PENSAR A BOSSA_11: Frank & Tony (I)

Tom já não era o único a promover reuniões musicais em sua casa. Paulinho Jobim, aos 16 anos, estudava flauta e reunia os amigos 'para fazer um som', como se dizia na época. Lá estavam sempre Danilo Caymmi, Paulo Guimarães, Sérgio Fayne (com os três, Paulinho formou um quarteto de flautas), Cláudio Guimarães, Geraldinho Carneiro e Eliane, que, dali a alguns anos, seria a sra. Paulo Jobim. Davam grande prejuízo a Tom bebendo todo o estoque de uísque da casa, levando o compositor a trocar o conteúdo das garrafas por bebida de má qualidade. Ainda assim, continuavam a beber e acabavam passando mal, sendo socorridos por Thereza com xícaras de chá apropriado para aquelas ocasiões.

Essa era a vida de Tom em 1966: os bares de Ipanema, reuniões em casa, encontro com amigos etc. Durante os treinamentos da seleção brasileira para a Copa da Inglaterra, a revista Manchete promoveu uma conversa dele com Pelé, em que Tom pediu um autógrafo exatamente quando o craque tirava da bolsa um disco para que o compositor autografasse. "Em matéria de música e futebol, o Brasil está superdesenvolvido. Em outras coisas, não sei", disse Jobim. Enfim, como vimos, Antonio Carlos Jobim era o que se poderia chamar de 'figurinha fácil' no Rio de Janeiro. (...)

Aliás, foi num bar em Ipanema que Antonio Carlos Jobim recebeu um dos telefonemas mais importantes de toda a sua vida: o Bar Veloso, na esquina das ruas Montenegro e Prudente de Morais, onde tomava um chope com seu amigo de infância Cabinha e com outro amigo querido, Dico (Raimundo) Wanderley, alto funcionário do Banco Nacional, que fora o principal responsável pela participação do banco no financiamento de inúmeros filmes brasileiros. É provável que, a partir de década de 1960, Dico tenha sido o amigo a quem Tom dedicaria maior afeto. Não há exagero na afirmação de que, com a morte de Dico, Tom também tenha morrido um pouco. Assim, foi durante um animado bate-papo de botequim com ele e com Cabinha que um garçom do Veloso foi até a mesa para dizer que "um gringo" queria falar com Jobim.

Era Frank Sinatra.

"Não pensei em trote porque ninguém ia fazer uma brincadeira cara dessas, ligando dos Estados Unidos para mim. Meus ouvidos conheciam bem as vozes das ligações internacionais, como eram feitas naquele tempo. Sinatra foi falando, depois de se identificar com simplicidade: 'Quero fazer um disco com você e quero saber se você acha isso interessante'. Acrescentou que pagaria todas a despesas e que eu ficaria hospedado com ele. Soube depois que esse tipo de convite, de interesse profissional, ele sempre faz pessoalmente. Pega o telefone e vai direto ao assunto. No meu inglês precário, lembro que respondi: Perfeitamente, é uma ordem. Sinatra perguntou: 'Você me acompanha no violão?'. Respondi que não era violonista, mas aceitava. O fato é que me sentiria mais à vontade no piano".

Tom Jobim não era homem de dar pulos para o alto comemorando o convite. Em seu depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, quando lhe foi perguntado se se sentia realizado com o disco de Frank Sinatra, respondeu: "Só me sentirei realizado quando sentar numa cadeira de vime e o telefone não tocar". Seus amigos, sim, mostraram-se entusiasmados. Afinal, tratava-se de Frank Sinatra, o maior cantor popular do século, o intérprete mais procurado pelo compositores e editores musicais dos Estados Unidos. Conterrâneo de Cole Porter, Gershwin, Jerome Kern, Irving Berlin e Richard Rodgers, nunca dedicara um long-play a um só compositor, embora cantasse canções de todos eles. Mas deve ter passado pela cabeça de Tom a lembrança de que, desde jovem, decorava as músicas cantadas por Sinatra e até cantava algumas delas para sua namorada Thereza. E que, em 1963, quando exigia melhores letras em inglês para sua obras, alegando que, "com essas letras, Frank Sinatra jamais gravará uma delas", um editor achou-o muito pretensioso: "E quem disse que Sinatra gravará alguma música sua?". No Brasil, Jobim pouco falava do assunto, principalmente com jornalistas. Só foi obrigado a falar dele quando Glauber Rocha o convidou para fazer o papel de Paulo, o poeta do belo filme Terra em Transe. Ele não aceitou alegando que, na época das filmagens, estaria nos Estados Unidos gravando com Frank Sinatra. Glauber morreu sem ter conseguido fazer de Jobim ator dos seus filmes. Imaginava-o, por exemplo, no papel de Heitor Villa-Lobos num filme que tinha em mente ou do índio Peri, numa versão que sonhava fazer do romance O Guarani, de José de Alencar. Tom divertia-se com os convites, feitos geralmente numa das mesas do Antonio's, o bar preferido de uma boa parte dos intelectuais cariocas e que, durante alguns anos, foi uma espécie de segundo lar do compositor.

Nos primeiros dias de janeiro de 1967, Antonio Carlos Jobim chegou a Miami e entrou imediatamente em contato com Ray Gilbert, que não sabia por onde andava o cantor. Querendo localizá-lo, telefonou para várias pessoas recebendo as mais diferentes informações: que estava em Roma, que viajara para Tóquio, que filmava no Havaí ou que descansava em sua casa, em Palm Springs. Na verdade, Sinatra passava alguns dias de férias em Barbados, de onde orientou Gilbert a levar Tom para Los Angeles. O primeiro encontro ocorreu na sede da Reprise, a gravadora criada pelo próprio cantor, que, mais tarde, se associaria à Warner. Cercado de amigos que saboreavam os drinques servidos por gentis garçons, Sinatra disse que o disco deveria ter seis músicas dele e seis de autores norte-americanos. A música que mais lhe interessava, inicialmente, era A Felicidade, que conhecia apenas na versão em português. Tom não fez muita questão de mostrar-lhe a letra em inglês, que considerava "detestável". O cantor manifestou também interesse por outras, mas, infelizmente, suas ocupações o impediam de conhecê-las melhor.

— I hate to rehearse, revelou.

"Eu preferia ter sentado com Sinatra, mostrar as músicas novas e velhas e trabalhar um pouquinho com ele. Mas Sinatra não tem tempo para essas coisas. Como ele é competente, profissional e sabe das coisas, fez um trabalho direito", disse Tom em seu depoimento ao Museu da Imagem e do Som. Uma conquista importantíssima do compositor foi a de convencer o cantor de que o orquestrador deveria ser Claus Ogerman e não o velho amigo e autor de alguns dos melhores arranjos de seus discos, Nelson Riddle. Claus estava em Nova York e atendeu prontamente o chamado de Tom. Depois de rápidos contatos com Sinatra, que preferia gravar músicas já gravadas por outros cantores, o repertório foi montado com sete músicas de Tom Jobim e apenas três norte-americanas. Foram elas Garota de Ipanema, Dindi, Corcovado, Meditação, Inútil Paisagem, Insensatez e Amor em Paz, além de Change Partners (Irving Berlin), I Concentrate on You (Cole Porter) e Baubles, Bangles and Beads (Wright, Forrest e Borodin). Os ensaios, que muitas vezes atravessavam a noite, de Jobim e Ogerman foram feitos num dos chalés do Beverly Hills Hotel, onde se hospedaram sob o patrocínio da Reprise.

O início da gravação foi marcado para as 20 horas do dia 30 de janeiro, uma segunda-feira fria e chuvosa, no estúdio da Warner Western Sound, na Sunset Strip. Antes de ir para o estúdio, Sinatra teve de cumprir um compromisso no Martoni's onde a Reprise oferecia um coquetel em homenagem ao cantor Trini Lopez, o novo contratado da gravadora, que estrearia naquela noite um temporada no Melodyland. Quem estava em Los Angeles era Aloysio de Oliveira, que chegara no dia anterior com as meninas do Quarteto em Cy, além do compositor Marcos Valle e de Oscar Castro Neves para uma apresentação no programa de Andy Williams. No dia 30, sua primeira providência foi telefonar para Ray Gilbert, a essa altura convidado para atuar como coprodutor do disco, manifestando seu interesse em assistir às gravações.

— Impossível. Frank Sinatra só permite a entrada de quem estiver trabalhando no disco, respondeu Gilbert.

De qualquer maneira, à noite, Aloysio foi à casa de Ray Gilbert e o acompanhou até o estúdio, onde guardas uniformizados permitiam a entrada apenas dos profissionais envolvidos na gravação e de poucos convidados. Os nomes de todos compunham uma lista que os guardas conferiam com rigor. Não foram relacionados nem o nome dele nem o de Thereza Jobim, que se plantaram na porta do estúdio à espera de alguma providência. Por sorte de Aloysio, 20 minutos antes da gravação, chegou o presidente da Reprise, Mo Ostin, com quem ele vinha conversando há muito tempo, sobre o lançamento dos discos da gravadora no Brasil. Mo levou os dois para a sala de controle, onde outros convidados aguardavam o início do trabalho. Entre eles, Gene Lees, o letrista norte-americano de Corcovado, que, por sinal, ficou decepcionado porque, na última hora, Sinatra desistiu de gravar Desafinado, outra música de Tom com letra sua em inglês. Mas nem por isso deixou de emocionar-se por ter estado tão próximo do cantor, como revelou num texto em 1995 para um disco de Tom Jobim: "O produtor Sonny Burke estava sentado com o engenheiro na mesa de controle. Em frente, havia um sofá. Sentei e olhei a orquestra pelo vidro duplo. De repente, senti atrás de mim algo similar a uma onda de choques. Não que alguém tivesse aberto a porta, pois ela já estava aberta. Eu simplesmente sabia que Sinatra havia entrado na sala. Me virei e o vi cumprimentando Burke e outros que se agruparam. Ele tinha o tipo de presença que as pessoas acham difícil de acreditar. Mas é verdade".

Frank Sinatra entrou no estúdio trajando um terno cinza, de estilo clássico com aberturas laterais no paletó. Camisa branca e gravata estampada sobre um fundo vinho. Ao aproximar-se do microfone, afrouxou a gravata. Às 20 horas os músicos já estavam todos diante das estantes: eram 10 violinistas, quatro violistas, quatro violoncelistas, três flautistas (entre eles, os respeitáveis jazzistas Bud Shank e Buddy Collette), um trombonista, um baixista, um pianista (Bill Miller, que acompanhava o cantor há muitos anos) e dois bateristas, Collin Bailley (do quinteto de George Shearing. Collin participou apenas das músicas norte-americanas) e o brasileiro Dom Um Romão. A participação deste foi outra conquista de Tom Jobim, que só na véspera descobrira que ele estava em Chicago. "Pelo amor de Deus, vem pra cá. Se você não vier, vou entrar por um cano que não tem mais tamanho", apelou Tom. No dia seguinte, Dom Um pegou um avião e chegou a tempo de participar da gravação. À frente da orquestra, o maestro Claus Ogerman, trajando um elegante cardigã azul, todo abotoado. "Ele estava tão engomado que seus suéteres pareciam ter vincos", escreveu Stan Cornyn na contracapa do disco.

A noite começou com Baubles, Bangles and Beads. Terminada a gravação, Sinatra e Tom foram ouvi-la na sala de controle. O produtor Sonny Burke pediu a Tom que cantasse mais forte. "Você precisa saber que Tony (era assim que o cantor o chamava inicialmente. Depois, passou para Antonio) não começou a sua carreira cantando para as multidões no Polo Grounds", justificou Sinatra, que também não havia gostado da sua participação, pois cantara muito perto do microfone. "Ficou meio chinês", disse. Ao caminhar de volta para o estúdio, Sinatra pigarreou e fez mais um comentário: "Preciso botar menos gelo nos meus drinques". Depois, deu um conselho a Tom: "Abra o paletó, mostre o colete à prova de balas e cante". No depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, o compositor confessou a Vinicius de Moraes que não estava tranquilo e voltou a argumentar que é difícil cantar e tocar violão ao mesmo tempo, "a não ser que você seja um João Gilberto". Mas gostou do resultado. O segundo take também não foi aprovado, embora Jobim tivesse colocado mais potência na voz. Sinatra não gostou da sua entrada. O terceiro teve a aprovação geral. "Para mim, foi perfeito", disse Claus Ogerman. "Para mim, também", completou Burke, que adorou as divisões adotadas pelo cantor e os improvisos criados para a letra. Mas Sinatra não gostou: "Vamos fazer mais uma. Suspeito de que não fui bem apresentado à orquestra", brincou. Os três takes seguintes foram reprovados por erros dos músicos. Às 20h45, foi feita a sétima e última gravação, em meio ao entusiasmo geral. "Ele esquentou e está cantando com toda a força", sussurrou um técnico na sala de controle. No final, o cantor soltou um 'yeah' cheio de satisfação.

A segunda gravação foi de I Concentrate on You. Mal a orquestra comeu a tocar, Jobim fez uma piada: "Esta é a canção mais bonita que compus". Sinatra riu e comentou: "Realmente, é uma canção muito bonita, que canto há muitos anos em todos os lugares, sempre procurando uma coisa nova na interpretação. Mas chega um momento em que as notas acabam". Em seguida, pediu aos músicos para pararem. Viu, através do vidro, a chegada da sua mulher, a atriz Mia Farrow, acompanhada da mãe, a também atriz Maureen O'Sullivan (a Jane dos filmes em que Tarzan era John Weissmuller), e dos escritores Harry Kurnitz e George Plimpton. Sinatra foi lá, cumprimentou-os e voltou para o estúdio. O primeiro take teve início às 21h19. Sinatra encontrou um erro nas partes das cordas, nos compassos 66 e 67, e falou com Ogerman, que pediu aos músicos para tocarem a passagem. O cantor tinha razão, o que levou a parar a gravação para que o maestro fizesse as devidas correções. Às 21h40, fez a gravação definitiva, acrescentando um 'dooby-dooby' no final. Ao ouvir a fita na sala de controle, entusiasmou-se: "Grande, grande música!", disse exagerando no segundo grande.

Finalmente, a primeira música de Tom (e de Aloysio de Oliveira): Dindi. "Eu, Ray, Tom e Thereza pensamos muito em Silvinha Telles naquele momento. Sinatra pediu silêncio e disse que a música que ia cantar era séria e necessitava de um ambiente especial. O curioso, vocês vão ouvir, é sua interpretação musicalmente parecida com a de Silvinha, na gravação original de 1957", escreveu no Diário de Notícias o próprio Aloysio de Oliveira, ainda traumatizado com a morte da cantora, menos de dois meses antes, num acidente de carro na Região dos Lagos, no estado do Rio de Janeiro. Foi, aliás, a gravação de Dindi que desviou o pensamento de Aloysio. Até aquele momento ele temia que, ao vê-lo na sala de controle e, sem reconhecê-lo, Frank Sinatra fizesse uma grosseria exigindo que os guardas o tirassem dali. Felizmente, foi tudo bem. "Esta é uma nota difícil", disse o cantor referindo-se à sua entrada na música. "Me dê aqueles acordes, Moreno", pediu ao pianista. "Achei! Está na segunda linha dos violinos", vibrou ele, que procurava a melhor passagem da orquestra para servir de apoio à sua voz. A orquestra começou a tocar e ele deu dois palpites sobre o arranjo, ambos aprovados por Claus Ogerman: pediu a eliminação do acompanhamento rítmico de um compasso, "para destacar a letra", e, adiante, sugeriu que a orquestra não tocasse, deixando apenas o violão de Tom Jobim: "Quando os violinos entrarem de novo, a gente estará tirando melhor partido do recheio", explicou. Frank Sinatra cantou a música inteira com os olhos fechados, os ombros curvados e as mãos segurando as extremidades da estante. "Bonito, Frank!", saudou Burke pelo interfone. "Isso foi só o treino. Espere até a gente entrar em campo, respondeu. Bebeu o café de uma garrafa térmica e gravou mais três takes, cada um melhor do que o outro. Mas ainda era pouco:

— Mais uma. Ainda falta polir uns pontos, pediu.

Às 22h50 deu início à última gravação da música. Ao ouvir a fita, soltou o primeiro palavrão da noite:

— Porra, que beleza de canção! (Damm, that's a pretty song!). Temos finalmente uma boa.

Sinatra fez também algumas brincadeiras com as exigências de Tom e Ogerman para que tudo corresse suavemente. "Não canto baixo assim desde que tive laringite", afirmou. Numa outra faixa, o trombonista trocou um Si maior por um Fá maior. O cantor alfinetou: "Não se esforce demais". Respondeu o trombonista: "Se eu tocar mais suavemente, essa coisa vai aparecer atrás do meu pescoço".

A orquestra parou para o lanche e Sinatra e Jobim permaneceram na sala de controle. O cantor disse ao escritor George Plimpton que tinha três exemplares do seu best-seller Paper Lion em sua casa de Palm Springs, mas desapareceram. "Acho que meus convidados do último feriado levaram todos", completou. O também escritor Harry Kurnitz brincou: "Pois eu tenho uma casa cheia dos meus próprios livros e nunca ninguém se deu ao trabalho de roubar um sequer. Sinatra ria e contou uma história típica do humor norte-americano, envolvendo o jogador de beisebol Stan Musial, que nunca vencera uma disputa contra adversários canhotos. Musial, que não era de dizer palavrões, abria uma exceção quando se referia aos canhotos: "Havia 20 mil canhotos na Segunda Guerra Mundial. Sabe que nenhum dos filhos da puta foi morto?", queixava-se o jogador. "Nós todos caímos na gargalhada", disse Sinatra.

Depois do lanche dos músicos, foi iniciada a gravação de Change Partners. Um novo pigarro levou o cantor a comentar a sua longa convivência com o tabagismo: "Foi um velho Chesterfield que, de repente, caiu em cima de mim, por volta de 1947. Quando a orquestra começou a tocar, o produtor Sonny Burke interrompeu para pedir um andamento mais rápido. Mas Sinatra discordou: "Tem uma passagem com um milhão de palavras. Não vai dar para cantar tudo". A fita voltou, a orquestra atacou e o cantor gravou 'de primeira', como se diz no mundo do disco. A última música da noite foi Inútil Paisagem, mas Sinatra pediu para interromper a gravação porque estava faminto e cansado. "Quem disser que pode cantar sem comer está maluco. Você tem de ter combustível na fornalha. Estou azul de fome", confessou. A volta de uma música de Jobim (e Aloysio) foi um novo pretexto para brincadeira em torno da 'suavidade' tanto da orquestra quanto do cantor. Stan Cornyn, na contracapa, deu um destaque especial a essa preocupação: "Sensíveis melodias. Sensíveis como um bronzeado vermelho-lagosta de dois dias de sol no Rio. Tão sensíveis que, se tocadas por mãos grosseiras, todas gritariam em agonia. Bater nas costas dessas frágeis canções com uma dupla de trompetes? Seria como lavar cristal num misturador de cimento. (...) O arranjo andando pouco a pouco, na ponta dos pés, eliminando uma percussão aqui, um tique-taque lá, livrando cada música de todas as coisas frias, os cliques, bings, bips".

Terminada a gravação, Antonio Carlos Jobim, atendendo a um pedido de Aloysio de Oliveira, escreveu um bilhete para Hugo Dupin, editor do suplemento DN Shows do Diário de Notícias:

"Está uma brasa o LP que estamos fazendo, Sinatra e eu. Aloysio aqui está todo nervoso, como também eu, Ray Gilbert, o baterista Dom Um, que tem sido formidável. Mas tudo vai dando certo. Sinatra hoje gravou Dindi. Que beleza! Em 20 minutos e sem nunca haver visto a partitura musical, chegou, leu e disse: 'Gosto dessa'. E a interpretação é de deixar a gente boba".

Foram três noites de trabalho num clima inteiramente favorável. Na primeira vez que cantou Garota de Ipanema, Tom Jobim errou a letra: em vez de cantar "o teu balançado é mais que um poema", cantou "o teu balançado parece um poema": Outro erro permaneceu no disco: em Insensatez, Tom Jobim cantou "Por que você foi falsa assim" e não "Por que você foi fraca assim". Na sala de controle, o compositor reconheceu o erro, mas Sinatra, depois de ouvir as explicações sobre a troca de palavras, achou que Tom não precisava gravar outra vez. "A gravação está muito boa", disse o cantor. Gene Lees achou a gravação de Corcovado a melhor já feita de uma música com letra sua, comparável apenas à de Marilyn Maye.

O final dos trabalhos foi comemorado num elegante restaurante de Los Angeles. Sinatra assumiu o papel de anfitrião e pediu logo uma rodada de cerveja e uma bisnaga inteira com salame. Depois, vieram o uísque, a lagosta, os bifes etc. Sentado ao lado dele, Jobim fez observações de fã:

— Sabe de uma coisa, Frank? Nas fotografias e no cinema, você parece fraquinho. Mas estou vendo agora que você é bastante forte.

— Olha minhas mãos. Sente os músculos. Toda manhã pratico caratê, respondeu orgulhosamente Sinatra, esticando os braços para que Tom os examinasse.

Em seguida, uma curiosidade: por que não canta no Brasil? Foram tantos os rebates falsos sobre sua vinda ao país que o cronista Mister Eco, quando se referia a algo impossível de acontecer, dizia que tal fato só ocorreria quando Frank Sinatra viesse ao Brasil.

— Depois dos Estados Unidos, o Brasil é o país que mais me envia cartas. Por que não desejaria visitá-lo?, respondeu o cantor.

O jantar foi até as quatro horas da manhã.

O disco Francis Albert Sinatra and Antonio Carlos Jobim seria eleito pela crítica norte-americana o álbum do ano e chegou a ocupar o segundo lugar entre os mais vendidos, perdendo apenas para Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. Os Beatles, sempre eles a impedir que Tom fosse o líder em venda ou em número de execuções nos Estados Unidos.

Transcrito (com adaptações) de:

Antonio Carlos Jobim: uma biografia. © 2008, Sérgio Cabral. Lazuli Editora / Companhia Editora Nacional.

Imagens:

Gravação de Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim. © 1967, Ed Trasher.

Revista Manchete, n.º 738, 11 de junho de 1966. © Jader Neves.

Terra em Transe. Glauce Rocha, Paulo César Pereio, José Marinho e Jardel Filho (no papel que 'seria' desempenhado por Tom). 1967.

Depoimento Para a Posteridade. Antonio Carlos Jobim, Ricardo Cravo Albin, Raimundo Wanderley, Oscar Niemeyer, Dori Caymmi, Chico Buarque e Vinicius de Moraes. Museu da Imagem e do Som, 1967. Fotógrafo não indicado. Fonte: jobim.org

Gravação de Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim. No fundo à direita, Dom Um Romão. © 1967, Ed Trasher.

Gravação de Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim. No canto à esquerda, Claus Ogerman. © 1967, John Bryson.

Capa de Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim. Foto da capa: John Bryson. Direção de arte: Ed Trasher.