PENSAR A BOSSA_11: Frank & Tony (II)
Nelson Motta, repórter do Jornal do Brasil, foi ao Bar Veloso, que pouco depois mudaria o nome para Garota de Ipanema, para entrevistar Antonio Carlos Jobim e o encontrou de paletó e gravata, e não de bermudas, como era seu hábito nas tardes de sol dedicadas ao consumo de chope gelado e bate-papo com os amigos. Foi um desses amigos que se dirigiu a Nelsinho para justificar os trajes de Tom: "Isso passa logo. É uma fase de readaptação. O pior já foi superado. Tom está até falando português fluentemente". O entrevistado não queria falar de Frank Sinatra. Repetia apenas de maneira debochada: "Frank é um boa-praça".
Em fins de setembro, Tom voltou aos Estados Unidos para participar do programa de televisão de Sinatra na NBC. Entrou no avião acompanhado de Thereza, com o violão numa das mãos e o LP Brasília: Sinfonia da Alvorada na outra. A produção do programa havia informado que ele não tocaria piano, mas violão, pois, para os produtores, era um instrumento mais coerente com a sua imagem de 'latin lover'. Quanto à Sinfonia da Alvorada, ele tinha muita esperança de que fosse gravada nos Estados Unidos, pois o responsável pelo setor clássico da RCA Victor — os famosos discos de selo vermelho — havia manifestado grande interesse em lançar a Sinfonia e de gravar um disco com a canções de câmara de Jobim cantadas por uma cantora lírica norte-americana.
Não lançou nem uma coisa nem a outra.
O programa de Frank Sinatra, A Man and His Music + Ella + Jobim, foi gravado nos primeiros dias de outubro. A produção havia pedido uma música inédita a Jobim para ele cantar em dupla com Ella Fitzgerald. Os homens da televisão norte-americana queriam que fosse uma música em que a parte de Tom fosse bem romântica, com poucas notas, e a de Ella com muito swing e bastante notas. Tom não compôs a música, apesar de a encomenda ter sido feita três meses antes da gravação do programa. O compositor brasileiro conseguiu incluir na orquestra o baterista Cláudio Slon, mas não pôde contar com Tião Neto no contrabaixo: Tião estava comprometido com o violonista Bola Sete para tocar num show em Santa Bárbara, naquela mesma noite, para ganhar 150 dólares, um quarto do que receberia para trabalhar ao lado de Frank Sinatra e Antonio Carlos Jobim.
Meia hora antes da gravação, Tom já estava no estúdio da NBC. Conversou com Nelson Riddle, com o baterista Cláudio Slon e um detalhe o impressionou: os testes de luz, ou de altura dos microfones etc. não eram feitos com Frank Sinatra, mas com um sósia dele. O programa, de 40 minutos, seria apresentado no dia 13 de novembro para um público estimado em 80 milhões de telespectadores.
Tom naquele dia, excepcionalmente, usou algum produto para segurar os cabelos. Tendo-os muito finos, era quase um cacoete o hábito de tentar consertar a franja com as mãos. Parecia inteiramente descontraído. Quando terminou a gravação, disse ao repórter da Manchete que, no início, estava tão nervoso que acabou ficando calmo.
Los Angeles, 13 de outubro de 1967
Vina, meu amor,
fiz o Sina. Na hora, muito calmo. Depois, três dias de ressaca emocional. Tá lindo. Cor, trabalho de câmera, som divino, violão, orquestra, canto. O Sina é um sábio com mistério. Acredita no que faz (ou não acredita, não sei) e promove a ilusão a um ponto que vira verdade e transcende a sensaboria dos clichês exaustos e obsoletos. Ella was above herself. Nelson Riddle, competente. Sina, Mia e eu fomos para um jantar que durou cinco horas. Depois, levamos Mia em casa (ela é vegetariana e vai para a Índia aprender meditação com o Maharashima, sei lá, aquele ramachácara dos Beatles). Bonita, ela, garotinha de 21, 22, filha de ingleses, frágil, olhos grandes e redondos, lendo o Bahagavah-Gita, Buda & Cia. Viveu na Espanha e fala espanhol e francês. Nascida em Los Angeles.
Levamos a Mia em casa e um velho jogador de beisebol, chapa do Sina. Depois, bebemos até as cinco e teve aquele papo. Sinatra se preocupa com os filhos e fica chateado quando vem aquele cara perguntar pro Júnior: "Are you gonna be as good as your father?". Às cinco, ele foi para o aeroporto, pegou o avião (o piloto esperando) e foi para sua casa em Palm Springs. Mia tem de ficar em Hollywood, acordando às seis, pois está fazendo um filme.
Mas deixa isso pra lá. Vou amanhã, sábado, 14, de noite, para Nova York de trem. Terça, 17, de manhã, estaremos no Hotel Adams: 2 East 86th. Falei com Baden pelo telefone e ele me pediu que eu lesse tua carta e eu li. Já entreguei teu bilhete ao Ray, que também vai a Nova York para gravar o Marcos Valle. Hoje ele disse que vem falar de negócios. Vamos ver se ele se coça.
Quando passei por cima do Amazonas vi o Iacopemba dormindo na tranqueira. Tava na madorna.
Poeta, hoje já é sábado, 14.
Porque hoje é sábado.
Antonio.
O jantar, na verdade, não ocorreu logo após o programa. No dia seguinte, durante um coquetel oferecido por Frank Sinatra a 250 convidados, o cantor convidou Jobim para jantar um dia depois no Stefanino's, no Sunset Boulevard. Na noite do jantar, passaram na casa do antigo craque de beisebol, Leo Durocher, e lá permaneceram até o amanhecer. A empresa Sinatra Enterprises pagou a Tom Jobim 10 mil dólares pela sua participação no programa.
Dois dias depois da apresentação de A Man and His Music +Ella +Jobim, Kay Gardella, do Daily News, afirmou que Tom Jobim foi "um complemento perfeito". Jack Gould, do New York Times, mais entusiasmado, escreveu:
"Mr. Jobim foi magnífico, proporcionando um acompanhamento de bossa nova para vários números de Sinatra e unindo-se a ele num simpático diálogo bilíngue em Garota de Ipanema. Não se entendeu por que Jobim não foi chamado mais tarde para, juntamente a Frank Sinatra e Ella Fitzgerald, proporcionar novas e tríplices invenções musicais".
Num despacho de Nova York para O Globo, Jofre Rodrigues falou do programa e deu uma informação nada surpreendente para o público de rádio e de televisão no Brasil: "Diga-se de passagem, ouve-se Tom Jobim em Nova York duas vezes mais do que no Rio de Janeiro".
Antonio Carlos Jobim voltou ao Brasil de navio, ocupando o camarote 187 do S.S. Argentina.
Transcrito (com adaptações) de:
Antonio Carlos Jobim: uma biografia. © 2008, Sérgio Cabral. Lazuli Editora / Companhia Editora Nacional.
Imagens:
Especial de TV Frank Sinatra: A Man and His Music + Ella + Jobim. © 1967, Ed Trasher.
Tom Jobim e Frank Sinatra em cena.
Frank e Ella Fitzgerald, bastidores.
Tom e o maestro Nelson Riddle, passagem de som.


