ANOS 1960 — 1970_1o: O Período Imperial (3)

As tardes da adolescência passadas na loja de discos Sparta, que funcionava na Galeria Menescal, em Copacabana, não foram tempo perdido para Carlos Imperial.

Ele aparecia por lá todos os dias para bater papo com o proprietário, Ramalho Neto, que lhe mostrava os mais recentes lançamentos. Com tudo o que aprendeu, o rapazola virou funcionário informal do lugar, dando orientações aos clientes sobre quais eram os principais sucessos do momento.

E foi a paixão em comum pelo jazz norte-americano a responsável pela calorosa recepção de Roberto Corte Real, nos escritórios da Columbia. Imperial não lembrava, mas o executivo havia participado de algumas palestras em que ele falava sobre jazz e guardou seu nome. Não foi, portanto, algum suposto parentesco, mas a afinidade musical que abriu as portas da gravadora para o descobridor de talentos e seu protegido.

Antes de discutir a possibilidade do 'príncipe da bossa-nova' entrar para o cast da Columbia, Imperial teve de dar muita corda aos apaixonados papos musicais de Roberto Corte Real. Somente depois de quase três horas de conversa, conseguiu falar sobre o cantor que gostaria de mostrar. Pediu permissão a seu 'mais novo amigo de infância' para chamar Roberto, que, seguindo sua orientação, aguardava do lado de fora, e o apresentou. Porém, Corte Real olhou o relógio e viu que eram quase 8 horas da noite. Comprometeu-se com Carlos a ouvir o rapaz com toda a atenção dois dias depois, no estúdio da gravadora.

Conforme combinado, na quinta-feira Imperial voltou com Roberto à gravadora.

Roberto Carlos entrou no estúdio e cantou a música que havia ensaiado, o samba-canção Menina Moça, de Luís Antônio, sucesso na voz de Tito Madi:

    Você menina moça
    Mais menina que mulher
    Confissões não ouça
    Abra os olhos se puder

— Mas esse sacana canta igualzinho ao João Gilberto, não é? Até o sotaque dele tá baiano! — Corte Real comentou com Imperial no aquário, a cabine dos técnicos separada por um vidro à prova de som.

Seguiram-se mais duas músicas. O homem gostou, mas achou que faltava algo. Apertou o botão do microfone e falou com seu jovem xará:

— Ô, menino, canta a música que você mais gosta.

Roberto cantou Brotinho Sem Juízo:

    Brotinho não me aperte
    Quando comigo dançar
    Tira a mão do meu pescoço
    Não tente seu rosto colar
    Para de beliscar a minha orelha
    Porque se o sangue subir
    Eu faço o que me dá na telha...

— De quem é essa música? — Corte Real quis saber.

— É do Carlos Imperial.

— Mas Imperial, você também é compositor?

— Sou sim.

— Roberto, tem mais alguma do Carlos Imperial pra você cantar?

Para alegria do 'papai', o menino cantou Ser Bem, composição em que Carlos descrevia a vida dos bacanas da Zona Sul carioca e o sonho de quem quer fazer parte dela:

    Toda garotinha bonitinha tem mania
    De ser elegante da Bangu
    Quer ver o seu nome na coluna todo dia
    Pertinho do Jorginho, ao lado do Didu

    Ser bem é na Hípica jantar
    É no Jóquei desfilar e de noite, no Sacha’s
    Com Baby, juntinho dançar
    Mamãe, eu também quero ser bem

— Porra, do cacete! — Corte Real gritava entusiasmado. — Ô, Imperial, você tem mais música?

Roberto cantou mais duas de seu mentor: Canção do Amor Nenhum e Louco por Você.

Corte Real mandou chamar o maestro Lírio Panicalli. Imperial custava a acreditar que aquilo estava acontecendo, parecia que um contrato assinado estava a caminho.

Quando o maestro entrou no aquário, Corte Real pediu para que Roberto cantasse Brotinho Sem Juízo mais uma vez:

— Canta de novo aquela obra-prima da garotinha que quer dar pro cara e ele não quer comer.

Ficou decidido que o maestro providenciaria os arranjos para um 78 rpm que Roberto gravaria na semana seguinte. Ao ouvir aquilo, Imperial teve vontade de comemorar como se fosse um gol do Botafogo. Mas continuou sentado para não dar vexame. Porém, assim que Corte Real e Panicalli deixaram a técnica, abriu a porta do estúdio e gritou a novidade para Roberto:

— Vais gravar na quinta-feira que vem, porra!

— Vai ser Menina Moça?

— Não, porra, vais gravar Brotinho Sem Juízo, Ser Bem...

— Ah, bom.

No dia 1º de julho de 1960, o jornal Correio da Manhã anunciava:

Assinou com a Columbia o cantor Roberto Carlos; naquele selo gravará um '78' contendo dois sambas 'bossa nova' (Ser Bem e Brotinho Sem Juízo), ambos de autoria de Carlos Imperial.

Em agosto de 1960, a Columbia lançou o 78 rotações com Brotinho Sem Juízo e, no lugar da anunciada Ser Bem, Canção do Amor Nenhum, samba-canção em que Imperial parodiava Canção do Amor Demais, de Tom e Vinicius, título do LP de Elizete Cardoso em que João Gilberto participou antes de lançar o disco com Chega de Saudade e Bim Bom, aquele que hipnotizara Roberto Carlos.

Jeito meigo

Roberto Carlos era muito tímido; nas reuniões no apartamento de Imperial, os rapazes o consideravam um sujeito muito chatinho. Deram a ele o apelido de 'Bolha'. Mas suas namoradas e esposas não concordavam com isso. Ele contava com a simpatia absoluta do público feminino. Numa das noites musicais no triplex da Miguel Lemos, Maria Helena, esposa do jornalista William Prado, profetizou que, de todos os presentes, Roberto seria o primeiro a fazer sucesso. William se espantou:

— Mas logo ele? Por que você diz isto?

— Porque ele é tão bonitinho, tão engraçadinho. Ele cativa as pessoas com esse jeito meigo.

A previsão de Maria Helena, na prática, parecia não ser muito confiável. Roberto caitituou seu segundo disco com disposição ainda maior do que na época da Polydor. Ia a todas as rádios sem demonstrar o mínimo sinal de cansaço. Porém, apesar da boa execução, suas vendas foram pífias, o que fez com que fosse assombrado pelo fantasma de outro contrato rescindido.

Apesar das insignificantes vendas do 78 rpm com Brotinho Sem Juízo, Roberto Corte Real compartilhava da opinião de Imperial de que Roberto Carlos era um bom investimento. Decidiu que ele deveria gravar um LP. Mas não queria que o repertório ficasse limitado à bossa nova. Atirar em todas as direções para depois ver em qual estilo o jovem capixaba melhor se adequaria era a sua estratégia.

Imperial foi chamado para trabalhar na produção do disco, sendo o repertório responsabilidade sua. Como não era bobo, tratou de dar preferência às suas músicas, Ser Bem era a primeira da lista, junto com o samba Chorei.

Da parceria com o novo amigo Fernando César escolheu o bolero Não É Por Mim e a bossa Se Você Gostou.

    Se você gostou de dançar juntinho assim
    Se lhe agradou ficar bem perto de mim
    Se eu conseguir fazer você ser bem feliz
    Amor, telefone e peça bis

O chá-chá-chá Linda, versão de um sucesso do americano Bill Caesar era outra que entraria no LP. Na verdade, Bill era o próprio Imperial, ideia sugerida por Fernando César, que acreditava que o nome 'gringo' adicionaria um ar de sofisticação à música do amigo. Versão mesmo eram Mr. Sandman, sucesso gravado pelos americanos do Four Aces; Chore por Mim (Cry Me a River), balada que ficou célebre na voz de Julie London, e Louco por Você (Careful, Careful), da dupla de compositores da Broadway Lee Pockriss e Paul Vance, esta com letra em português feita por... Carlos Imperial.

Roberto Corte Real também não ficou fora do LP. Solo Per Te, mais uma versão, desta vez de um bolero italiano, e Só Você, roquinho que compôs com Edson Ribeiro.

    Só você me faz suspirar
    Eu que jamais pensei em me apaixonar
    Fico até tarde da noite a cismar
    Fazendo lindos castelos no ar

Com arranjos do maestro Astor, o primeiro LP de Roberto Carlos, batizado com o título da versão feita por Imperial, Louco por Você, foi lançado em setembro de 1961. A alegria do garoto poderia ter sido completa, não fosse sua foto não aparecer na capa do disco. Apesar de ter participado de uma sessão fotográfica, parece que sua inibição acabou por prejudicá-lo. Corte Real olhou o material e não considerou a expressão tristonha do rapaz um chamariz de vendas. Decidiu adaptar a capa de um LP do tecladista americano Ken Griffin, que trazia um casal trocando carinhos. Deu-se apenas ao trabalho de substituir o nome do artista e o título. Roberto pediu insistentemente ao diretor artístico que reconsiderasse. Mas não adiantou.

Vento do sul

Enquanto se via às voltas com o futuro LP de Roberto, Imperial recebera novo convite para atuar como produtor musical. Nazareno de Brito, compositor e diretor da gravadora Continental, o chamou para trabalhar com ele. Logo de início o incumbiu de produzir um disco de Léo Jordan, pseudônimo de Paulo da Silva Santos, um pianista cego que tocava na boate Drink.

Como segunda tarefa, o diretor artístico pediu que Imperial analisasse uma fita de rolo que havia recebido de Porto Alegre. Ela trazia três músicas de um compositor chamado Eleu Salvador, que talvez pudessem ser gravadas pelos artistas da casa. Carlos ouviu atentamente, mas o que o deixou impressionado foi a cantora que interpretava as canções.

— Nazaré, eu ouvi o que você mandou, as músicas são razoáveis. Agora tem um detalhe, a voz dessa moça que está cantando é muito boa. Quem é?

É uma garota que venceu um concurso ou coisa parecida lá em Porto Alegre. Fez o favor de gravar as músicas para nós.

— Deixa eu trazê-la pra cá pra gravar com a gente?

— Você está maluco, Imperial? Eu não tenho dinheiro nem pro cafezinho, quanto mais pra trazer gente lá do sul.

Passados alguns dias, Imperial voltou a insistir com o chefe:

— Nazaré, eu já arranjei tudo para gravar um LP com aquela garota da fita. Sobrou um dinheiro da produção do disco do Paulinho cego que vai dar pra pagar o Severino Filho e os músicos. O maestro cobrou um preço camarada pra fazer os arranjos.

— E passagem? E hospedagem?

— Já providenciei. Ela vem de ônibus com um acompanhante e fica hospedada num hotel baratinho.

— Tudo bem, pode trazer a moça. Mas eu não vou gastar um centavo a mais com isso.

— Pode deixar.

— Vê se bota uns rocks, uns sambinhas balançados, uns de dor de cotovelo e alguns tipo bossa nova. Quero um LP bem diversificado.

— Pode deixar.

— E mais uma coisa.

— O quê?

— Não deixa de colocar música do Eleu Salvador nesse disco.

Com a afirmativa de Nazareno, Carlos entrou imediatamente em contato com a Continental de Porto Alegre para que avisassem a cantora. Numa segunda-feira de março de 1961, a jovem Elis Regina Carvalho Costa chegou ao Rio de Janeiro acompanhada do pai. Sequer teve tempo de deixar as malas no hotel. Sua presença era aguardada no escritório da Continental para conhecer o repertório de seu primeiro LP.

Transcrito (com adaptações) de:

Dez, Nota Dez! Eu sou Carlos Imperial. © 2008, Denilson Monteiro. Planeta, 2015.

Imagens:

Capa do LP Ken Griffin at the Organ: To Each His Own. https://www.discogs.com/pt_BR/

Reportagem da Revista Radiolândia n. 328, 1960. https://bndigital.bn.gov.br