14. A Revolução de 30 e a Cultura

Quem viveu nos anos 30 sabe qual foi a atmosfera de fervor que os caracterizou no plano da cultura, sem falar de outros. O movimento de outubro não foi um começo absoluto nem uma causa primeira e mecânica (...). Mas foi um eixo em torno do qual girou de certo modo a cultura brasileira, catalisando elementos dispersos para dispô-los numa configuração nova. Neste sentido 1930 foi um marco histórico, daqueles que fazem sentir vivamente que houve um 'antes' diferente de um 'depois'.

Com efeito, uma série de aspirações, inovações, pressentimentos, estavam claros no decênio de 1920, que tinha sido uma sementeira de grandes e inúmeras mudanças. Mas como fenômenos isolados, parecendo arbitrários e sem necessidade real, vistos pela maioria da opinião com desconfiança e mesmo ânimo agressivo. Depois de 1930 eles se tornaram até certo ponto 'normais', como fatos de cultura com os quais a sociedade aprende a conviver e, em muitos casos, passa a aceitar e apreciar.

Isto ocorreu em diversos setores: instrução pública, vida artística e literária, estudos históricos e sociais, meios de difusão cultural como o livro e o rádio (que teve desenvolvimento espetacular). Tudo ligado a uma correlação nova entre, de um lado, o intelectual e o artista; do outro, a sociedade e o estado — devido às novas condições econômico-sociais. E também à surpreendente tomada de consciência ideológica de intelectuais e artistas, numa radicalização que antes era quase inexistente. Os anos 30 foram de engajamento político, religioso e social no campo da cultura. Mesmo os que não se definiam explicitamente, e até os que não tinham consciência clara do fato, manifestaram na sua obra esse tipo de inserção ideológica, que dá contorno especial à fisionomia do período.

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Nas artes e na literatura foram mais flagrantes do que em qualquer outro campo cultural a 'normalização' e a 'generalização' dos fermentos renovadores, que nos anos 20 tinham assumido o caráter excepcional, restrito e contundente próprio das vanguardas, ferindo de modo cru os hábitos estabelecidos. (...)

A incorporação das inovações formais e temáticas do modernismo ocorreu em dois níveis: um nível específico, no qual elas foram adotadas, alterando essencialmente a fisionomia da obra; e um nível genérico, no qual elas estimulavam a rejeição dos velhos padrões. Graças a isto, (...) o inconformismo e o anticonvencionalismo se tornaram um direito, não uma transgressão, fato notório mesmo nos que ignoravam, repeliam ou passavam longe do modernismo. (...) Assim, a escrita de um Graciliano Ramos ou de um Dionélio Machado ('clássicas' de algum modo), embora não sofrendo a influência modernista, pôde ser aceita como 'normal' porque a sua despojada secura tinha sido também assegurada pela libertação que o modernismo efetuou. Na poesia a libertação foi mais geral e atuante, na medida em que os modos tradicionais ficaram inviáveis e praticamente todos os poetas que tinham alguma coisa a dizer entraram pelo verso livre ou a livre utilização dos metros, ajustando-os ao anti-sentimentalismo e à antiênfase. Os decênios de 1930 e 1940 assistiram à consolidação e difusão da poética modernista, e também à produção madura de alguns dos seus próceres, como por exemplo Manuel Bandeira e Mário de Andrade.

De maneira geral a repercussão do movimento revolucionário de 1930 na cultura foi positiva. Comparada com a de antes a situação nova representou grande progresso, embora tenha sido pouco, em face do que se esperaria de uma verdadeira revolução. Se pensarmos no 'povo pobre' (como diria Joaquim Manuel de Macedo), ou seja, na maioria absoluta da nação, foi quase nada. Mesmo pondo entre parênteses as modificações que poderiam ter ocorrido na estrutura econômica e social, para ele o que se impunha era a implantação real da instrução primária, com possibilidade de acesso futuro aos outros níveis; e ela continuou a atingi-lo apenas de raspão (...)

Apesar disso, depois de 1930 se esboçou uma mentalidade mais democrática a respeito da cultura, que começou a ser vista, pelo menos em tese, como direito de todos, contrastando com a visão de tipo aristocrático que sempre havia predominado no Brasil.

O novo modo de ver (...) tinha aspectos radicais que não cessariam de se reforçar até nossos dias, desvendando cada vez mais as contradições entre as formulações idealistas da cultura e a terrível realidade da sua fruição ultra restrita. Por extensão, houve maior consciência a respeito das contradições da própria sociedade, podendo-se dizer que sob este aspecto os anos 30 abrem a fase moderna nas concepções de cultura no Brasil.

Uma das consequências foi o conceito de intelectual e artista como opositor, ou seja, que o seu lugar é no lado oposto da ordem estabelecida; e que faz parte da sua natureza adotar uma posição crítica em face dos regimes autoritários e da mentalidade conservadora.

No entanto, este processo foi cheio de paradoxos, inclusive porque o intelectual e o artista foram intensamente cooptados pelos governos posteriores a 1930, devido ao grande aumento das atividades estatais e às exigências de uma crescente racionalização burocrática. (...)

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Haveria muitos outros aspectos a abordar, relativos a teatro, rádio, cinema, música, que escapam à minha competência. Lembro apenas que (...) na música popular ocorreu um processo (...) de 'generalização' e 'normalização' (...) a partir das esferas populares, rumo às camadas médias e superiores. Nos anos 30 e 40, por exemplo, o samba e a marcha, antes praticamente confinados aos morros e subúrbios do Rio, conquistaram o país e todas as classes, tornando-se um pão nosso quotidiano de consumo cultural. Enquanto nos anos 20 um mestre supremo como Sinhô era de atuação restrita, a partir de 1930 ganharam escala nacional homens como Noel Rosa, Ismael Silva, Almirante, Lamartine Babo, João da Baiana, Nássara, João de Barro e muitos outros. Eles foram o grande estímulo para o triunfo avassalador da música popular nos anos 60, inclusive de sua interpenetração com a poesia erudita, numa quebra de barreiras que é dos fatos mais importantes da nossa cultura contemporânea e começou a se definir nos anos 30, com o interesse pelas coisas brasileiras que sucedeu ao movimento revolucionário".

Transcrito (com adaptações) de:

A Revolução de 30 e a Cultura. © 1980, Antonio Candido. Artigo exposto em Porto Alegre no 'Simpósio Sobre a Revolução de 1930', organizado pela UFRGS. Reproduzido de Novos Estudos Cebrap, São Paulo, abril 1984. Todos os direitos reservados.

Imagens:

Cariocas festejam a chegada dos revolucionários de 1930. Arquivo Nacional. Wikipédia.

Página de rosto da prova tipográfica de Vidas Secas. Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin - PRCEU / USP.

Elenco do Programa Casé *. Rádio Sociedade, 1933. Acervo Tinhorão / IMS.

* Na fila de trás, da esquerda para a direita: Noel Rosa, Hélio Rosa, Cristóvão de Alencar, Luiz Barbosa, duas pessoas não identificadas e Moacyr Bueno Rocha. Na fila do meio, da esquerda para a direita: pessoa não identificada, Ademar Casé, Jorge Murad, Jonjoca, Mesquitinha, Castro Barbosa, duas pessoas não identificadas, Mauro de Oliveira, pessoa não identificada, Donga (segurando o chapéu) e Fon-Fon. Na fila da frente: quatro moças não identificadas e Zaíra de Oliveira (à direita, ao lado de Donga).