12. A Turma do Estácio

1.

Eles eram todos negros ou mestiços. Alguns, muito altos e atraentes; quase todos, vaidosos e bem-vestidos — ternos de linho branco ou marrom, camisas de seda, chapéus Fedora, gravatas e sapatos no apuro, joias e relógios, ouro à vontade nos dentes. Alguns andavam armados. Seus pontos eram o Café do Compadre, na rua Santos Rodrigues, o Bar Apollo, no largo do Estácio, ou, a negócios, o Mangue, a zona de prostituição, adjacente ao Estácio. Nenhum deles sabia música — uns poucos se viravam no violão —, mas podem ter sido os inventores do surdo, da cuíca e do tamborim. Com eles, o samba deixou de ser maxixe, ganhou um novo rosto rítmico e melódico e, pela primeira vez, saiu às ruas com o nome de 'escola'. Eram os rapazes do bairro do Estácio.

Chamavam-se Ismael Silva, Nilton Bastos, Alcebiades Barcellos (Bide), o irmão deste, Rubens Barcellos (Mano Rubem), Sylvio Fernandes (Brancura), Oswaldo Vasques (Baiaco), Lino do Estácio (Heitor dos Prazeres), Edgar Marcelino dos Passos (Mano Edgar), Getúlio Marinho (Amor), Dioclécio dos Santos (Canuto), Júlio dos Santos (Julinho do Violão), Saturnino Gonçalves (Nino), Juvenal Lopes (Nanal), Aurélio Gomes, João Mina, Geraldo Vagabundo, Francelino Godinho, além de outros que se associavam a eles, tanto pela música quanto pelo estilo de vida. Todos se diziam bambas, o que significava valentes, alegres, safos — e, se preciso, perigosos.

Poucos trabalhavam. Entre estes, Bide e Mano Rubem eram sapateiros; Mano Edgar, entregador da Souza Cruz; Francelino, bombeiro hidráulico; Nanal, feirante; Heitor dos Prazeres e Amor, funcionários públicos; Aurélio Gomes, policial. Três ou quatro outros eram lustradores de móveis, profissão valorizada porque, segundo disposição municipal, só podiam trabalhar dois dias seguidos, por causa do produto tóxico. Brancura, Baiaco e Nilton Bastos se dedicavam à exploração de mulheres — cada um tinha pelo menos vinte prostitutas no Mangue, brancas e europeias. Os demais, entre os quais Ismael Silva, viviam de vadiagem, chapinha e carteado, sujeitos a temporadas na Detenção ou no presídio da Ilha Grande.

2.

Oswaldo Vasques, o Baiaco, passaria à história como autor de Arrasta a Sandália — "Arrasta a sandália aí, morena"... —, lançado por Moreira da Silva em 1932. Mas seu colega Bide afirmou que esse samba era de dois rapazes ingênuos, chegados do Norte. Baiaco os tapeara, fazendo-os cantá-lo várias vezes num café, enquanto seu amigo e vizinho Benedito Lacerda, músico completo, o escrevia por trás de um biombo. Quando ficou pronto, Baiaco apresentou o samba como se fosse dele e até deu parceria a Aurélio Gomes. Os rapazes acharam mais prudente não protestar e sumiram do Estácio. Outro valente era Brancura, cujo Deixa Essa Mulher Chorar, estreia da dupla Francisco Alves & Mario Reis, também não se coadunava com seu perfil de leão de chácara de bordéis e cáften. Só que, nesse caso, Brancura seria um valentão de bom gosto, porque sabia escolher os sambas que tomava na marra, como Coração VolúvelMulher Venenosa e Samba de Verdade (Sou da Orgia), todos gravados por Francisco Alves, sem contar que nunca se descobriu de quem ele os teria tomado. Na verdade, era injusto acusar apenas Baiaco e Brancura de valentia, porque poucos no Estácio tinham um perfil condizente com a sofisticação dos sambas que faziam, musicalmente redondos e delicados, sem as arestas do maxixe.

O fato é que, mesmo sem ter o perfil, eles faziam aqueles sambas.

3.

Foi em busca desse pessoal que, em certa noite de meados de 1930, Chico Alves estacionou seu Chevrolet cor de azeitona diante do Café do Compadre. Desceu do carro e, da porta do botequim, em voz alta, chamou Ismael Silva, sentado lá dentro, para um papo na esquina. Se havia outras pessoas no recinto, deve ter sido interessante o que pensaram ao ver quem estava chamando Ismael para conversar lá fora.

Mesmo Chico tendo gravado Me Faz Carinhos, os dois nunca tinham se falado. Ismael saiu e, de pé, encostados a um poste e, depois, dentro do carro do cantor, fechou-se o negócio mais decisivo da história da música popular brasileira.

Francisco Alves propôs a Ismael comprar os sambas que já tivesse prontos e os que viesse a fazer, desde que lhe fossem mostrados em primeira mão e aprovados. Ele os gravaria e dividiriam o dinheiro da venda dos discos. Os sambas seriam editados, e ele, Chico, constaria deles como autor ou coautor, dependendo do caso. Ismael aceitou, mas disse que tinha um parceiro, Nilton Bastos, que precisaria entrar no acordo. Chico não viu inconveniente nisso. Em poucos meses, sob a autoria de Francisco Alves e Ismael Silva, com ou sem Nilton Bastos, veio à luz um extraordinário conjunto de sambas — Nem É Bom FalarSe Você JurarArrependidoO Que Será de MimRi Pra Não ChorarLiberdadeSofrer É da VidaAmarSonhei e vários outros —, só interrompido pela morte de Nilton Bastos, em setembro do ano seguinte.

É impossível minimizar a importância dessa produção. Ela aposentou o maxixe, estabeleceu o primado do samba sobre os demais ritmos brasileiros e influenciou toda uma geração de compositores, negros e brancos, do morro e do asfalto, que se preparava para entrar em cena: o mesmo Benedito Lacerda, Cartola, Ataulpho Alves, Assis Valente, Wilson Baptista, Geraldo Pereira, Zé da Zilda, Gadé, Walfrido Silva, J. Cascata, Roberto Martins, Synval Silva, Antonio Almeida, Arlindo Marques Junior, Pedro Caetano, Vadico — todos fariam samba à moda do Estácio. Sem falar no compositor que, famoso por outro bairro, representaria melhor do que todos o espírito do Estácio: Noel Rosa. Talvez nada disso fosse possível se aquele Chevrolet não tivesse parado à porta do Café do Compadre.

4.

Chico Alves estava habituado a ser olhado pelos fãs nas ruas, mas eles eram tímidos demais para lhe dirigir a palavra. O jovem Noel Rosa era um desses fãs — só não era tímido. Um dia, em 1927, aos dezessete anos e ainda de uniforme do Colégio São Bento, encontrou-o numa loja de música e se apresentou: "Meu nome é Noel Rosa e estudo no São Bento. Queria conhecê-lo". Noel tinha um defeito na face — um lado do queixo afundado pela ação do fórceps em seu parto. Chico respondeu-lhe simpaticamente. Em 1930, no estúdio da Odeon, foi Chico quem reconheceu o jovem sem queixo, quando Noel gravava o samba que seria o seu cartão de visitas: Com Que Roupa:

    Agora vou mudar minha conduta
    Eu vou pra luta, pois eu quero me aprumar
    Vou tratar você com a força bruta
    Pra poder me reabilitar...

No fim do ano, num encontro casual de mesa de café, com Chico e Ismael, nasceu o samba Para Me Livrar do Mal — Noel fazendo ali mesmo, a lápis, a segunda parte para o estribilho de Ismael. Chico e Ismael o convidaram a assumir a vaga de Nilton Bastos na parceria. Noel aceitou, concordando até com a tripla assinatura. Mas com uma condição: os sambas que fizesse sozinho seriam só dele. Foi o pulo do gato que faltou a Ismael.

A associação entre Chico Alves, Ismael Silva e Noel Rosa produziria sambas como AdeusAndo CismadoAssim, Sim!, Gosto, Mas Não É MuitoUma Jura Que FizA Razão Dá-se a Quem TemVejo Amanhecer e Não Tem Tradução — nem todos com o nome de Chico no selo do disco. Mas a integração entre eles era tal que, na gravação de Vejo Amanhecer, por Noel, na Columbia, em 1933, pode-se distinguir facilmente a voz de Chico Alves no anônimo coro de acompanhamento.

5.

Grande parte da produção de Ismael com Nilton ou com Noel aconteceu durante a vigência da dupla Francisco Alves & Mario Reis. Das 24 gravações de Chico e Mario em dois anos de existência, doze foram de sambas de Ismael com um deles. Esse número pode subir para dezoito, se se incluírem as gravações dos sambas de outros bambas do Estácio, agenciados por Ismael. E a convivência de Chico e Mario com tais bambas não se limitava às horas no estúdio, em que o compositor era sempre convidado a acompanhar a gravação. Por algum tempo, Chico fez de Baiaco seu 'secretário assistente', leia-se faz-tudo. E Mario conviveu socialmente, se é que isso era possível, com Brancura. Não apenas ele, como os Silveira — os Silveirinha —, da Bangu, eram escoltados por Brancura nos seus mergulhos no bas-fond, território que sempre atraiu os grã-finos. Até que, em 1933, Mario Reis recebeu uma proposta irresistível da Victor e transferiu-se para a gravadora da rua do Mercado. Chico continuou na Odeon. Foi o fim da dupla.

E, sem que se percebesse, já era também o começo do fim da turma do Estácio. Nilton Bastos morrera tuberculoso, em 1931, aos 32 anos — Chico pagou seu tratamento e enterro. Mano Edgar foi assassinado três meses depois, no meio da rua, por dívida de jogo, aos 31. Brancura morreria louco, de sífilis, em 1935, com 27. Os outros continuavam a ser presos por vadiagem, e Chico e Mario tinham de interceder para libertá-los. E, em 1935, o próprio Ismael sacaria sua arma e atiraria num homem que, segundo ele, ofendera sua irmã. O homem não morreu, mas Ismael pegaria três anos na Detenção. Quando ele saiu, Francisco Alves já estava associado a outros compositores e Noel Rosa, morto. Ismael também experimentaria uma longa morte em vida — só voltaria à evidência vinte anos depois.

Transcrito (com adaptações) de:

Metrópole à Beira-mar: O Rio Moderno dos Anos 20© 2019, Ruy Castro. São Paulo, Companhia das Letras.

Imagens:

Paulo da Portela, Heitor dos Prazeres, Gilberto Alves, Bide e Marçal.

Heitor dos Prazeres. Mulata. 1959.