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1o. Três Destinos

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Três destinos Se era verdade que em  Não é Isso que Eu Procuro... ,  revista de Horácio Campos e Pacheco Filho, muitos números recebiam, todas as noites, pedidos de bis, apenas um merecia a consagração do tris: aquele em que o tenor Francisco Alves e a contralto Ottilia Amorim entoavam:      Mulher, para mim perdeste o valor      Porque zombaste de meu sofrer      Mas o destino Deus é quem dá      Escuta bem, tá?      Mais tarde hei de te ver chorar Era o  Samba de Verdade , de Sylvio Fernandes, o Brancura. Sylvio A folha corrida de Sylvio 'Brancura' Fernandes começa com uma detenção, em dezembro de 1922, para simples "averiguações". Era o malandro completo. De tipo físico 'acaboclado', 1 e 80 de altura, "não queria nada com o batente", mas "andava lindo, bem vestido", pois vivia "à custa das damas". Em 1926, o currículo ganha vulto, com um processo por estupro de menor em março e mais outro, em de...

o9. Anos 20

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Em 1920, o mundo já tinha o cinema, o fonógrafo, a eletricidade, o automóvel, o avião, a teoria da relatividade, a aspirina, a cocaína, a psicanálise, o raio X, o arranha-céu, o futebol, o batom, a gilete, a Revolução Russa, o fascismo, o feminismo, o dodecafonismo, o cubismo, o futurismo, o dadaísmo, o expressionismo e dezenas de outros ismos, gerando inclusive certo je-m’en-fichismo — não estar nem aí — diante de tantas novidades. Atitude essa que não passava de teatro, porque era impossível ficar indiferente ao que as grandes cidades, de súbito, tinham de moderno a oferecer. O Rio era uma delas. Naquele ano, as cidades mais populosas da Terra eram Londres, com 4.684.000 habitantes, Nova York, com 4.024.000, Paris, com 2.750.000, Tóquio, com 2.433.000, e Berlim, com 2.006.000. Seguiam-se Chicago, Viena, Osaka, Filadélfia e São Petersburgo, todas na casa do milhão — e o Rio, com seus respeitáveis 1.147.000 habitantes. Era a única cidade brasileira com mais de 1 milhão de habitantes — ...

o8. Malandros e Cantores

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"O samba batucado, criação de malandros afrodescendentes, de melodias de notas longas, de saltos súbitos para o agudo, a um só tempo viril e pungente, de pulsação rítmica mais ampla e sincopada que a do samba da Bahia, surgia, após 1922, no Estácio de Sá, bairro central do Rio de Janeiro". (Didier, 2022) 1. Em 1920, o Rio de Janeiro, ao se preparar para bem acolher Alberto e Elizabeth, reis da Bélgica, dera o passo decisivo para a criação do samba batucado: a fixação da zona de baixo meretrício do Mangue. (...) O Rio de então era uma cidade coalhada de bordéis. No Centro, entre lojas de comércio e residências familiares, espalhavam-se os pontos: as pensões de mulheres, conhecidas como casas de tolerância, tradução do francês 'maisons de tolérance', onde elas atendiam e residiam; as 'maisons de rendez-vous', que frequentavam quando assim o desejavam; e as hospedarias populares, versão nacional das 'maisons de passe', destinadas a conquistas pelas calçad...

o7. Os Paradigmas do Samba

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1. "É fácil: basta comparar uma velha gravação de um samba de Sinhô  com outra de um samba qualquer de autoria dos compositores do Estácio para estabelecer a diferença entre as duas formas", dizia o jornalista e escritor Sérgio Cabral. A proverbial separação do samba em dois tipos, ocorrida no fim dos anos 1920, tem sido sublinhada por inúmeros estudiosos. O tipo mais 'antigo' é associado à Tia Ciata e aos músicos que frequentavam sua casa. O tipo mais 'recente', ao bairro do Estácio de Sá e aos compositores que ali viviam ou circulavam. As janelas de Tia Ciata, abrindo-se para a rua Visconde de Itaúna, na Cidade Nova, bairro integrante do recorte urbano que Heitor dos Prazeres chamou de "a Pequena África" do Rio de Janeiro, davam para a Praça Onze, lugar legendário de memória do Carnaval carioca. Não muito longe, na esquina de Pereira Franco com Júlio do Carmo,  malandrinhas  atendiam a clientela. No encontro daquela rua com a Estácio de Sá, ficava ...

o6. A Casa da Tia Ciata

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1. (...) Nos qui­lombos, nos engenhos, nas plantações, nas cidades, havia samba onde estava o negro, como uma inequívoca de­monstração de resistência ao imperativo social (escravagista) de redução do corpo negro a uma máquina produtiva e como uma afirmação de continuidade do universo cultural africano. Na Bahia, em 1807, o Conde da Ponte se queixava: "Os escravos nesta cidade não tinham sujeição alguma em consequência de ordens ou providências do governo; juntavam-se quando e onde queriam; dançavam e tocavam os estrondosos e dissonoros batuques por toda cidade e a toda hora; nos arraiais e festas eram eles só os que se assenho­reavam do terreno, interrompendo quaisquer outros toques ou cantos". A crioulização ou mestiçamento dos costumes tornou menos ostensivos os batuques, obrigando os negros a novas táticas de preservação e de continuidade de suas manifestações culturais. Os batuques modificavam-se, ora para se incorporarem às festas populares de origem branca, ora para se ...