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Pequenas Biografias: LUIZ GONZAGA_o6

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"Eu pensei que ia fazer uma surpresa lá na Nacional: Pedro Raymundo tocava vestido de gaúcho, e eu ia me confrontar com ele vestido de nordestino. Quando cheguei no domingo, na hora de entrar no auditório, botei o chapéu, peguei a sanfona... Floriano Faissal, o diretor artístico me olhou, perguntou: 'Para onde você vai?', nem esperou resposta, abanou a cabeça e falou: 'Ahn, ahn! Aqui, não. Cangaceiro na Nacional, não! Pode guardar o seu chapéu', e me proibiu de cantar de chapéu de couro. Tive que aceitar, disciplinado que era, fui soldado muitos anos"... Na Nacional, fez como a Nacional exigia, voltou à sua elegância clássica: terno de linho, gravata borboleta, sapato de verniz. Mas fora da Nacional, começou a se apresentar, sistematicamente, com o chapéu. Não deu uma entre vista, não fez uma reportagem, não pisou no palco de um   dancing, clube, de um cinema sem o chapéu de couro enfiado na cabeça. E, de tanto se apresentar em público assim, Gonzaga acabou at...

Pequenas Biografias: LUIZ GONZAGA_o5

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"Eu queria cantar o Nordeste. Eu tinha a música, tinha o tema. O que eu não sabia era continuar. Eu precisava de um poeta para escrever aquilo que eu tinha na cabeça, de um homem culto pra me ensinar as coisas que eu não sabia". Ao procurar Humberto Teixeira, Luiz Gonzaga esperava encontrar tudo isso que lhe faltava. Cearense de Iguatu, nascido em 1915, Humberto Teixeira vivia no Rio de Janeiro desde 1930. Além de advogado, tinha muitas músicas gravadas, cuja maioria, no entanto  —  valsas, cantigas, sambas, modinhas, toadas  — , nada tinha de especificamente nordestino. Tudo indica, porém, que o caboclo risonho que numa tarde de agosto de 1945 chegou ao seu escritório para discutir música, parceria e Nordeste, o seduziu. "No primeiro encontro com Humberto, em dez minutos, já havíamos escrito a letra de  No Meu Pé de Serra .  E tanto eu quanto Humberto ficamos emocionados quando terminamos a peça. Sentimos que tinha começado um caminho. E eu senti que estava nas...

Pequenas Biografias: LUIZ GONZAGA_o4

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O tempo das calçadas do Mangue, do pires e até das humilhações (quando lhe atiravam um 'vai trabalhar, vagabundo' no lugar de gorjeta), estava longe. Um tempo do qual ele só voltaria a falar publicamente muitos anos mais tarde. É muito provável que não conviesse à moral da época ter começado a carreira em tão mal-afamado ambiente. Nas décadas de 40 e 50, nem nas reportagens, nem nas entrevistas, era revelada essa fase da carreira do acordeonista.  Agora, cada vez mais solicitado, além do contrato na Victor, fora convidado por Genésio Arruda e Januário França a fazer a cortina deles na praça Tiradentes. Tocava ainda nos melhores dancings (Farolito, Avenida, Lorde, Copacabana Palace) e também nos melhores clubes e cinemas (Olinda, Colonial, Ópera, Paris...).  No mais, até que enfim, conseguira ser contratado por uma emissora. Renato Murce, que se tornaria um verdadeiro mentor do sanfoneiro, o chamara para substituir... Antenógenes Silva, no badaladíssimo programa Alma do Sertão,...

Pequenas Biografias: LUIZ GONZAGA_o3

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Gonzaga ficou no quartel, esperando que o navio do Lloyd a destino do Norte atracasse no Rio de Janeiro. Ele, praticamente, não conhecia a cidade. (...) Amedrontado pela agitação e o tamanho da capital, não se atrevia a sair do quartel. Um dia resolveu limpar a sanfona. Estava no dormitório, com o instrumento no colo, quando entrou um soldado. Ao ver Gonzaga, falou: —  Oi, rapaz, e tu toca sanfona? Tem um lugar aí, o Mangue, que esse fole dá pra você ganhar dinheiro. Lá, tudo quanto é bar tem música ao vivo. Enquanto seu navio não vem, você pode conseguir um dinheirão. O Mangue, que ficava na atual Cidade Nova, era o bairro mais 'quente' do Rio de Janeiro. O quartel onde Gonzaga estava hospedado ficava vizinho ao Mangue, então, à noite, ele se arriscou a uma voltinha por lá, com o soldado. (...) Nada, absolutamente nada do que conhecera, se assemelhava com o que descobriu naquela noite. Jamais vira um ambiente como o que reinava no Mangue. O lugar fervilhava, com seus bares lot...