13. O Fim dos Anos 20

Em fins de 1928, o carioca olhou para o alto na avenida Rio Branco e viu as luzes que passavam em velocidade, formando letras, na fachada de um edifício. Era a estreia de O Jornal Luminoso, uma versão elétrica de O Jornal, de Assis Chateaubriand, com manchetes e notícias curtas, "escritas no ar", contra o fundo da grande noite. Chateaubriand trouxera essa ideia da Europa. A Noite reagiu com uma novidade: a seção Carioca-Repórter. Pedia que os leitores, por telefone, por carta ou em pessoa, mandassem notícias para o jornal, sobre acidentes de rua, transgressões, crimes. O Rio acabara de ganhar também duas fábricas de papel, com o que novas publicações não paravam de surgir. As principais eram os jornais Diário de Notícias, de Orlando Dantas, e Diário Carioca, de José Eduardo de Macedo Soares, ambos de oposição declarada ao governo federal, e Crítica, de Mario Rodrigues, sujeito aos humores do chefe e a propostas generosas. E, entre muitas novas revistas 'de sábado', como se dizia, destacou-se a caprichada Cruzeiro, de Carlos Malheiro Dias — 66 páginas em sépia e cores, 50 mil exemplares de tiragem, correspondentes em seis capitais europeias —, logo comprada por Assis Chateaubriand e rebatizada como O Cruzeiro. No dia de seu lançamento, 5 de dezembro, 4 milhões de folhetos foram jogados das coberturas dos prédios da avenida, anunciando a chegada da revista "contemporânea dos arranha-céus". Traziam, de um lado, a capa da revista — o rosto de uma moça maquiada com as estrelas do Cruzeiro do Sul, que haviam inspirado o seu título. No verso, uma lista com os nomes dos anunciantes. Era um fim de década cheio de agitação e urgência, registrado pelas novíssimas câmeras Leica, que vinham substituir as velhas Speedgraphics, de metal ou madeira, com seus flashes de magnésio. Tudo parecia estar acontecendo ao mesmo tempo.
O presidente Washington Luiz, fiel ao seu lema 'Governar é abrir estradas', inaugurou a Rio-Petrópolis, a primeira rodovia asfaltada do país. A escolha fazia sentido. Petrópolis ainda era o refúgio de verão dos políticos, empresários e grã-finos — de dezembro a março, o poder, os negócios e a alta sociedade subiam a serra e de lá tocavam a nação. Em Copacabana, a praia ganhou os postos de observação, feitos de concreto armado e em estilo art déco, no lugar das gaiolas no alto dos postes, às quais o salva-vidas subia por uma escada de madeira com o binóculo pendurado ao pescoço. E, na rua do Passeio, ao lado da Cinelândia, Francisco Serrador inaugurou o edifício Alhambra, um centro comercial com fachada Bauhaus sobre o cinema do mesmo nome, com os primeiros tapis roulants (escadas rolantes) do Brasil e elevadores comportando 24 pessoas.
O Café Nice, na Avenida, era o novo ponto dos sambistas, cantores e boêmios cariocas. O Posto 3 de Copacabana ganhou o Pavilhão do Lido, onde se podia jantar, dançar ao som da Orquestra Colman e namorar das oito da noite às onze da manhã — o pavilhão marcaria de tal maneira a época que a região ficaria conhecida como o Lido. O baile de terça de Carnaval do Copacabana Palace tornou-se o mais agitado da cidade, com 3 mil foliões, divididos por setecentas mesas, em sete salões. E o Teatro Phoenix promoveu os primeiros 'bailes para homens', em que as mulheres tinham de pagar para entrar. Os novos costumes se impunham.
A Compagnie Générale Aéropostale trouxe o correio aéreo para o Brasil, estendendo a linha Toulouse-Dakar até o Rio. Seu lendário piloto Jean Mermoz partia corações femininos ao circular pela cidade — o outro piloto da Aéropostale, Antoine de Saint-Éxupéry, não era tão cotado. Quase em seguida, a NYRBA, empresa aérea americana criadora da linha Nova York-Rio-Buenos Aires, também pousou aqui pela primeira vez, iniciando os voos com passageiros. Pouco depois de criada, ela foi incorporada pela Pan American e tornou-se a Panair do Brasil, de capital americano e brasileiro. Todos esses aviões pousavam no Campo dos Afonsos, em Realengo, na Zona Oeste. Mas nada superaria a chegada ao Rio do dirigível alemão Graf Zeppelin, com seu esqueleto de alumínio, pele de lona de algodão, pintada de prata, e pulmões com sessenta balões de gás hidrogênio, trazendo dezenove passageiros. Foi o primeiro de seus muitos pousos no Campo dos Afonsos, antes que sua proprietária, a Luftschiffbau-Zeppelin, construísse em Santa Cruz, também na Zona Oeste, o hangar de 274 metros de comprimento por 58 de altura e outros tantos de largura. A baía de Guanabara, que havia séculos deslumbrava os viajantes, podia finalmente ser vista do céu.
Uma palestra da antropóloga Heloisa Alberto Torres, na Escola Nacional de Belas Artes, institucionalizou a arte marajoara como uma importante contribuição nativa do Brasil. A poeta Anna Amelia Carneiro de Mendonça e o ator Paschoal Carlos Magno instalaram a primeira feira de livros, na calçada da avenida Rio Branco, entre Sete de Setembro e Ouvidor. Dois mil livros foram vendidos em poucos dias, com o dinheiro destinado à criação da Casa do Estudante do Brasil, outra ideia de Anna Amelia e Paschoal. E, com Yayá — para o povo, Ai, Ioiô —, de Henrique Vogeler e Luiz Peixoto, Aracy Cortes lançou um novo ritmo da música popular brasileira: o samba-canção.
Em 1929, Olga Bergamini, Miss Botafogo, Miss Distrito Federal e Miss Brasil, sob o patrocínio de A Noite, foi o Brasil de maiô no concurso de Miss Universo, em Galveston, no Texas. Não ganhou, mas a embaixada brasileira não quis saber: desfilou-a em carro aberto e com batedores pela Quinta Avenida, em Nova York, levou-a a Hollywood e fez com que o presidente Herbert Hoover a recebesse na Casa Branca. No dia seguinte, Olga tomou o navio em Nova York, de volta para o Rio, e foi recebida na praça Mauá como uma campeã. Para o povo, ela fora injustiçada no concurso. Geraldo Rocha viu ali uma oportunidade e anunciou que A Noite partiria para realizar, em 1930, o seu próprio Miss Universo. E, no ano seguinte, assim se fez. Yolanda Pereira, Miss Pelotas, Miss Rio Grande do Sul e Miss Brasil, tinha tudo para ganhar. Mas a vencedora foi Miss Grécia, Zara Pópulos. Yolanda ficou em segundo lugar e Miss Portugal, em terceiro. Mas, então, com as vencedoras já coroadas, deu-se o escândalo: a mãe da Miss França acusou a grega de viver maritalmente com o barão Rotschild, em Paris, e ter com ele um filho de quatro meses. E não só isso: teria disputado o concurso apenas para promover sua participação na nova revista musical de Sacha Guitry, Histoires de Paris. Eram denúncias graves — o regulamento exigia que as candidatas fossem virgens, solteiras e amadoras. E que miss era aquela que, além de mãe, deixava para trás um bebê de quatro meses para vir saracotear na pérgula do Copacabana Palace? A coroa lhe foi tomada e, sob delírio popular, transferida para a cabeça de Yolanda. Finalmente tínhamos uma Miss Universo. Era setembro de 1930.
A Noite poderia ter continuado a produzir seus concursos de misses por muitos anos. Mas, pouco mais de um mês depois da vitória da gaúcha Yolanda, outras forças, também vindas do Sul, obrigariam a uma mudança de planos.
Na verdade, o país inteiro seria obrigado a uma mudança de planos.
Transcrito (com adaptações) de:
Metrópole à Beira-mar: O Rio Moderno dos Anos 20. © 2019, Ruy Castro. São Paulo, Companhia das Letras.
Imagens:
Dirigível alemão Graf Zeppelin sobrevoa a baía de Guanabara.
Hangar da Luftschiffbau-Zeppelin, construído em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio de Janeiro.
