1o. Três Destinos

Três destinos

Se era verdade que em Não é Isso que Eu Procuro...,  revista de Horácio Campos e Pacheco Filho, muitos números recebiam, todas as noites, pedidos de bis, apenas um merecia a consagração do tris: aquele em que o tenor Francisco Alves e a contralto Ottilia Amorim entoavam:

    Mulher, para mim perdeste o valor
    Porque zombaste de meu sofrer
    Mas o destino Deus é quem dá
    Escuta bem, tá?
    Mais tarde hei de te ver chorar

Era o Samba de Verdade, de Sylvio Fernandes, o Brancura.

Sylvio

A folha corrida de Sylvio 'Brancura' Fernandes começa com uma detenção, em dezembro de 1922, para simples "averiguações".

Era o malandro completo. De tipo físico 'acaboclado', 1 e 80 de altura, "não queria nada com o batente", mas "andava lindo, bem vestido", pois vivia "à custa das damas".

Em 1926, o currículo ganha vulto, com um processo por estupro de menor em março e mais outro, em dezembro, por "atentar contra o pudor de pessoa de um ou de outro sexo, por meio de violência ou ameaças, com o fim de saciar paixões lascivas ou por depravação moral".

As condenações terão início pouco mais tarde. Em 1927, a justiça o enquadra, por quatro vezes, no artigo 399: "Deixar de exercitar profissão, ofício, ou qualquer mister em que se ganhe a vida; prover a subsistência por meio de ocupação proibida por lei, ou manifestamente ofensiva da moral e dos bons costumes".

Sylvio se livra do primeiro processo, passa 18 dias 'na chave' pelo segundo e mais 21 pelo terceiro. O quarto processo, no 9º Distrito, marca seu vínculo com a 'zona do agrião': Catumbi, Estácio e Mangue. Por conta desse feito, adentrava a Casa de Detenção em 26 de setembro, com direito a 121 dias de retiro espiritual.

Sylvio Fernandes, assim, rompia o ano de 1928 preso. Transferido em 25 de janeiro para a Colônia de Dois Rios, foi solto, um mês depois, por suspensão temporária da execução, para retornar ao cárcere em 25 de junho, indiciado por uso de "armas ofensivas sem licença da autoridade policial". E voltar às ruas em 10 dias.

Sua próxima detenção aconteceria somente em 20 de agosto. O que significava que permanecia livre em 20 de julho, quando o seu Samba de Verdade estreava, na revista Não é Isso que eu Procuro..., da Companhia Trólóló, no palco do Carlos Gomes, pelas vozes de Francisco Alves e Ottilia Amorim.

Ottilia

Ottilia Soares Amorim, uma flor do Catumbi, nascida em 1894, aos 17 se fazia corista da prestigiosa companhia de Leopoldo Fróes.

A fama veio em 1918, ao se integrar à trupe do São José, na praça Tiradentes.

Em junho de 1920, quando O Pé de Anjo fazia a ducentésima apresentação (chegaria a quinhentas), a revista já havia sido assistida por 251.679 espectadores. Sucesso que, atribuído à estrela maior, levaria Ottilia Amorim a trabalhar sem descanso.

À Todo PanoAngu à BaianaO Saco do AlferesA Mulata do CinemaOs TubarõesFogo na CanjicaRespeita as Caras, um conjunto de espetáculos, tipos e papéis pelos quais merecia, do semanário Palcos e Telas, o comentário:

"Figura interessantíssima de brasileira, com todos os encantos e dengues, que nos fazem tanto mal ou tanto bem (questão de ponto de vista)".

Ottilia seria a primeira estrela da melhor fase do teatro de revista carioca, os anos 20 e 30, o "vintênio de ouro", na opinião do crítico Salvyano Cavalcanti de Paiva.

Antes, ainda longe do estrelato, em 1917, no momento em que saía de casa, na rua do Catete, 41, Antonio Bastos, namorado com quem havia rompido um ano antes, pedia para trocar algumas palavras em confiança com Ottilia. Palavras cortadas pela navalha: duas vezes no pescoço, uma próxima ao queixo.

No Posto Central de Assistência, no entanto, ela declarava ignorar o nome do agressor: "Não, senhor, não sei; foi alguém que me quer mal".

Duas navalhadas ao jeito dos cáftens. Uma declaração que lembrava a afeição torta das moças por seus algozes.

As muitas fotografias, ao longo da exitosa carreira, não confirmariam a "deformação no rosto" profetizada pelos médicos da Assistência.

Mas, talvez, por essas e outras, os homens diziam de Ottilia que "possuía um tipo de beleza vivida que a tornava ainda mais atraente".

Francisco

Em 1920, Francisco Alves ganhava a vida como chofer de praça, enquanto atuava, em variados espetáculos, como ator e cantor, sempre em papéis secundários.

Entre os palcos boêmios onde exibia sua bela e potente voz, por vezes ao som do próprio violão, estava o Bar Olympia, na Joaquim Silva, esquina de Moraes e Valle, na Lapa.

Na calçada defronte, no prédio que abrigava um bordel, trabalhava Perpetua Jacy Guerra, a Cecy, de 22 anos.

"Exigindo-lhe dinheiro, dava-lhe o amante constantes surras", revelava A Razão, em 4 de julho de 1920, com base em depoimento da própria Cecy.

Havia sido dela a sugestão de casamento, ainda no início do ano. Uma proposta com a qual Francisco concordava, com duas condições: alguns contos de réis na mão e um automóvel na garagem.

No dia do matrimônio, em maio, na 2ª Pretoria Cível, na freguesia do Sacramento, Perpetua entregava ao noivo, como parte do acordo, 4 contos de réis. Menos de uma semana depois, acontecia a aquisição do automóvel de praça: "Como primeira prestação a importância de 700$ e, ainda mais, 600$ para a capota e 500$ para a compra do relógio".

Era muito, mas ele queria mais. Exigia "féria diária que ia de 150 a 300$000". Detalhes publicados, em 9 de julho, por A Razão.

Quando Cecy tentou o suicídio, juntando "duas pastilhas de cianureto de mercúrio"  à cerveja, O Paiz traçou um perfil pouco conhecido do cônjuge: "Chico Viola, apontado na zona da Lapa como rufião audaz, a despeito da sua profissão de motorista".

A Gazeta de Notícias complementou: "Chico Viola que, além de tudo, espancava-a" e que dizia na cara que não a queria mais "porque ela não tinha dinheiro".

De fato, a esposa empenhara as joias na Casa Cahen por 3 contos. Pelas exigências sempre crescentes do marido, os 16 contos que mantinha na Caixa Econômica rápido se reduziram a 8, como se podia verificar na "caderneta apensa aos autos". Um resumo do depoimento de Perpetua à justiça, transcrito por A Rua, de 12 de julho de 1920, na primeira pessoa.

Em agosto, a Gazeta de Notícias sintetizava a questão: Chico Viola não passava de "um tipo pernicioso e perverso", que vivia "às expensas de sua consorte, de quem extorquia todo o dinheiro".

Aquela seria a última aparição do caso na imprensa, mas a violência do acusado ainda se faria notícia, em 16 de setembro, no Jornal do Brasil. Quando, no largo da Lapa, Francisco quebrava a cabeça de Floriano Peixoto Coelho, colega de praça, com um pedaço de ferro, "por um motivo frívolo".

Transcrito (com adaptações) de:

Negra Semente, Fina Flor da Malandragem: Samba Batucado do Estácio de Sá© 2022, Carlos Didier. Ed. do Autor.

Imagens:

Rio de Janeiro, 1925. Acervo IMS.

Brancura (à esquerda, mais abaixo) na Casa de Detenção.

Ottilia Amorim

Francisco Alves, o Chico Viola.