ANOS 1960 — 1970_13: Zicartola
Euzébia
Ao ser encontrado por Zica, Cartola estava em sua pior fase. Entregue completamente à bebida, sobrevivendo de biscates, sem dentes e com a rosácea que surgiu em seu nariz (posteriormente operada) cada vez maior.
Mangueirense como ele, dona Zica, batizada Euzébia Silva do Nascimento, admirava o compositor famoso desde menina.
Viúva como ele, apaixonou-se.
Começava ali a batalha da recuperação. Durante cerca de dois meses tentou morar no barraco em que Cartola vivia, dar um jeito na vida de ambos por lá mesmo na Manilha, favela do bairro do Caju. Até que um dia, encheu-se de brios e peitou o companheiro:
"O Brasil inteiro sabe que você é o Cartola da Mangueira. Ninguém nunca ouviu falar de Cartola do Caju. Vamos tratar de ir embora para o nosso lugar, que é em Mangueira".
Instalados ao lado da casa do grande amigo Carlos Cachaça, que era casado com Menina, sua irmã, Zica pretendia divulgar para os meios de comunicação e para o meio artístico que o talento de compositor de Cartola estava intacto e que sua carreira poderia e deveria ser reassumida.
Procurado por Zica, o prestigiado cartunista Lan se dispôs a ajudar, mas, sentindo-se impotente, se afastou: mesmo de novo em Mangueira, Cartola continuava pelos botequins, bebendo em grandes quantidades, desinteressado de tudo.
A tentativa de voltar a ser pedreiro também resultou em vão, já que a imensa fraqueza que o dominava impedia qualquer trabalho mais pesado.
Foi aí que apareceu o emprego de lavador de carros durante a madrugada, na Garagem Oceânica, na rua Visconde de Pirajá, em Copacabana, que marcaria a reviravolta nas vidas de Euzébia e seu marido Agenor.
Stanislaw
Cartola tinha que lavar onze carros por noite. No meio da madrugada, já estava obviamente encharcado e saía em busca de um conhaque "para esquentar os ossos". Em uma dessas saídas, o destino resolveu trabalhar. Tomando seu conhaque, notou o homem alto e bem-vestido que o olhava com insistência, do outro lado do balcão do bar. Antes que se retirasse, foi abordado: "Desculpe, o senhor não é o Cartola, da Mangueira?". Quando concordou, foi surpreendido pelo abraço forte. O homenzarrão simpático identificou-se como o jornalista Sérgio Porto, sobrinho do crítico musical Lúcio Rangel, um dos maiores admiradores de Cartola e responsável pelo apelido de Divino, que o identificou até a morte.
Expert em música popular brasileira, Sérgio Porto, que assinava coluna nos jornais com o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, conhecia em detalhes a carreira de Cartola e sabia de seu desaparecimento.
Tomado de entusiasmo, resolveu promover o retorno que parecia impossível. Passou a publicar notas nos jornais contando que redescobrira o Divino, arranjou-lhe um trabalho na Rádio Mayrink Veiga, onde mantinha um programa, convocou amigos, conseguiu entrevistas em jornais, e o Brasil ficou sabendo que Cartola não morrera.
Um emprego de contínuo no Diário Carioca começou a colocar as finanças em ordem. Em seguida, outro emprego, no Ministério da Indústria e Comércio, também como contínuo, mas agora no gabinete do ministro. Andou fazendo pontas em filmes brasileiros — Orfeu do Carnaval, Ganga Zumba, Os Marginais —, voltou a compor com assiduidade e a vida com Zica engrenou.
Rua dos Andradas
Nesse meio tempo, tornaram-se frequentes as reuniões de samba na casa do casal e nelas Zica servia seus quitutes — que vinham ganhando fama. Vislumbrando possibilidades, esperou o momento certo e abordou um ilustre habitué, o diretor de Turismo da cidade, Mário Saladini (que na ocasião se lambuzava com um vatapá orquestrado por ela em um fogão de quatro bocas): "Dr. Mário, não dá pra arrumar uma casa pra nós, lá no Centro? Eu tenho vontade de servir pensão".
Não demorou e Cartola assumia o posto de zelador da Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, um velho casarão na rua dos Andradas, para onde os dois se mudaram.
Aí virou a pensão sonhada, com marmitas entregues nas imediações, refeições para motoristas de praça e até quentinhas para o pessoal das filas de ônibus.
À noite, Zica passou a servir uma sopa (muito falada), e os sambistas começaram a aparecer, mesmo quando não havia reuniões formais.
O pagode comendo solto, a plateia aumentando, quem vinha comer já ficava para a roda: compositores e amantes do samba movimentavam a casa todos os dias.
Quando, pouco tempo depois, o alquebrado imóvel da rua dos Andradas foi desapropriado, Elton Medeiros, Zé Keti, Nuno Veloso, Eugênio, Renato e Fábio Agostini acabaram, cada um à sua maneira, viabilizando um outro sobrado, na rua da Carioca, aquele que se transformaria em um divisor de águas na música popular brasileira: o restaurante Zicartola.
Ali se misturaram sambistas da Zona Norte, bossa-novistas da Zona Sul, poetas como Hermínio Bello de Carvalho, jornalistas como Sérgio Cabral e gênios como Paulinho da Viola. Todos em começo de carreira.
Zica encarregava-se dos guisados na cozinha e Cartola do cadinho musical no salão. Tal era o sucesso que o Divino tomou coragem e pediu a mão da moça. Ela aceitou e casaram, quase ao som do samba O Sol Nascerá, de Cartola e Elton, criado naquela fase e o maior sucesso popular do Divino em toda a sua carreira.
Lotado
O tradicional espírito carioca transformou o Zicartola em moda. Lotado todas as noites. Ouvir o violão personalíssimo de Nelson Cavaquinho, os novos sambas de Zé Keti, o ritmo infernal de Elton Medeiros, a voz afinadíssima daquele menino Paulinho da Viola, tudo sob as bênçãos de Cartola, o mestre maior, era ritual que a cidade não podia perder. Ainda mais com o tempero da Zica! Casa cheia todas as noites, festa madrugada adentro. Ou afora. A juventude dourada e queimada do sol da Zona Sul descobria os sambistas morenos e talentosos dos subúrbios da Zona Norte. Informações culturais, musicais e etílicas cruzavam-se no sobradão da rua da Carioca: Aracy de Almeida, Elizeth Cardoso, Nara Leão, Silvinha Telles, cantores e cantoras cantando por prazer no pequeno palco. Mesas transbordando, balcão cheio de gente bebendo, em pé. A certeza era de que daquela vez Cartola ficaria rico.
Certeza apenas para os que não conheciam a falta de tino comercial do compositor, cuja extensão só era comparável a seu talento musical. Sem conhecer administração, não sabia como dirigir comercialmente a casa: sofria 'penduras', não cobrava contas de amigos, muita gente ia embora sem pagar, tinha problemas com capital de giro. Não demorou, com sucesso e tudo, lá se foi o Zicartola. Tinha entrado para a história da música popular brasileira como uma marca, abertura de um novo gênero de casa noturna e uma inveja eterna no peito dos que não puderam ao menos conhecê-lo, quanto mais frequentá-lo. De saldo para Zica e Cartola, deixou dívidas e, segundo ela, "uma porção de novos amigos".
Transcrito (com adaptações) de:
Cartola: semente de amor sei que sou, desde nascença © 2008, Arley Pereira. 2ª edição (revista). Edições SESC SP.
Imagens:
Cartola, 1966. Arquivo Nacional. via Wikipédia.
Ilustração de Lan para o convite da exposição Estação Cartola, ocorrida no Espaço BNDES, no RJ em 1998.
Lúcio Rangel, pelo fotógrafo Alécio de Andrade. s.d. Acervo IMS.
Vídeo — pequena passagem de Orfeu do Carnaval, de Marcel Camus, com a participação de Cartola e dona Zica como figurantes. Na cena estão, além de outros figurantes, duas estrelas do filme: Lourdes de Oliveira (Mira) e Breno Mello (Orfeu).
No Zicartola. Odette Lara, Dorival Caymmi, Tom Jobim, Zé Keti e Cartola.
No Zicartola. No meio das mesas, Nelson Cavaquinho e Cartola.
Capa do cardápio do restaurante, adaptado da ilustração feita por Heitor dos Prazeres para o convite de casamento de Cartola e Zica.






