ANOS 1960 — 1970_o9: O Período Imperial (2)
Rio de Janeiro, 1958
Edson Bastos, que tocava com os Dry Boys e com Os Terríveis nos shows do Clube do Rock, além de cantar e tocar violão era também ótimo baixista e conhecedor de teoria musical. Carlos Imperial viu no jovem integrante do elenco de seu programa de TV a pessoa certa para uma parceria da qual surgiriam belas canções tipo bossa nova.
— Major, passa lá no meu apartamento. Eu tenho uns discos do Beethoven, do Debussy e do Chopin. A gente ouve e vai tirando um pouco de cada, depois é só juntar tudo que sai uma música.
Edson compareceu ao edifício onde Carlos morava com os pais em Copacabana.
O amigo Paulo Silvino, presença constante entre os cantores do Clube do Rock e que, no futuro, seria um dos humoristas mais populares do Brasil, juntou-se à dupla de novos bossas novas para o laboratório de composição.
Depois de algumas horas de trabalho do trio, saiu um primeiro resultado do jeito que Imperial planejava. Porém, embora tivesse as características do estilo da moda, tratava-se, sem disfarce, de uma sátira.
A letra fazia troça com versos de canções de Tom Jobim em parceria com Newton Mendonça e Vinícius de Moraes, os responsáveis pelos maiores sucessos do gênero. Além de implicar com a maneira sussurrante como João Gilberto as cantava, o deboche já era percebido no título, Fora do Tom, prosseguindo assim até o verso final:
Imperial voltou à boate Plaza e comunicou a Roberto Carlos que chegara a hora de gravar um disco. O primeiro passo para isso acontecer foi procurar Abelardo Barbosa, com quem trabalhara na Tupi. Além da TV, o apresentador agora ia ao ar de segunda à sábado na rádio Mauá com o seu Cassino do Chacrinha. Levando Roberto e seu violão, Imperial foi à emissora mostrar as qualidades do rapaz ao amigo. O menino cantou duas canções do mentor: Fora do Tom e João e Maria, esta, a conhecida história dos irmãos Grimm segundo Carlos Imperial:
Chacrinha gostou do cantor e das músicas de Imperial. Cavou um encontro com o diretor do selo Chantecler. Mas este ouviu e não se interessou. Carlos percebeu que ainda teria muito trabalho pela frente até ver o nome Roberto Carlos estampado no selo de um disco. Pediu ao Chacrinha uma carta de recomendações e começou a peregrinar pelas gravadoras da cidade. Mas em todas o que ouvia era um não, acompanhado de "esse rapaz imita o João Gilberto".
Ajuda providencial acabou vindo de Francisco Manoel, irmão mais velho de Carlos.
Chico era locutor da Rádio Continental e recebia visitas de divulgadores de várias gravadoras. Um deles trabalhava na Polydor e, com sua ajuda, Francisco conseguiu que o diretor artístico do selo, Joel de Almeida (da dupla Joel & Gaúcho), agendasse uma reunião com Imperial e Roberto. Imperial, por segurança, levou também a carta dada por Chacrinha. Roberto cantou as músicas de costume para o executivo. Ao final, Joel disse que iria contratá-lo, mas diferentemente das outras gravadoras, queria que ele cantasse ainda mais parecido com João Gilberto.
O futuro Rei da Juventude entrou pela primeira vez em um estúdio de gravação tendo o acompanhamento dos músicos contratados da gravadora: Sut na bateria, Marinho no contrabaixo, Copinha, o mesmo que tocou a flauta da célebre introdução de Chega de Saudade com João Gilberto e, nos violões, José Menezes, do quinteto de Radamés Gnattali, e um iniciante chamado Baden Powell.
Em julho de 1959 era lançado o 78 rpm Roberto Carlos com Conjunto que trazia as duas bossas de Imperial: João e Maria (trazendo Roberto como coautor), e Fora do Tom. (sem os créditos a Edson Bastos e Paulo Silvino).
Avenida Atlântica
Com o disco gravado, Imperial tentou introduzir Roberto no grupo conhecido como Turma da Bossa Nova, formado pelos compositores Carlos Lyra e Roberto Menescal, a cantora Nara Leão e o jornalista Ronaldo Bôscoli, uma espécie de Carlos Imperial do grupo, com seu humor ferino e natural liderança. Desde 1957 esse pessoal se reunia no apartamento de Nara, na Avenida Atlântica, para tocar seus 'sambas modernos'. Passaram a agregar novos membros, mas isto não aconteceu com Roberto Carlos. 'Papai' pedia sem sucesso uma oportunidade para que o garoto pudesse se apresentar nos shows que a turma fazia pela cidade. Apelava para Carlinhos Lyra, seu conhecido da época em que estudou no Mallet Soares, mas nada conseguia. Roberto lhes passava a imagem de mero imitador de João Gilberto, um bicão vindo do subúrbio. Durante outra tentativa frustrada de Imperial para encaixá-lo, Menescal chamou o garoto num canto e procurando não ferir seus sentimentos aconselhou:
— Por que você não tenta encontrar o teu próprio estilo? Você quer cantar como o João Gilberto, mas nós já temos o João Gilberto.
As rejeições não eram os únicos problemas da vida de Roberto. Ele ainda tinha que atravessar madrugadas cantando na Boate Plaza. Cansado, e sem condução para voltar para o Lins, acabava dormindo no sofá na sala do apartamento da família de sua namorada, a atriz Maria Gladys. Todas as manhãs Imperial aparecia por lá para buscar seu cantor:
— Acorda, temos de sair pra 'caitituar' teu disco!
'Caitituar' era como o pessoal chamava a visita que o artista fazia às rádios para mostrar seu disco e tentar sua execução. Espaçoso, transitando pelas emissoras como se estivesse na sala do apartamento de seus pais, Imperial era um senhor 'caititu'. Sabia vender seu peixe como ninguém:
— Você tem que ouvir. Este é o maior cantor da atualidade: Roberto Carlos, o 'príncipe da bossa nova'.
E como a turma de Bôscoli não aceitava o seu protegido nas reuniões no apartamento de Nara Leão, Carlos passou a fazer as dele a sete quarteirões dali, no triplex do pai na Miguel Lemos. Como em A Raposa e as Uvas, desdenhava do lugar onde ele e Roberto haviam sido barrados:
— As reuniões daquele povo são uma miséria só. Cada um tem que trazer sua bebida. Lá em casa meu pai estala os dedos e manda contratar o buffet da Confeitaria Colombo.
Além do 'príncipe da bossa nova', apareciam por lá, entre outros, o conjunto Os Cariocas, Nonato Buzar e um pianista de boate que Carlos admirava e inventara que era seu professor, Johnny Alf.
Columbia
Os dias de Roberto na Polydor não foram nada invejáveis. A gravadora não movia uma palha a fim de divulgar seu disco e a vendagem era ridícula. Cansado de se desdobrar em busca de divulgação, Imperial foi cobrar da gravadora maior empenho para com o 78 rotações. Recebeu como resposta a rescisão do contrato do seu protegido.
Imperial continuava firme na intenção de tornar Roberto um cantor de sucesso, mas com o contrato com a Polydor rescindido, precisava encontrar outra gravadora disposta a contratá-lo. O diabo é que já havia percorrido todas. Só restava a Columbia. Descobriu que seu diretor artístico era Roberto Corte Real. Conseguiu o telefone de seu escritório e falou com a secretária procurando dar bastante ênfase ao pronunciar o sobrenome em comum com o do executivo da gravadora:
— Eu sou Carlos 'Corrr-te' Imperial e gostaria de marcar uma reunião com o Sr. Roberto 'Corrr-te' Real.
A moça pediu que aguardasse um instante e logo retornou comunicando que ele era aguardado às 17 horas no escritório do Sr. Corte Real. A resposta positiva deixou Imperial surpreso. Ultimamente a situação era de incontáveis portas na cara. De repente, o diretor de uma importante gravadora aceitava recebê-lo na primeira tentativa. Será que a secretária acreditou que eles eram parentes? Não importava, "as oportunidades são carecas e temos que agarrá-las pelos cabelos", dizia o doutor Gabriel, patriarca dos 'Corrr-te' Imperial. Carlos mandou Roberto arrumar-se o melhor possível, queria ele bem bonito para a audiência. O garoto voou até o Lins para pegar o paletó que usava na Boate Plaza.
No horário marcado, a dupla chegou à Columbia. A secretária anunciou Imperial ao chefe. Renato Corte Real abriu a porta da sua sala e com um largo sorriso exclamou:
— Carlos Imperial, entra aqui, meu querido! (continua)
Transcrito (com adaptações) de:
Dez, Nota Dez! Eu sou Carlos Imperial. © 2008, Denilson Monteiro. Planeta, 2015.
Imagens:
Roberto na foto do LP Splish, Splash, de 1963. Aprimorada com IA. Facebook.
Nara, Menescal e a turma no "apartamento da Nara" em 1960. Do livro Ninguém pode com Nara Leão: Uma biografia, de Tom Cardoso, 2021. Via O Globo.
Maria Gladys em Os Fuzis, de Ruy Guerra, 1964. IMDB.



