PENSAR A BOSSA_11: Frank & Tony (III)


A vaia histórica que Sabiá recebeu no dia 29 de setembro de 1968 por vencer o III Festival Internacional da Canção, 'desbancando' a mais-que-preferida da plateia Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores é de conhecimento geral e amplo.

O que se conta menos é que, uma semana depois, na chamada 'etapa internacional' — que Sabiá venceu igualmente — já não houve vaias. Pelo contrário, dessa vez, segundo Sérgio Cabral, a composição e seus autores "foram aplaudidos delirantemente". Havia até uma imensa faixa com a inscrição: "O Galo já é do Sabiá".

Ultrapassada a Sabiá no meio do caminho, a vida do compositor, ao contrário da 'vidinha' sossegada que sonhava levar, era feita de movimento incessante. Dali a pouco mais de um mês embarcaria para os Estados Unidos, a chamado de Frank Sinatra, para a gravação de mais um disco.

Tom viajou levando, como sempre, a figa que ganhara de Dorival Caymmi e tendo o cuidado de colocar sobre a roupa arrumada na mala uma Bíblia minúscula que levara de um hotel de São Paulo. "Na Alfândega dos Estados Unidos, eles me tratam com a maior consideração porque americano confia cegamente na Bíblia", justificava.

Foi direto para a casa de Frank Sinatra em Palm Springs. Levou um susto com os dizeres da placa instalada no portão da casa: "Proibida a entrada. Os oficiais de segurança têm ordem para atirar e matar os invasores. Atenção: os sobreviventes serão processados por invasão de domicílio".

Dentro da casa, porém, o tratamento era melhor do que o de um hotel cinco estrelas. No centro, a mansão para Sinatra e Mia Farrow. Em volta, os bangalôs destinados aos hóspedes, que somente se reuniam durante as refeições e no fim de tarde para tomar drinques. Tom bebia uísque escocês e Sinatra "aquela coisa horrível, que é bourbon". Enquanto Tom esteve lá, o cantor hospedou, entre outros, Claudete Colbert, Rosalind Russell, Jimmy Durante e, naturalmente, um dos seus amigos mais próximos, Sammy Davis.

Conforto não faltava, mas Tom já estava ficando nervoso porque Sinatra fugia sempre quando se falava em ensaio. Eumir Deodato, a quem o brasileiro pediu que elaborasse os arranjos, estava em dia com seu trabalho. "Mañana, mañana", respondia Sinatra, toda vez que se falava de ensaio. Para agravar o problema, o cantor cumpria temporada em Las Vegas, fazendo a viagem diariamente em seu avião, levando sempre Tom Jobim em sua companhia. (...) Tom estava em Las Vegas acompanhando Sinatra, no dia 13 de dezembro, quando recebeu um telefonema de Vinicius de Moraes, que se apresentava em Lisboa, no Teatro Villaret e na boate Ad Lib, ao lado de Baden Powell e da cantora Márcia. "Como é que você me achou aqui?", perguntou Jobim. O poeta disse que havia disparado vários telefonemas até que, sabendo que ele estava em Las Vegas, pediu à telefonista para 'caçá-lo'. "Muito bem, mas o que é que você manda?", quis saber Tom. "Não mando nada", esclareceu Vinicius de Moraes, "estava apenas com saudades". Não sabia o poeta que, naquele mesmo dia, seria assinado no Brasil o Ato Institucional número 5, que eliminaria os últimos resquícios de liberdade e de direitos humanos ainda existentes no país.

Quando podia, Tom se reunia com Eumir Deodato em torno do piano para trabalhar. Arranjou uma folga para atender ao convite para jantar na casa do compositor e maestro Jimmy Webb, um nome que, na época, parecia destinado a ter o mesmo peso na música norte-americana do nível de Cole Porter, Gershwin etc. Mas a bebida e as drogas o levaram para outros caminhos e recuperado, acabou preferindo ganhar o dinheiro fácil da publicidade. Tom ficou impressionado com a casa dele: "mais de 15 quartos, criadagem farta, mulheres lindas e o cara jovem, já milionário, empapuçado de bebida e brigando com os empregados".

Quanto ao disco com Frank Sinatra, os trabalhos foram iniciados sem o cantor saber exatamente quantas músicas de Jobim seriam gravadas. Para surpresa geral, o cantor gravou nove obras do compositor. Quando o LP Sinatra & Company foi lançado, em 1971, tinha sete obras de Tom Jobim de um lado — todas com arranjos de Eumir Deodato e letras em inglês — e sete músicas norte-americanas do outro, com arranjos de Don Costa. Das nove, ficaram de fora Bonita e Sabiá.

Jobim terminou o trabalho com a sensação de que o resultado poderia ter sido melhor. O mesmo ocorrendo com Eumir Deodato, que, algumas vezes, se viu tolhido pela autossuficiência dos profissionais norte-americanos. Quando, por exemplo, interrompeu a gravação de uma música para equilibrar melhor os naipes da orquestra, foi rispidamente contestado pelo engenheiro de gravação: "Isso nós fazemos". Sinatra chegou a dividir com Jobim a interpretação de Desafinado, mas, como ninguém gostou, a fita foi apagada.

Ouça a playlist com todas as 20 gravações (incluindo Desafinado, que não foi apagada):

Tom & Frank

Transcrito (com adaptações) de:

Antonio Carlos Jobim: uma biografia. © 2008, Sérgio Cabral. Lazuli Editora / Companhia Editora Nacional.

Imagens:

Tom Jobim e Frank Sinatra durante a gravação do projeto não realizado Sinatra / Jobim © 1969, Ed Trasher.

Cartaz do III Festival Internacional da Canção. Ilustração de Ziraldo, 1968.

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Depois de gravado, o conjunto de faixas produzido por Tom e Sinatra no outono-inverno norte-americano de 1968, entrou a percorrer um caminho que demoraria décadas, literalmente, para chegar a seu formato final.

O que havia inicialmente sido pensado para ser algo como um Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim n. 2, chegou a ser comercializado em cartucho, formato voltado para o mercado de som automotivo e muito usado por programas de rádio na década de 1960, mas recolhido pela gravadora quando o projeto foi cancelado.

Uma descrição super detalhada de todo o processo está no site da revista digital Rimas e Batidas de Portugal.

A matéria, assinada por Carlos Soares, foi postada em 2022 na série Notas de Contracapa.

Eis o link: Para Além do Disco Engavetado

As imagens a seguir foram copiadas da matéria de Soares.

Cartucho de 1969, recolhido.

As três edições (quase) completas:

Sinatra / Jobim The Complete Reprise Studio Recordings, 1979. Maleta The Complete Reprise Studio Recordings, 1995. CD Sinatra-Jobim Sessions, 2010.