ANOS 1960 — 1970_11: Elis Regina
9 de agosto de 1967
Comecei cantando em programas infantis com 11 anos de idade na minha cidade, em Porto Alegre.
Nem sei como comecei a cantar. Não havia condições. Sempre fui muito tímida. Quando eu vi, estava cantando. Não tinha ideia de ser cantora. Sempre gostei muito de música, sempre tive um ouvido terrível, ouço uma música duas vezes e já tenho ela guardada. As coisas naturalmente foram me impelindo para a música: o ouvido, em casa o pessoal gostava muito, comecei a estudar piano aos 10 anos e estudei até 12 anos. Aí a professora aconselhou minha mãe que me levasse para o conservatório; eu tinha conseguido fazer em um ano e meio o que ela dava normalmente em três anos. Mamãe disse que não tinha condições de me mandar para o conservatório, nem de comprar o piano. A professora ofereceu o piano em sua casa, mas era difícil, eu precisava fazer o ginásio, cantava em programas infantis, as coisas foram ficando difíceis. Era um drama, eu tinha de estudar e tirar notas excepcionais para poder cantar, entende? Eu tinha de estudar mesmo pra valer, senão mamãe não me deixava cantar, e eu já estava começando a gostar. Com a frustração de ter de deixar o piano, me dediquei muito mais a cantar. Foi quando comecei a levar a sério o negócio de cantar.
Não sei como fui parar na rádio, não lembro. Lembro-me vagamente de uma história assim: minha avó fazia aniversário em outubro e me disse que o maior presente de aniversário que eu podia dar a ela era cantar no programa O Clube do Guri. Era um programa de rádio importantíssimo que havia aos domingos, tão famoso quanto o Clube do Papai Noel em São Paulo. Os maiores artistas do Rio Grande do Sul saíram desse programa: Manfredo Fest, Breno Sauer, locutores, músicos, cantores. Todos eram ídolos juvenis no estado inteiro, alguns tinham até mais frente com o público que artista profissional. Mas eu, sendo supertímida, não via jeito de cantar no programa. A velha fazia aniversário no dia 20, e no dia 16 eu estreei. Era um domingo. No dia que cantei tive uma hemorragia nasal que você não pode imaginar. Quando acabei, meu vestido ficou todo vermelho de sangue.
Durante um ano, toda vez que cantava, era aquela sangueira. Já entrava no palco com lenço, e saía assim... o pessoal ria. Fiz tratamento, o médico dizia que eu não tinha nada, era só nervoso.
Seis meses antes de fazer 14 anos, assinei meu primeiro contrato de profissional para fazer programas de rádio porque em Porto Alegre não havia televisão. Quando ela veio, fiz rádio e televisão. Nos sábados e domingos, quando eu não tinha aula e dispunha de mais tempo, era crooner de orquestra em baile e depois, do conjunto Flamboyant.
Trabalhava geralmente cinco horas e minha mãe ficava meio apavorada porque eu cantava as cinco horas sem parar. Eu gostava muito de cantar. Mais do que gosto agora. Aí comecei como crooner em uma boate de um clube fechado de Porto Alegre. Eles faziam jantares dançantes duas vezes por semana e o conjunto era do Manfredo Fest.
Aos 16 fui convidada pela Continental para gravar um disco em São Paulo, no ano seguinte fiz outra gravação e depois fui para a CBS, onde fiz dois discos num ano. Com 18 anos vim para o Rio. Cheguei no dia 28 de março de 1964. Lembro porque dia 1º de abril houve a Revolução. Mais ou menos em maio rompi com a CBS — aliás, o rompimento não foi dos mais amistosos — e eu fui para a Philips.
Vim para o Rio por conta própria, movida por uma desilusão sentimental. Como artista, dou graças a Deus que isso tenha acontecido. Eu era noiva, rompi com meu noivo e fiquei chateada como qualquer menina de 18 anos que namora desde os 14 com o mesmo rapaz, parece que o mundo vai desabar. Aí eu vim, pedi ao papai, houve muita luta entre papai e mamãe, como no início de minha carreira. Mamãe queria que eu estudasse. Papai achava que eu devia vir. Mamãe sempre achou que o maior obstáculo para que eu cantasse era deixar de estudar. O sonho da vida de minha mãe era me ver formada em filosofia, como eu queria me formar. Mas depois vi que não adiantava filosofar muito. O negócio era musicar.
Vim para o Rio com 150 contos no bolso, sozinha, sem convite de ninguém. No dia em que cheguei avisei minha gravadora CBS que estava lá caso eles precisassem de alguma coisa. No dia seguinte eles me procuraram. Carlos Lyra estava preparando a gravação de um disco que aliás é muito importante na música brasileira, e teria sido ainda mais se tivesse usado valores profissionais na gravação. Infelizmente, com exceção de Carlos e do maestro arranjador Radamés Gnattali, o disco foi feito por amadores, como quase tudo que se faz no Brasil em termos de música. O disco era das músicas da peça Pobre Menina Rica.
Eu ia gravar esse disco. Eu era muito tímida, muito inibida, muito insegura, muito traumatizada, muito cheia de problemas como pessoa, como sou até hoje. Tinha saído da minha cidade, onde o ambiente era totalmente favorável, para conhecer no dia imediato de minha chegada o Lyra, Vinicius e Tom. Não houve sequer uma ambientação e eu fiquei como um caramujo, fiquei encolhida dentro da casca e não conseguia cantar. A voz saía deste tamanhinho. Não consegui convencer as pessoas que realmente cantasse alguma coisa. Por isso o Tom não quis me aceitar, achou que não ia dar certo. O Lyra, que eu conhecia há dois dias, insistiu muito, mas o Tom disse que não, que não ia botar seu nome num disco de um grupo de pessoas que ele não reconhecia de gabarito. Aí o arranjador ficou sendo o Radamés Gnattali, o negócio foi enrolando, enrolando e eu acabei não gravando o disco. Essa foi minha primeira grande decepção na vida artística.
Quase dois meses depois é que comecei a trabalhar, fazendo programas na TV Rio. Meu contrato era de 200 contos, e eu tinha de fazer cinco apresentações. Fazia qualquer negócio como qualquer principiante que se preza. Nessa época o baterista Dom Um Romão me convidou para fazer um show com o conjunto dele na boate Bottle's. Fiz o show e na boate ao lado estava se apresentando o Simonal com o Bossa Três e Marly Tavares, num show produzido por Luiz Carlos Miele e Ronaldo Bôscoli. O pessoal do Bossa Três me assistiu e convenceram Miele e Bôscoli para que eu fizesse um show com eles, Marly Tavares e o Gaguinho no Little Club.
Nessa época comecei a ser chamada por São Paulo.
Eu era quem sustentava minha família, ganhava muito pouco e precisava ganhar mais dinheiro. Como São Paulo me pagava por apresentação tanto quanto eu ganhava em um mês no Rio, comecei a faltar ao serviço na boate, e fui avisando; eu não posso ficar, não posso ficar, não posso, não venho. As pessoas não entendem muito bem essas coisas, porque eu estava tratando dos meus interesses, mas eles estavam tratando dos deles. Aí ficou aquela confusão, aquele mal-estar e eu acabei saindo do show da boate Little Club e comecei a me apresentar nos shows de Bossa Nova em São Paulo, com o Copa Trio, que era do Dom Um.
Depois, em abril de 1965, fui convidada para o I Festival de Música. Edu me indicou para cantar a música dele, eu cantei. Ganhei o Festival e o programa O Fino da Bossa. Daí pra frente todo mundo já conhece.
Transcrito de:
Eis Aqui os Bossa-Nova. © 2008, Zuza Homem de Mello. Editora WMF Martins Fontes.
Imagens:
Elis. Ensaio para fotos da capa do compacto Menino das Laranjas / Sou Sem Paz. 1964. Coleção Sérgio Cabral. Acervo MIS.
Elis. idem.
Elis. 1965. Wikipédia.



