ANOS 1960 — 1970_o5: Carlos Lyra
A passagem da bossa nova para a MPB aconteceu gradativamente, mas não demorou para começar.
Em 1960, um ano apenas depois do LP Chega de Saudade e com o segundo disco da trilogia de João Gilberto ainda saindo do forno, transformações já estavam em andamento.
Uma delas resultou da aproximação entre o compositor, cantor e violonista Carlos Lyra e o Teatro de Arena, representado por Gianfrancesco Guarnieri e Oduvaldo Vianna Filho.
Com Guarnieri, Carlinhos rascunhou uma 'Missa Agrária'. A montagem não chegou a acontecer, mas o Gloria in Excelsis, guardado pelos dois, foi usado como introdução de Carcará, imortalizada por Maria Bethânia no show Opinião.
Enquanto isso, Vianninha escrevera A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar, espetáculo inspirado na tradição do Teatro de Revista da Praça Tiradentes, mas com claras intenções político-pedagógicas e declarada influência de Bertolt Brecht.
Lyra fez a música da peça, compondo sobre letras escritas pelo próprio Vianninha.
No site Carlos Lyra Oficial constam seis letras de A Mais-Valia Vai Acabar. Salvo engano, apenas uma delas recebeu registro em disco: O Melhor, Mais Bonito, É Morrer.
O Melhor, Mais Bonito, É Morrer exemplifica com clareza a inflexão em direção ao engajamento político que vai caracterizar a nascente MPB.
Das praias, barquinhos, sol e lirismo, passava-se à ausência de horizontes do mundo da exploração capitalista...
O Melhor, Mais Bonito, É Morrer (Carlos Lyra & Oduvaldo Vianna Filho)
Assim como Vianninha não abria mão do humor para falar de coisas muito sérias, Lyra não abdicou das conquistas estéticas adquiridas com a bossa nova ao adentrar os novos espaços de militância cultural.
Ninguém melhor do que ele mesmo para discorrer sobre suas múltiplas facetas:
CAPÍTULO 3: O CONTEÚDO
"Até o início dos anos 60, a chamada Bossa Nova caracterizou-se pela busca da forma na melodia, na letra, na harmonia, no ritmo e na interpretação. O conteúdo era o mais lírico e comportado possível. Poderíamos dizer que era a fase do amor, do sorriso e da flor.
O correr dos anos 60 foi, no entanto, indicando um novo caminho. Tópicos como nacionalismo, realidade brasileira, raízes, reforma agrária, justiça social e consciência política exerceriam o papel de antítese em relação à temática anterior. Na arte, em geral, delinearam-se duas facções. Uma fiel à filosofia da forma e outra comprometida com a do conteúdo. No que se refere à música, eu encabeçava a linha relativa ao conteúdo, se bem que pessoalmente, nunca tivesse pretendido abrir mão da forma.
O aprendizado político e a convivência com o grupo do Teatro de Arena de São Paulo me qualificaram para ser convidado por Oduvaldo Vianna Filho a fundar o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC/UNE), juntamente com Ferreira Gullar, Leon Hirszman, Carlos Estevam e tantos outros artistas e intelectuais que traziam na cabeça a ideia de transformar a realidade brasileira. Éramos jovens e queríamos mesmo mudar o mundo. E o que é mais grave: pela arte. O idealismo sadio e um grande entusiasmo eram o que nos impulsionava — não sabíamos exatamente para onde; talvez, por isso mesmo, o grande entusiasmo.
Inspirado no Teatro de Arena politizado do Eles Não Usam Black Tie, o cinema seguiu caminho semelhante. Nasceu o Cinema Novo de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Os assuntos populares e nacionais tinham prioridade. As letras de música que cantavam a flor e a mulher cederam lugar às que cantavam a terra, com os direitos pertinentes a ela e à exploração ao homem. Em vez de 'eu sei que vou te amar'... ouvia-se 'o morro não tem vez'... No lugar de 'minha namorada', 'influência do jazz'.
Naturalmente, houve radicalização. Mas também havia abertura para discussão e questionamentos. Enquanto Vianninha e Estevam, por exemplo, queriam levar teatro para o povo e até mesmo fazer teatro popular, meu objetivo era levar a Bossa Nova para as ruas e, sobretudo, trazer a música do povo (Zé Keti, Cartola, Nelson Cavaquinho, João do Vale) para a classe média. Esses conflitos internos refletiam os meus próprios, pois apesar de me considerar politicamente 'proletário', não poderia fugir à condição de ser economicamente pequeno-burguês. E para complicar anda mais: ser esteticamente aristocrata.
Não seria demais afirmar que o saldo disso tudo foi, afinal, positivo. No que se refere à MPB, a combinação da fase da forma com a do conteúdo deu ensejo e abriu caminho para as gerações de compositores que se seguiram, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Edu Lobo, Milton Nascimento, Ivan Lins, Joyce, Marcos Valle, Dori Caymmi, Theo de Barros, Francis Hime, Djavan, João Bosco e tantos mais."
Transcrito (com adaptações) de:
Eu & A Bossa: uma história da bossa nova. © 2008, Carlos Lyra. Casa Da Palavra Produção Editorial.
Imagem:
Wikipédia.
