientes que já tinham sido o seu território.

Foi assim que, mesmo famoso e poderoso, continuou a embrenhar-se pelas breubas e a frequentar biroscas, gafieiras e até terreiros, no morro ou no asfalto — qualquer lugar onde pudesse ouvir algo que lhe interessasse. O fato de chegar de automóvel a esses lugares, redutos de homens perigosos, tarde da noite e sozinho — e sendo ele Francisco Alves —, não parecia preocupá-lo. Ele era um deles, e eles percebiam isso.

3.

Em certa madrugada de 1927, na gafieira Estrela d’Alva, no Rio Comprido, Chico conheceu o sambista e sapateiro Alcebiades Barcellos, Bide, cidadão do bairro do Estácio. Bide lhe mostrou seu samba A Malandragem. Chico gostou e o comprou — prática comum entre cantores e compositores, significando um ganho imediato para o compositor e uma aposta, a se pagar ou não, para o cantor. Pouco depois, numa loja de música na rua da Carioca, Chico escutou outro samba, intitulado Me Faz Carinhos, executado pelo pianista Orlando Cebola, e soube que era de um amigo de Bide, Ismael Silva, idem, do Estácio. Ao ouvir a letra, resolveu também comprá-lo.

    Mulher, tu não me faz carinhos
    Teu prazer é de me ver aborrecido
    Ora, vai, mulher, se estás contrariada
    Tu não és obrigada a viver comigo...

Procurou Bide e pediu-lhe que falasse com o colega. Bide levou a Ismael Silva a proposta de Chico Alves, de 20 mil-réis pelo samba, aceita sem piscar por Ismael, que convalescia de um tratamento de sífilis no Hospital da Gamboa. Não era um dinheiro insignificante. Com ele, podia-se fazer pelo menos quarenta refeições — nada mal para alguém cuja ocupação era o jogo de chapinha, aquele em que a bolinha de miolo de pão nunca está debaixo da tampa de garrafa apontada pelo apostador, mas presa na unha do jogador.

Esses sambas tinham em comum um andamento mais acelerado, mas com frases longas, constantes e sensuais, e uma rica variação rítmica, diferente dos solavancos típicos do maxixe. Algo de novo estava acontecendo no samba (...).

Admiro Você, escrito por Sylvio Fernandes, o Brancura, tinha um refrão que começava assim:

    Admiro você
    Chorar porque
    Alguém lhe deixou...

Rebatizado como Você Chorou, gravado por Francisco Alves e os Diabos do Céu, trazia o primeiro verso revisado:

    Me admira é você
    Chorar porque
    Alguém lhe deixou
    Quem é da orgia não sente
    Quando perde um falso amor
    E você chorou

Francisco Alves não sabia de parceria nenhuma em Admiro Você até o aparecimento, certa noite, no Café Nice, de um negro forte e aborrecido. Quem trazia o recado era Germano Augusto, chofer a seu serviço: "Ó, Chico, tem um camarada aí te procurando. Ele está com cara de zangado".

Para verificar do que se tratava, Francisco Alves chegava à calçada: "Que é que é, meu compadre?". Dava a cusparada de costume e escutava: "Você gravou uma música minha aí; ficaram de me dar um dinheiro e não me deram". Era quando o tenor do samba se fazia de desentendido: "Olha, o negócio não é comigo, não sou o autor; o autor é o Brancura, você precisa falar com ele". Uma argumentação que não era bem recebida: "Não quero falar com Brancura nenhum; meu negócio é consigo, cantor".

Depois de largar um "Espera aí", o cantor entrava no café em busca do telefone. Onde encontrar Brancura àquela hora? Na pensão de Margarida Rocha, sem dúvida. Uma amizade que estava nos jornais em 10 de julho de 1933, quando ambos sofriam processo por indução à prostituição da menor Paulina de Souza, na Benedito Hipólito, 197. Um tiro certo: na pensão de Margarida, encontrava Sylvio Fernandes: "Vem aqui que tem um crioulo brabo querendo bater em mim por causa de você".

Ao chegar ao Nice, o malandro-sambista, em vez de enfrentar o acusador, chamava o cantor para um particular: "Chico, esse crioulo é brabo mesmo, vai matar nós dois aí". Nesse momento, Francisco Alves se desesperava: "Ó, Brancura, você vai me deixar nessa enrascada? Dinheiro por causa de quê? Não dou dinheiro nenhum, não". Mas Sylvio Fernandes saberia achar o argumento definitivo: "É melhor tu dar, porque ele é meu compadre e, na hora, eu apelo para a camaradagem; ele é meu chapa, tu vai entrar, é melhor fazer o negócio".

Com cusparadas e xingamentos, Francisco Alves abria a carteira e encerrava a demanda. Sem deixar de punir o sambista trapaceiro: "Nunca mais faço negócio contigo". Nunca mais Brancura teria música gravada por Francisco Alves. Nem por mais ninguém.

Transcrito (com adaptações) de:

Metrópole à Beira-mar: O Rio Moderno dos Anos 20© 2019, Ruy Castro. São Paulo, Companhia das Letras.

Negra Semente, Fina Flor da Malandragem: Samba Batucado do Estácio de Sá© 2022, Carlos Didier. Edição do Autor.

Imagens:

Chico Alves. Wikipédia.

Acervo José Ramos Tinhorão / IMS.