o9. Anos 20

Em 1920, o mundo já tinha o cinema, o fonógrafo, a eletricidade, o automóvel, o avião, a teoria da relatividade, a aspirina, a cocaína, a psicanálise, o raio X, o arranha-céu, o futebol, o batom, a gilete, a Revolução Russa, o fascismo, o feminismo, o dodecafonismo, o cubismo, o futurismo, o dadaísmo, o expressionismo e dezenas de outros ismos, gerando inclusive certo je-m’en-fichismo — não estar nem aí — diante de tantas novidades. Atitude essa que não passava de teatro, porque era impossível ficar indiferente ao que as grandes cidades, de súbito, tinham de moderno a oferecer.

O Rio era uma delas. Naquele ano, as cidades mais populosas da Terra eram Londres, com 4.684.000 habitantes, Nova York, com 4.024.000, Paris, com 2.750.000, Tóquio, com 2.433.000, e Berlim, com 2.006.000. Seguiam-se Chicago, Viena, Osaka, Filadélfia e São Petersburgo, todas na casa do milhão — e o Rio, com seus respeitáveis 1.147.000 habitantes. Era a única cidade brasileira com mais de 1 milhão de habitantes — São Paulo, a segunda maior, tinha 579 mil. Caso se fosse medir pelo tamanho em área, o Rio, com 1.255 quilômetros quadrados de superfície, tinha uma vez e meia o tamanho de Nova York, era mais de dez vezes maior que Paris e não muito menor que a tentacular Londres, com seus 1.570 quilômetros quadrados.

Era também uma cidade injetada de história, habituada a hospedar o poder — e, não raro, ter de aturá-lo. Como cidade colonial portuguesa, aquartelou, a partir de 1575, 41 capitães-governadores. Em 1763, elevada à capital do recém-criado Vice-Reino do Brasil, albergou sete vice-reis. Em 1808, com a chegada da Família Real, e, em 1815, com a coroação do rei d. João VI, tornou-se capital do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves — único caso de cidade a sediar o Império de que fora colônia. A partir da Independência, em 1822, foi capital do Império sob os dois Pedros. E, proclamada a República, em 1889, converteu-se na Capital Federal, onde dormiam, fornicavam e davam expediente os presidentes — onze, até então. Nenhum governante, em qualquer desses regimes, teve direito irrestrito ao beija-mão. Ao contrário, o carioca sempre os viu como ocupantes, a serem diminuídos por apelidos ou caricaturas.

A história nunca deu sossego à cidade. Na Colônia, o Rio foi palco de três invasões, em 1555, 1710 e 1711 — todas francesas, as duas primeiras com sangrentos combates —, e, na República, de quatro revoltas: a da Fortaleza de São João, em 1892; a da Armada, em 1893-4, em que a cidade foi bombardeada; a da Vacina, em 1904, com enorme depredação de bondes, lampiões e linhas telefônicas; e a da Chibata, em 1910, com igual possibilidade de bombardeio. Em todas elas, o povo carioca se vira em meio à conflagração. E, em 1922, assistiria à chacina dos chamados Dezoito do Forte pelas tropas federais na praia de Copacabana, também com canhonaços de parte a parte. Em muitas cidades, tudo isso provocaria cicatrizes irremediáveis. Por sorte, o Rio já tinha, desde 1835, o Carnaval.

Era a cidade que todos os brasileiros sonhavam conhecer. Os que a visitavam e, semanas depois, voltavam para os seus burgos, contavam emocionados como tinham viajado de bonde ao lado de Olavo Bilac, escutado Ernesto Nazareth ao teclado de um Bechstein de cauda na Galeria Cruzeiro e visto Ruy Barbosa sair do Cinema Ideal com um exemplar da revista Tico-Tico debaixo do braço — os ilustres, no Rio, sempre à mão dos transeuntes. O Ideal, aliás, era um cinema com teto móvel — no verão, podiam-se ver os filmes à luz das estrelas. E não seria surpresa se, ao visitar o famoso bordel da Elvira, na rua do Riachuelo, na Lapa, o visitante esbarrasse em suas instalações, e na mesma noite, com o poeta Manuel Bandeira, o compositor Villa-Lobos, o boêmio Jayme Ovalle, o caricaturista Di Cavalcanti e o aclamado trovador Catullo da Paixão Cearense, clientes queridos da cafetina.

Outros visitantes, igualmente empolgados, gabavam-se de ter conhecido as lojas da rua do Ouvidor, as confeitarias da rua Gonçalves Dias (com espelhos do chão ao teto) e o footing de fim de tarde na Avenida. Falavam da subida à Vista Chinesa, dos passeios às ilhas da baía — Paquetá, Fiscal e das Cobras —, das regatas em Botafogo e dos quilômetros de praias oceânicas, embora nestas eles não se aventurassem a molhar os pés. No Rio, usavam-se palavras que eles não conheciam — 'fonfonar', 'smartismo', 'brouhaha'. E como resistir a uma cidade cujos jornais às vezes anunciavam: "Esta noite, feérico luar no Leme"?

Ao mesmo tempo, o Rio não escondia seus contrastes. No começo, tinham sido a casa-grande e a senzala; depois, as chácaras e os cortiços; mais recentemente, os bangalôs e as vilas; e, agora, na aurora do século XX, preparava-se para a transformação final: a chegada dos arranha-céus e das favelas. Era a cidade dos palácios particulares, que a República comprara ou tomara à força para se instalar — Catete, Itamaraty, Monroe, Guanabara —, e a das repartições rangentes e empoeiradas do velho Centro, onde funcionava a burocracia. Era também a cidade dos morros com casas de luxo, móveis franceses e recepções enluvadas — Glória, Santa Teresa, São Bento. E a dos morros com barracos de madeira, telhados de zinco e navalhas afiadas, que já despontavam no horizonte: Favela, Salgueiro, São Carlos. Em 1920, ainda não havia exatamente uma Zona Norte e uma Zona Sul. Havia o Rio.

Transcrito (com adaptações) de:

Metrópole à Beira-mar: o Rio Moderno dos Anos 20© 2019, Ruy Castro. São Paulo, Companhia das Letras. Edição do Kindle.

Imagens:

Enseada de Botafogo, entre 1909 e 1920. USA Library of Congress. Wikipédia.

J. Carlos, 1923. Acervo IMS.

Escadaria no Morro de São Carlos. Augusto Malta, 1933.